20 de mar. de 2026

363) FALAR SEM PENSAR

Já vi muita coisa neste longo caminho que a vida me emprestou, mas poucas me impressionam tanto quanto essa mania moderna de falar sem pensar. 

O verbo, esse impulso pré-reflexivo que se solta antes que a ideia madureça, hoje, parece ter adquirido personalidade própria. Ele salta, dispara, atropela, tudo isso antes que o pensamento consiga amarrar os sapatos.

Basta ligar a televisão para testemunhar o espetáculo: Há políticos despejando palavras como se fossem foguetes de São João, subindo rápido, fazendo barulho, mas raramente iluminando alguma coisa. Falam tanto que fico imaginando se as ideias deles não ficaram retidas na alfândega do cérebro, aguardando liberação. Enquanto isso, a boca, impaciente, segue viagem.

E a plateia, nós os cidadãos, acaba muitas vezes adotando o mesmo ritmo. Viramos papagaios de luxo, repetindo frases prontas com a convicção de quem manuseia verdades eternas, quando na verdade estamos apenas ecoando o barulho alheio. É a era das opiniões de micro-ondas. Prontas em poucos segundos, porém, sem sabor, sem substância, mas quentinhas para serem servidas em qualquer conversa.

O mais curioso é que, nesse campeonato silencioso, vence quem fala mais alto, quem ocupa mais espaço, quem não dá trégua ao próprio silêncio. A impressão que tenho é que muita gente acredita que a vitória pertence ao mais barulhento. Uma lógica perversa, pois  quanto menos se pensa, mais se fala.

Entretanto, a vida, essa velha professora sem diploma, me ensinou algo diferente. Aprendi, com o tempo, que a sabedoria gosta de caminhar devagar. Que a pausa é a incubadora da ideia. Que o silêncio, longe de ser falta, é germinação. E que o pensamento só se mostra quando o verbo não o atropela.

O problema do mundo atual é que a pressa virou sinônimo de inteligência, quando muitas vezes é apenas o disfarce da superficialidade. Falar sem pensar dá uma sensação agradável de participação, de protagonismo, de coragem. É ilusão, o que fala sem pensar quase sempre pensa sem profundidade.

Por isso deixo aqui uma reflexão que tem algo de apelo moral e de pedido de prudência: Não apresse o verbo! Deixe a palavra descansar um pouco antes de nascer. Permita que o pensamento inteiro chegue primeiro, com calma, com dignidade, como quem visita uma casa e tira os sapatos antes de entrar.

No fim das contas, e digo isso com a serenidade de quem já atravessou algumas estações da vida,  o mundo seria melhor se as pessoas falassem menos… e pensassem mais.

 

Edson Pinto

Março, 2026

6 de mar. de 2026

362) CRÔNICA PROVISÓRIA SOBRE UM ASSUNTO QUE AINDA NÃO CHEGOU...

 

Eu ia escrever sobre alguma coisa. Não sei bem o quê, mas, juro por tudo que é sagrado, que eu vinha muito decidido a fazê-lo...

Sentei-me. Abri o arquivo no computador. Ajustei a cadeira, esse gesto solene que antecede todas as indecisões importantes. O cursor piscava, impaciente, como quem diz: “e então?” Não respondi. Nunca respondo bem a quem me cobra clareza logo no início.

Pensei em começar pelo começo, mas logo percebi que o começo não tinha sido avisado. Pensei em um fato do dia. Nenhum se ofereceu. Pensei em mim mesmo. Ideia recorrente, mas perigosa. Pensei em desistir, o que já é, em si, um tema respeitável. Decidi escrever enquanto pensava. Erro clássico, mas produtivo.

A crônica, quando não sabe do que vai falar, fica mais sincera. Ela anda pela casa de pijama, abre a geladeira sem fome, olha pela janela sem procurar nada. Às vezes encontra.  Às vezes não. E segue vivendo.

O problema é que as ideias são tímidas. Se percebem que estamos atentos demais, somem. Gostam de ser flagradas no descuido. Aparecem quando não são chamadas, como aquela lembrança antiga que surge no meio da fila do banco, sem educação alguma. Enquanto isso, o texto vai se formando sozinho, feito fila de formigas. Ninguém sabe quem começou, mas todas seguem.

Pensei em dar um sentido a isso tudo. Pensei em organizar, concluir, amarrar, mas desconfio profundamente das amarrações. Elas dão uma falsa sensação de que a vida fecha. E não fecha. No máximo encosta.

Aliás, há textos que nascem sabendo demais. Já vêm com tese, conclusão e até moral da história. Esses me cansam. Prefiro os textos que gaguejam. Que erram o caminho. Que chegam atrasados ao próprio assunto.

Esta crônica, por exemplo, começou sem tema. Agora, perto do fim, continua sem saber exatamente do que tratou. Talvez tenha falado do ato de escrever. Talvez do vazio. Talvez de nada, que é um assunto vastíssimo. Se eu fosse rigoroso, cortaria metade. Se fosse acadêmico, explicaria tudo. Como não sou nem uma coisa nem outra, deixo assim.

