6 de mar. de 2026

361) QUANDO AS IDEIAS ENTRAM EM CAMPO

 

Há ideias que nascem perfeitas. Elegantes. Simétricas. Racionais. Quando aparecem no papel, na lousa ou nos discursos acalorados parecem até inevitáveis. É como se a lógica tivesse finalmente encontrado sua forma ideal. O problema é que o mundo raramente lê o mesmo roteiro.

Essa pequena divergência entre a elegância das ideias e a teimosia da realidade sempre me intrigou. Foi ela, aliás, que acabou me levando a escrever meu novo livro, meu décimo oitavo atrevimento literário, “O Efeito Culatra” e a curva invisível do aprendizado. A história, porém, começou muito antes:

No início da década de 1980, quando eu fazia meu mestrado na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, mergulhei num tema que me fascinou imediatamente, a chamada Curva da Experiência, ou, alternativamente, Curva do Aprendizado. Em termos simples, a ideia é a seguinte: quanto mais se produz, mais se aprende. E quanto mais se aprende, mais eficiente se torna o processo de produção. Aprendizado acumulado. Experiência acumulada. Vantagem acumulada.

Parecia uma ideia poderosa. E era. O curioso é que, ao longo das décadas seguintes, embora a vida profissional me levasse por outros caminhos, inclusive uma temporada de trabalho no exterior, o que me impediu de prosseguir com a monografia, essa ideia nunca saiu completamente da minha cabeça. Ficou ali, silenciosa, como certas perguntas que insistem em sobreviver ao tempo. Até que, quarenta e poucos anos depois, agora, resolvi revisitá-la. E o momento não poderia ser mais oportuno.

Vivemos hoje uma fase curiosa da história econômica, quer do mundo, quer do Brasil e da América Latina em específico. Em várias partes, cresce a sedução por propostas radicais de reorganização econômica. Ideias que prometem eficiência imediata, redução drástica do Estado, simplificação estrutural e, em alguns casos, quase uma espécie de “implosão regeneradora” das instituições econômicas. A lógica é sedutora: Se algo não funciona bem, desmonta-se. Se há ineficiência, corta-se. Se há excesso de Estado, elimina-se. O problema é que economias não são relógios suíços, mecânicos, desmontados sobre uma mesa. São sistemas vivos. Complexos. Históricos. Carregam memória.

E é exatamente aí que entra a velha Curva do Aprendizado. Se produção gera aprendizado e aprendizado gera competitividade, então a interrupção abrupta desse processo pode produzir um efeito inesperado. Enquanto um país desmonta parte de sua estrutura produtiva na esperança de reconstruí-la de forma mais eficiente, outros países continuam produzindo, aprendendo e avançando. Não há pausa no campeonato. Foi dessa inquietação que nasceu o livro. Não é um livro técnico. Não é um tratado de economia. Não há gráficos intermináveis nem equações intimidantes. Preferi escrever um ensaio reflexivo, quase uma conversa longa com o leitor. Um livro para pensar. E pensar, hoje em dia, talvez seja um dos exercícios mais necessários.

Ao longo dos quinze capítulos do livro, procuro explorar justamente essa tensão permanente entre teoria e realidade. Entre ideias puras e sistemas complexos. Entre a elegância das propostas e a resistência silenciosa da prática. Em certo momento do livro, recorro até a uma metáfora futebolística que muitos brasileiros conhecem bem. A história atribuída a Garrincha, na Copa de 1958. Depois de ouvir uma explicação tática perfeita, o jogador teria perguntado ao técnico: “Está certo, mas já combinou com os russos?”

A pergunta continua atual. Ela vale para o futebol. E vale para a economia. Ideias podem ser impecáveis no papel, mas a realidade não costuma participar das reuniões em que os planos são desenhados. Foi pensando nisso que escolhi o título “O Efeito Culatra”. A expressão popular descreve bem uma situação em que uma ação, concebida para produzir determinado resultado, acaba produzindo o oposto. O disparo volta contra quem o fez. Não por maldade do mundo, mas por complexidade do mundo.

