Confesso
que tenho um amigo perigoso...
Não
perigoso à ordem pública, nem à moral vigente. É uma boa alma. Na verdade,
trata-se de um perigoso somente às leis da natureza. Meu compadre Tobias carrega
consigo o vício incurável dos inventores: não aceita o mundo como ele é, apenas
como ele poderia ser se funcionasse melhor. Tobias não vê um problema, vê,
sempre e ao contrário, um protótipo mal resolvido.
Enquanto
nós, mortais comuns, ligamos a lâmpada e agradecemos à companhia elétrica, ele
se pergunta por que não acender a casa inteira com casca de banana, vento
lateral e uma boa ideia maluca. Já transformou restos orgânicos em energia, já
domou movimentos pendulares, já fez da necessidade uma oficina, e da oficina,
um laboratório de esperanças. Foi então que, num desses cafés filosóficos que a
vida nos concede sem aviso, resolvi testá-lo:
—
Compadre Tobias, disse eu, com a solenidade de quem entrega uma sentença, já que você inventa tanto, invente o moto perpétuo!
Ele
não riu. Isso já me preocupou. Coçou o queixo, olhou para o nada, lugar onde,
suspeito, moram as ideias, e respondeu com aquela calma dos homens que já
conversaram com a impossibilidade:
—
Edson, você sabe que isso é impossível.
E
começou, como bom cidadão das leis universais, a citar a conservação da
energia, a entropia, o desgaste inevitável das coisas. Falou bonito. Falou
certo. Falou como quem tem razão, mas terminou com uma frase que me arrepiou:
—
…mas eu posso pensar.
E
aí está o perigo. O homem que aceita a impossibilidade é um homem seguro. O que
decide “pensar a respeito” é um revolucionário em repouso.
Passaram-se
dias. Compadre Tobias sumiu. Ou melhor, entrou naquele estado que os inventores
chamam de pesquisa e o resto do mundo chama de distração profunda com
ferramentas espalhadas. Encontrei-o novamente semanas depois, com um brilho nos
olhos que não prometia prudência.
—
Acho que consegui, disse.
Confesso
que recuei meio passo. Não por medo da máquina, mas das consequências
filosóficas.
—
O moto perpétuo, aquele motor de funcionamento contínuo sem gasto de energia?, perguntei.
—
Sim. Pelo menos, uma aproximação prática.
E então ele me levou até sua casa. Não era uma oficina. Era a sala. No centro, não havia engrenagens, nem ímãs, nem rodas desbalanceadas. Havia algo muito mais sofisticado: Dona Enelita, sua sogra em espirito, pois tinha exatamente naqueles dias alcançado, por mérito, o lugar onde a energia flui eternamente e não se desgasta.
Sentada numa poltrona, falava. Falava com método. Falava com
fluxo. Falava com constância admirável. Não havia botão de desligar, não havia
pausa técnica, não havia sequer um pequeno intervalo para revisão interna. Compadre
Tobias, com ar de cientista satisfeito, apontou para a cena como quem revela o
segredo da energia infinita:
—
Observe, Edson: entrada de energia mínima, apenas um assunto inicial. Saída
contínua, estável, auto renovável. Não há atrito visível, não há perda
mensurável. Durou quase um século e agora se eternizou.
Fiquei
em silêncio, não por discordar, mas por respeito ao fenômeno.
—
E mais, continuou ele, o sistema é autossustentável. Interrompa, e ele reinicia
com mais força. Tente contrariar, e aumenta a produção.
Confesso
que, naquele instante, considerei que talvez a física tivesse ignorado um
capítulo doméstico. Saí de lá com a sensação incômoda de que o moto perpétuo, afinal,
existe, mas não nas máquinas. Existe nas pessoas. Naquelas que amam sem parar,
que falam sem pausa, que insistem sem descanso, que vivem sem se render à
entropia do cansaço.
Compadre
Tobias não havia derrotado as leis da natureza. Apenas descobriu que algumas
delas nunca se aplicaram ao coração humano. E, desde então, evito desafios
desnecessários. Especialmente quando envolvem inventores e suas sogras.
Edson Pinto
Março, 2026
