Há
ideias que nascem perfeitas. Elegantes. Simétricas. Racionais. Quando aparecem
no papel, na lousa ou nos discursos acalorados parecem até inevitáveis. É como
se a lógica tivesse finalmente encontrado sua forma ideal. O problema é que o
mundo raramente lê o mesmo roteiro.
Essa
pequena divergência entre a elegância das ideias e a teimosia da realidade
sempre me intrigou. Foi ela, aliás, que acabou me levando a escrever meu novo
livro, meu décimo oitavo atrevimento literário, “O Efeito Culatra” e a curva
invisível do aprendizado. A história, porém, começou muito antes:
No
início da década de 1980, quando eu fazia meu mestrado na Fundação Getúlio
Vargas, em São Paulo, mergulhei num tema que me fascinou imediatamente, a
chamada Curva da Experiência, ou, alternativamente, Curva do Aprendizado. Em
termos simples, a ideia é a seguinte: quanto mais se produz, mais se aprende. E
quanto mais se aprende, mais eficiente se torna o processo de produção. Aprendizado
acumulado. Experiência acumulada. Vantagem acumulada.
Parecia
uma ideia poderosa. E era. O curioso é que, ao longo das décadas seguintes,
embora a vida profissional me levasse por outros caminhos, inclusive uma
temporada de trabalho no exterior, o que me impediu de prosseguir com a
monografia, essa ideia nunca saiu completamente da minha cabeça. Ficou ali,
silenciosa, como certas perguntas que insistem em sobreviver ao tempo. Até que,
quarenta e poucos anos depois, agora, resolvi revisitá-la. E o momento não
poderia ser mais oportuno.
Vivemos
hoje uma fase curiosa da história econômica, quer do mundo, quer do Brasil e da
América Latina em específico. Em várias partes, cresce a sedução por propostas
radicais de reorganização econômica. Ideias que prometem eficiência imediata,
redução drástica do Estado, simplificação estrutural e, em alguns casos, quase
uma espécie de “implosão regeneradora” das instituições econômicas. A lógica é
sedutora: Se algo não funciona bem, desmonta-se. Se há ineficiência, corta-se. Se
há excesso de Estado, elimina-se. O problema é que economias não são relógios
suíços, mecânicos, desmontados sobre uma mesa. São sistemas vivos. Complexos. Históricos.
Carregam memória.
E
é exatamente aí que entra a velha Curva do Aprendizado. Se produção gera
aprendizado e aprendizado gera
competitividade, então a interrupção abrupta desse processo pode produzir um
efeito inesperado. Enquanto um país desmonta parte de sua estrutura produtiva
na esperança de reconstruí-la de forma mais eficiente, outros países continuam
produzindo, aprendendo e avançando. Não há pausa no campeonato. Foi dessa
inquietação que nasceu o livro. Não é um livro técnico. Não é um tratado de
economia. Não há gráficos intermináveis nem equações intimidantes. Preferi
escrever um ensaio reflexivo, quase uma conversa longa com o leitor. Um livro
para pensar. E pensar, hoje em dia, talvez seja um dos exercícios mais
necessários.
Ao
longo dos quinze capítulos do livro, procuro explorar justamente essa tensão
permanente entre teoria e realidade. Entre ideias puras e sistemas complexos.
Entre a elegância das propostas e a resistência silenciosa da prática. Em certo
momento do livro, recorro até a uma metáfora futebolística que muitos
brasileiros conhecem bem. A história atribuída a Garrincha, na Copa de 1958.
Depois de ouvir uma explicação tática perfeita, o jogador teria perguntado ao
técnico: “Está certo, mas já combinou com os russos?”
A
pergunta continua atual. Ela vale para o futebol. E vale para a economia. Ideias
podem ser impecáveis no papel, mas a realidade não costuma participar das
reuniões em que os planos são desenhados. Foi pensando nisso que escolhi o
título “O Efeito Culatra”. A expressão popular descreve bem uma situação
em que uma ação, concebida para produzir determinado resultado, acaba
produzindo o oposto. O disparo volta contra quem o fez. Não por maldade do
mundo, mas por complexidade do mundo.
No
fundo, o livro é um convite à prudência. Não à imobilidade, nem ao
conservadorismo preguiçoso, mas à reflexão. Reformar economias é necessário.
Ajustar instituições é saudável. Questionar modelos é parte da evolução
histórica. Devamos lembrar que economias aprendem. E que esse aprendizado leva
tempo. Tempo de produção. Tempo de experiência. Tempo de acumulação. Ignorar essa dimensão invisível pode
produzir resultados curiosos. Às vezes até espetaculares, no pior sentido da
palavra.
Escrevi
este livro com uma esperança simples: que ele ajude a ampliar o debate. Que
provoque perguntas. Que estimule leitores, jovens ou experientes, a olhar para
a economia com menos paixão ideológica e um pouco mais de curiosidade
histórica. O mundo, felizmente ou infelizmente, continua sendo o lugar onde
elas precisam provar que funcionam.
Edson Pinto
Março, 2026
Nota
do autor:
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