11 de set. de 2026

388) O FIO DA EMBIRA

 

Como de costume, tomava café com minha mãe. Aos 97 anos, ela conserva uma relação com as palavras que talvez nós, mais novos, estejamos perdendo. Entre um gole e outro, costuma temperar a conversa com ditados. Alguns conheço desde menino. “Quem não tem cão caça com gato”, “De grão em grão a galinha enche o papo”, “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Nada que provocasse espanto. Até aquele café.

Falávamos de alguém que atravessava uma fase difícil quando minha mãe comentou, com a naturalidade de quem informa que vai chover:

— Fulano está a lamber embira.

Parei com a xícara a meio caminho.

-— Lamber o quê?

— Embira.

Confesso que já ouvi muita coisa nesta vida, inclusive algumas que teria preferido não ouvir, mas nunca soubera de alguém condenado a lamber embira. Minha primeira providência foi descobrir o que significava aquilo. Aprendi que embira é o nome dado à fibra retirada da casca de certas plantas e utilizada, entre outras coisas, para fazer cordas. E que “lamber embira” é expressão antiga para designar quem passa necessidade, está sem recursos, quase na miséria.

Minha mãe sabia disso sem consultar dicionário algum. Foi então que percebi que, sentado àquela mesa de café, eu não estava apenas conversando com ela. Estava diante de uma pequena biblioteca de tradição oral. Os ditados populares são livros que desistiram das páginas. Viajam de boca em boca, atravessam gerações, mudam de cidade, às vezes trocam uma palavra pelo caminho e continuam carregando aquilo que talvez seja uma das formas mais antigas de conhecimento humano, a experiência.

Não sabemos quem foi o primeiro homem a descobrir que “quem semeia ventos colhe tempestades”. Provavelmente aprendeu da pior maneira. Também desconhecemos quem concluiu que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Suspeito que tenha perdido os três. Alguém precisou descobrir que “as aparências enganam”, outro percebeu que “a pressa é inimiga da perfeição”, e certamente houve quem chegasse tarde demais para compreender que “cavalo encilhado não passa duas vezes”. Depois vieram os outros e transformaram essas pequenas tragédias particulares em patrimônio coletivo. Talvez seja essa a genialidade dos ditados. Eles nos permitem aprender com os tombos de pessoas que nunca conhecemos.

A filosofia costuma precisar de tratados. O povo, mais econômico, prefere uma frase. Séculos de reflexão sobre perseverança cabem em “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Uma aula inteira sobre prudência pode ser substituída por “é melhor prevenir do que remediar”. Para ensinar responsabilidade pelas próprias escolhas, basta lembrar que “quem semeia ventos colhe tempestades”. E, se quisermos advertir alguém contra julgamentos precipitados, “quem vê cara não vê coração” resolve o problema antes que o filósofo termine a introdução. Não significa, evidentemente, que os ditados estejam sempre certos. Aliás, o povo teve a prudência de criar um ditado para cada lado da questão.

“Quem espera sempre alcança”, recomenda um. “Deus ajuda quem cedo madruga”, responde outro.

“A união faz a força”, aconselha um.  “Antes só do que mal acompanhado”, adverte outro.

“Nunca é tarde para começar”, consola um. “Cavalo encilhado não passa duas vezes”, apressa outro.

Se alguém quiser organizar os ditados populares num sistema filosófico perfeitamente coerente, talvez acabe precisando de outro ditado, “cada cabeça, uma sentença”. Essa aparente contradição, porém, não diminui sua sabedoria. Ao contrário. Mostra que a vida raramente cabe numa regra única. Há momentos em que é preciso esperar e outros em que é preciso madrugar. Há ocasiões para insistir e ocasiões para desistir. Às vezes devemos guardar o pássaro que está na mão. Em outras, talvez seja justamente necessário soltá-lo.

O verdadeiro conhecimento não está apenas em decorar o ditado. Está em saber quando ele serve. Talvez por isso essas frases tenham sobrevivido durante tanto tempo. Elas não nasceram em gabinetes, universidades ou academias. Foram sendo polidas pela experiência cotidiana, na roça, nas cozinhas, nas vendas, nas oficinas, nas ruas, nas conversas de família. Cada geração recebeu algumas, acrescentou outras e entregou o conjunto à seguinte.

Hoje fazemos isso menos. Temos buscadores, redes sociais, vídeos, inteligência artificial e uma quantidade de informação que nossos antepassados jamais poderiam imaginar. Podemos descobrir em segundos a distância entre a Terra e Saturno e, ainda assim, talvez demoremos uma vida inteira para compreender que “nem tudo que reluz é ouro”. A tecnologia aumentou extraordinariamente nossa capacidade de encontrar respostas. Não necessariamente nossa capacidade de fazer boas perguntas.

