19 de dez. de 2025

358) MENSAGEM DE FINAL DE ANO (Entre o Calendário e a Gratidão)

 

Chegar ao fim de um ano não é pouco. É - arrisco dizer - um feito respeitável, ainda que raramente comemorado com a devida reverência que tal fato merece. Viver mais um ano é uma espécie de aprovação silenciosa da existência, dessas que a vida concede sem alarde, mas não sem critério.

2025 foi, para mim, um ano especialmente fértil no terreno da escrita. A vida, essa senhora caprichosa, que costuma negar quando pedimos e oferecer quando já desistimos, resolveu, por razões que não ouso esmiuçar, conceder-me essa raridade que chamamos “tempo”. E com ele vieram a tranquilidade, o suporte e a inspiração. Um conjunto quase luxuoso, capaz de permitir que livros antigos, há muito ruminados na minha cabeça, finalmente encontrassem papel, forma e leitores. Não foi a ausência dos obstáculos rotineiros que me proporcionaram esse bônus de tempo. Foi apenas um rearranjo deles. O cotidiano, em vez de empurrar, abriu passagem. E assim escrevi. Não por heroísmo, mas por prazer e gratidão.

Nada disso teria sido possível sem a família e os amigos. Não apenas por criarem as condições materiais e espirituais para o meu ofício de escrevinhador, que é prazeroso, mas exige silêncio, paciência e algum recolhimento, mas, sobretudo, por nunca me negarem o que mais importa que é a “presença”.

Agora, chega o momento de conceder férias a este amador rabiscador de palavras. Férias para mim, mas também férias para os meus poucos, mas diletos e queridos  leitores. Férias até para a vida, que também se cansa de ser levada tão a sério. Faço uma pausa nas publicações do blog, só retornando por volta de fevereiro, dependendo, como sempre, das negociações entre o calendário e o Carnaval. Até lá, sigo vivendo, que é, afinal, a matéria-prima de tudo isso.

Aos leitores que desejarem conhecer meus 15 livros que vieram à luz nos últimos anos, deixo o convite para acessarem o site “Clube de Autores” (clique aqui) e procurar pelo meu nome completo. Lá estão reunidos todas os livros que já publiquei, bem como as informações para quem desejar adquiri-los para própria leitura ou para presente. A Editora atende na base “sob demanda” e envia o livro pelos Correios. No blog (clique aqui), versão web, também há informação sobre os livros.

Desejo a todos os amigos e familiares um Feliz Natal e um fantástico 2026. Que venha com menos pressa, mais gentileza e boas páginas, escritas ou vividas.

Até breve.

Edson Pereira Pinto

12 de dez. de 2025

357) O PREÇO DOS TIRANOS

 

Há dias, depois do noticiário da TV, em que me pego, entre um gole e outro de café, pensando no destino dos poderosos. Não dos que estudaram filosofia demais e política de menos, mas dos que, por descuido da História e vaidade própria, acharam-se deuses transitórios. É curioso, ou melhor, irônico, observar como alguns desses senhores terminam suas sagas sem o aplauso da eternidade, mas com a cobrança silenciosa do tempo.

Sempre achei que o poder diz muito mais sobre quem o exerce do que sobre quem o obedece. Talvez por isso, quando revejo a galeria dos tiranos que se deram mal, mas mal de verdade, sinto que ali está uma espécie de manual do retorno. O retorno do quê? Do próprio gesto. Quem semeia medo, colhe medo. Quem alimenta violência, morre devorado pelo próprio cardápio.

Hitler, por exemplo, terminou escondido num bunker de concreto, trancado com a própria sombra. Mussolini, que adorava posar de César, acabou pendurado de cabeça para baixo numa praça, como se a História dissesse: “já que gostava tanto de teatralidade, aí está o seu último ato”. Ceaușescu, que construiu palácios enquanto o povo contava migalhas, foi fuzilado em poucas horas, sem tempo sequer para organizar um último discurso. Ironia fatal para um tirano que adorava ouvir sua própria voz.

E o desfile continua: Saddam descoberto num buraco, Gaddafi perdendo a vida numa rua poeirenta, Milošević morrendo numa cela fria. A lista é longa, como geralmente são longas as consequências da arrogância. A tirania tem essa mania de parecer grandiosa enquanto dura, mas terminar sempre como aquilo que sempre foi, isto é, uma farsa trágica.

Há quem diga que esses homens foram vencidos pela política, pelo povo, pelas armas ou por golpes externos. Eu, cá de detrás das montanhas de Minas, desconfio de que foram vencidos pela própria lógica que criaram. A tirania cria um universo onde ninguém é confiável, onde tudo ameaça, onde o trono é feito de pólvora e a coroa, de vidro. Basta um sopro para tudo ruir. E ruir, invariavelmente, ruirá.