No fundo, o livro é um convite à prudência. Não à imobilidade, nem ao conservadorismo preguiçoso, mas à reflexão. Reformar economias é necessário. Ajustar instituições é saudável. Questionar modelos é parte da evolução histórica. Devamos lembrar que economias aprendem. E que esse aprendizado leva tempo. Tempo de produção. Tempo de experiência. Tempo de acumulação. Ignorar essa dimensão invisível pode produzir resultados curiosos. Às vezes até espetaculares, no pior sentido da palavra.

Escrevi este livro com uma esperança simples: que ele ajude a ampliar o debate. Que provoque perguntas. Que estimule leitores, jovens ou experientes, a olhar para a economia com menos paixão ideológica e um pouco mais de curiosidade histórica. O mundo, felizmente ou infelizmente, continua sendo o lugar onde elas precisam provar que funcionam.

 

Edson Pinto

Março, 2026

 

 

Nota do autor:

Quem quiser adquirir o livro poderá fazê-lo acessando o site da Editora  clube de Atores e procurar LIVROS do autor EDSON PEREIRA PINTO ou clicar diretamente neste link:

https://clubedeautores.com.br/livro/o-efeito-culatra

27 de fev. de 2026

360) O QUE É UMA CRÔNICA?

O que é uma crônica?

Sempre achei que a crônica não sabe exatamente o que é. E talvez por isso exista...

Ela acorda cedo, calça o sapato errado. O direito no pé esquerdo e sai à rua sem compromisso com o destino. Observa. Espreita. Escuta uma conversa que não foi chamada para ouvir. Espia a vida pelo buraco da fechadura, mas com delicadeza, como quem pede licença até ao silêncio.

A crônica nasce assim mesmo, sem plano de carreira.  Não aspira à eternidade, embora às vezes a alcance por distração. Não pretende ser tese, tratado ou manifesto. Seu maior pecado é parecer simples. Seu maior talento é não fingir grandeza.

Enquanto o romance constrói edifícios, a crônica prefere a varanda. Enquanto o ensaio veste paletó, a crônica aparece de camisa arregaçada. Enquanto a notícia grita “aconteceu!”, a crônica cochicha: “e o que você sentiu com isso?”

A crônica é filha do tempo , mas do tempo miúdo. Do tempo do café esfriando. Do tempo do ônibus atrasado. Do tempo da lembrança que chega sem ser chamada. Ela não precisa de fatos extraordinários. Basta um tropeço. Um olhar atravessado. Uma pergunta que ninguém fez, mas todo mundo pensou. Aliás, a crônica gosta muito de perguntas. Principalmente das inúteis. Principalmente das que não se resolvem.

Já vi crônicas nascerem de um guarda-chuva esquecido, de um cachorro que atravessou a rua com mais convicção que o dono, de um “bom dia” mal dado. A crônica não julga. Observa. Se julga, finge que não. Seu método é suspeito. Seu rigor é frouxo. Sua disciplina é desobediente. Ela se permite rir quando deveria calar. Calar quando deveria explicar. E filosofar quando ninguém pediu.

Por isso a crônica costuma ser mal compreendida. Há quem pergunte: “mas isso é literatura?” A crônica responde com outra pergunta: “e precisa ser?” No fundo, a crônica é um espelho pequeno, desses que cabem no bolso. Não mostra o corpo inteiro, mas revela uma ruga que o espelho grande ignora. E às vezes essa ruga diz mais sobre a vida do que todos os tratados. Ela é a arte do quase. Do talvez. Do “não sei bem, mas acho que é por aí”.

Machado de Assis, se estivesse aqui, talvez dissesse que a crônica é um romance que desistiu de crescer e ficou mais sábio por isso. Ou talvez não dissesse nada, apenas levantasse uma sobrancelha, que já seria uma crônica completa.

