27 de mar. de 2026

364) O INVENTOR E O MOTO PERPÉTUO

 

Confesso que tenho um amigo perigoso...

Não perigoso à ordem pública, nem à moral vigente. É uma boa alma. Na verdade, trata-se de um perigoso somente às leis da natureza. Meu compadre Tobias carrega consigo o vício incurável dos inventores: não aceita o mundo como ele é, apenas como ele poderia ser se funcionasse melhor. Tobias não vê um problema, vê, sempre e ao contrário, um protótipo mal resolvido.

Enquanto nós, mortais comuns, ligamos a lâmpada e agradecemos à companhia elétrica, ele se pergunta por que não acender a casa inteira com casca de banana, vento lateral e uma boa ideia maluca. Já transformou restos orgânicos em energia, já domou movimentos pendulares, já fez da necessidade uma oficina, e da oficina, um laboratório de esperanças. Foi então que, num desses cafés filosóficos que a vida nos concede sem aviso, resolvi testá-lo:

— Compadre Tobias, disse eu, com a solenidade de quem entrega uma sentença,  já que você inventa tanto, invente o moto perpétuo!

Ele não riu. Isso já me preocupou. Coçou o queixo, olhou para o nada, lugar onde, suspeito, moram as ideias, e respondeu com aquela calma dos homens que já conversaram com a impossibilidade:

— Edson, você sabe que isso é impossível.

E começou, como bom cidadão das leis universais, a citar a conservação da energia, a entropia, o desgaste inevitável das coisas. Falou bonito. Falou certo. Falou como quem tem razão, mas terminou com uma frase que me arrepiou:

— …mas eu posso pensar.

E aí está o perigo. O homem que aceita a impossibilidade é um homem seguro. O que decide “pensar a respeito” é um revolucionário em repouso.

Passaram-se dias. Compadre Tobias sumiu. Ou melhor, entrou naquele estado que os inventores chamam de pesquisa e o resto do mundo chama de distração profunda com ferramentas espalhadas. Encontrei-o novamente semanas depois, com um brilho nos olhos que não prometia prudência.

— Acho que consegui, disse.

Confesso que recuei meio passo. Não por medo da máquina, mas das consequências filosóficas.

— O moto perpétuo, aquele motor de funcionamento contínuo sem gasto de energia?, perguntei.

— Sim. Pelo menos, uma aproximação prática.

E então ele me levou até sua casa. Não era uma oficina. Era a sala. No centro, não havia engrenagens, nem ímãs, nem rodas desbalanceadas. Havia algo muito mais sofisticado: Dona Enelita, sua sogra em espirito, pois tinha exatamente naqueles dias alcançado, por mérito, o lugar onde a energia flui eternamente e não se desgasta. 

Sentada numa poltrona, falava. Falava com método. Falava com fluxo. Falava com constância admirável. Não havia botão de desligar, não havia pausa técnica, não havia sequer um pequeno intervalo para revisão interna. Compadre Tobias, com ar de cientista satisfeito, apontou para a cena como quem revela o segredo da energia infinita:

— Observe, Edson: entrada de energia mínima, apenas um assunto inicial. Saída contínua, estável, auto renovável. Não há atrito visível, não há perda mensurável. Durou quase um século e agora se eternizou.

Fiquei em silêncio, não por discordar, mas por respeito ao fenômeno.

— E mais, continuou ele, o sistema é autossustentável. Interrompa, e ele reinicia com mais força. Tente contrariar, e aumenta a produção.

Confesso que, naquele instante, considerei que talvez a física tivesse ignorado um capítulo doméstico. Saí de lá com a sensação incômoda de que o moto perpétuo, afinal, existe, mas não nas máquinas. Existe nas pessoas. Naquelas que amam sem parar, que falam sem pausa, que insistem sem descanso, que vivem sem se render à entropia do cansaço.

Compadre Tobias não havia derrotado as leis da natureza. Apenas descobriu que algumas delas nunca se aplicaram ao coração humano. E, desde então, evito desafios desnecessários. Especialmente quando envolvem inventores e suas sogras.

Edson Pinto

Março, 2026

20 de mar. de 2026

363) FALAR SEM PENSAR

Já vi muita coisa neste longo caminho que a vida me emprestou, mas poucas me impressionam tanto quanto essa mania moderna de falar sem pensar. 

O verbo, esse impulso pré-reflexivo que se solta antes que a ideia madureça, hoje, parece ter adquirido personalidade própria. Ele salta, dispara, atropela, tudo isso antes que o pensamento consiga amarrar os sapatos.

Basta ligar a televisão para testemunhar o espetáculo: Há políticos despejando palavras como se fossem foguetes de São João, subindo rápido, fazendo barulho, mas raramente iluminando alguma coisa. Falam tanto que fico imaginando se as ideias deles não ficaram retidas na alfândega do cérebro, aguardando liberação. Enquanto isso, a boca, impaciente, segue viagem.