Os ditados pertencem a outro ritmo. São filhos de um tempo em que a experiência precisava ser guardada na memória porque não havia onde pesquisá-la. Para sobreviver, o conselho tinha de ser curto, sonoro e fácil de repetir. Talvez por isso tantos tenham chegado até nós. Outros, entretanto, começam a desaparecer.

E foi novamente para minha mãe que olhei. Aos 97 anos, ela guarda expressões que ouviu de pessoas que, por sua vez, as ouviram de outras pessoas. Algumas talvez tenham atravessado um século antes de chegar àquela mesa de café. Não sei quem ensinou a minha mãe que alguém em dificuldades estava “a lamber embira”. Talvez ela própria já não se lembre. E isso pouco importa. A tradição oral não costuma fornecer recibo. Ela apenas entrega.

Foi impossível não me lembrar de Luís da Câmara Cascudo, que dedicou boa parte da vida a recolher justamente essas coisas aparentemente pequenas que o povo diz, repete e transmite. Cascudo compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos livros, nos monumentos ou nos grandes acontecimentos históricos. Mora também nas histórias contadas à mesa, nas superstições, nas cantigas, nas expressões e nos ditados que passam de uma geração para outra sem que ninguém saiba ao certo quem os inventou. Talvez por isso tenha levado tão a sério aquilo que muitos consideravam apenas conversa de gente antiga. Sabia que, quando uma expressão popular desaparece, não perdemos somente algumas palavras. Perdemos também um jeito de compreender o mundo.

De repente compreendi que preservar esses ditados não é apenas conservar curiosidades linguísticas. É preservar uma determinada maneira de observar a vida. Dentro deles estão o medo da pobreza, a importância do trabalho, a prudência diante do risco, a esperança, a desconfiança, o amor, a amizade, a paciência e até uma certa resignação diante daquilo que não podemos mudar. Há neles ingenuidade, preconceitos de outras épocas e conselhos que o tempo tornou discutíveis. Convém não transformar a sabedoria popular em escritura sagrada. O povo também erra. Ainda assim, impressiona perceber quanta experiência humana cabe em tão poucas palavras. Talvez pudéssemos ser um pouco mais felizes se prestássemos atenção a algumas delas. Não porque nossos antepassados soubessem todas as respostas, mas porque já haviam cometido muitos dos erros que continuamos cometendo com extraordinária originalidade.

Terminei o café pensando nisso.

Minha mãe provavelmente nem percebeu a pequena revolução filosófica que provocara. Para ela, alguém estava simplesmente a lamber embira. Para mim, aquela embira tinha se transformado num fio. Um fio muito antigo, vindo de pessoas que não conheci, passando pela memória de minha mãe e chegando até mim. Talvez tradição seja exatamente isso. Segurar o fio antes que ele se rompa.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

4 de set. de 2026

387) AS MULHERES DEIXARAM ATENAS?

 

Outro dia, ouvi novamente a velha canção de Chico Buarque e Augusto Boal, Mulheres de Atenas. Bastaram os primeiros versos para que voltassem à memória aquelas mulheres  habitantes de uma cidade celebrada como berço da democracia, embora essa democracia tivesse o curioso hábito de deixar as mulheres do lado de fora.

Na Atenas antiga, a mulher livre podia ser respeitada dentro de casa e praticamente inexistir fora dela. Não votava, não participava das decisões políticas e vivia submetida a uma ordem construída essencialmente pelos homens. Atenas inventou a democracia. Apenas esqueceu de convidar as mulheres para a inauguração.

Em 1976, Chico e Boal recuperaram aquela imagem. A canção recomendava, ironicamente, que as mulheres se mirassem no exemplo das atenienses, que viviam para os maridos, esperavam, sofriam e se submetiam. Ao recomendar o exemplo, os autores revelavam o absurdo dele. Cinquenta anos se passaram. Onde estão hoje as mulheres de Atenas?

Procurei-as nas universidades e encontrei professoras e pesquisadoras. Nos hospitais, médicas e cirurgiãs. Nos tribunais, advogadas, juízas e ministras. Nas empresas, executivas, engenheiras e empresárias. Até na política as encontrei, embora ainda em número menor do que seria razoável. Talvez, pensei, finalmente tenham deixado Atenas.

Mas bastou olhar um pouco melhor. Encontrei uma mulher saindo do trabalho e telefonando para saber quem buscaria o filho na escola. Outra encerrava uma reunião pensando no jantar. Uma terceira, depois de uma jornada inteira fora de casa, começava outra dentro dela. O marido ajudava. A palavra me incomodou.

Ajudava?

Quem ajuda participa de uma responsabilidade que, aparentemente, pertence a outra pessoa. Talvez Atenas estivesse escondida justamente ali, dentro do verbo. É evidente que o caminho percorrido foi enorme. As mulheres conquistaram autonomia, direitos e espaços que durante séculos lhes foram negados. Seria absurdo ignorar essa transformação. O problema é que mudamos as leis mais depressa do que mudamos os costumes. E os costumes mais depressa do que certas expectativas que carregamos quase sem perceber.

