O advérbio é a luz que não muda a
paisagem, mas muda inteiramente a maneira de vê-la. Edson
Pinto
Aprendi
o que era um advérbio numa idade em que tinha coisas muito mais importantes com
que me preocupar. Havia recreios, bolas, colegas, provas, férias e uma
quantidade considerável de meninas que começavam a tornar a gramática
portuguesa um assunto de importância bastante relativa.
A
professora explicava que advérbio era a palavra que modificava o verbo, o
adjetivo ou outro advérbio, acrescentando-lhe uma circunstância de tempo, modo,
lugar, intensidade, afirmação, negação ou dúvida. Anotei tudo
disciplinadamente. Talvez tenha até acertado a questão na prova. Depois disso,
guardei o advérbio numa dessas gavetas mentais onde depositamos os
conhecimentos escolares que julgamos não voltar a encontrar.
Enganei-me.
Hoje,
depois de muitos anos de convivência com as palavras nos meus livros e no meu blog,
e de uma convivência ainda mais longa com a vida, começo a suspeitar que aquela
professora tentava me ensinar muito mais do que gramática. Eu é que era jovem
demais para perceber. A juventude tem esse pequeno defeito. Aprende depressa
aquilo que ainda não tem idade para compreender.
Sabemos
o significado de “sempre” antes de termos vivido tempo suficiente para
desconfiar dele. Dizemos “nunca” com uma segurança que somente os jovens
possuem. Pronunciamos “amanhã” como se tivéssemos assinado contrato de
propriedade sobre o futuro. E usamos “talvez” apenas quando estamos em dúvida,
sem imaginar que, muitos anos depois, descobriremos que boa parte da existência
cabe exatamente dentro dele.
O
substantivo, reconheço, é importante. Dá nome ao mundo. Casa, rio, árvore,
homem, mulher, saudade. Sem ele, andaríamos por aí apontando para as coisas.
O
verbo é ainda mais atrevido. Faz o mundo funcionar. Nascer, correr, trabalhar,
amar, partir, voltar. Sem verbos, a humanidade seria uma fotografia.
O
adjetivo chega depois e começa a distribuir opiniões. A casa é bonita, o rio é
tranquilo, a árvore é antiga, o homem é sábio, a mulher é encantadora. O
adjetivo tem algo de crítico literário. Nada lhe basta existir. É preciso
qualificá-lo.
Então
aparece o advérbio. Discreto, quase modesto, aproxima-se do verbo e cochicha
uma circunstância. Não basta amar. Pode-se amar profundamente. Não basta
esperar. Pode-se esperar pacientemente. Não basta partir. Pode-se partir
cedo. Não basta chegar. Pode-se chegar tarde.
E
descobri, com certo atraso, que a vida talvez esteja menos nos verbos do que
nos advérbios que os acompanham. Todos vivemos. A questão é como. Todos
partiremos. A questão é quando. Todos estamos em algum lugar. A questão
é onde. E todos desejamos alguma coisa. A questão, frequentemente, é quanto.
A gramática chama isso de circunstância. A filosofia talvez chamasse de
existência. Há advérbios que, vistos da maturidade, adquiriram para mim uma
grandeza que os livros escolares jamais conseguiram revelar.
Quase, por exemplo. Que palavra perigosa. Quase
fui. Quase disse. Quase consegui. Quase voltei. Quase amei. Há vidas inteiras
escondidas dentro de um quase. Ele é uma espécie de varanda da realização.
Chegamos até ali, vemos a paisagem, mas não entramos na casa.
Nunca é diferente. Nunca é um sujeito
autoritário. Apaga a luz, fecha a porta e ainda leva a chave. Talvez por isso
devêssemos pronunciá-lo com mais cautela. A vida possui certa predileção por
desmentir quem diz nunca.
Sempre não é muito melhor. É romântico,
exagerado e irresponsável. Faz promessas eternas com a facilidade de quem não
será chamado a prestar contas depois de cinquenta anos.
Já
o talvez me parece mais sábio. Quando jovem, eu o considerava hesitante.
Hoje o considero prudente. Talvez conhece a fragilidade das certezas humanas.
Sabe que o futuro não costuma consultar nossos planos antes de acontecer. Há
alguma coisa de filósofo cético nesse pequeno advérbio.
Mas
há um de que gosto especialmente.
Ainda.
Ainda é uma palavra
que a juventude desperdiça porque possui futuro demais para precisar dela. É
somente depois que o calendário acumula páginas que começamos a compreender sua
delicadeza. Ainda caminho. Ainda penso. Ainda me surpreendo. Ainda tenho
curiosidade. Ainda espero. Ainda escrevo. O “ainda” não nega o tempo. Ao
contrário, reconhece-o. Sabe que muita coisa passou, mas recusa-se educadamente
a admitir que tudo tenha passado.
Talvez
seja por isso que hoje compreendo melhor aquela velha definição da professora.
O advérbio modifica o verbo, o adjetivo e até outro advérbio. Passou a vida
inteira modificando também a mim, sem que eu percebesse. Aos poucos, fui
aprendendo que não basta viver. É preciso perceber como vivemos. Não
basta saber onde chegamos. Convém lembrar de onde viemos. Não basta
perguntar quanto tempo nos resta. Talvez seja mais importante perguntar com que
intensidade habitaremos o tempo que temos.
Curioso.
Precisei envelhecer para compreender uma aula de português da infância. Se
encontrasse hoje aquela professora, talvez lhe dissesse que finalmente aprendi
o advérbio. Ela provavelmente perguntaria se demorei tanto assim. Eu
responderia:
—
Demorei.
E,
depois de pensar um pouco, acrescentaria o advérbio que explica quase toda a
minha relação com a vida:
—
Muito.
Edson Pinto
Agosto,
2026