E a plateia, nós os cidadãos, acaba muitas vezes adotando o mesmo ritmo. Viramos papagaios de luxo, repetindo frases prontas com a convicção de quem manuseia verdades eternas, quando na verdade estamos apenas ecoando o barulho alheio. É a era das opiniões de micro-ondas. Prontas em poucos segundos, porém, sem sabor, sem substância, mas quentinhas para serem servidas em qualquer conversa.

O mais curioso é que, nesse campeonato silencioso, vence quem fala mais alto, quem ocupa mais espaço, quem não dá trégua ao próprio silêncio. A impressão que tenho é que muita gente acredita que a vitória pertence ao mais barulhento. Uma lógica perversa, pois  quanto menos se pensa, mais se fala.

Entretanto, a vida, essa velha professora sem diploma, me ensinou algo diferente. Aprendi, com o tempo, que a sabedoria gosta de caminhar devagar. Que a pausa é a incubadora da ideia. Que o silêncio, longe de ser falta, é germinação. E que o pensamento só se mostra quando o verbo não o atropela.

O problema do mundo atual é que a pressa virou sinônimo de inteligência, quando muitas vezes é apenas o disfarce da superficialidade. Falar sem pensar dá uma sensação agradável de participação, de protagonismo, de coragem. É ilusão, o que fala sem pensar quase sempre pensa sem profundidade.

Por isso deixo aqui uma reflexão que tem algo de apelo moral e de pedido de prudência: Não apresse o verbo! Deixe a palavra descansar um pouco antes de nascer. Permita que o pensamento inteiro chegue primeiro, com calma, com dignidade, como quem visita uma casa e tira os sapatos antes de entrar.

No fim das contas, e digo isso com a serenidade de quem já atravessou algumas estações da vida,  o mundo seria melhor se as pessoas falassem menos… e pensassem mais.

 

Edson Pinto

Março, 2026

6 de mar. de 2026

362) CRÔNICA PROVISÓRIA SOBRE UM ASSUNTO QUE AINDA NÃO CHEGOU...

 

Eu ia escrever sobre alguma coisa. Não sei bem o quê, mas, juro por tudo que é sagrado, que eu vinha muito decidido a fazê-lo...

Sentei-me. Abri o arquivo no computador. Ajustei a cadeira, esse gesto solene que antecede todas as indecisões importantes. O cursor piscava, impaciente, como quem diz: “e então?” Não respondi. Nunca respondo bem a quem me cobra clareza logo no início.

Pensei em começar pelo começo, mas logo percebi que o começo não tinha sido avisado. Pensei em um fato do dia. Nenhum se ofereceu. Pensei em mim mesmo. Ideia recorrente, mas perigosa. Pensei em desistir, o que já é, em si, um tema respeitável. Decidi escrever enquanto pensava. Erro clássico, mas produtivo.

A crônica, quando não sabe do que vai falar, fica mais sincera. Ela anda pela casa de pijama, abre a geladeira sem fome, olha pela janela sem procurar nada. Às vezes encontra.  Às vezes não. E segue vivendo.

O problema é que as ideias são tímidas. Se percebem que estamos atentos demais, somem. Gostam de ser flagradas no descuido. Aparecem quando não são chamadas, como aquela lembrança antiga que surge no meio da fila do banco, sem educação alguma. Enquanto isso, o texto vai se formando sozinho, feito fila de formigas. Ninguém sabe quem começou, mas todas seguem.

Pensei em dar um sentido a isso tudo. Pensei em organizar, concluir, amarrar, mas desconfio profundamente das amarrações. Elas dão uma falsa sensação de que a vida fecha. E não fecha. No máximo encosta.

Aliás, há textos que nascem sabendo demais. Já vêm com tese, conclusão e até moral da história. Esses me cansam. Prefiro os textos que gaguejam. Que erram o caminho. Que chegam atrasados ao próprio assunto.

Esta crônica, por exemplo, começou sem tema. Agora, perto do fim, continua sem saber exatamente do que tratou. Talvez tenha falado do ato de escrever. Talvez do vazio. Talvez de nada, que é um assunto vastíssimo. Se eu fosse rigoroso, cortaria metade. Se fosse acadêmico, explicaria tudo. Como não sou nem uma coisa nem outra, deixo assim.

A verdade é que algumas crônicas não querem dizer nada. Querem apenas estar. Fazer companhia. Sentar ao lado do leitor e comentar o silêncio. E se, ao terminar, você tiver a sensação de que não aprendeu coisa alguma, mas também não perdeu tempo, então esta crônica chegou exatamente aonde pretendia. Ou talvez não.

E está tudo bem...

 Edson Pinto

Março, 2026

361) QUANDO AS IDEIAS ENTRAM EM CAMPO

 

Há ideias que nascem perfeitas. Elegantes. Simétricas. Racionais. Quando aparecem no papel, na lousa ou nos discursos acalorados parecem até inevitáveis. É como se a lógica tivesse finalmente encontrado sua forma ideal. O problema é que o mundo raramente lê o mesmo roteiro.