A verdade é que algumas crônicas não querem dizer nada. Querem apenas estar. Fazer companhia. Sentar ao lado do leitor e comentar o silêncio. E se, ao terminar, você tiver a sensação de que não aprendeu coisa alguma, mas também não perdeu tempo, então esta crônica chegou exatamente aonde pretendia. Ou talvez não.

E está tudo bem...

 Edson Pinto

Março, 2026

361) QUANDO AS IDEIAS ENTRAM EM CAMPO

 

Há ideias que nascem perfeitas. Elegantes. Simétricas. Racionais. Quando aparecem no papel, na lousa ou nos discursos acalorados parecem até inevitáveis. É como se a lógica tivesse finalmente encontrado sua forma ideal. O problema é que o mundo raramente lê o mesmo roteiro.

Essa pequena divergência entre a elegância das ideias e a teimosia da realidade sempre me intrigou. Foi ela, aliás, que acabou me levando a escrever meu novo livro, meu décimo oitavo atrevimento literário, “O Efeito Culatra” e a curva invisível do aprendizado. A história, porém, começou muito antes:

No início da década de 1980, quando eu fazia meu mestrado na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, mergulhei num tema que me fascinou imediatamente, a chamada Curva da Experiência, ou, alternativamente, Curva do Aprendizado. Em termos simples, a ideia é a seguinte: quanto mais se produz, mais se aprende. E quanto mais se aprende, mais eficiente se torna o processo de produção. Aprendizado acumulado. Experiência acumulada. Vantagem acumulada.

Parecia uma ideia poderosa. E era. O curioso é que, ao longo das décadas seguintes, embora a vida profissional me levasse por outros caminhos, inclusive uma temporada de trabalho no exterior, o que me impediu de prosseguir com a monografia, essa ideia nunca saiu completamente da minha cabeça. Ficou ali, silenciosa, como certas perguntas que insistem em sobreviver ao tempo. Até que, quarenta e poucos anos depois, agora, resolvi revisitá-la. E o momento não poderia ser mais oportuno.

Vivemos hoje uma fase curiosa da história econômica, quer do mundo, quer do Brasil e da América Latina em específico. Em várias partes, cresce a sedução por propostas radicais de reorganização econômica. Ideias que prometem eficiência imediata, redução drástica do Estado, simplificação estrutural e, em alguns casos, quase uma espécie de “implosão regeneradora” das instituições econômicas. A lógica é sedutora: Se algo não funciona bem, desmonta-se. Se há ineficiência, corta-se. Se há excesso de Estado, elimina-se. O problema é que economias não são relógios suíços, mecânicos, desmontados sobre uma mesa. São sistemas vivos. Complexos. Históricos. Carregam memória.

E é exatamente aí que entra a velha Curva do Aprendizado. Se produção gera aprendizado e aprendizado gera competitividade, então a interrupção abrupta desse processo pode produzir um efeito inesperado. Enquanto um país desmonta parte de sua estrutura produtiva na esperança de reconstruí-la de forma mais eficiente, outros países continuam produzindo, aprendendo e avançando. Não há pausa no campeonato. Foi dessa inquietação que nasceu o livro. Não é um livro técnico. Não é um tratado de economia. Não há gráficos intermináveis nem equações intimidantes. Preferi escrever um ensaio reflexivo, quase uma conversa longa com o leitor. Um livro para pensar. E pensar, hoje em dia, talvez seja um dos exercícios mais necessários.

Ao longo dos quinze capítulos do livro, procuro explorar justamente essa tensão permanente entre teoria e realidade. Entre ideias puras e sistemas complexos. Entre a elegância das propostas e a resistência silenciosa da prática. Em certo momento do livro, recorro até a uma metáfora futebolística que muitos brasileiros conhecem bem. A história atribuída a Garrincha, na Copa de 1958. Depois de ouvir uma explicação tática perfeita, o jogador teria perguntado ao técnico: “Está certo, mas já combinou com os russos?”

A pergunta continua atual. Ela vale para o futebol. E vale para a economia. Ideias podem ser impecáveis no papel, mas a realidade não costuma participar das reuniões em que os planos são desenhados. Foi pensando nisso que escolhi o título “O Efeito Culatra”. A expressão popular descreve bem uma situação em que uma ação, concebida para produzir determinado resultado, acaba produzindo o oposto. O disparo volta contra quem o fez. Não por maldade do mundo, mas por complexidade do mundo.

No fundo, o livro é um convite à prudência. Não à imobilidade, nem ao conservadorismo preguiçoso, mas à reflexão. Reformar economias é necessário. Ajustar instituições é saudável. Questionar modelos é parte da evolução histórica. Devamos lembrar que economias aprendem. E que esse aprendizado leva tempo. Tempo de produção. Tempo de experiência. Tempo de acumulação. Ignorar essa dimensão invisível pode produzir resultados curiosos. Às vezes até espetaculares, no pior sentido da palavra.