Uma menina hoje pode sonhar em ser presidente, cientista, astronauta ou empresária. Isso é extraordinário. Restam perguntas bem menos extraordinárias: Quando ela voltar para casa, quem lavará a louça? As mulheres deixaram Atenas? Em grande medida, sim. Só não tenho certeza de que Atenas tenha deixado completamente as mulheres. Ou, pensando melhor, talvez Atenas ainda não tenha deixado completamente nenhum humano, porque certas cidades desaparecem dos mapas muito antes de desaparecerem dos costumes.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

28 de ago. de 2026

386) O BARÃO E SEUS DISCÍPULOS

 

Hieronymus Karl Friedrich von Münchhausen nasceu na Alemanha no século XVIII e teve uma vida que, ao que tudo indica, foi bem menos extraordinária do que aquela que resolveu contar. Militar e extraordinário contador de histórias, tornou-se célebre pelos relatos que fazia em rodas de amigos, nos quais a realidade entrava pela porta e, poucos minutos depois, saía pela janela.

Em suas aventuras, viajou montado numa bala de canhão, foi à Lua, encontrou um cervo com uma cerejeira crescendo entre os chifres e chegou a salvar a si próprio e ao cavalo de um pântano puxando-se pelos cabelos. Arquimedes precisou de um ponto de apoio para mover o mundo. Ao Barão bastou-lhe a própria cabeleira. Suas histórias foram transformadas em literatura, principalmente por Rudolf Erich Raspe, e Münchhausen acabou emprestando seu nome à posteridade como sinônimo de exagero e mentira deslavada.

Talvez tenhamos sido injustos com ele. O Barão mentia, é verdade. Entretanto, havia em suas mentiras um contrato silencioso. Ele sabia que estava mentindo, o ouvinte também sabia e, provavelmente, o Barão sabia que o ouvinte sabia. Estavam todos de acordo. A mentira era uma brincadeira. O problema é que os séculos passaram e a mentira descobriu novas profissões. Uma delas foi a política.

Não que a política tenha inventado a mentira. Seria atribuir-lhe uma originalidade que certamente não merece. A mentira provavelmente nasceu poucos minutos depois da linguagem, quando o primeiro homem descobriu que poderia usar as palavras não apenas para contar o que acontecera, mas aquilo que lhe convinha que os outros acreditassem ter acontecido.

Foi então que o velho Barão ganhou discípulos. A diferença é que Münchhausen queria arrancar uma gargalhada. Seus sucessores pretendem arrancar um voto. E ganharam ferramentas que o mestre jamais possuiu. O Barão tinha uma mesa, alguns amigos e sua imaginação. Seus discípulos têm microfones, televisão e redes sociais. Uma falsidade pode ser repetida milhares de vezes antes que alguém tenha tempo de perguntar se é verdadeira. Ainda assim, talvez estejamos sendo injustos também com as máquinas. Máquinas não acreditam. Nós acreditamos.

E aí começa a parte menos confortável da história. Nem sempre somos enganados porque alguém mente muito bem. Às vezes somos enganados porque alguém mente exatamente aquilo que gostaríamos que fosse verdade. A mentira política conhece nossos medos, nossas raivas e nossos ressentimentos. Se fala mal de quem já não apreciamos, melhor ainda. Nossa exigência de provas diminui na mesma proporção em que aumenta nossa vontade de compartilhar. Uma pessoa repete. Dez compartilham. Mil comentam. Um milhão acredita. E a mentira ganha aquilo que nenhuma mentira deveria possuir: uma multidão.

Imagino então o velho Münchhausen diante de alguns discursos contemporâneos. A princípio sorriria. Depois ficaria admirado. Por fim, talvez sentisse inveja. Passara a vida aperfeiçoando a arte do exagero e descobriria, mais de dois séculos depois, que havia se tornado um amador.

Há, porém, uma diferença fundamental. Münchhausen precisava tornar suas mentiras inacreditáveis para que fossem engraçadas. Seus discípulos precisam torná-las acreditáveis para que sejam úteis. Talvez por isso, depois de conhecer nossos palanques e redes sociais, o Barão resolvesse regressar ao século XVIII. Montaria em seu cavalo, ajeitaria o casaco e lançaria um último olhar para nós. Não sei se estaria decepcionado com os políticos. Suspeito que estaria mais preocupado conosco. Afinal, durante toda a vida ele contou mentiras monumentais e teve a delicadeza de não exigir que ninguém acreditasse nelas.  Antes de partir, balançaria a cabeça e diria:

— Meus senhores, também não precisava exagerar tanto.

 

Edson Pinto

Agosto, 2026

21 de ago. de 2026

385) A VIDA EM ADVÉRBIOS

 O advérbio é a luz que não muda a paisagem, mas muda inteiramente a maneira de vê-la. Edson Pinto

Aprendi o que era um advérbio numa idade em que tinha coisas muito mais importantes com que me preocupar. Havia recreios, bolas, colegas, provas, férias e uma quantidade considerável de meninas que começavam a tornar a gramática portuguesa um assunto de importância bastante relativa.

