No
próximo dia 27 de maio, fará quatro anos. Quatro anos não é muito tempo para
quem mede a vida em calendários, mas é uma eternidade para quem a mede em
ausências.
Jane
partiu em 27 de maio de 2022. Partiu assim, como quem fecha uma porta com
delicadeza, sem ruído, sem aviso, sem despedidas longas. Um infarto. Rápido.
Limpo. Quase elegante, se me permitem o termo impróprio. Não deu trabalho. Não
exigiu cuidados prolongados. Não nos preparou. E, curiosamente, deixou intacta
a última imagem: uma mulher ainda viva em todos os sentidos, saudável, alegre,
pronta para um jantar, para uma conversa, para mais um capítulo daquilo que
vínhamos escrevendo há décadas, porque não foram poucos anos.
Eu
a conheci na infância, quando ainda não sabíamos dar nome às coisas. Namoramos na
adolescência, quando achávamos que o amor era uma invenção nossa. Casamos na juventude, quando já sabíamos que ele, o amor, existia antes de nós. E
permanecemos juntos por 45 anos de casamento, que, somados ao antes, dão uns 60
anos de convivência.
Sessenta
anos... Há casamentos que duram menos que um torneio de verão. O nosso foi um modo de
existir. E então, de um dia para o outro, esse modo desaparece. A viuvez, sobretudo
quando chega depois de uma vida longa a dois, não é apenas uma perda. É uma
reorganização forçada do mundo. Não se perde só a pessoa, perde-se a rotina, o
reflexo, a testemunha cotidiana da própria existência. Você continua falando,
mas falta o interlocutor habitual. Continua vivendo, mas sem aquele olhar que
confirmava que a vida estava, de fato, acontecendo.
Os
dois primeiros anos foram os mais difíceis. Não por acaso. São os anos em que a
ausência ainda tem cheiro, ainda ocupa lugar na mesa, ainda responde, ou parece
responder, quando a memória insiste em não aceitar o fato consumado. É o tempo
em que a casa ainda não entendeu que ficou maior, e o coração, menor. Depois
disso, aos poucos, as coisas começam a se rearrumar. Não voltam ao que eram, isso
seria pedir demais da existência, mas encontram um novo equilíbrio, mais
silencioso, mais sóbrio.
E
foi nesse silêncio que algo inesperado aconteceu: Jane, ao partir, deixou-me um
presente. Sim, um presente, ainda que envolto na embalagem áspera da dor. Deixou-me
o tempo. Tempo de solidão, é verdade, mas também tempo de reencontro. Tempo de
revisitar antigas paixões que a vida, na sua pressa, havia colocado em segundo
plano. Tempo de escrever. Foi nesses quatro anos que muitos dos livros que
estavam apenas na minha cabeça encontraram papel. Foi nesse intervalo que a
literatura, minha velha companheira, voltou a sentar-se comigo à mesa. E aqui
reside um dos paradoxos mais humanos: a ausência que dói também pode ser a
ausência que abre espaço. Não escolhemos isso, mas, uma vez dado, podemos, com
algum esforço e alguma humildade, transformar.
Hoje,
olhando para trás, sinto que o pior já passou. Não que a saudade tenha
diminuído. A saudade não é um objeto que se desgaste com o uso. Ela apenas muda
de forma. Deixa de ser um grito e passa a ser um murmúrio constante, quase uma
música de fundo. Porém, a dor aguda, aquela que interrompe o pensamento, essa,
sim, vai cedendo.
Neste
ponto do desabafo, eu confesso algo que talvez soe estranho: foi melhor que
Jane tenha partido antes de mim. Não por falta de amor. Ao contrário. Justamente
por amor. Eu temia que, se fosse eu o primeiro, ela carregaria esse peso que me
açoitou e ainda, mesmo já moderado, se faz presente. Não sei se teria a
estrutura, ou a disposição, para atravessar esse período como eu atravessei.
Coube-me essa tarefa. E, dentro do possível, procurei cumpri-la.
Cada
um de nós tem a sua cruz invisível. Essa foi a minha. Jane deixou três filhos,
seis netos e uma memória que não pesa, mas sustenta. Era forte, carinhosa,
presente. Daquelas pessoas que organizam o mundo ao redor sem fazer alarde. E
talvez seja isso que mais permaneça: não os grandes gestos, mas a constância.
No
fim das contas, a vida é isso mesmo. Um movimento contínuo de construção e
dissolução. Uma espécie de entropia existencial: nascemos, crescemos, amamos,
envelhecemos e, inevitavelmente, cedemos lugar. Há quem lute contra isso. Há
quem negue. Há quem se revolte. Eu, hoje, prefiro compreender. A vida vale a
pena, e digo isso sem retórica, quando se aceita o ciclo que a governa. Quando
se entende que o fim não é uma falha do processo, mas parte dele. E que, no
meio disso tudo, o que realmente fica não é o tempo que tivemos, mas a forma
como o vivemos.
Se
me perguntarem o que restou de Jane, eu diria: não foi pouco. Ficaram os
filhos, os netos, as lembranças e uma
certa maneira de olhar a vida, que, de algum modo, continua em mim. E isso,
convenhamos, já é uma forma discreta, mas eficaz, de permanência.
Edson Pinto
Maio.
2026