Escrevi este livro com uma esperança simples: que ele ajude a ampliar o debate. Que provoque perguntas. Que estimule leitores, jovens ou experientes, a olhar para a economia com menos paixão ideológica e um pouco mais de curiosidade histórica. O mundo, felizmente ou infelizmente, continua sendo o lugar onde elas precisam provar que funcionam.

 

Edson Pinto

Março, 2026

 

 

Nota do autor:

Quem quiser adquirir o livro poderá fazê-lo acessando o site da Editora  clube de Atores e procurar LIVROS do autor EDSON PEREIRA PINTO ou clicar diretamente neste link:

https://clubedeautores.com.br/livro/o-efeito-culatra

27 de fev. de 2026

360) O QUE É UMA CRÔNICA?

O que é uma crônica?

Sempre achei que a crônica não sabe exatamente o que é. E talvez por isso exista...

Ela acorda cedo, calça o sapato errado. O direito no pé esquerdo e sai à rua sem compromisso com o destino. Observa. Espreita. Escuta uma conversa que não foi chamada para ouvir. Espia a vida pelo buraco da fechadura, mas com delicadeza, como quem pede licença até ao silêncio.

A crônica nasce assim mesmo, sem plano de carreira.  Não aspira à eternidade, embora às vezes a alcance por distração. Não pretende ser tese, tratado ou manifesto. Seu maior pecado é parecer simples. Seu maior talento é não fingir grandeza.

Enquanto o romance constrói edifícios, a crônica prefere a varanda. Enquanto o ensaio veste paletó, a crônica aparece de camisa arregaçada. Enquanto a notícia grita “aconteceu!”, a crônica cochicha: “e o que você sentiu com isso?”

A crônica é filha do tempo , mas do tempo miúdo. Do tempo do café esfriando. Do tempo do ônibus atrasado. Do tempo da lembrança que chega sem ser chamada. Ela não precisa de fatos extraordinários. Basta um tropeço. Um olhar atravessado. Uma pergunta que ninguém fez, mas todo mundo pensou. Aliás, a crônica gosta muito de perguntas. Principalmente das inúteis. Principalmente das que não se resolvem.

Já vi crônicas nascerem de um guarda-chuva esquecido, de um cachorro que atravessou a rua com mais convicção que o dono, de um “bom dia” mal dado. A crônica não julga. Observa. Se julga, finge que não. Seu método é suspeito. Seu rigor é frouxo. Sua disciplina é desobediente. Ela se permite rir quando deveria calar. Calar quando deveria explicar. E filosofar quando ninguém pediu.

Por isso a crônica costuma ser mal compreendida. Há quem pergunte: “mas isso é literatura?” A crônica responde com outra pergunta: “e precisa ser?” No fundo, a crônica é um espelho pequeno, desses que cabem no bolso. Não mostra o corpo inteiro, mas revela uma ruga que o espelho grande ignora. E às vezes essa ruga diz mais sobre a vida do que todos os tratados. Ela é a arte do quase. Do talvez. Do “não sei bem, mas acho que é por aí”.

Machado de Assis, se estivesse aqui, talvez dissesse que a crônica é um romance que desistiu de crescer e ficou mais sábio por isso. Ou talvez não dissesse nada, apenas levantasse uma sobrancelha, que já seria uma crônica completa.

A verdade é que a crônica não quer convencer. Quer acompanhar. Caminhar ao lado do leitor como quem comenta o tempo, sem a pretensão de mudar o clima, mas com a íntima esperança de tornar a caminhada mais leve. E quando termina, ela não bate a porta. Vai saindo devagar. Deixa a cadeira fora do lugar. E, às vezes, uma pergunta sentada no sofá...

Se o leitor perceber isso horas depois, no meio da tarde, ao lembrar de algo aparentemente banal, então a crônica cumpriu sua função. Que função? Nenhuma muito clara. E exatamente por isso, todas.

 

Edson Pinto

Fevereiro, 2026


20 de fev. de 2026

359) DERRIDA À BEIRA DO RIO VERDE


Quando Jacques Derrida, de cabeça e paletó brancos, apareceu na minha varanda, puxando uma cadeira para sentar à minha frente, eu não me surpreendi. Filósofos têm essa mania antiga de surgir justamente quando a gente mais precisa, embora eles afirmem que é a gente que os convoca.
Eu estava observando o Rio Verde após a chuva quando ouvi sua voz irônica e suave.

— Edson, você já percebeu que até o rio duvida de si?

Ofereci-lhe um café. Derrida aceitou e acrescentou duas gotas de silêncio, como quem tempera o pensamento.

— Como assim, Jacques, o rio duvida?

Ele apontou para a água, que naquele momento parecia mais azul do que verde, com aquela luminosidade tímida de fim de tarde mineiro.

— Veja bem, disse ele. O rio corre, mas nunca é o mesmo. Ele promete chegar, mas adia. Como o sentido. A água se oferece, mas escapa. Sempre diferida. É a sua própria “différance” em estado líquido.

Eu ri. Porque mineiro, quando escuta filosofia difícil, ri para não passar vergonha.

— Então você está dizendo que o Rio Verde é uma metáfora da vida?