A professora explicava que advérbio era a palavra que modificava o verbo, o adjetivo ou outro advérbio, acrescentando-lhe uma circunstância de tempo, modo, lugar, intensidade, afirmação, negação ou dúvida. Anotei tudo disciplinadamente. Talvez tenha até acertado a questão na prova. Depois disso, guardei o advérbio numa dessas gavetas mentais onde depositamos os conhecimentos escolares que julgamos não voltar a encontrar.

Enganei-me.

Hoje, depois de muitos anos de convivência com as palavras nos meus livros e no meu blog, e de uma convivência ainda mais longa com a vida, começo a suspeitar que aquela professora tentava me ensinar muito mais do que gramática. Eu é que era jovem demais para perceber. A juventude tem esse pequeno defeito. Aprende depressa aquilo que ainda não tem idade para compreender.

Sabemos o significado de “sempre” antes de termos vivido tempo suficiente para desconfiar dele. Dizemos “nunca” com uma segurança que somente os jovens possuem. Pronunciamos “amanhã” como se tivéssemos assinado contrato de propriedade sobre o futuro. E usamos “talvez” apenas quando estamos em dúvida, sem imaginar que, muitos anos depois, descobriremos que boa parte da existência cabe exatamente dentro dele.

O substantivo, reconheço, é importante. Dá nome ao mundo. Casa, rio, árvore, homem, mulher, saudade. Sem ele, andaríamos por aí apontando para as coisas.

O verbo é ainda mais atrevido. Faz o mundo funcionar. Nascer, correr, trabalhar, amar, partir, voltar. Sem verbos, a humanidade seria uma fotografia.

O adjetivo chega depois e começa a distribuir opiniões. A casa é bonita, o rio é tranquilo, a árvore é antiga, o homem é sábio, a mulher é encantadora. O adjetivo tem algo de crítico literário. Nada lhe basta existir. É preciso qualificá-lo.

Então aparece o advérbio. Discreto, quase modesto, aproxima-se do verbo e cochicha uma circunstância. Não basta amar. Pode-se amar profundamente. Não basta esperar. Pode-se esperar pacientemente. Não basta partir. Pode-se partir cedo. Não basta chegar. Pode-se chegar tarde.

E descobri, com certo atraso, que a vida talvez esteja menos nos verbos do que nos advérbios que os acompanham. Todos vivemos. A questão é como. Todos partiremos. A questão é quando. Todos estamos em algum lugar. A questão é onde. E todos desejamos alguma coisa. A questão, frequentemente, é quanto. A gramática chama isso de circunstância. A filosofia talvez chamasse de existência. Há advérbios que, vistos da maturidade, adquiriram para mim uma grandeza que os livros escolares jamais conseguiram revelar.

Quase, por exemplo. Que palavra perigosa. Quase fui. Quase disse. Quase consegui. Quase voltei. Quase amei. Há vidas inteiras escondidas dentro de um quase. Ele é uma espécie de varanda da realização. Chegamos até ali, vemos a paisagem, mas não entramos na casa.

Nunca é diferente. Nunca é um sujeito autoritário. Apaga a luz, fecha a porta e ainda leva a chave. Talvez por isso devêssemos pronunciá-lo com mais cautela. A vida possui certa predileção por desmentir quem diz nunca.

Sempre não é muito melhor. É romântico, exagerado e irresponsável. Faz promessas eternas com a facilidade de quem não será chamado a prestar contas depois de cinquenta anos.

Já o talvez me parece mais sábio. Quando jovem, eu o considerava hesitante. Hoje o considero prudente. Talvez conhece a fragilidade das certezas humanas. Sabe que o futuro não costuma consultar nossos planos antes de acontecer. Há alguma coisa de filósofo cético nesse pequeno advérbio.

Mas há um de que gosto especialmente.

Ainda. Ainda é uma palavra que a juventude desperdiça porque possui futuro demais para precisar dela. É somente depois que o calendário acumula páginas que começamos a compreender sua delicadeza. Ainda caminho. Ainda penso. Ainda me surpreendo. Ainda tenho curiosidade. Ainda espero. Ainda escrevo. O “ainda” não nega o tempo. Ao contrário, reconhece-o. Sabe que muita coisa passou, mas recusa-se educadamente a admitir que tudo tenha passado.

Talvez seja por isso que hoje compreendo melhor aquela velha definição da professora. O advérbio modifica o verbo, o adjetivo e até outro advérbio. Passou a vida inteira modificando também a mim, sem que eu percebesse. Aos poucos, fui aprendendo que não basta viver. É preciso perceber como vivemos. Não basta saber onde chegamos. Convém lembrar de onde viemos. Não basta perguntar quanto tempo nos resta. Talvez seja mais importante perguntar com que intensidade habitaremos o tempo que temos.

