24 de abr. de 2026

368) A BOLA DE HEISENBERG

 

"O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.”                      (Isaac Newton)

 Confesso ao leitor amigo, e faço-o com a humildade de quem já sofreu vários gols nos acréscimos, que comecei a pensar em física quântica por culpa do futebol. Não por erudição, note-se, mas por desespero...

Meu time, o Galo, centenário Clube Atlético Mineiro que aprendi a gostar antes mesmo de aprender o bê-á-bá, resolveu, nas últimas semanas, praticar uma filosofia própria, ou seja,  a do entusiasmo intermitente. Ganha dois jogos seguidos. Convence. Encanta. Eu, ingênuo, reorganizo a esperança, passo a acreditar em tabela, em classificação, em futuro. Volto a fazer contas, essa velha mania dos economistas e dos torcedores. E então, como se o universo resolvesse corrigir meu excesso de otimismo, vem a semana seguinte: Derrota...

Não uma derrota qualquer, mas daquelas didáticas, pedagógicas, quase humilhantes. Perde para um time que, até então, parecia ter sido montado com sobras de feira e boa vontade. E perde com convicção. Foi nesse vaivém, entre o entusiasmo e o desencanto, que me ocorreu uma suspeita inquietante: talvez o futebol não seja regido pelas leis clássicas. Talvez ele seja, em sua essência, quântico.

Na física tradicional, essa que agrada aos engenheiros e aos homens de planilha, há uma promessa de ordem. Se conhecemos as causas, prevemos os efeitos. Se o time é melhor, vence. Se é pior, perde. Tudo muito razoável, tudo muito elegante. O problema é que o futebol não leu esse manual.

Há, na física quântica, um princípio curioso, o tal do Princípio da Incerteza de Heisenberg, segundo o qual não se pode conhecer simultaneamente, com precisão absoluta, certas propriedades de uma partícula. Traduzindo para o idioma das arquibancadas: Não se pode conhecer, ao mesmo tempo, o time que entra em campo e o resultado que dele sairá. Ou, sendo mais honesto: Quanto mais certo você está da vitória, mais ela escapa.

O torcedor, essa criatura essencialmente otimista, ou teimosamente reincidente, acredita em padrões. Dois jogos bons? Embalou. Três vitórias? Candidato ao título. Um novo reforço? Agora vai. O futebol, porém, responde com um sorriso enviesado. A bola, esse pequeno planeta caprichoso, não obedece à lógica dos investimentos nem ao valor de mercado. Ela quica onde quer, desvia quando não deve, trai com uma naturalidade quase filosófica. Arrisco dizer: A bola é uma partícula rebelde.

Antes do chute, ela contém todos os destinos possíveis: o gol espetacular, a bola na trave, o chute torto, o desvio improvável. É, por assim dizer, uma nuvem de possibilidades. No instante do chute, esse breve momento em que o pé encontra o mundo, a incerteza colapsa. E quase sempre colapsa contra nós.

O mais curioso, porém, é o técnico. Figura respeitável, de prancheta em mãos, ele desenha o jogo como quem acredita em retas. Posiciona, organiza, ensaia movimentos. Imagina, e nisso não está sozinho, que o futebol é um sistema obediente. Pobre homem! Ele pensa como René Descartes, enquanto o jogo responde como um discípulo tardio de Werner Heisenberg. Enquanto o técnico traça linhas, o jogo faz curvas. Enquanto ele prevê, o campo improvisa. Enquanto ele explica, a bola contradiz. E o torcedor,  essa síntese imperfeita de esperança e memória, assiste a tudo como quem participa de um experimento sem controle.

Há, evidentemente, fatores objetivos: técnica, preparo físico, orçamento, estratégia. Não sejamos injustos com a razão, ela ainda tem seus direitos. Porém, há também aquilo que escapa: O desvio involuntário. O erro improvável. O goleiro que falha no único lance em que não podia falhar. O atacante medíocre que, por um instante inexplicável, torna-se gênio. São, talvez, as pequenas partículas do acaso, em permanente conspiração contra nossas certezas.

Volto, então, ao meu Galo do coração. Depois de duas vitórias convincentes, eu já lhe atribuía virtudes quase estruturais: consistência, maturidade, projeto. Cheguei, em momento de fraqueza, a usar a palavra “regularidade”. Na semana seguinte, ele me ensinou, com a delicadeza de uma bola horrivelmente atrasada ao goleiro, que a regularidade, no futebol, é apenas uma hipótese mal sustentada. Perdeu. E perdeu de modo a desmontar não apenas o sistema defensivo, mas também o meu raciocínio.

Foi ali que compreendi, enfim, a natureza do fenômeno: Meu time não é inconsistente. Ele é quântico. Deve ser por isso que o futebol nos fascine tanto. Ele nos devolve à condição essencial do mundo: incerto, improvável, surpreendente. Um mundo onde nem sempre o melhor vence, onde o esforço não garante o resultado, onde a lógica precisa, de tempos em tempos, pedir licença ao mistério.

No fundo, no fundo, cada partida de futebol é uma pequena lição de humildade. E cada derrota inesperada, uma lembrança de que o universo, seja ele feito de partículas ou de jogadores,  não se deixa domesticar com facilidade. Da minha parte, continuo assistindo. Com esperança, é claro, mas agora com uma cautela adicional. Quando meu time ganha duas seguidas, eu já não comemoro tanto. Apenas observo, como um físico diante de seu experimento. E espero, não sem certo receio, o próximo colapso da realidade.