— Não, corrigiu Derrida. Eu estou dizendo que a vida é que tenta ser metáfora do rio, mas tropeça.

Ficamos uns minutos observando o vaivém das nuvens e das garças. A maturidade, essa senhora que chega sem pedir licença, também se encostou na varanda com a gente. Ela tem um jeito de sentar meio estalado, como joelho velho.

— Edson, ele continuou, você, assim como eu, pertence àquele estágio da existência em que o saber já acumulou pó e a sabedoria finalmente pede passagem.

Levei o café à boca, pensando em quantos livros li, quantas certezas tive e quantas perdi. Falei:

— Pois é. A gente sabe muito, mas compreender… compreender é outra coisa.

Derrida abriu um sorriso torto:

— Saber é colecionar palavras. Sabedoria é desconfiar delas.

O vento soprou devagar, como quem confirma. Eu olhei para o rio, ele olhou para mim. Havia um acordo silencioso de que nenhum de nós estava completamente pronto para ser sábio, mas também não éramos mais tão bobos para nos agarrar a velhas certezas.

— E essa história de presença e ausência?, provoquei. Você sempre disse que nada está plenamente presente. Nem nós mesmos.

Derrida levantou a xícara na altura dos olhos:

— Veja este café. Está aqui. Você sente o cheiro, o calor, mas o sabor? Ah, o sabor só existe quando você o deixa ir. A presença é sempre uma promessa que se desfaz no ato de ser cumprida.

— Quer dizer que até meu café é desconstruído?

— Tudo é. Até a idade.

Rimos juntos. A maturidade, ali ao lado, fingiu que não era com ela. O filósofo então virou o rosto para o rio e disse algo que guardarei como quem guarda fotografia antiga no bolso da camisa:

— Você reparou, Edson, que nós, os homens maduros, somos exatamente como esse Rio Verde? Já fomos águas rápidas, já derrubamos pedras, já quisemos chegar depressa ao rio maior, ao mar. Hoje, serpenteamos. Não por fraqueza, mas por sabedoria. Aprendemos que o caminho é mais importante que a chegada. E completou:

— Ser jovem é querer saber. Ser maduro é aceitar que nunca saberemos tudo, mas ainda assim seguir adiante.

O sol desceu devagar, como se também quisesse participar da conversa. O rio brilhou, fazendo pose de quem entendeu cada palavra. Derrida terminou o café, empurrou a cadeira para trás e se levantou com aquele jeito de professor que está prestes a desaparecer no ar, o que de fato fez. Antes de sumir, porém, virou-se uma última vez e disse:

— Edson, não acredite demais em mim. Nem em você. Nem no rio. Acredite apenas nessa dança entre presença e ausência. Nela mora a sabedoria.

E, como todo bom filósofo, foi embora deixando a dúvida plantada. Fiquei sozinho com o Rio Verde. Ou talvez o rio é que tenha ficado sozinho comigo. Afinal, se aprendi algo nessa tarde de fim de carnaval, é que até as certezas que parecem mais sólidas se dissolvem como açúcar no último gole de café. E, cá entre nós, isso não deixa de ser um belo consolo...

 Edson Pinto

Fevereiro, 2026

 

Nota do autor:

Jacques Derrida (1930–2004) foi um filósofo franco-argelino, um dos pensadores mais influentes e mais malcompreendidos do século XX. Associado ao que se convencionou chamar de desconstrução, Derrida não se propunha a destruir ideias, conceitos ou tradições, mas a examiná-los por dentro, como quem desmonta um relógio para entender seu delicado mecanismo.

Seu trabalho questionou certezas antigas da filosofia ocidental, sobretudo a crença de que as palavras capturam fielmente a realidade e de que o sentido está sempre presente, inteiro e disponível. Para Derrida, o significado é instável, escorregadio, sempre adiado e que nunca chega por completo. Daí sua célebre noção de “différance”, um jogo entre diferença e adiamento do sentido.

Derrida escreveu sobre linguagem, escrita, filosofia, literatura, política, ética e memória, dialogando com autores como Platão, Aristóteles, Rousseau, Nietzsche, Freud e Heidegger. Sua escrita, deliberadamente complexa e muitas vezes poética, incomodou leitores apressados, mas encantou aqueles dispostos a aceitar que pensar também é hesitar.

Nesta crônica em que imaginei Derrida me visitando, ele aparece não como o filósofo acadêmico de frases longas e difíceis, mas como aquilo que talvez ele sempre tenha sido, um desconfiado cordial, alguém que nos ensina que saber muito não é o mesmo que ser sábio.  E que amadurecer talvez seja aprender a conviver melhor com as perguntas do que com as respostas.


19 de dez. de 2025

358) MENSAGEM DE FINAL DE ANO (Entre o Calendário e a Gratidão)

 

Chegar ao fim de um ano não é pouco. É - arrisco dizer - um feito respeitável, ainda que raramente comemorado com a devida reverência que tal fato merece. Viver mais um ano é uma espécie de aprovação silenciosa da existência, dessas que a vida concede sem alarde, mas não sem critério.

