Dizem
que todo mundo pertence a alguma coisa. Uns pertencem à pátria, outros à
saudade. Há quem pertença à profissão, à família, ao time do coração. E há
aqueles, mais discretos, que pertencem ao silêncio e não fazem alarde disso. Eu
mesmo, confesso, pertenço a um punhado de coisas que nem sempre escolhi:
Pertenço
ao bairro onde cresci, à calçada que guardou minhas pegadas de menino. Pertenço
às histórias que ouvi sem querer e levei comigo como quem carrega bolinhas de
gude no bolso. Pertenço, sobretudo, a pessoas que talvez nem saibam disso. E
mesmo assim, ou por isso mesmo, é uma “pertença” ou “ pertencimento” funda,
dessas que a gente sente mais do que explica.
Mas
“pertença” é um bicho danado. Às vezes ela é um abraço. Noutras, uma algema.
Ela acolhe, mas também limita. Quem nunca quis fugir justamente daquilo a que
mais pertencia? O sobrenome, o costume, a fé da infância, tudo isso forma um
território interno. E sair dele dói, mas ficar pode também doer.
Filosoficamente
falando - e sempre que filosofamos um pouco a vida parece menos indomável - a
tal da “pertença” não é só estar junto. É uma espécie de “ser com”: Ser com o
mundo, com o outro, com o tempo...
Heidegger,
que entendia dessas coisas com cara séria e palavras fundas, dizia que o ser
humano não está no mundo como quem o visita. Ele, na verdade, é o mundo. É
parte dele, como a janela é parte da casa. E não é curioso? A gente pertence até ao que perdeu: Pertence ao cheiro de alguém que partiu. Pertence a uma música que já não ouve, mas que
toca dentro da gente como se tivesse licença eterna.
Às
vezes, eu pertenço à ausência. À falta de resposta. Ao eco de uma promessa
antiga. Como se até a solidão fosse uma forma de vínculo. Tem dias em que acho
que pertenço mais às palavras do que a qualquer coisa. Elas me vestem, me
explicam, me escondem. Me traem às vezes também, mas só porque são íntimas
demais. E outras vezes, percebo que
pertenço mesmo é à infância. Tudo o resto parece ser consequência: o jeito de
andar, o riso meio torto, a mania de observar nuvens.
Se
há uma sabedoria nisso tudo, talvez esteja em aceitar que a verdadeira “pertença“
não aprisiona. Ela cuida. É quando alguém, ou alguma coisa, nos acolhe sem
exigir troca. Como quando alguém sabe que você está triste só pelo modo como
você pousa a xícara sobre a mesa. Ou quando um lugar nos recebe como se
fôssemos parte dele, ainda que tenhamos estado longe por anos. Aí sim,
pertencemos...
E
você? A quem, ou a quê, pertence? Talvez essa seja a pergunta mais sincera que
possamos fazer uns aos outros. E não os surrados:
__
O que você faz?
__
Onde você mora?
__
Qual seu signo?
Mas
isso:
__
Onde mora o seu pertencimento?
Se
descobrir, me avise. Ou melhor, grave um vídeo, conte num bilhete, escreva num
guardanapo. Porque saber a quem pertencemos é, talvez, começar a entender quem
somos.
Edson Pinto
Maio, 2026
Martin
Heidegger (1889–1976), filósofo de poucas concessões e muitas inquietações,
teve o mérito, ou o atrevimento, de nos lembrar que o homem não chega ao mundo
como quem entra num salão vazio. Chega já sentado à mesa, com a conversa em
andamento e, o que é mais curioso, como se sempre tivesse estado ali. Chamou a
isso de ser-no-mundo. Nome austero para uma ideia quase doméstica: a de que não
há existência fora de algum pertencimento. Antes mesmo de escolhermos, já fomos
escolhidos: por uma língua, por um tempo, por uma vizinhança de afetos e
circunstâncias. Heidegger não escreveu propriamente sobre “pertencer”, ao menos
não com essa palavra simpática. Preferiu termos mais severos. Ainda assim, sua
filosofia nos sussurra, com certa gravidade: não pertencemos como quem adere, pertencemos como quem já chegou tarde demais
para negar o convite.