Machado de Assis, se pudesse comentar, talvez levantasse as sobrancelhas (ele tinha um talento para erguer sobrancelhas filosóficas), e diria que o tirano começa a cair no exato momento em que sobe ao poder. Pareceria exagero, mas não seria. O poder sem freios é como um rio sem margens. Ele não corre, ele destrói. E quando destrói demais, escava o próprio leito.

O mais curioso é que, nesses trágicos desfechos, há um tipo de justiça que não vem dos tribunais, mas da própria condição humana. O tirano que vive do medo morre temendo. O tirano que prende vozes termina prisioneiro do silêncio. O tirano que se acha imortal descobre que até a morte tem senso de humor.

E nós, que observamos tudo à distância, aprendemos, ou deveríamos aprender, que nenhum poder, por mais adornado que seja, sobrevive à falta de humanidade. O mundo é paciente, mas não é conivente. A História é lenta, mas não é cega. E o tempo, esse juiz que nunca se aposenta, sabe muito bem como ajustar as contas.

Ao final, resta sempre a mesma lição, simples como toda grande sabedoria. É a lição de que quem governa pelo medo termina governado por ele. E quando o medo assume o trono, nenhum tirano permanece sentado por muito tempo.

De todos os espetáculos humanos, o da queda dos tiranos talvez seja o mais melancólico e, paradoxalmente, o mais moral. Porque nos lembra que a verdadeira força não está em dominar, mas em compreender. Não em impor, mas em persuadir. Não em reinar, mas em servir.

E assim sigo, sorvendo meu o café que neste rincão tem qualidade e é abundante, observando o mundo com esse espanto tranquilo que a idade nos oferece. Porque, se a vida me ensinou alguma coisa, é que nenhum tirano escapa daquilo que, um dia, também alcançará a todos nós, indistintamente, que é o veredito da própria consciência. E essa, ah, essa é implacável...

 

Edson Pinto

Dezembro, 2025

5 de dez. de 2025

356) DOIS CAFÉS E UM CONFLITO INTERNO

 

Razão e Emoção eram um casal.

E como todo casal que se preze, tinham marcado um café para “conversar sobre a relação”, essa expressão que parece inofensiva, mas carrega a tensão de um armistício.

— Eu só acho que a gente precisa de mais lógica nas nossas  decisões, disse ele, mexendo no expresso com a precisão de um engenheiro em crise.

— E eu só acho que a gente precisa sentir mais e calcular menos, respondeu ela, soprando o capuccino como quem assopra mágoas pequenas.

Era terça-feira, três da tarde. Nem cedo demais para desistir, nem tarde demais para tentar de novo.

— Você sempre quer ter controle de tudo, reclamou ela. Até mesmo do que eu sinto.

— E você sempre se joga no abismo como se tivesse asas garantidas, rebateu ele, tentando não parecer o vilão da história.

Foram se acusando com a elegância de quem se ama, mas anda tropeçando nas diferenças. Ele citava argumentos com vírgulas. Ela respondia com silêncios que doíam mais que ponto final.

— Você me sufoca com previsões, gráficos, “e se”...

— E você me enlouquece com impulsos, intuições e essa mania de acreditar que tudo vai dar certo porque sim!

A garçonete trouxe a conta. Ele conferiu cada centavo. Ela deixou gorjeta com um guardanapo desenhado em coração. Era sempre assim. Um fazendo cálculos, o outro fazendo arte.

Mas naquela tarde, algo mudou. Talvez o jeito como os olhos dele finalmente pararam de fugir dos dela. Ou o modo como ela, cansada de girar em espiral, parou de querer vencer a discussão.

— Eu te amo, disse ele, baixinho.

— Eu também, respondeu ela, como quem entrega o peito e não exige troco.

Ficaram em silêncio. Não o silêncio do fim, mas aquele que antecede um recomeço. Como o intervalo entre uma pergunta difícil e uma resposta que vem com abraço.

— Eu não sou perfeita, disse ela.

— E eu não sou infalível, disse ele. Mas juntos, talvez, sejamos possíveis.

Deram-se as mãos por baixo da mesa. E ali, entre farelos de biscoito e café frio, fizeram um acordo que não precisou ser assinado. Firmaram um pacto de equilíbrio, de compreensão mútua que era necessário revezarem-se ao volante.  E, por fim e silenciosamente, entenderam que, quando um tenta vencer o outro, o amor perde.

Saíram do café de passos lentos. Ele deixou que ela escolhesse o caminho. Ela deixou que ele segurasse o mapa.

Porque amar, no fim das contas, é o um eterno diálogo entre o sentir e o pensar. E o milagre acontece quando os dois decidem caminhar lado a lado para o resto da vida.

 

Edson Pinto

Dezembro, 2025