2025 foi, para mim, um ano especialmente fértil no terreno da escrita. A vida, essa senhora caprichosa, que costuma negar quando pedimos e oferecer quando já desistimos, resolveu, por razões que não ouso esmiuçar, conceder-me essa raridade que chamamos “tempo”. E com ele vieram a tranquilidade, o suporte e a inspiração. Um conjunto quase luxuoso, capaz de permitir que livros antigos, há muito ruminados na minha cabeça, finalmente encontrassem papel, forma e leitores. Não foi a ausência dos obstáculos rotineiros que me proporcionaram esse bônus de tempo. Foi apenas um rearranjo deles. O cotidiano, em vez de empurrar, abriu passagem. E assim escrevi. Não por heroísmo, mas por prazer e gratidão.

Nada disso teria sido possível sem a família e os amigos. Não apenas por criarem as condições materiais e espirituais para o meu ofício de escrevinhador, que é prazeroso, mas exige silêncio, paciência e algum recolhimento, mas, sobretudo, por nunca me negarem o que mais importa que é a “presença”.

Agora, chega o momento de conceder férias a este amador rabiscador de palavras. Férias para mim, mas também férias para os meus poucos, mas diletos e queridos  leitores. Férias até para a vida, que também se cansa de ser levada tão a sério. Faço uma pausa nas publicações do blog, só retornando por volta de fevereiro, dependendo, como sempre, das negociações entre o calendário e o Carnaval. Até lá, sigo vivendo, que é, afinal, a matéria-prima de tudo isso.

Aos leitores que desejarem conhecer meus 15 livros que vieram à luz nos últimos anos, deixo o convite para acessarem o site “Clube de Autores” (clique aqui) e procurar pelo meu nome completo. Lá estão reunidos todas os livros que já publiquei, bem como as informações para quem desejar adquiri-los para própria leitura ou para presente. A Editora atende na base “sob demanda” e envia o livro pelos Correios. No blog (clique aqui), versão web, também há informação sobre os livros.

Desejo a todos os amigos e familiares um Feliz Natal e um fantástico 2026. Que venha com menos pressa, mais gentileza e boas páginas, escritas ou vividas.

Até breve.

Edson Pereira Pinto

12 de dez. de 2025

357) O PREÇO DOS TIRANOS

 

Há dias, depois do noticiário da TV, em que me pego, entre um gole e outro de café, pensando no destino dos poderosos. Não dos que estudaram filosofia demais e política de menos, mas dos que, por descuido da História e vaidade própria, acharam-se deuses transitórios. É curioso, ou melhor, irônico, observar como alguns desses senhores terminam suas sagas sem o aplauso da eternidade, mas com a cobrança silenciosa do tempo.

Sempre achei que o poder diz muito mais sobre quem o exerce do que sobre quem o obedece. Talvez por isso, quando revejo a galeria dos tiranos que se deram mal, mas mal de verdade, sinto que ali está uma espécie de manual do retorno. O retorno do quê? Do próprio gesto. Quem semeia medo, colhe medo. Quem alimenta violência, morre devorado pelo próprio cardápio.

Hitler, por exemplo, terminou escondido num bunker de concreto, trancado com a própria sombra. Mussolini, que adorava posar de César, acabou pendurado de cabeça para baixo numa praça, como se a História dissesse: “já que gostava tanto de teatralidade, aí está o seu último ato”. Ceaușescu, que construiu palácios enquanto o povo contava migalhas, foi fuzilado em poucas horas, sem tempo sequer para organizar um último discurso. Ironia fatal para um tirano que adorava ouvir sua própria voz.

E o desfile continua: Saddam descoberto num buraco, Gaddafi perdendo a vida numa rua poeirenta, Milošević morrendo numa cela fria. A lista é longa, como geralmente são longas as consequências da arrogância. A tirania tem essa mania de parecer grandiosa enquanto dura, mas terminar sempre como aquilo que sempre foi, isto é, uma farsa trágica.

Há quem diga que esses homens foram vencidos pela política, pelo povo, pelas armas ou por golpes externos. Eu, cá de detrás das montanhas de Minas, desconfio de que foram vencidos pela própria lógica que criaram. A tirania cria um universo onde ninguém é confiável, onde tudo ameaça, onde o trono é feito de pólvora e a coroa, de vidro. Basta um sopro para tudo ruir. E ruir, invariavelmente, ruirá.

Machado de Assis, se pudesse comentar, talvez levantasse as sobrancelhas (ele tinha um talento para erguer sobrancelhas filosóficas), e diria que o tirano começa a cair no exato momento em que sobe ao poder. Pareceria exagero, mas não seria. O poder sem freios é como um rio sem margens. Ele não corre, ele destrói. E quando destrói demais, escava o próprio leito.

O mais curioso é que, nesses trágicos desfechos, há um tipo de justiça que não vem dos tribunais, mas da própria condição humana. O tirano que vive do medo morre temendo. O tirano que prende vozes termina prisioneiro do silêncio. O tirano que se acha imortal descobre que até a morte tem senso de humor.

