Quando
li pela primeira vez O Pequeno Príncipe, eu era um menino sério, daqueles que
tentam, ao contrário do personagem filosófico do livro, desenhar jiboias por
dentro, mas acabam se contentando com elefantes por fora.
Publicado
em 1943, em meio a um mundo em guerra, o livro atravessa o tempo como um
sussurro cheio de ternura. Sob a aparência de um conto infantil, abriga em suas
páginas uma das mais delicadas e profundas meditações sobre a vida, o amor, a
amizade e o sentido da existência. Arrisco-me até mesmo a dizer que é só na
maturidade que nos encontramos em plenitude para compreendê-lo.
Fiquei
intrigado com aquele tal Planeta B-612, pequeno, solitário e cheio de
significado. O que me espantou não foi o planeta em si, mas a revelação de que
cada um de nós carrega o próprio B-612 dentro do peito. Só que, ao contrário do
Pequeno Príncipe, que vivia com sua rosa e três vulcões, o meu planeta tinha
outras coordenadas, e outras rosas também...
O
meu B-612 fica entre a fictícia Vila dos Ventos e o bairro do Caiçara, em Belo
Horizonte, onde passei minha infância e juventude. Esses dois lugares remetem a
dois de meus livros, O Resgate do Tempo Perdido e Memórias do Caiçara.
Estão, portanto, fora do alcance de telescópios modernos, embora qualquer
menino com um pouco de saudade seja capaz de enxergá-lo. Não se encontra em
mapas celestes, mas mora nos desvios da memória, onde a infância resolveu se
esconder.
Na
Terra, tenho nome, CPF, compromissos, sentimentos, dores, memórias, mas, no meu
planeta fictício, sou apenas o menino que se lembra demais, como se a lembrança
fosse um tipo de combustível cósmico. Lá, também, a fictícia Vila dos Ventos
continua intocada. O sino da igreja ainda toca como se anunciasse o retorno dos
que nunca voltam. E a praça? Ah, a praça ainda abriga encontros no banco perto
do coreto e histórias que a memória conserva melhor que o cheiro de pão de queijo saído do forno.
No
Caiçara de minhas memórias, meu pai ainda caminha com as mãos nos bolsos e
chapéu de feltro. Os ex-combatentes, que até recentemente ainda estavam por
aqui, mas já partiram todos, contavam histórias que misturavam a Segunda Guerra
com o nascimento do bairro, como se Monte Castelo e o Caiçara fossem vizinhos
de muro. No planeta, Laurinha ainda penteia os cabelos na varanda. E juro que
ela me olha. Não com os olhos da infância, mas com aqueles que dizem: “Era você
o tempo todo, seu distraído!”
Tenho
também três vulcões, embora o terceiro só entre em erupção quando ouço certas
músicas ou sinto o cheiro de cadernos antigos. Tenho a minha própria rosa.
Companheira fiel, sensível, com seus espinhos e exigências, como toda rosa que
se preze. Dedico a ela rega constante de boas lembranças, adubo de palavras
carinhosas e ausência de vento. Mesmo quando esqueço de cuidar, ela insiste em
florir. Talvez seja amor, talvez seja teimosia vegetal, ou talvez porque, antes de partir, tenha
plantado sementes no nosso jardim.
A
vida no B-612 não exige documentos. Apenas silêncio, tempo e um pouco de
coragem para se comover. Lá, os pores de sol obedecem à emoção do dia: se a
saudade é grande, eles se repetem até que eu me acalme. Já assisti a doze deles
de uma só vez. E, em todos, ouvi o mesmo sussurro: “O essencial é invisível aos
olhos.”
Volto
ao meu planeta quando posso. Às vezes, uma palavra me leva. Outras, um cheiro.
Às vezes, basta uma tarde em que o mundo parece não fazer sentido. E então lá estou,
sentado numa cadeira imaginária, contemplando o que só existe porque um dia
existiu. Os adultos diriam que esse planeta é invenção. Que não existe. Que é
escapismo, romantismo, delírio literário. Talvez…
Aprendi
com a raposa, não com aquela que habita os arredores da Pampulha, pois sou
atleticano de fé, que só conhecemos bem aquilo que nos cativa. Fui cativado.
Pela Vila dos Ventos, pela rosa que me desafiava com seus espinhos, pelas ruas
numeradas e calçadas de pedras irregulares do Caiçara, pelas mulheres que
passaram pela minha vida, pelos silêncios do meu pai e pelas palavras que nunca
disse, mas que ecoam em mim como se fossem um idioma secreto.
O
meu B-612 é isso: um planetinha só meu, onde as dores são pequenas, os afetos
têm nome e os pores de sol sabem esperar. É desse pequeno planeta que nascem
muitas das crônicas que eu publico em meu blog. Cada texto é uma pedra, uma
flor, uma estrela ou um pôr do sol do meu planetinha. Quem quiser pousar está
convidado. Não precisa traje espacial.
Basta
trazer o coração desarmado.
Edson Pinto
Agosto,
2026