A verdade é que a crônica não quer convencer. Quer acompanhar. Caminhar ao lado do leitor como quem comenta o tempo, sem a pretensão de mudar o clima, mas com a íntima esperança de tornar a caminhada mais leve. E quando termina, ela não bate a porta. Vai saindo devagar. Deixa a cadeira fora do lugar. E, às vezes, uma pergunta sentada no sofá...

Se o leitor perceber isso horas depois, no meio da tarde, ao lembrar de algo aparentemente banal, então a crônica cumpriu sua função. Que função? Nenhuma muito clara. E exatamente por isso, todas.

 

Edson Pinto

Fevereiro, 2026


20 de fev. de 2026

359) DERRIDA À BEIRA DO RIO VERDE


Quando Jacques Derrida, de cabeça e paletó brancos, apareceu na minha varanda, puxando uma cadeira para sentar à minha frente, eu não me surpreendi. Filósofos têm essa mania antiga de surgir justamente quando a gente mais precisa, embora eles afirmem que é a gente que os convoca.
Eu estava observando o Rio Verde após a chuva quando ouvi sua voz irônica e suave.

— Edson, você já percebeu que até o rio duvida de si?

Ofereci-lhe um café. Derrida aceitou e acrescentou duas gotas de silêncio, como quem tempera o pensamento.

— Como assim, Jacques, o rio duvida?

Ele apontou para a água, que naquele momento parecia mais azul do que verde, com aquela luminosidade tímida de fim de tarde mineiro.

— Veja bem, disse ele. O rio corre, mas nunca é o mesmo. Ele promete chegar, mas adia. Como o sentido. A água se oferece, mas escapa. Sempre diferida. É a sua própria “différance” em estado líquido.

Eu ri. Porque mineiro, quando escuta filosofia difícil, ri para não passar vergonha.

— Então você está dizendo que o Rio Verde é uma metáfora da vida?

— Não, corrigiu Derrida. Eu estou dizendo que a vida é que tenta ser metáfora do rio, mas tropeça.

Ficamos uns minutos observando o vaivém das nuvens e das garças. A maturidade, essa senhora que chega sem pedir licença, também se encostou na varanda com a gente. Ela tem um jeito de sentar meio estalado, como joelho velho.

— Edson, ele continuou, você, assim como eu, pertence àquele estágio da existência em que o saber já acumulou pó e a sabedoria finalmente pede passagem.

Levei o café à boca, pensando em quantos livros li, quantas certezas tive e quantas perdi. Falei:

— Pois é. A gente sabe muito, mas compreender… compreender é outra coisa.

Derrida abriu um sorriso torto:

— Saber é colecionar palavras. Sabedoria é desconfiar delas.

O vento soprou devagar, como quem confirma. Eu olhei para o rio, ele olhou para mim. Havia um acordo silencioso de que nenhum de nós estava completamente pronto para ser sábio, mas também não éramos mais tão bobos para nos agarrar a velhas certezas.

— E essa história de presença e ausência?, provoquei. Você sempre disse que nada está plenamente presente. Nem nós mesmos.

Derrida levantou a xícara na altura dos olhos:

— Veja este café. Está aqui. Você sente o cheiro, o calor, mas o sabor? Ah, o sabor só existe quando você o deixa ir. A presença é sempre uma promessa que se desfaz no ato de ser cumprida.

— Quer dizer que até meu café é desconstruído?

— Tudo é. Até a idade.

Rimos juntos. A maturidade, ali ao lado, fingiu que não era com ela. O filósofo então virou o rosto para o rio e disse algo que guardarei como quem guarda fotografia antiga no bolso da camisa:

— Você reparou, Edson, que nós, os homens maduros, somos exatamente como esse Rio Verde? Já fomos águas rápidas, já derrubamos pedras, já quisemos chegar depressa ao rio maior, ao mar. Hoje, serpenteamos. Não por fraqueza, mas por sabedoria. Aprendemos que o caminho é mais importante que a chegada. E completou:

— Ser jovem é querer saber. Ser maduro é aceitar que nunca saberemos tudo, mas ainda assim seguir adiante.