Essa pequena divergência entre a elegância das ideias e a teimosia da realidade sempre me intrigou. Foi ela, aliás, que acabou me levando a escrever meu novo livro, meu décimo oitavo atrevimento literário, “O Efeito Culatra” e a curva invisível do aprendizado. A história, porém, começou muito antes:

No início da década de 1980, quando eu fazia meu mestrado na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, mergulhei num tema que me fascinou imediatamente, a chamada Curva da Experiência, ou, alternativamente, Curva do Aprendizado. Em termos simples, a ideia é a seguinte: quanto mais se produz, mais se aprende. E quanto mais se aprende, mais eficiente se torna o processo de produção. Aprendizado acumulado. Experiência acumulada. Vantagem acumulada.

Parecia uma ideia poderosa. E era. O curioso é que, ao longo das décadas seguintes, embora a vida profissional me levasse por outros caminhos, inclusive uma temporada de trabalho no exterior, o que me impediu de prosseguir com a monografia, essa ideia nunca saiu completamente da minha cabeça. Ficou ali, silenciosa, como certas perguntas que insistem em sobreviver ao tempo. Até que, quarenta e poucos anos depois, agora, resolvi revisitá-la. E o momento não poderia ser mais oportuno.

Vivemos hoje uma fase curiosa da história econômica, quer do mundo, quer do Brasil e da América Latina em específico. Em várias partes, cresce a sedução por propostas radicais de reorganização econômica. Ideias que prometem eficiência imediata, redução drástica do Estado, simplificação estrutural e, em alguns casos, quase uma espécie de “implosão regeneradora” das instituições econômicas. A lógica é sedutora: Se algo não funciona bem, desmonta-se. Se há ineficiência, corta-se. Se há excesso de Estado, elimina-se. O problema é que economias não são relógios suíços, mecânicos, desmontados sobre uma mesa. São sistemas vivos. Complexos. Históricos. Carregam memória.

E é exatamente aí que entra a velha Curva do Aprendizado. Se produção gera aprendizado e aprendizado gera competitividade, então a interrupção abrupta desse processo pode produzir um efeito inesperado. Enquanto um país desmonta parte de sua estrutura produtiva na esperança de reconstruí-la de forma mais eficiente, outros países continuam produzindo, aprendendo e avançando. Não há pausa no campeonato. Foi dessa inquietação que nasceu o livro. Não é um livro técnico. Não é um tratado de economia. Não há gráficos intermináveis nem equações intimidantes. Preferi escrever um ensaio reflexivo, quase uma conversa longa com o leitor. Um livro para pensar. E pensar, hoje em dia, talvez seja um dos exercícios mais necessários.

Ao longo dos quinze capítulos do livro, procuro explorar justamente essa tensão permanente entre teoria e realidade. Entre ideias puras e sistemas complexos. Entre a elegância das propostas e a resistência silenciosa da prática. Em certo momento do livro, recorro até a uma metáfora futebolística que muitos brasileiros conhecem bem. A história atribuída a Garrincha, na Copa de 1958. Depois de ouvir uma explicação tática perfeita, o jogador teria perguntado ao técnico: “Está certo, mas já combinou com os russos?”

A pergunta continua atual. Ela vale para o futebol. E vale para a economia. Ideias podem ser impecáveis no papel, mas a realidade não costuma participar das reuniões em que os planos são desenhados. Foi pensando nisso que escolhi o título “O Efeito Culatra”. A expressão popular descreve bem uma situação em que uma ação, concebida para produzir determinado resultado, acaba produzindo o oposto. O disparo volta contra quem o fez. Não por maldade do mundo, mas por complexidade do mundo.

No fundo, o livro é um convite à prudência. Não à imobilidade, nem ao conservadorismo preguiçoso, mas à reflexão. Reformar economias é necessário. Ajustar instituições é saudável. Questionar modelos é parte da evolução histórica. Devamos lembrar que economias aprendem. E que esse aprendizado leva tempo. Tempo de produção. Tempo de experiência. Tempo de acumulação. Ignorar essa dimensão invisível pode produzir resultados curiosos. Às vezes até espetaculares, no pior sentido da palavra.

Escrevi este livro com uma esperança simples: que ele ajude a ampliar o debate. Que provoque perguntas. Que estimule leitores, jovens ou experientes, a olhar para a economia com menos paixão ideológica e um pouco mais de curiosidade histórica. O mundo, felizmente ou infelizmente, continua sendo o lugar onde elas precisam provar que funcionam.

 

Edson Pinto

Março, 2026

 

 

Nota do autor:

Quem quiser adquirir o livro poderá fazê-lo acessando o site da Editora  clube de Atores e procurar LIVROS do autor EDSON PEREIRA PINTO ou clicar diretamente neste link:

https://clubedeautores.com.br/livro/o-efeito-culatra