Da
minha janela, observo o Rio Verde correndo tranquilo entre as montanhas de
Minas. Não sei se os rios têm consciência do tempo. Provavelmente não. Correm
sem relógio, sem calendário e sem a menor preocupação com aniversários. Nós é
que, olhando para eles, acabamos pensando nessas coisas.
Foi
assim que me ocorreu uma pergunta que ultimamente me visita com alguma
frequência: por que o tempo está passando tão depressa?
Tenho
a impressão de que janeiro mal acabou de passar e dezembro já começa a bater à
porta. As semanas parecem ter encurtado, os meses adquiriram uma pressa
suspeita e os anos, que antigamente caminhavam, agora parecem correr.
Quando
criança, era exatamente o contrário. As férias demoravam uma eternidade para
chegar. O aniversário seguinte parecia pertencer a um futuro remoto. E
dezembro, quando esperado em março, ficava tão distante que talvez estivesse
localizado em outro continente. Um ano era uma enormidade. Hoje, mal guardamos
os enfeites de Natal e alguém já começa a perguntar onde passaremos o próximo.
Evidentemente,
o tempo não mudou. Um minuto continua tendo sessenta segundos, uma hora
continua reunindo sessenta minutos e a Terra, ao que consta, não resolveu
acelerar sua viagem em torno do Sol apenas para nos assustar. Se alguma coisa
mudou, portanto, não foi o relógio. Fomos nós.
Há
uma explicação curiosa para isso. Quando uma criança de cinco anos completa
mais um ano, aquele período corresponde a um quinto de toda a vida que ela
conhece. Para alguém de cinquenta, representa apenas um quinquagésimo. Aos setenta
e oito, um ano é uma fração ainda menor da existência já vivida. Talvez nossa
percepção do tempo obedeça menos ao calendário do que à proporção.
Há
também outro cúmplice nessa aparente aceleração: a memória. A infância é
povoada de primeiras vezes. O primeiro dia de escola, a primeira viagem, o
primeiro amigo, a primeira bicicleta, o primeiro medo, a primeira paixão. Tudo
é novidade e, por isso mesmo, tudo parece deixar marcas mais profundas. A
criança percorre um território desconhecido. Cada esquina merece atenção.
Depois
crescemos e inventamos uma coisa extremamente eficiente chamada rotina. Acordamos
aproximadamente à mesma hora, fazemos as mesmas coisas, percorremos caminhos
conhecidos, encontramos pessoas conhecidas. Os dias deixam de ser estranhos uns
aos outros e começam a adquirir certo parentesco. Segunda-feira se parece com a
segunda-feira anterior. Março guarda alguma semelhança com o março passado.
Quando percebemos, já estamos dizendo aquela frase que nossos pais diziam e que
jurávamos jamais dizer:
—
Como este ano passou depressa!
Talvez
o tempo não tenha acelerado. Talvez simplesmente estejamos deixando menos
marcos pelo caminho. Pensei nisso enquanto continuava olhando o Rio Verde. Suas
águas também passam diante da minha janela e nunca são exatamente as mesmas.
Heráclito percebeu isso muito antes de nós. Não entramos duas vezes no mesmo
rio porque, na segunda vez, outras são as águas e, acrescentaria eu, outro
também é o homem que as contempla. Talvez envelhecer seja perceber isso com
maior nitidez.
Na
infância, olhamos principalmente pelo para-brisa. Há uma estrada imensa diante
de nós e quase nada no retrovisor. Com os anos, o retrovisor vai se enchendo.
Nele aparecem pessoas, lugares, amores, despedidas, vitórias, fracassos,
escolhas que fizemos e outras que deixamos de fazer. A estrada à frente
continua, mas agora sabemos que não é infinita. E talvez seja justamente essa
consciência que faça a paisagem parecer correr mais depressa.
A
boa notícia é que talvez exista uma maneira de enganar um pouco essa pressa,
não acrescentando horas aos dias, façanha que nem os mais criativos fabricantes
de relógios conseguiram realizar, mas acrescentando experiências às horas. Aprender
alguma coisa nova. Conhecer um lugar diferente. Ler um autor desconhecido.
Conversar com alguém que pensa de outra maneira. Mudar ocasionalmente o
caminho. Surpreender-se. Imagino a novidade como uma espécie de freio
psicológico do tempo.
Continuei
algum tempo diante da janela. As montanhas permaneciam onde sempre estiveram. O
Rio Verde seguia tranquilamente seu caminho, aparentemente indiferente às
minhas especulações. Então compreendi que talvez estivesse fazendo a pergunta
errada. Não é o tempo que passa depressa. Nós é que passamos. E, enquanto
passamos, talvez a melhor maneira de retardar um pouco essa viagem seja deixar
pelo caminho coisas suficientes para que a memória, quando olhar para trás,
tenha onde se demorar.
Edson Pinto
Setembro,
2026
