Acordei
decidido a ser lógico. O dia prometia ordem: Café às oito, internet às nove e ideias alinhadas às dez. Às oito e cinco,
derrubei o café na camisa. Foi ali que me lembrei do bêbado.
Não
exatamente do bêbado da esquina, embora este também mereça um tratado
filosófico, mas do outro, o mais elegante. O bêbado estatístico, aquele que
anda sem destino, tropeça no acaso e, ainda assim, chega a algum lugar.
Leonard
Mlodinow em seu livro O Andar do Bêbado, Zahar, 2008, o apresentou ao mundo com
sobriedade científica. Eu o reencontrei naquela mancha marrom, bem no centro do
peito, como um alvo existencial.
O
passo do bêbado, ensinam os estudiosos, é imprevisível. Ele não caminha em
linha reta. Vai para a esquerda sem saber por quê. Depois para a direita, com
igual convicção. E nós, observadores sóbrios, ou quase, insistimos em ver
método onde há apenas balanço. A vida faz algo parecido conosco. Planejamos a
semana como quem desenha uma avenida, mas ela se comporta como um beco.
Conheço
gente que estudou muito, trabalhou certo, fez tudo como manda o figurino e
terminou sem figurino e sem palco. Outros erraram cedo, tropeçaram feio,
escolheram mal e acabaram bem. Quando perguntados sobre o segredo do sucesso,
respondem com frases motivacionais que não explicam nada, mas consolam
bastante. “Sempre acreditei em mim”,
dizem.
Mentira
piedosa. O acaso acreditou primeiro. O problema não é o acaso existir. É nossa
mania de fingir que ele não entrou na sala. O bêbado estatístico nos ensina que
muitos resultados não são fruto de genialidade, mas de persistência errante.
Ele anda, anda, anda e por pura insistência acaba chegando mais longe do que o
sujeito metódico que parou cedo demais para revisar o plano.
Isso
explica, por exemplo, por que algumas ideias ruins dão certo e algumas ideias
ótimas morrem na gaveta. A gaveta, aliás, é o cemitério mais povoado da
inteligência humana. No cotidiano, o acaso usa disfarces modestos. Ele se chama
“encontro por acaso”, “coincidência curiosa”, ou “quem diria?”. Raramente
aparece como acaso mesmo, pois isso ofenderia nosso ego, que prefere
imaginar-se piloto quando, na verdade, é passageiro de janela.
Outro
dia, um amigo me disse:
—
Se eu soubesse naquele tempo o que hoje sei , eu teria agido de forma diferente.
Respondi
com a sabedoria que só o envelhecimento concede:
— Se você soubesse o que sabe hoje,
hoje não seria hoje.
O
bêbado não aprende o caminho antes de andar. Aprende andando. E nós também. Há
uma certa libertação em aceitar isso. Não aquela libertação irresponsável, do
tipo “entregue-se ao caos”, mas uma mais elegante, como reconhecer que nem tudo depende de nós e que,
ainda assim, vale a pena caminhar.
O
grande Machado, se estivesse entre nós, talvez dissesse que o acaso é um autor
invisível que escreve conosco, mas nunca pede revisão. Corrige o texto depois
de publicado. No fim das contas, talvez a sabedoria consista em três coisas bem
simples: A primeira, planejar, sim, porque
o café precisa estar quente. A segunda, aceitar o acaso, porque ele vai
derramar o café, terceira e não menos importante, rir da mancha, porque ela
não saiu mesmo.
O
bêbado continua andando. Nós continuamos explicando. E a vida, indiferente às
nossas teorias, segue dando passos tortos que, misteriosamente, nos levam
adiante. Não em linha reta, mas vivos.
Edson Pinto
Abril, 2026