Curioso. Precisei envelhecer para compreender uma aula de português da infância. Se encontrasse hoje aquela professora, talvez lhe dissesse que finalmente aprendi o advérbio. Ela provavelmente perguntaria se demorei tanto assim. Eu responderia:

— Demorei.

E, depois de pensar um pouco, acrescentaria o advérbio que explica quase toda a minha relação com a vida:

Muito.

 

Edson Pinto

Agosto, 2026

14 de ago. de 2026

384) O MEU PRÓPRIO B-612

Quando li pela primeira vez O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry, eu era um menino sério, daqueles que tentam, ao contrário do personagem filosófico do livro, desenhar jiboias por dentro, mas acabam se contentando com elefantes por fora.

Publicado em 1943, em meio a um mundo em guerra, o livro atravessa o tempo como um sussurro cheio de ternura. Sob a aparência de um conto infantil, abriga em suas páginas uma das mais delicadas e profundas meditações sobre a vida, o amor, a amizade e o sentido da existência. Arrisco-me até mesmo a dizer que é só na maturidade que nos encontramos em plenitude para compreendê-lo.

Fiquei intrigado com aquele tal Planeta B-612, pequeno, solitário e cheio de significado. O que me espantou não foi o planeta em si, mas a revelação de que cada um de nós carrega o próprio B-612 dentro do peito. Só que, ao contrário do Pequeno Príncipe, que vivia com sua rosa e três vulcões, o meu planeta tinha outras coordenadas, e outras rosas também...

O meu B-612 fica entre a fictícia Vila dos Ventos e o bairro do Caiçara, em Belo Horizonte, onde passei minha infância e juventude. Esses dois lugares remetem a dois de meus livros, O Resgate do Tempo Perdido e Memórias do Caiçara. Estão, portanto, fora do alcance de telescópios modernos, embora qualquer menino com um pouco de saudade seja capaz de enxergá-lo. Não se encontra em mapas celestes, mas mora nos desvios da memória, onde a infância resolveu se esconder.

Na Terra, tenho nome, CPF, compromissos, sentimentos, dores, memórias, mas, no meu planeta fictício, sou apenas o menino que se lembra demais, como se a lembrança fosse um tipo de combustível cósmico. Lá, também, a fictícia Vila dos Ventos continua intocada. O sino da igreja ainda toca como se anunciasse o retorno dos que nunca voltam. E a praça? Ah, a praça ainda abriga encontros no banco perto do coreto e histórias que a memória conserva melhor que  o cheiro de pão de queijo saído do forno.

No Caiçara de minhas memórias, meu pai ainda caminha com as mãos nos bolsos e chapéu de feltro. Os ex-combatentes, que até recentemente ainda estavam por aqui, mas já partiram todos, contavam histórias que misturavam a Segunda Guerra com o nascimento do bairro, como se Monte Castelo e o Caiçara fossem vizinhos de muro. No planeta, Laurinha ainda penteia os cabelos na varanda. E juro que ela me olha. Não com os olhos da infância, mas com aqueles que dizem: “Era você o tempo todo, seu distraído!”

Tenho também três vulcões, embora o terceiro só entre em erupção quando ouço certas músicas ou sinto o cheiro de cadernos antigos. Tenho a minha própria rosa. Companheira fiel, sensível, com seus espinhos e exigências, como toda rosa que se preze. Dedico a ela rega constante de boas lembranças, adubo de palavras carinhosas e ausência de vento. Mesmo quando esqueço de cuidar, ela insiste em florir. Talvez seja amor, talvez seja teimosia vegetal,  ou talvez porque, antes de partir, tenha plantado sementes no nosso jardim.

A vida no B-612 não exige documentos. Apenas silêncio, tempo e um pouco de coragem para se comover. Lá, os pores de sol obedecem à emoção do dia: se a saudade é grande, eles se repetem até que eu me acalme. Já assisti a doze deles de uma só vez. E, em todos, ouvi o mesmo sussurro: “O essencial é invisível aos olhos.”

Volto ao meu planeta quando posso. Às vezes, uma palavra me leva. Outras, um cheiro. Às vezes, basta uma tarde em que o mundo parece não fazer sentido. E então lá estou, sentado numa cadeira imaginária, contemplando o que só existe porque um dia existiu. Os adultos diriam que esse planeta é invenção. Que não existe. Que é escapismo, romantismo, delírio literário. Talvez…

Aprendi com a raposa, não com aquela que habita os arredores da Pampulha, pois sou atleticano de fé, que só conhecemos bem aquilo que nos cativa. Fui cativado. Pela Vila dos Ventos, pela rosa que me desafiava com seus espinhos, pelas ruas numeradas e calçadas de pedras irregulares do Caiçara, pelas mulheres que passaram pela minha vida, pelos silêncios do meu pai e pelas palavras que nunca disse, mas que ecoam em mim como se fossem um idioma secreto.

