20 de fev. de 2026

359) DERRIDA À BEIRA DO RIO VERDE


Quando Jacques Derrida, de cabeça e paletó brancos, apareceu na minha varanda, puxando uma cadeira para sentar à minha frente, eu não me surpreendi. Filósofos têm essa mania antiga de surgir justamente quando a gente mais precisa, embora eles afirmem que é a gente que os convoca.
Eu estava observando o Rio Verde após a chuva quando ouvi sua voz irônica e suave.

— Edson, você já percebeu que até o rio duvida de si?

Ofereci-lhe um café. Derrida aceitou e acrescentou duas gotas de silêncio, como quem tempera o pensamento.

— Como assim, Jacques, o rio duvida?

Ele apontou para a água, que naquele momento parecia mais azul do que verde, com aquela luminosidade tímida de fim de tarde mineiro.

— Veja bem, disse ele. O rio corre, mas nunca é o mesmo. Ele promete chegar, mas adia. Como o sentido. A água se oferece, mas escapa. Sempre diferida. É a sua própria “différance” em estado líquido.

Eu ri. Porque mineiro, quando escuta filosofia difícil, ri para não passar vergonha.

— Então você está dizendo que o Rio Verde é uma metáfora da vida?

— Não, corrigiu Derrida. Eu estou dizendo que a vida é que tenta ser metáfora do rio, mas tropeça.

Ficamos uns minutos observando o vaivém das nuvens e das garças. A maturidade, essa senhora que chega sem pedir licença, também se encostou na varanda com a gente. Ela tem um jeito de sentar meio estalado, como joelho velho.

— Edson, ele continuou, você, assim como eu, pertence àquele estágio da existência em que o saber já acumulou pó e a sabedoria finalmente pede passagem.

Levei o café à boca, pensando em quantos livros li, quantas certezas tive e quantas perdi. Falei:

— Pois é. A gente sabe muito, mas compreender… compreender é outra coisa.

Derrida abriu um sorriso torto:

— Saber é colecionar palavras. Sabedoria é desconfiar delas.

O vento soprou devagar, como quem confirma. Eu olhei para o rio, ele olhou para mim. Havia um acordo silencioso de que nenhum de nós estava completamente pronto para ser sábio, mas também não éramos mais tão bobos para nos agarrar a velhas certezas.

— E essa história de presença e ausência?, provoquei. Você sempre disse que nada está plenamente presente. Nem nós mesmos.

Derrida levantou a xícara na altura dos olhos:

— Veja este café. Está aqui. Você sente o cheiro, o calor, mas o sabor? Ah, o sabor só existe quando você o deixa ir. A presença é sempre uma promessa que se desfaz no ato de ser cumprida.

— Quer dizer que até meu café é desconstruído?

— Tudo é. Até a idade.

Rimos juntos. A maturidade, ali ao lado, fingiu que não era com ela. O filósofo então virou o rosto para o rio e disse algo que guardarei como quem guarda fotografia antiga no bolso da camisa:

— Você reparou, Edson, que nós, os homens maduros, somos exatamente como esse Rio Verde? Já fomos águas rápidas, já derrubamos pedras, já quisemos chegar depressa ao rio maior, ao mar. Hoje, serpenteamos. Não por fraqueza, mas por sabedoria. Aprendemos que o caminho é mais importante que a chegada. E completou:

— Ser jovem é querer saber. Ser maduro é aceitar que nunca saberemos tudo, mas ainda assim seguir adiante.

O sol desceu devagar, como se também quisesse participar da conversa. O rio brilhou, fazendo pose de quem entendeu cada palavra. Derrida terminou o café, empurrou a cadeira para trás e se levantou com aquele jeito de professor que está prestes a desaparecer no ar, o que de fato fez. Antes de sumir, porém, virou-se uma última vez e disse:

— Edson, não acredite demais em mim. Nem em você. Nem no rio. Acredite apenas nessa dança entre presença e ausência. Nela mora a sabedoria.

E, como todo bom filósofo, foi embora deixando a dúvida plantada. Fiquei sozinho com o Rio Verde. Ou talvez o rio é que tenha ficado sozinho comigo. Afinal, se aprendi algo nessa tarde de fim de carnaval, é que até as certezas que parecem mais sólidas se dissolvem como açúcar no último gole de café. E, cá entre nós, isso não deixa de ser um belo consolo...

 Edson Pinto

Fevereiro, 2026

 

Nota do autor:

Jacques Derrida (1930–2004) foi um filósofo franco-argelino, um dos pensadores mais influentes e mais malcompreendidos do século XX. Associado ao que se convencionou chamar de desconstrução, Derrida não se propunha a destruir ideias, conceitos ou tradições, mas a examiná-los por dentro, como quem desmonta um relógio para entender seu delicado mecanismo.

Seu trabalho questionou certezas antigas da filosofia ocidental, sobretudo a crença de que as palavras capturam fielmente a realidade e de que o sentido está sempre presente, inteiro e disponível. Para Derrida, o significado é instável, escorregadio, sempre adiado e que nunca chega por completo. Daí sua célebre noção de “différance”, um jogo entre diferença e adiamento do sentido.

Derrida escreveu sobre linguagem, escrita, filosofia, literatura, política, ética e memória, dialogando com autores como Platão, Aristóteles, Rousseau, Nietzsche, Freud e Heidegger. Sua escrita, deliberadamente complexa e muitas vezes poética, incomodou leitores apressados, mas encantou aqueles dispostos a aceitar que pensar também é hesitar.

Nesta crônica em que imaginei Derrida me visitando, ele aparece não como o filósofo acadêmico de frases longas e difíceis, mas como aquilo que talvez ele sempre tenha sido, um desconfiado cordial, alguém que nos ensina que saber muito não é o mesmo que ser sábio.  E que amadurecer talvez seja aprender a conviver melhor com as perguntas do que com as respostas.


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