Há
algum tempo, ouvi uma história curiosa sobre uma grande empresa que enfrentava
determinado problema havia anos. Reuniões foram feitas, relatórios preparados,
sugestões apresentadas. Um funcionário antigo chegou a propor uma solução
bastante simples, dessas que têm o inconveniente de parecer simples demais para
serem levadas a sério. A ideia foi ouvida, agradecida e devidamente arquivada
naquele lugar misterioso para onde costumam ir as boas ideias quando não vêm
acompanhadas de um cartão de visitas importante.
Até
que contrataram um consultor.
Veio
do exterior, hospedou-se num bom hotel, apresentou-se de terno impecável e
abriu diante dos diretores uma apresentação cheia de gráficos, setas e palavras
em inglês. Depois de algumas horas, recomendou, com pequenas variações,
exatamente aquilo que o funcionário havia sugerido meses antes. Desta vez,
todos acharam brilhante. Não sei se a história aconteceu exatamente assim.
Provavelmente aconteceu muitas vezes.
Foi
então que me lembrei de duas antigas expressões populares que parecem falar da
mesma fraqueza humana. Uma diz que não sabemos valorizar a prata da casa. A
outra garante que santo de casa não faz milagre. Sempre achei curioso o destino
desses santos domésticos. Talvez façam milagres, sim. O problema é que os
moradores da casa os conhecem de chinelos.
A
proximidade possui essa estranha capacidade de diminuir o extraordinário.
Conhecemos demais aqueles que estão perto. Sabemos de suas virtudes,
naturalmente, mas conhecemos também seus defeitos, hesitações, distrações e
pequenas misérias. Vimos a professora respeitada quando ainda era uma estudante
insegura. Conhecemos o médico famoso desde o tempo em que jogava bola na rua. O
empresário bem-sucedido continua sendo, para os amigos de infância, aquele
rapaz que não sabia exatamente o que faria da vida. A memória tem dificuldade
de promover as pessoas. Enquanto elas crescem, amadurecem e se transformam, nós
frequentemente continuamos a enxergá-las pela fotografia antiga que guardamos
delas.
Com
quem vem de fora acontece o contrário. Não conhecemos seus bastidores.
Recebemos apenas o currículo, as realizações, os títulos, os livros publicados,
os prêmios conquistados. O desconhecido chega pronto. Não conhecemos suas
dúvidas, seus fracassos ou das manhãs em que acorda sem a menor vontade de ser
extraordinário. A intimidade mostra os bastidores. A distância mostra o palco. Talvez
por isso tantas pessoas precisem primeiro ser reconhecidas longe para depois
serem admiradas perto. Uma artista deixa sua pequena cidade, conquista público
em outros lugares e, algum tempo depois, retorna como personalidade ilustre. A
mesma mulher que antes atravessava a praça sem provocar maiores comoções agora
recebe homenagens. Não mudou necessariamente o talento. Mudou a distância de
onde passamos a observá-la.
Há
nisso alguma coisa de muito antiga. A própria tradição bíblica registrou a
ideia de que nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. Não é difícil
compreender. Para acreditar num profeta talvez seja conveniente não o ter visto
criança, não conhecer seus irmãos e não saber quem era seu pai. A familiaridade
humaniza demais aqueles que, para admirarmos plenamente, talvez preferíssemos
imaginar um pouco acima da humanidade.
O
fenômeno não ocorre apenas com pessoas. Cidades frequentemente valorizam mais
aquilo que chega de fora do que aquilo que nasceu dentro delas. Empresas
contratam especialistas para descobrir conhecimentos que seus próprios
funcionários já possuíam. Instituições convidam alguém de longe para dizer, com
maior solenidade, aquilo que alguém ali dentro vinha repetindo havia anos. Às
vezes uma ideia só se torna inteligente depois de viajar quilômetros. Em outras
ocasiões, precisa ganhar um título, uma moldura ou um sotaque.
É
possível que exista nisso também certo fascínio pelo desconhecido. Aquilo que
está distante conserva o privilégio do mistério. Podemos imaginar grandeza onde
não conhecemos os detalhes. Já aquilo que está próximo sofre com o excesso de
informação. Sabemos demais. Talvez por isso o restaurante de outra cidade
pareça melhor, o professor estrangeiro mais sábio, o especialista de fora mais
competente e o artista que nunca encontramos pessoalmente mais fascinante. Não
necessariamente porque sejam melhores. Apenas porque ainda não os vimos de
chinelos.
Evidentemente,
reconhecer a prata da casa não significa distribuir elogios por obrigação nem
transformar proximidade em certificado de competência. Há prata que não é
prata, assim como há santos que provavelmente fariam melhor se abandonassem a
carreira dos milagres. Valorizar não significa bajular. Significa apenas não
permitir que a familiaridade se transforme em cegueira.
Quem
sabe devêssemos, de vez em quando,
experimentar olhar para aquilo que está perto com os mesmos olhos curiosos com
que observamos aquilo que vem de longe? Examinar novamente as pessoas, as
ideias e os talentos que o hábito tornou invisíveis. Porque o costume é uma
espécie de poeira. Não destrói as coisas, apenas vai se depositando sobre elas
até esconder seu brilho. Pode ser esse, afinal, o problema da famosa prata da
casa. Ela continua sendo prata. Nós é que, de tanto vê-la sobre a mesa,
esquecemos de fazê-la brilhar.
Edson Pinto
Outubro,
2026
