Como
de costume, tomava café com minha mãe. Aos 97 anos, ela conserva uma relação
com as palavras que talvez nós, mais novos, estejamos perdendo. Entre um gole e
outro, costuma temperar a conversa com ditados. Alguns conheço desde menino.
“Quem não tem cão caça com gato”, “De grão em grão a galinha enche o papo”,
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Nada que provocasse
espanto. Até aquele café.
Falávamos
de alguém que atravessava uma fase difícil quando minha mãe comentou, com a
naturalidade de quem informa que vai chover:
—
Fulano está a lamber embira.
Parei
com a xícara a meio caminho.
-—
Lamber o quê?
—
Embira.
Confesso
que já ouvi muita coisa nesta vida, inclusive algumas que teria preferido não
ouvir, mas nunca soubera de alguém condenado a lamber embira. Minha primeira
providência foi descobrir o que significava aquilo. Aprendi que embira é o nome
dado à fibra retirada da casca de certas plantas e utilizada, entre outras
coisas, para fazer cordas. E que “lamber embira” é expressão antiga para
designar quem passa necessidade, está sem recursos, quase na miséria.
Minha
mãe sabia disso sem consultar dicionário algum. Foi então que percebi que,
sentado àquela mesa de café, eu não estava apenas conversando com ela. Estava
diante de uma pequena biblioteca de tradição oral. Os ditados populares são
livros que desistiram das páginas. Viajam de boca em boca, atravessam gerações,
mudam de cidade, às vezes trocam uma palavra pelo caminho e continuam
carregando aquilo que talvez seja uma das formas mais antigas de conhecimento
humano, a experiência.
Não
sabemos quem foi o primeiro homem a descobrir que “quem semeia ventos colhe
tempestades”. Provavelmente aprendeu da pior maneira. Também desconhecemos quem
concluiu que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Suspeito que
tenha perdido os três. Alguém precisou descobrir que “as aparências enganam”,
outro percebeu que “a pressa é inimiga da perfeição”, e certamente houve quem
chegasse tarde demais para compreender que “cavalo encilhado não passa duas
vezes”. Depois vieram os outros e transformaram essas pequenas tragédias
particulares em patrimônio coletivo. Talvez seja essa a genialidade dos
ditados. Eles nos permitem aprender com os tombos de pessoas que nunca
conhecemos.
A
filosofia costuma precisar de tratados. O povo, mais econômico, prefere uma
frase. Séculos de reflexão sobre perseverança cabem em “água mole em pedra
dura, tanto bate até que fura”. Uma aula inteira sobre prudência pode ser
substituída por “é melhor prevenir do que remediar”. Para ensinar
responsabilidade pelas próprias escolhas, basta lembrar que “quem semeia ventos
colhe tempestades”. E, se quisermos advertir alguém contra julgamentos
precipitados, “quem vê cara não vê coração” resolve o problema antes que o
filósofo termine a introdução. Não significa, evidentemente, que os ditados
estejam sempre certos. Aliás, o povo teve a prudência de criar um ditado para
cada lado da questão.
“Quem
espera sempre alcança”, recomenda um. “Deus ajuda quem cedo madruga”, responde
outro.
“A
união faz a força”, aconselha um. “Antes
só do que mal acompanhado”, adverte outro.
“Nunca
é tarde para começar”, consola um. “Cavalo encilhado não passa duas vezes”,
apressa outro.
Se
alguém quiser organizar os ditados populares num sistema filosófico
perfeitamente coerente, talvez acabe precisando de outro ditado, “cada cabeça,
uma sentença”. Essa aparente contradição, porém, não diminui sua sabedoria. Ao
contrário. Mostra que a vida raramente cabe numa regra única. Há momentos em
que é preciso esperar e outros em que é preciso madrugar. Há ocasiões para
insistir e ocasiões para desistir. Às vezes devemos guardar o pássaro que está
na mão. Em outras, talvez seja justamente necessário soltá-lo.