E nós, que observamos tudo à distância, aprendemos, ou deveríamos aprender, que nenhum poder, por mais adornado que seja, sobrevive à falta de humanidade. O mundo é paciente, mas não é conivente. A História é lenta, mas não é cega. E o tempo, esse juiz que nunca se aposenta, sabe muito bem como ajustar as contas.

Ao final, resta sempre a mesma lição, simples como toda grande sabedoria. É a lição de que quem governa pelo medo termina governado por ele. E quando o medo assume o trono, nenhum tirano permanece sentado por muito tempo.

De todos os espetáculos humanos, o da queda dos tiranos talvez seja o mais melancólico e, paradoxalmente, o mais moral. Porque nos lembra que a verdadeira força não está em dominar, mas em compreender. Não em impor, mas em persuadir. Não em reinar, mas em servir.

E assim sigo, sorvendo meu o café que neste rincão tem qualidade e é abundante, observando o mundo com esse espanto tranquilo que a idade nos oferece. Porque, se a vida me ensinou alguma coisa, é que nenhum tirano escapa daquilo que, um dia, também alcançará a todos nós, indistintamente, que é o veredito da própria consciência. E essa, ah, essa é implacável...

 

Edson Pinto

Dezembro, 2025

5 de dez. de 2025

356) DOIS CAFÉS E UM CONFLITO INTERNO

 

Razão e Emoção eram um casal.

E como todo casal que se preze, tinham marcado um café para “conversar sobre a relação”, essa expressão que parece inofensiva, mas carrega a tensão de um armistício.

— Eu só acho que a gente precisa de mais lógica nas nossas  decisões, disse ele, mexendo no expresso com a precisão de um engenheiro em crise.

— E eu só acho que a gente precisa sentir mais e calcular menos, respondeu ela, soprando o capuccino como quem assopra mágoas pequenas.

Era terça-feira, três da tarde. Nem cedo demais para desistir, nem tarde demais para tentar de novo.

— Você sempre quer ter controle de tudo, reclamou ela. Até mesmo do que eu sinto.

— E você sempre se joga no abismo como se tivesse asas garantidas, rebateu ele, tentando não parecer o vilão da história.

Foram se acusando com a elegância de quem se ama, mas anda tropeçando nas diferenças. Ele citava argumentos com vírgulas. Ela respondia com silêncios que doíam mais que ponto final.

— Você me sufoca com previsões, gráficos, “e se”...

— E você me enlouquece com impulsos, intuições e essa mania de acreditar que tudo vai dar certo porque sim!

A garçonete trouxe a conta. Ele conferiu cada centavo. Ela deixou gorjeta com um guardanapo desenhado em coração. Era sempre assim. Um fazendo cálculos, o outro fazendo arte.

Mas naquela tarde, algo mudou. Talvez o jeito como os olhos dele finalmente pararam de fugir dos dela. Ou o modo como ela, cansada de girar em espiral, parou de querer vencer a discussão.

— Eu te amo, disse ele, baixinho.

— Eu também, respondeu ela, como quem entrega o peito e não exige troco.

Ficaram em silêncio. Não o silêncio do fim, mas aquele que antecede um recomeço. Como o intervalo entre uma pergunta difícil e uma resposta que vem com abraço.

— Eu não sou perfeita, disse ela.

— E eu não sou infalível, disse ele. Mas juntos, talvez, sejamos possíveis.

Deram-se as mãos por baixo da mesa. E ali, entre farelos de biscoito e café frio, fizeram um acordo que não precisou ser assinado. Firmaram um pacto de equilíbrio, de compreensão mútua que era necessário revezarem-se ao volante.  E, por fim e silenciosamente, entenderam que, quando um tenta vencer o outro, o amor perde.

Saíram do café de passos lentos. Ele deixou que ela escolhesse o caminho. Ela deixou que ele segurasse o mapa.

Porque amar, no fim das contas, é o um eterno diálogo entre o sentir e o pensar. E o milagre acontece quando os dois decidem caminhar lado a lado para o resto da vida.

 

Edson Pinto

Dezembro, 2025

28 de nov. de 2025

355) A JANELA E O MUNDO QUE ME OLHA

 

“Há momentos em que o mundo nos contempla em silêncio, como se quisesse saber o que faremos com tanta beleza disponível.” (Epígrafe criada para esta crônica)

 

Há dias em que a vida resolve se exibir. Hoje, mais cedo, na aprazível Três Corações, encostei-me à janela do meu apartamento, esse camarote privilegiado da existência. O mundo, todo prosa, começou a desfilar diante de mim.

O Rio Verde seguia lá embaixo, praticando sua velha filosofia de não ter pressa. Serpenteava com a calma dos sábios, passava sob a ponte ferroviária de treliça, desativada,  que já deve ter ouvido confissões de maquinistas e lamentos de vagões  e que prosseguia sem se perturbar com as pressões humanas...

A chuva, que havia visitado mais cedo, deixou tudo brilhando como se tivesse dado um lustre no planeta. A mata ao fundo cintilava, exibindo verdes de todos os tipos: verde-claro, verde-maduro, verde-tímido, verde-atrevido. Entre as árvores, algumas casas se mostravam discretas, como quem aparece na foto sem querer sair muito na frente.