O sol desceu devagar, como se também quisesse participar da conversa. O rio brilhou, fazendo pose de quem entendeu cada palavra. Derrida terminou o café, empurrou a cadeira para trás e se levantou com aquele jeito de professor que está prestes a desaparecer no ar, o que de fato fez. Antes de sumir, porém, virou-se uma última vez e disse:

— Edson, não acredite demais em mim. Nem em você. Nem no rio. Acredite apenas nessa dança entre presença e ausência. Nela mora a sabedoria.

E, como todo bom filósofo, foi embora deixando a dúvida plantada. Fiquei sozinho com o Rio Verde. Ou talvez o rio é que tenha ficado sozinho comigo. Afinal, se aprendi algo nessa tarde de fim de carnaval, é que até as certezas que parecem mais sólidas se dissolvem como açúcar no último gole de café. E, cá entre nós, isso não deixa de ser um belo consolo...

 Edson Pinto

Fevereiro, 2026

 

Nota do autor:

Jacques Derrida (1930–2004) foi um filósofo franco-argelino, um dos pensadores mais influentes e mais malcompreendidos do século XX. Associado ao que se convencionou chamar de desconstrução, Derrida não se propunha a destruir ideias, conceitos ou tradições, mas a examiná-los por dentro, como quem desmonta um relógio para entender seu delicado mecanismo.

Seu trabalho questionou certezas antigas da filosofia ocidental, sobretudo a crença de que as palavras capturam fielmente a realidade e de que o sentido está sempre presente, inteiro e disponível. Para Derrida, o significado é instável, escorregadio, sempre adiado e que nunca chega por completo. Daí sua célebre noção de “différance”, um jogo entre diferença e adiamento do sentido.

Derrida escreveu sobre linguagem, escrita, filosofia, literatura, política, ética e memória, dialogando com autores como Platão, Aristóteles, Rousseau, Nietzsche, Freud e Heidegger. Sua escrita, deliberadamente complexa e muitas vezes poética, incomodou leitores apressados, mas encantou aqueles dispostos a aceitar que pensar também é hesitar.

Nesta crônica em que imaginei Derrida me visitando, ele aparece não como o filósofo acadêmico de frases longas e difíceis, mas como aquilo que talvez ele sempre tenha sido, um desconfiado cordial, alguém que nos ensina que saber muito não é o mesmo que ser sábio.  E que amadurecer talvez seja aprender a conviver melhor com as perguntas do que com as respostas.


19 de dez. de 2025

358) MENSAGEM DE FINAL DE ANO (Entre o Calendário e a Gratidão)

 

Chegar ao fim de um ano não é pouco. É - arrisco dizer - um feito respeitável, ainda que raramente comemorado com a devida reverência que tal fato merece. Viver mais um ano é uma espécie de aprovação silenciosa da existência, dessas que a vida concede sem alarde, mas não sem critério.

2025 foi, para mim, um ano especialmente fértil no terreno da escrita. A vida, essa senhora caprichosa, que costuma negar quando pedimos e oferecer quando já desistimos, resolveu, por razões que não ouso esmiuçar, conceder-me essa raridade que chamamos “tempo”. E com ele vieram a tranquilidade, o suporte e a inspiração. Um conjunto quase luxuoso, capaz de permitir que livros antigos, há muito ruminados na minha cabeça, finalmente encontrassem papel, forma e leitores. Não foi a ausência dos obstáculos rotineiros que me proporcionaram esse bônus de tempo. Foi apenas um rearranjo deles. O cotidiano, em vez de empurrar, abriu passagem. E assim escrevi. Não por heroísmo, mas por prazer e gratidão.

Nada disso teria sido possível sem a família e os amigos. Não apenas por criarem as condições materiais e espirituais para o meu ofício de escrevinhador, que é prazeroso, mas exige silêncio, paciência e algum recolhimento, mas, sobretudo, por nunca me negarem o que mais importa que é a “presença”.