O meu B-612 é isso: um planetinha só meu, onde as dores são pequenas, os afetos têm nome e os pores de sol sabem esperar. É desse pequeno planeta que nascem muitas das crônicas que eu publico em meu blog. Cada texto é uma pedra, uma flor, uma estrela ou um pôr do sol do meu planetinha. Quem quiser pousar está convidado. Não precisa traje espacial.

Basta trazer o coração desarmado.

 Edson Pinto

Agosto, 2026



7 de ago. de 2026

383) A INTELIGÊNCIA E SUAS FERRAMENTAS

Há uma curiosa ilusão que parece acompanhar todas as grandes invenções da humanidade. Sempre que surge uma nova ferramenta, alguém anuncia o fim do mérito humano. Foi assim com a escrita, com a imprensa, com a máquina de calcular, com o computador e, agora, com a inteligência artificial. Como se o valor de uma obra estivesse na dificuldade do instrumento utilizado, e não na grandeza da ideia que lhe deu origem.

A história, entretanto, conta uma versão bem diferente: Nenhum grande criador trabalhou sozinho. Cada geração recebeu como herança o conhecimento acumulado pelas anteriores e, sobre esse alicerce, construiu novos horizontes. Newton reconheceu que enxergava mais longe porque estava sobre os ombros de gigantes. Einstein desenvolveu sua teoria apoiando-se na matemática, na física e nas descobertas de muitos outros pesquisadores. Cervantes escreveu utilizando uma língua que levou séculos para se formar. Beethoven compôs ao piano. Nenhum deles começou do zero. Nenhum precisou renunciar às ferramentas disponíveis para provar o próprio talento.

Talvez resida aí um dos maiores equívocos de nosso tempo. Confundimos, por vezes, o valor da inteligência com a simplicidade dos instrumentos de que ela dispõe. Esquecemos que a criatividade nunca nasceu do isolamento, mas do diálogo permanente entre a mente humana e os recursos que ela própria inventa.

A inteligência artificial é apenas o capítulo mais recente dessa longa história. Ela não cria sensibilidade onde ela não existe. Não produz discernimento em quem nunca o cultivou. Não substitui experiência, imaginação, caráter ou sabedoria. Essas continuam sendo conquistas exclusivamente humanas. O que ela faz é ampliar possibilidades.

Nas mãos de um pesquisador, pode acelerar descobertas. Nas de um professor, enriquecer o aprendizado. Nas de um escritor, ajudar a organizar ideias que já estavam em gestação. Nas de um artista, abrir novos caminhos para a criação. Mas nenhuma dessas realizações pertence à máquina. Continuam pertencendo ao ser humano que pergunta, escolhe, interpreta, aceita ou rejeita cada sugestão. Toda ferramenta amplia capacidades, mas nenhuma substitui a inteligência que lhe dá direção.

É verdade que a inteligência artificial também traz riscos. Como toda inovação poderosa, pode ser usada para manipular, desinformar, copiar, vigiar ou produzir dependência intelectual. Ignorar esses perigos seria ingenuidade. Mas condenar uma tecnologia apenas porque ela pode ser mal utilizada seria esquecer que quase todas as grandes invenções da história carregaram a mesma ambivalência. A imprensa difundiu conhecimento e propaganda. A química produziu medicamentos e venenos. A energia nuclear iluminou cidades e destruiu outras. O problema nunca esteve apenas nas ferramentas. Sempre esteve, sobretudo, nas mãos que as conduzem.

A verdadeira questão não é saber se devemos utilizar a inteligência artificial. A pergunta mais importante é outra. Estamos preparando pessoas capazes de utilizá-la com responsabilidade, espírito crítico e criatividade? As ferramentas mudam. O desafio humano permanece.

Cada época exige competências diferentes. Houve um tempo em que o mérito estava em memorizar informações. Depois, em encontrá-las rapidamente. Hoje, começa a estar na capacidade de formular boas perguntas, distinguir o verdadeiro do falso, estabelecer relações inesperadas e produzir ideias que nenhuma máquina é capaz de viver antes de escrever. A inteligência artificial pode organizar palavras, mas não vive nossas experiências. Não sofre nossas perdas. Não conhece nossos afetos. Não constrói nossa consciência. Ela amplia a voz. Não cria a alma.

Faz, então, sentido que não veja a inteligência artificial como uma ameaça à inteligência humana, mas como um espelho. Ela torna mais evidente aquilo que sempre esteve diante de nós. Ferramentas nunca produziram gênios. Apenas revelaram, com mais clareza, o que cada pessoa era capaz de fazer com elas.

A história raramente sorriu para aqueles que recusaram olhar pelo telescópio, abrir um livro recém-impresso ou ligar um computador. Em geral, ela avançou graças aos que tiveram coragem de experimentar, aprender e seguir adiante. Talvez esteja acontecendo exatamente a mesma coisa diante de nossos olhos.

