—
Edson, você já percebeu que até o rio duvida de si?
Ofereci-lhe
um café. Derrida aceitou e acrescentou duas gotas de silêncio, como quem
tempera o pensamento.
—
Como assim, Jacques, o rio duvida?
Ele
apontou para a água, que naquele momento parecia mais azul do que verde, com
aquela luminosidade tímida de fim de tarde mineiro.
—
Veja bem, disse ele. O rio corre, mas nunca é o mesmo. Ele promete chegar, mas
adia. Como o sentido. A água se oferece, mas escapa. Sempre diferida. É a sua
própria “différance” em estado líquido.
Eu
ri. Porque mineiro, quando escuta filosofia difícil, ri para não passar
vergonha.
—
Então você está dizendo que o Rio Verde é uma metáfora da vida?
—
Não, corrigiu Derrida. Eu estou dizendo que a vida é que tenta ser metáfora do
rio, mas tropeça.
Ficamos
uns minutos observando o vaivém das nuvens e das garças. A maturidade, essa
senhora que chega sem pedir licença, também se encostou na varanda com a gente.
Ela tem um jeito de sentar meio estalado, como joelho velho.
—
Edson, ele continuou, você, assim como eu, pertence àquele estágio da
existência em que o saber já acumulou pó e a sabedoria finalmente pede
passagem.
Levei
o café à boca, pensando em quantos livros li, quantas certezas tive e quantas
perdi. Falei:
—
Pois é. A gente sabe muito, mas compreender… compreender é outra coisa.
Derrida
abriu um sorriso torto:
—
Saber é colecionar palavras. Sabedoria é desconfiar delas.
O
vento soprou devagar, como quem confirma. Eu olhei para o rio, ele olhou para
mim. Havia um acordo silencioso de que nenhum de nós estava completamente
pronto para ser sábio, mas também não éramos mais tão bobos para nos agarrar a
velhas certezas.
—
E essa história de presença e ausência?, provoquei. Você sempre disse que nada
está plenamente presente. Nem nós mesmos.
Derrida
levantou a xícara na altura dos olhos:
—
Veja este café. Está aqui. Você sente o cheiro, o calor, mas o sabor? Ah, o
sabor só existe quando você o deixa ir. A presença é sempre uma promessa que se
desfaz no ato de ser cumprida.
—
Quer dizer que até meu café é desconstruído?
—
Tudo é. Até a idade.
Rimos
juntos. A maturidade, ali ao lado, fingiu que não era com ela. O filósofo então
virou o rosto para o rio e disse algo que guardarei como quem guarda fotografia
antiga no bolso da camisa:
—
Você reparou, Edson, que nós, os homens maduros, somos exatamente como esse Rio
Verde? Já fomos águas rápidas, já derrubamos pedras, já quisemos chegar
depressa ao rio maior, ao mar. Hoje, serpenteamos. Não por fraqueza, mas por
sabedoria. Aprendemos que o caminho é mais importante que a chegada. E
completou:
—
Ser jovem é querer saber. Ser maduro é aceitar que nunca saberemos tudo, mas
ainda assim seguir adiante.
O
sol desceu devagar, como se também quisesse participar da conversa. O rio
brilhou, fazendo pose de quem entendeu cada palavra. Derrida terminou o café,
empurrou a cadeira para trás e se levantou com aquele jeito de professor que
está prestes a desaparecer no ar, o que de fato fez. Antes de sumir, porém,
virou-se uma última vez e disse:
—
Edson, não acredite demais em mim. Nem em você. Nem no rio. Acredite apenas
nessa dança entre presença e ausência. Nela mora a sabedoria.
E,
como todo bom filósofo, foi embora deixando a dúvida plantada. Fiquei sozinho
com o Rio Verde. Ou talvez o rio é que tenha ficado sozinho comigo. Afinal, se
aprendi algo nessa tarde de fim de carnaval, é que até as certezas que parecem
mais sólidas se dissolvem como açúcar no último gole de café. E, cá entre nós,
isso não deixa de ser um belo consolo...
Fevereiro,
2026
Nota do autor:
Jacques
Derrida (1930–2004) foi um filósofo franco-argelino, um dos pensadores mais
influentes e mais malcompreendidos do século XX. Associado ao que se
convencionou chamar de desconstrução, Derrida não se propunha a destruir
ideias, conceitos ou tradições, mas a examiná-los por dentro, como quem
desmonta um relógio para entender seu delicado mecanismo.
Seu
trabalho questionou certezas antigas da filosofia ocidental, sobretudo a crença
de que as palavras capturam fielmente a realidade e de que o sentido está
sempre presente, inteiro e disponível. Para Derrida, o significado é instável,
escorregadio, sempre adiado e que nunca chega por completo. Daí sua célebre
noção de “différance”, um jogo entre diferença e adiamento do sentido.
Derrida
escreveu sobre linguagem, escrita, filosofia, literatura, política, ética e
memória, dialogando com autores como Platão, Aristóteles, Rousseau, Nietzsche,
Freud e Heidegger. Sua escrita, deliberadamente complexa e muitas vezes
poética, incomodou leitores apressados, mas encantou aqueles dispostos a
aceitar que pensar também é hesitar.
Nesta
crônica em que imaginei Derrida me visitando, ele aparece não como o filósofo
acadêmico de frases longas e difíceis, mas como aquilo que talvez ele sempre
tenha sido, um desconfiado cordial, alguém que nos ensina que saber muito não é
o mesmo que ser sábio. E que amadurecer
talvez seja aprender a conviver melhor com as perguntas do que com as
respostas.

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