Alguém foi acusado... Coisa pequena,
doméstica, dessas que não entram na História, mas entram na conversa.
— “Você fez isso.”
Havia várias respostas possíveis: Poderia
ter dito que fez, sim. Ou ter dito que não fez. Ou ainda argumentar que fez apresentando
atenuantes, como circunstâncias vigentes na hora do ato, o vento, o pouco tempo
de que dispunha, a lua fora de fase etc.
Mas o ser humano conhece atalhos. E
alguns os usam com notável habilidade. A pessoa acusada respirou fundo, adotou
um tom de dignidade improvisada e lançou a frase clássica, tão antiga quanto
eficaz:
— “E você?”
Pronto. A conversa, que caminhava em
linha reta, entrou numa rotatória. A acusação perdeu o endereço. O foco mudou
de dono. O assunto original, constrangido, saiu de fininho. Essa manobra tem
nome respeitável, originalmente em latim, desses que parecem tirados de um
tratado antigo: “tu quoque”. Em português corrente significa “você também.” É a
falácia do espelho. Não se responde ao que se fez. Aponta-se o que o outro fez.
E o curioso é que costuma funcionar.
Não porque seja correta, mas porque é confortável. A verdade exige esforço. O
desvio exige apenas um dedo em riste, de preferência apontando para o lado.
— “Você mentiu.”
— “E você, que exagera”
— “Você errou.”
— “E você, que não é exemplo”
A lógica, nesse momento, costuma ficar
sentada num canto, como uma tia sensata em festa barulhenta. Está presente,
ignorada e com vontade de ir embora mais cedo.
O “tu quoque” cria uma sensação rápida
de justiça. Se o outro também falha, então a falha própria vira detalhe. Um
deslize humano. Um pecado democrático. Mas a conta não fecha. Dois erros não
formam um acerto. Duas falhas não produzem virtude. E dois atrasos não
reinventam a pontualidade.
Ainda assim, o empate moral agrada. O
empate é uma forma elegante de sair sem se explicar. Ninguém vence, ninguém
perde e a verdade, como sempre, fica para depois. Ao final da conversa, a
acusação inicial já não estava mais ali. Havia se diluído em comparações,
lembranças oportunas e pequenos ressentimentos reciclados. No ambiente da política
vimos também isso a todo instante. As acusações são frequentemente rebatidas com
um sonoro “E você?”.
E assim o “tu quoque” cumpriu seu
papel. Não defendeu ninguém, não esclareceu nada, mas mudou o assunto com
eficiência exemplar.
A lógica observou tudo em silêncio. Anotou.
E seguiu em frente, acostumada a ser preterida sempre que o espelho fala mais
alto que o argumento.
Edson Pinto
Abril, 2026