Agora, chega o momento de conceder férias a este amador rabiscador de palavras. Férias para mim, mas também férias para os meus poucos, mas diletos e queridos  leitores. Férias até para a vida, que também se cansa de ser levada tão a sério. Faço uma pausa nas publicações do blog, só retornando por volta de fevereiro, dependendo, como sempre, das negociações entre o calendário e o Carnaval. Até lá, sigo vivendo, que é, afinal, a matéria-prima de tudo isso.

Aos leitores que desejarem conhecer meus 15 livros que vieram à luz nos últimos anos, deixo o convite para acessarem o site “Clube de Autores” (clique aqui) e procurar pelo meu nome completo. Lá estão reunidos todas os livros que já publiquei, bem como as informações para quem desejar adquiri-los para própria leitura ou para presente. A Editora atende na base “sob demanda” e envia o livro pelos Correios. No blog (clique aqui), versão web, também há informação sobre os livros.

Desejo a todos os amigos e familiares um Feliz Natal e um fantástico 2026. Que venha com menos pressa, mais gentileza e boas páginas, escritas ou vividas.

Até breve.

Edson Pereira Pinto

12 de dez. de 2025

357) O PREÇO DOS TIRANOS

 

Há dias, depois do noticiário da TV, em que me pego, entre um gole e outro de café, pensando no destino dos poderosos. Não dos que estudaram filosofia demais e política de menos, mas dos que, por descuido da História e vaidade própria, acharam-se deuses transitórios. É curioso, ou melhor, irônico, observar como alguns desses senhores terminam suas sagas sem o aplauso da eternidade, mas com a cobrança silenciosa do tempo.

Sempre achei que o poder diz muito mais sobre quem o exerce do que sobre quem o obedece. Talvez por isso, quando revejo a galeria dos tiranos que se deram mal, mas mal de verdade, sinto que ali está uma espécie de manual do retorno. O retorno do quê? Do próprio gesto. Quem semeia medo, colhe medo. Quem alimenta violência, morre devorado pelo próprio cardápio.

Hitler, por exemplo, terminou escondido num bunker de concreto, trancado com a própria sombra. Mussolini, que adorava posar de César, acabou pendurado de cabeça para baixo numa praça, como se a História dissesse: “já que gostava tanto de teatralidade, aí está o seu último ato”. Ceaușescu, que construiu palácios enquanto o povo contava migalhas, foi fuzilado em poucas horas, sem tempo sequer para organizar um último discurso. Ironia fatal para um tirano que adorava ouvir sua própria voz.

E o desfile continua: Saddam descoberto num buraco, Gaddafi perdendo a vida numa rua poeirenta, Milošević morrendo numa cela fria. A lista é longa, como geralmente são longas as consequências da arrogância. A tirania tem essa mania de parecer grandiosa enquanto dura, mas terminar sempre como aquilo que sempre foi, isto é, uma farsa trágica.

Há quem diga que esses homens foram vencidos pela política, pelo povo, pelas armas ou por golpes externos. Eu, cá de detrás das montanhas de Minas, desconfio de que foram vencidos pela própria lógica que criaram. A tirania cria um universo onde ninguém é confiável, onde tudo ameaça, onde o trono é feito de pólvora e a coroa, de vidro. Basta um sopro para tudo ruir. E ruir, invariavelmente, ruirá.

Machado de Assis, se pudesse comentar, talvez levantasse as sobrancelhas (ele tinha um talento para erguer sobrancelhas filosóficas), e diria que o tirano começa a cair no exato momento em que sobe ao poder. Pareceria exagero, mas não seria. O poder sem freios é como um rio sem margens. Ele não corre, ele destrói. E quando destrói demais, escava o próprio leito.

O mais curioso é que, nesses trágicos desfechos, há um tipo de justiça que não vem dos tribunais, mas da própria condição humana. O tirano que vive do medo morre temendo. O tirano que prende vozes termina prisioneiro do silêncio. O tirano que se acha imortal descobre que até a morte tem senso de humor.