O
verdadeiro conhecimento não está apenas em decorar o ditado. Está em saber
quando ele serve. Talvez por isso essas frases tenham sobrevivido durante tanto
tempo. Elas não nasceram em gabinetes, universidades ou academias. Foram sendo
polidas pela experiência cotidiana, na roça, nas cozinhas, nas vendas, nas
oficinas, nas ruas, nas conversas de família. Cada geração recebeu algumas,
acrescentou outras e entregou o conjunto à seguinte.
Hoje
fazemos isso menos. Temos buscadores, redes sociais, vídeos, inteligência
artificial e uma quantidade de informação que nossos antepassados jamais
poderiam imaginar. Podemos descobrir em segundos a distância entre a Terra e
Saturno e, ainda assim, talvez demoremos uma vida inteira para compreender que
“nem tudo que reluz é ouro”. A tecnologia aumentou extraordinariamente nossa
capacidade de encontrar respostas. Não necessariamente nossa capacidade de
fazer boas perguntas.
Os
ditados pertencem a outro ritmo. São filhos de um tempo em que a experiência
precisava ser guardada na memória porque não havia onde pesquisá-la. Para
sobreviver, o conselho tinha de ser curto, sonoro e fácil de repetir. Talvez
por isso tantos tenham chegado até nós. Outros, entretanto, começam a
desaparecer.
E
foi novamente para minha mãe que olhei. Aos 97 anos, ela guarda expressões que
ouviu de pessoas que, por sua vez, as ouviram de outras pessoas. Algumas talvez
tenham atravessado um século antes de chegar àquela mesa de café. Não sei quem
ensinou a minha mãe que alguém em dificuldades estava “a lamber embira”. Talvez
ela própria já não se lembre. E isso pouco importa. A tradição oral não costuma
fornecer recibo. Ela apenas entrega.
Foi
impossível não me lembrar de Luís da Câmara Cascudo, que dedicou boa parte da
vida a recolher justamente essas coisas aparentemente pequenas que o povo diz,
repete e transmite. Cascudo compreendeu que a cultura de um povo não mora
apenas nos livros, nos monumentos ou nos grandes acontecimentos históricos.
Mora também nas histórias contadas à mesa, nas superstições, nas cantigas, nas
expressões e nos ditados que passam de uma geração para outra sem que ninguém
saiba ao certo quem os inventou. Talvez por isso tenha levado tão a sério
aquilo que muitos consideravam apenas conversa de gente antiga. Sabia que,
quando uma expressão popular desaparece, não perdemos somente algumas palavras.
Perdemos também um jeito de compreender o mundo.
De
repente compreendi que preservar esses ditados não é apenas conservar
curiosidades linguísticas. É preservar uma determinada maneira de observar a
vida. Dentro deles estão o medo da pobreza, a importância do trabalho, a
prudência diante do risco, a esperança, a desconfiança, o amor, a amizade, a
paciência e até uma certa resignação diante daquilo que não podemos mudar. Há
neles ingenuidade, preconceitos de outras épocas e conselhos que o tempo tornou
discutíveis. Convém não transformar a sabedoria popular em escritura sagrada. O
povo também erra. Ainda assim, impressiona perceber quanta experiência humana
cabe em tão poucas palavras. Talvez pudéssemos ser um pouco mais felizes se
prestássemos atenção a algumas delas. Não porque nossos antepassados soubessem
todas as respostas, mas porque já haviam cometido muitos dos erros que
continuamos cometendo com extraordinária originalidade.
Terminei
o café pensando nisso.
Minha
mãe provavelmente nem percebeu a pequena revolução filosófica que provocara.
Para ela, alguém estava simplesmente a lamber embira. Para mim, aquela embira
tinha se transformado num fio. Um fio muito antigo, vindo de pessoas que não
conheci, passando pela memória de minha mãe e chegando até mim. Talvez tradição
seja exatamente isso. Segurar o fio antes que ele se rompa.
Edson Pinto
Setembro,
2026
