"O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” (Isaac Newton)
Meu
time, o Galo, centenário Clube Atlético Mineiro que aprendi a gostar antes
mesmo de aprender o bê-á-bá, resolveu, nas últimas semanas, praticar uma
filosofia própria, ou seja, a do
entusiasmo intermitente. Ganha dois jogos seguidos. Convence. Encanta. Eu,
ingênuo, reorganizo a esperança, passo a acreditar em tabela, em classificação,
em futuro. Volto a fazer contas, essa velha mania dos economistas e dos
torcedores. E então, como se o universo resolvesse corrigir meu excesso de
otimismo, vem a semana seguinte: Derrota...
Não
uma derrota qualquer, mas daquelas didáticas, pedagógicas, quase humilhantes.
Perde para um time que, até então, parecia ter sido montado com sobras de feira
e boa vontade. E perde com convicção. Foi nesse vaivém, entre o entusiasmo e o
desencanto, que me ocorreu uma suspeita inquietante: talvez o futebol não seja
regido pelas leis clássicas. Talvez ele seja, em sua essência, quântico.
Na
física tradicional, essa que agrada aos engenheiros e aos homens de planilha, há
uma promessa de ordem. Se conhecemos as causas, prevemos os efeitos. Se o time
é melhor, vence. Se é pior, perde. Tudo muito razoável, tudo muito elegante. O
problema é que o futebol não leu esse manual.
Há,
na física quântica, um princípio curioso, o tal do Princípio da Incerteza de
Heisenberg, segundo o qual não se pode conhecer simultaneamente, com
precisão absoluta, certas propriedades de uma partícula. Traduzindo para o
idioma das arquibancadas: Não se pode conhecer, ao mesmo tempo, o time que
entra em campo e o resultado que dele sairá. Ou, sendo mais honesto: Quanto
mais certo você está da vitória, mais ela escapa.
O
torcedor, essa criatura essencialmente otimista, ou teimosamente reincidente, acredita
em padrões. Dois jogos bons? Embalou. Três vitórias? Candidato ao título. Um
novo reforço? Agora vai. O futebol, porém, responde com um sorriso enviesado. A
bola, esse pequeno planeta caprichoso, não obedece à lógica dos investimentos
nem ao valor de mercado. Ela quica onde quer, desvia quando não deve, trai com
uma naturalidade quase filosófica. Arrisco dizer: A bola é uma partícula
rebelde.
Antes
do chute, ela contém todos os destinos possíveis: o gol espetacular, a bola na
trave, o chute torto, o desvio improvável. É, por assim dizer, uma nuvem de
possibilidades. No instante do chute, esse breve momento em que o pé encontra o
mundo, a incerteza colapsa. E quase sempre colapsa contra nós.
O
mais curioso, porém, é o técnico. Figura respeitável, de prancheta em mãos, ele
desenha o jogo como quem acredita em retas. Posiciona, organiza, ensaia
movimentos. Imagina, e nisso não está sozinho, que o futebol é um sistema
obediente. Pobre homem! Ele pensa como René Descartes, enquanto o jogo responde
como um discípulo tardio de Werner Heisenberg. Enquanto o técnico traça linhas,
o jogo faz curvas. Enquanto ele prevê, o campo improvisa. Enquanto ele explica,
a bola contradiz. E o torcedor, essa
síntese imperfeita de esperança e memória, assiste a tudo como quem participa
de um experimento sem controle.
Há,
evidentemente, fatores objetivos: técnica, preparo físico, orçamento,
estratégia. Não sejamos injustos com a razão, ela ainda tem seus direitos.
Porém, há também aquilo que escapa: O desvio involuntário. O erro improvável. O
goleiro que falha no único lance em que não podia falhar. O atacante medíocre
que, por um instante inexplicável, torna-se gênio. São, talvez, as pequenas
partículas do acaso, em permanente conspiração contra nossas certezas.
Volto,
então, ao meu Galo do coração. Depois de duas vitórias convincentes, eu já lhe
atribuía virtudes quase estruturais: consistência, maturidade, projeto.
Cheguei, em momento de fraqueza, a usar a palavra “regularidade”. Na semana
seguinte, ele me ensinou, com a delicadeza de uma bola horrivelmente atrasada
ao goleiro, que a regularidade, no futebol, é apenas uma hipótese mal
sustentada. Perdeu. E perdeu de modo a desmontar não apenas o sistema
defensivo, mas também o meu raciocínio.
Foi
ali que compreendi, enfim, a natureza do fenômeno: Meu time não é
inconsistente. Ele é quântico. Deve ser por isso que o futebol nos fascine
tanto. Ele nos devolve à condição essencial do mundo: incerto, improvável,
surpreendente. Um mundo onde nem sempre o melhor vence, onde o esforço não
garante o resultado, onde a lógica precisa, de tempos em tempos, pedir licença
ao mistério.
No
fundo, no fundo, cada partida de futebol é uma pequena lição de humildade. E
cada derrota inesperada, uma lembrança de que o universo, seja ele feito de
partículas ou de jogadores, não se deixa
domesticar com facilidade. Da minha parte, continuo assistindo. Com esperança,
é claro, mas agora com uma cautela adicional. Quando meu time ganha duas
seguidas, eu já não comemoro tanto. Apenas observo, como um físico diante de
seu experimento. E espero, não sem certo receio, o próximo colapso da
realidade.
Edson Pinto
Abril,
2026
Nota do Autor
Se
o leitor, ao longo destas linhas, teve a impressão de que este autor resolveu
misturar futebol com física quântica e ainda, por desatenção ou ousadia, trazer
à conversa um certo filósofo alemão, convém tranquilizá-lo: não se trata de
erudição desnecessária, mas de tentativa honesta de compreender o inexplicável.
Refiro-me a Martin Heidegger, pensador do século XX, que se dedicou, com uma
seriedade que o futebol raramente permite, à investigação do ser, do tempo e,
sobretudo, daquilo que escapa às explicações fáceis. Heidegger desconfiava das
certezas prontas. Preferia os caminhos tortuosos do pensamento, onde as
respostas são menos importantes que as perguntas. Se tivesse sido torcedor, e
aqui me permito uma liberdade que a história talvez não autorize, suspeito que
compreenderia, melhor do que muitos comentaristas esportivos, a natureza do
jogo. Não porque explicaria o futebol, mas porque aceitaria o seu mistério. Quanto
às partículas, essas pequenas entidades que a física moderna insiste em tratar
como probabilidades , elas entram nesta crônica não como autoridade científica,
mas como metáfora conveniente. Na mecânica quântica, o mundo deixa de ser
previsível e passa a ser possível. E essa mudança de verbo, por si só, já
bastaria para justificar a comparação com o futebol. Porque, no fundo, é disso
que se trata: de um jogo em que o possível frequentemente vence o provável. Se o leitor
encontrar aqui mais filosofia do que futebol, peço indulgência. Se encontrar
mais futebol do que filosofia, peço compreensão. E se, ao final, concluir que
nem uma coisa nem outra explicam plenamente o que acontece em campo, então
estaremos, autor e leitor, em perfeita sintonia com o universo. E com os
campeonatos em andamento.