É domingo de primavera. A cidade parecia ter assinado um acordo de paz com o tempo. Os carros passavam devagar, respeitando algum pacto silencioso que desconheço, e o céu, ainda nublado, mantinha aquele ar de quem chorou, lavou a alma e agora repousa.

No outro extremo da paisagem, uma fazenda balançava o lenço do campo. O gado, espalhado no pasto, meditava sem qualquer compromisso. Sempre achei que vacas filosofam melhor que nós, talvez porque não têm reuniões, boletos ou políticos para atrapalhar.

E atrás de tudo isso, as montanhas. Ah, as montanhas de Minas! Elas não são apenas cumes. São capítulos da minha vida. Ondulam como antigas lembranças que se recusam a ir embora. De vez em quando, trazem de volta meus entes queridos que já partiram, meus amigos do Caiçara, ou o cheiro do barro depois da chuva. Uma geografia inteira feita de memórias.

Enquanto observo o cenário, percebo que também estou sendo olhado. O mundo, esse velho cúmplice, parece perguntar baixinho: “E então, o que você sente agora?” Sinto uma serenidade que não se compra, dessas que só vem depois de alguns invernos da alma. E penso no futuro, que se esconde atrás das montanhas com aquele ar misterioso de quem sabe mais do que conta.

Deixo-o lá. Aprendi com o Rio Verde que o que importa mesmo é continuar. Chegar é detalhe.

Fico assim, entre a paisagem e o pensamento, entre a cidade e aquilo que ainda lateja cá dentro. E concluo, com o meu lado machadiano sorrindo de canto de boca, que talvez o segredo da vida seja notar que o essencial não faz alarde. Apenas se deixa ver quando a gente se permite olhar.

Edson Pinto

Novembro, 2025


21 de nov. de 2025

354) O GOL INVISÍVEL

Sempre que assisto a uma partida de futebol do meu querido Atlético Mineiro, o Galo, percebo que há muito mais gente em campo do que os 22 que a televisão insiste em mostrar. Há também os medos, as expectativas, as promessas feitas no vestiário, os santos de devoção, os traumas de infância, as cobranças de salário atrasado e, sobretudo, aquele personagem que ninguém vê, mas que decide tudo que é a psicologia. Sim, ela mesma. Sorrateira, silenciosa e, na maior parte do tempo, muito mais veloz do que os alas e os volantes.

E é por isso que, às vezes, o time cheio de craques perde para o time “arrumadinho”, que a imprensa descreve com aquele ar paternalista de quem fala de um sobrinho esforçado. Craque demais entra em campo com peso. Peso de salário, peso de manchete, peso de expectativa. Joga com uma mala imaginária nas costas e nem sempre é mala leve. Já o limitado joga leve porque, francamente, ninguém espera muita coisa dele. E quando ninguém espera, tudo o que acontece vira surpresa, e surpresa é combustível psicológico de primeira.

A torcida, coitada, não sabe o poder que tem. Ou sabe e exagera. Porque, quando o time está bem, ela empurra. Mas quando está mal, ela empurra… para o abismo. Torcida é como família, ama, mas exige. Grita, mas apoia. Cobra, mas abraça. E às vezes basta um resmungo vindo da arquibancada para um zagueiro que estava em paz descobrir que possui a rara capacidade de tropeçar em si mesmo.

Mas, claro, não se pode esquecer da sorte. Ela é o cronista malandro do futebol, desses que chegam no último parágrafo para virar a história. A bola bate na trave, pega no zagueiro, volta no goleiro e entra. Pronto! Já temos tese de doutorado sobre “as contingências metafísicas do chute despretensioso”. O acaso gosta de participar do jogo, nem que seja só para provar que nenhuma planilha prevê o imponderável. Nem Carlo Ancelotti, nem Jorge Sampaoli escapam.

Agora, o que realmente me fascina, e aí entro no meu território filosófico favorito, são as condições internas do clube. Certa vez pensei que time de futebol fosse apenas grupo de jogadores. Ingenuidade minha. O time leva para o campo a temperatura da diretoria, o humor do treinador, a fofoca da semana, a conta de luz atrasada, o jantar mal dormido e até a discussão conjugal do lateral, que entrou em campo com a alma em atraso. Tudo isso joga. E, às vezes, joga contra.

E, no entanto, como acontece conosco, há momentos em que um time inteiro resolve acreditar que pode. Não que tenha obrigação, mas que pode. E aí acontece aquele fenômeno bonito que não está nos livros de psicologia, ou seja, o gol invisível. É o gol feito antes da bola rolar, marcado na conversa, no silêncio, no aperto de mão, na respiração funda. Um gol que nasce no espírito e só depois se materializa na rede, quando o corpo finalmente entende o recado.

No fim das contas, ou melhor, no fim da partida, o futebol é um resumo da existência. Ganha não quem tem mais qualidades, mas quem, no instante crítico, acredita mais profundamente que merece vencer. E é por isso que, de vez em quando, Davi acerta uma pedrada em Golias e o VAR, por mais moderno que seja, não consegue anular aquilo que a alma decidiu marcar.