 Edson Pinto

Agosto, 2026

31 de jul. de 2026

382) OLHOS LONGES

 

Eu, da minha janela, fito o Rio Verde que corre ali adiante. Não me perguntem por que sempre acabo diante dele, como se a água tivesse mais respostas que os homens. Talvez seja porque o rio, com sua pressa disfarçada de calma, me empresta a metáfora de meus próprios pensamentos: sempre a correr, mas fingindo que repousam. Foi assim que percebi os meus, e, ouso acreditar, também os seus: "olhos longes".

Não são olhos míopes, tampouco cegos. São olhos que enxergam, mas não se contentam em ver o que está posto. Enquanto a cabeça geme de memórias e o café esfria na xícara, eles se projetam para o ontem e para o amanhã, como se o presente fosse apenas uma escada entre dois andares mais interessantes.

De minha parte, confesso: tenho-os.  Os “olhos longes” são meus companheiros. Não raro, em vez de água, vejo os meninos que fomos, correndo descalços à beira do tempo. Outras vezes, olho o mesmo rio e, não sei como, já avisto meus netos correndo adiante de mim, navegando em barcos de papel, que serão absorvidos pela primeira chuva.

E assim vou, com os “olhos longes”: ora ancorados na infância, ora vagueando pelo futuro, e quase nunca assentados no agora, como seria mais prudente. A prudência, aliás, é coisa que se perde justamente nos “olhos longes”. Eles não obedecem a convenções, preferem vagar.

Machado de Assis, se aqui estivesse, riria de minha fraqueza. Diria que, se me faltam respostas no presente, invento-as no passado ou no futuro. E não estaria errado. Eu, sem lhe pedir licença, retruco: se é verdade que os “olhos longes” nos afastam da realidade, também é verdade que nos salvam dela.

Se o amigo me perguntar de onde tirei esses tais “olhos longes”, direi que não os inventei: apenas os encontrei em mim mesmo e, quem sabe, também nos outros. São herança da literatura e da vida. Drummond os usou para enxergar Itabira quando já estava longe de Itabira; Cecília, para ver a claridade que não era do dia, mas da eternidade; e Machado, sempre desconfiado, talvez preferisse chamá-los de olhos vagos, talvez temendo que neles se escondesse um segredo de amor ou de filosofia.

Penso afinal concluir, caros amigos, que “olhos longes” sejam como rios: às vezes, não se  sabe exatamente onde começam nem onde acabam. Apenas seguem, carregando consigo o passado, o futuro e esse presente que, de tão breve, já se despede no instante em que piscamos.

Edson Pinto

Julho, 2026

 

Nota do autor:

Olhos Longes, Olhos Lointains: Há palavras que viajam mais do que a gente. O longe, por exemplo, começou discreto, um simples advérbio latino, longe, significando “à distância”.  Servia para dizer que a coisa não estava aqui, mas acolá. Nada demais, até que os poetas resolveram dar-lhe uma segunda vida. De advérbio obediente, virou substantivo rebelde: “os longes”. Pronto, em vez de uma única distância, surgiram horizontes múltiplos, miragens infinitas. Não fomos só nós, lusófonos, que tivemos esse capricho. Do outro lado do Atlântico, os franceses já falavam em “les lointains”. Victor Hugo suspirava nos lointains bleus du rêve, Verlaine deixava que os lointains se desfizessem em música, e Baudelaire via perfumes e sons confundirem-se “de loin”. Tudo muito parisiense, nebuloso e elegante. E cá deste lado, Olavo Bilac correu “países longes”, Cecília Meireles pediu aos cavalos do vento que a levassem a “longes verdes”. Pessoa escutou também “os longes” chamando por ele. Não era plágio, mas ressonância. O simbolismo francês sussurrava em francês, e nós respondíamos em português. E eis que surge a expressão “olhos longes”. Não é mero deslize gramatical, mas um atestado poético: olhos que não estão aqui, mas espalhados em mil horizontes. Olhos que contemplam lembranças, saudades, esperanças, tudo ao mesmo tempo. Singular seria pouco; a alma precisa de plural.  Dirá o gramático: “Mas por que não ‘olhos longe’?”. Ao que responde o poeta: “Porque só os ‘olhos longes’ conseguem olhar o que não existe ainda, e ainda assim enxergar.” E talvez seja isso: quando dizemos “olhos longes”, estamos falando em português com um sotaque francês, ou em francês com a melancolia mineira. No fundo, estamos nomeando um estado de espírito: aquele em que o olhar atravessa fronteiras e se perde em horizontes que ninguém mais vê.

24 de jul. de 2026

381) O TEMPO QUE MORA EM NÓS

 

Tomando um café com um velho amigo, a conversa enveredou por um assunto que eu jamais imaginei encontrar fora de uma sala de aula de física. Ele me perguntou:

— Você sabe explicar esse tal de espaço-tempo de Einstein?