E nós, que observamos tudo à distância, aprendemos, ou deveríamos aprender, que nenhum poder, por mais adornado que seja, sobrevive à falta de humanidade. O mundo é paciente, mas não é conivente. A História é lenta, mas não é cega. E o tempo, esse juiz que nunca se aposenta, sabe muito bem como ajustar as contas.

Ao final, resta sempre a mesma lição, simples como toda grande sabedoria. É a lição de que quem governa pelo medo termina governado por ele. E quando o medo assume o trono, nenhum tirano permanece sentado por muito tempo.

De todos os espetáculos humanos, o da queda dos tiranos talvez seja o mais melancólico e, paradoxalmente, o mais moral. Porque nos lembra que a verdadeira força não está em dominar, mas em compreender. Não em impor, mas em persuadir. Não em reinar, mas em servir.

E assim sigo, sorvendo meu o café que neste rincão tem qualidade e é abundante, observando o mundo com esse espanto tranquilo que a idade nos oferece. Porque, se a vida me ensinou alguma coisa, é que nenhum tirano escapa daquilo que, um dia, também alcançará a todos nós, indistintamente, que é o veredito da própria consciência. E essa, ah, essa é implacável...

 

Edson Pinto

Dezembro, 2025

5 de dez. de 2025

356) DOIS CAFÉS E UM CONFLITO INTERNO

 

Razão e Emoção eram um casal.

E como todo casal que se preze, tinham marcado um café para “conversar sobre a relação”, essa expressão que parece inofensiva, mas carrega a tensão de um armistício.

— Eu só acho que a gente precisa de mais lógica nas nossas  decisões, disse ele, mexendo no expresso com a precisão de um engenheiro em crise.

— E eu só acho que a gente precisa sentir mais e calcular menos, respondeu ela, soprando o capuccino como quem assopra mágoas pequenas.

Era terça-feira, três da tarde. Nem cedo demais para desistir, nem tarde demais para tentar de novo.

— Você sempre quer ter controle de tudo, reclamou ela. Até mesmo do que eu sinto.

— E você sempre se joga no abismo como se tivesse asas garantidas, rebateu ele, tentando não parecer o vilão da história.

Foram se acusando com a elegância de quem se ama, mas anda tropeçando nas diferenças. Ele citava argumentos com vírgulas. Ela respondia com silêncios que doíam mais que ponto final.

— Você me sufoca com previsões, gráficos, “e se”...

— E você me enlouquece com impulsos, intuições e essa mania de acreditar que tudo vai dar certo porque sim!

A garçonete trouxe a conta. Ele conferiu cada centavo. Ela deixou gorjeta com um guardanapo desenhado em coração. Era sempre assim. Um fazendo cálculos, o outro fazendo arte.

Mas naquela tarde, algo mudou. Talvez o jeito como os olhos dele finalmente pararam de fugir dos dela. Ou o modo como ela, cansada de girar em espiral, parou de querer vencer a discussão.

— Eu te amo, disse ele, baixinho.

— Eu também, respondeu ela, como quem entrega o peito e não exige troco.

Ficaram em silêncio. Não o silêncio do fim, mas aquele que antecede um recomeço. Como o intervalo entre uma pergunta difícil e uma resposta que vem com abraço.

— Eu não sou perfeita, disse ela.

— E eu não sou infalível, disse ele. Mas juntos, talvez, sejamos possíveis.

Deram-se as mãos por baixo da mesa. E ali, entre farelos de biscoito e café frio, fizeram um acordo que não precisou ser assinado. Firmaram um pacto de equilíbrio, de compreensão mútua que era necessário revezarem-se ao volante.  E, por fim e silenciosamente, entenderam que, quando um tenta vencer o outro, o amor perde.

Saíram do café de passos lentos. Ele deixou que ela escolhesse o caminho. Ela deixou que ele segurasse o mapa.

Porque amar, no fim das contas, é o um eterno diálogo entre o sentir e o pensar. E o milagre acontece quando os dois decidem caminhar lado a lado para o resto da vida.

 

Edson Pinto

Dezembro, 2025