Porque, eu diria, sem medo de errar, que, no futebol, como na vida, o gol mais importante é aquele que ninguém viu, mas que já estava decidido lá dentro, naquele território misterioso onde moram a motivação, a crença e o acaso. Todos sem esquema tático perfeito, sem técnico, sem planilha, mas com uma vontade danada de surpreender.

Espero que amanhã, sábado, 22/11/2025, em Assunção, no Paraguai, o meu galo entre em campo com gol invisíveis já marcados e que adicione alguns gols visíveis para a dele e nossa glória.

Edson Pinto

Novembro, 2025

14 de nov. de 2025

353) O INVERNO DO CANIÇO PENSANTE

 (Reflexões de um avô que se dobra, mas não se quebra)

Há dias em que acordo com a sensação de que o corpo já não obedece à alma. Ou, talvez, seja a alma que, cansada, tenha resolvido se deitar mais cedo e por isso acorda antes do corpo. Noto um descompasso entre ambos. A alma quer voar, enquanto o corpo precisa destravar as articulações. É assim que se chega ao inverno das estações da vida, esse tempo em que o corpo encolhe, mas a mente, teimosa, continua a se esticar como quem quer alcançar o infinito.

E foi numa dessas manhãs em que o espelho me olhou com ironia que me lembrei de Blaise Pascal, o francês que nos comparou a um caniço pensante.

Ora! Pascal foi um desses homens que conseguiram a proeza de caber em várias gavetas ao mesmo tempo. Foi matemático, físico, inventor e, por fim, teólogo. Um gênio, portanto, mas também um melancólico que via o homem como um fiapo entre a lama e as estrelas.

Dizia ele que somos frágeis como um caniço (uma vara fina e quebradiça), dessas que o vento dobra, mas que tem a insolência de pensar. E é justamente aí que mora nossa grandeza.

Na minha infância e juventude, lá em Belo Horizonte, eu não entendia bem essa história. Caniço, para mim, era planta de beira de córrego, às vezes, usada  para  pescar outras vezes para cutucar formigueiros.

Pensar, eu já fazia demais, ainda que com os erros de quem acha que vai durar para sempre. Hoje percebo que Pascal tinha razão, ou seja, o corpo é um bambuzinho que o tempo vai afinando. Mas o pensamento… ah, o pensamento, ainda canta.

Lembro dos filhos que criei e dos netos que ainda correm pela casa, cada qual um rebento novo do mesmo caniço antigo. Todos pensantes, espero. E vejo em cada um deles essa mistura de fragilidade e coragem que Pascal tanto admirava, ou seja, a capacidade de ser pequeno e, mesmo assim, refletir sobre o universo.

Se eu fosse reescrever o pensamento de Pascal à luz da  minha própria experiência, diria que o homem é um caniço persistente. Ele pensa, apanha, insiste, e ainda agradece o vento que o dobra. É o vento, afinal, que nos mantém em movimento. Um caniço sem vento seria apenas uma vara parada. E o homem sem adversidade, um vegetal vaidoso.

O curioso é que, quanto mais o corpo se curva, mais a mente parece erguer-se. A cada fisgadinha  no ciático, descubro uma nova pergunta sobre o sentido das coisas. Talvez seja assim mesmo, isto é,  a resiliência do corpo é física, mas a resistência da mente é metafísica. Enquanto o corpo declina, o pensamento floresce, como se a natureza quisesse compensar uma coisa com a outra.

Hoje, olhando para trás, vejo que a vida inteira foi um ensaio para aprender a dobrar sem quebrar. O menino que virou gente grande, pai, avô e, por fim, cronista das próprias torções. Continuo me dobrando, é verdade, às juntas enferrujadas, às saudades, aos boletos. Mas ainda penso. E, enquanto pensar, serei digno da metáfora de Pascal.

No frigir dos ovos, temos que admitir que, ser um caniço pensante não é uma ofensa, é um elogio disfarçado. É admitir que somos frágeis, sim, mas não tolos. Que somos  vulneráveis, mas não vãos. E no dia que o vento nos levar, que leve junto as ideias que plantamosi. Quem sabe, em algum canto do tempo, outro caniço as escute e continue a pensar?

 Edson Pinto

Novembro, 2025



 Nota do Autor


Blaise Pascal (1623–1662) foi um dos grandes gênios franceses do século XVII. Matemático e físico precoce, inventou a primeira calculadora mecânica e lançou as bases da teoria das probabilidades. Mais tarde, aproximou-se da filosofia e da teologia, tornando-se um dos pensadores cristãos mais profundos de sua época. Em sua obra inacabada Pensées (Pensamentos), refletiu sobre a condição humana, essa estranha mistura de grandeza e miséria. Daí nasceu sua metáfora célebre: “O homem é um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante.”, ou seja, somos frágeis como a erva, mas dotados de consciência, e é nesse pensamento que reside toda a nossa dignidade.