Sorri e respondi que não. Ou melhor, respondi que entendia apenas o suficiente para saber o quanto ainda não entendia. Ele riu. Eu também.

Voltando para casa, a pergunta continuou me acompanhando. Talvez porque alguns assuntos não terminem quando a conversa acaba. Pelo contrário. É justamente aí que começam. Resolvi procurar uma explicação. Descobri que, segundo Einstein, espaço e tempo não são duas coisas independentes. Formam uma única estrutura. Nada existe apenas em um lugar. Tudo existe também em determinado instante. O Universo não separa aquilo que nossa linguagem insiste em dividir. Confesso que a explicação científica ainda me escapa em muitos detalhes, mas, curiosamente, a metáfora me pareceu cristalina. Afinal, ninguém vive apenas no espaço. Vivemos, sobretudo, no tempo.

Duas pessoas podem estar sentadas no mesmo banco de uma praça. Aos olhos de quem passa, ocupam o mesmo espaço. No entanto, cada um traz consigo um universo invisível. Uma carrega a infância no bairro em que cresceu, o primeiro emprego, os sonhos de rapaz, os filhos que cresceram, a companheira que a vida levou cedo demais.  A outra guarda cidades, fracassos, vitórias discretas, amizades antigas e esperanças que nunca aceitaram a aposentadoria.

O banco é o mesmo. O espaço também. O tempo, jamais. Talvez seja por isso que compreender alguém seja tão difícil. Enxergamos apenas o lugar onde a pessoa está. Quase nunca percebemos o caminho que a trouxe até ali. Vemos o rosto. Não vemos as cicatrizes. Escutamos a resposta. Ignoramos as perguntas que a vida lhe fez. Julgamos um gesto. Desconhecemos a longa sequência de acontecimentos que lentamente desenhou aquele modo de ser.

Comecei então a suspeitar de que cada ser humano possui o seu próprio espaço-tempo. Somos arquivos ambulantes. Levamos conosco lugares onde já não moramos, pessoas que já partiram, alegrias que continuam iluminando a memória e tristezas que o calendário jamais conseguiu apagar. Nada disso ocupa espaço visível, mas ocupa todo o nosso tempo. Talvez seja esse o segredo da saudade. Ela não mede quilômetros. Mede anos. Uma fotografia antiga cabe na palma da mão, mas pode conter cinquenta anos de vida. Uma música dura poucos minutos, mas atravessa décadas em alguns acordes. Um perfume pode abrir uma porta que imaginávamos definitivamente fechada.

Foi então que me ocorreu que talvez o espaço e o tempo também expliquem certos encontros que a vida insiste em adiar. Há pessoas que desaparecem do nosso horizonte durante cinquenta anos. Mudam de cidade, de profissão, de sobrenome. O espelho lhes acrescenta rugas. Os cabelos embranquecem. A voz ganha outro ritmo. Tudo mudou no espaço. Nem tudo mudou no tempo. Porque existem presenças que, uma vez acolhidas pela alma, deixam de obedecer ao calendário. Permanecem silenciosas, como a luz de uma estrela que continua viajando pelo universo muito depois de a estrela já não estar onde a vemos.

Às vezes, por um desses caprichos que a vida guarda sem explicar, essas órbitas voltam a se aproximar. Não para repetir o passado. O passado é um país que não concede vistos de retorno. Mas para revelar que alguns afetos não envelhecem da mesma maneira que os corpos. Apenas encontram uma forma diferente de existir. Talvez seja essa a mais discreta vitória do tempo sobre o esquecimento.

Nesse instante compreendi que Einstein talvez tivesse descoberto muito mais do que uma lei da física. Sem o saber, ofereceu também uma bela metáfora para a existência humana. Os escritores vêm tentando dizer isso há séculos. Ninguém é apenas o corpo que ocupa um lugar. Somos também as lembranças que ocupam a alma. As escolhas que ainda ecoam. As perdas que nos ensinaram delicadeza. Os encontros que continuam produzindo sentido muito depois de terem acontecido. Envelhecer é exatamente isso. Não apenas acrescentar anos ao calendário, mas permitir que o tempo vá desenhando, silenciosamente, a geometria invisível da nossa existência.

Desde então, quando encontro alguém, procuro lembrar que diante de mim nunca está apenas uma pessoa. Está uma infância inteira. Uma juventude. Algumas derrotas. Muitos sonhos. Vários recomeços. E, quem sabe, alguns afetos que jamais deixaram de ocupar o seu lugar no espaço-tempo. É esse o mistério do espaço-tempo. O Universo aproxima os corpos. A vida decide o momento e a memória transforma algumas despedidas em permanências. Talvez seja esse o verdadeiro espaço-tempo da alma. Há pessoas que se despedem da nossa vida, mas jamais conseguem partir da nossa existência.

 

Edson Pinto

Julho, 2026