 

Edson Pinto

Abril, 2026


Nota do Autor

Se o leitor, ao longo destas linhas, teve a impressão de que este autor resolveu misturar futebol com física quântica e ainda, por desatenção ou ousadia, trazer à conversa um certo filósofo alemão, convém tranquilizá-lo: não se trata de erudição desnecessária, mas de tentativa honesta de compreender o inexplicável. Refiro-me a Martin Heidegger, pensador do século XX, que se dedicou, com uma seriedade que o futebol raramente permite, à investigação do ser, do tempo e, sobretudo, daquilo que escapa às explicações fáceis. Heidegger desconfiava das certezas prontas. Preferia os caminhos tortuosos do pensamento, onde as respostas são menos importantes que as perguntas. Se tivesse sido torcedor, e aqui me permito uma liberdade que a história talvez não autorize, suspeito que compreenderia, melhor do que muitos comentaristas esportivos, a natureza do jogo. Não porque explicaria o futebol, mas porque aceitaria o seu mistério. Quanto às partículas, essas pequenas entidades que a física moderna insiste em tratar como probabilidades , elas entram nesta crônica não como autoridade científica, mas como metáfora conveniente. Na mecânica quântica, o mundo deixa de ser previsível e passa a ser possível. E essa mudança de verbo, por si só, já bastaria para justificar a comparação com o futebol. Porque, no fundo, é disso que se trata: de um jogo em que o possível frequentemente vence o provável. Se o leitor encontrar aqui mais filosofia do que futebol, peço indulgência. Se encontrar mais futebol do que filosofia, peço compreensão. E se, ao final, concluir que nem uma coisa nem outra explicam plenamente o que acontece em campo, então estaremos, autor e leitor, em perfeita sintonia com o universo. E com os campeonatos em andamento.

17 de abr. de 2026

367) A SINFONIA DA CONSCIÊNCIA

 De repente, estou eu, encostado na janela, olhando o Rio Verde que lá embaixo faz suas curvas caprichosas. Pego-me então pensando na tal da consciência, essa hóspede silenciosa que mora dentro de cada um de nós, mas que nunca bateu cartão de ponto. A gente sabe que ela está lá. Sente sua presença, mas quando tentamos apontar o dedo e dizer “é ali que você vive”, ela escapa como fumaça.

Há quem pergunte se existe, no cérebro, um órgão específico da consciência. Uma glândula, talvez, escondida atrás de alguma dobra da matéria cinzenta, responsável por acender esse farol interno. A resposta, meus amigos, é um sonoro “não”. Não existe um quartinho reservado onde a consciência repousa. Não há placa de identificação, nem janela dando para o sol. O que existe é algo maior, mais complexo, mais parecido com uma sinfonia do que com uma engrenagem.

O maestro, porém, nós o conhecemos. Ele fica lá no fundo, no tronco encefálico, aquela região pequena, discreta, que mantém o espetáculo aceso. Se o maestro desmaia, a orquestra para. E pronto. Silêncio... É dele o papel humilde e, ao mesmo tempo, gigante de nos manter acordados, presentes, disponíveis para o mundo.

A consciência não é só permanecer de olhos abertos. A música precisa circular pelos instrumentos. Aí entra o tálamo, esse roteador elegante, que recebe informações de todos os cantos e as distribui com a serenidade de um bibliotecário antigo. Sem ele, as notas se amontoariam em confusão.

A partir daí, o espetáculo se torna grandioso. No palco da frente, o córtex pré-frontal ensaia pensamentos, decisões, julgamentos, planos . É o nosso “eu” executivo, aquele que  resolve se trocamos a lâmpada hoje ou amanhã. Um pouco mais ao sul, na região parietal, temporal e occipital, mora o que alguns chamam de “zona quente” da consciência. É onde o filme interno passa. As cores que vemos, os medos que sentimos, os cheiros que nos lembram da infância e da vovó ofegante no pilão.

Tudo isso junto forma o que chamamos de ser. Não um lugar, mas um processo. Não um órgão, mas um encontro. Uma dança permanente entre corpo, mente e mundo. E talvez seja justamente essa complexidade que nos torna humanos. Não sabemos explicar totalmente o que é a consciência, mas somos capazes de admirá-la, como quem não entende a partitura, mas se emociona com a melodia.

Enquanto escrevo, percebo que minha própria consciência está aqui, tocando piano no meu peito, soprando ideias, acendendo memórias. Lembro do Caiçara, da infância simples, das conversas na cozinha, das primeiras curiosidades sobre o que existe além da pele e da carne. E entendo, de súbito, que essa sinfonia que não sabemos localizar sempre tocou dentro de mim, desde menino. Talvez seja isso que chamamos de alma, ou espírito, ou simplesmente vida acordada.

No fundo, continuo como sempre fui. Um curioso do mistério. Um aprendiz da própria mente e um admirador desse maestro secreto que insiste em reger a música enquanto respiramos. A consciência pode não ter endereço fixo no cérebro, mas mora, e sempre morou, naquilo que nos torna humanos.

 

Edson Pinto

Abril, 2026 


10 de abr. de 2026

366) ELOGIO DO PASSO INCERTO

 

Acordei decidido a ser lógico. O dia prometia ordem: Café às oito, internet  às nove e  ideias alinhadas às dez. Às oito e cinco, derrubei o café na camisa. Foi ali que me lembrei do bêbado.

Não exatamente do bêbado da esquina, embora este também mereça um tratado filosófico, mas do outro, o mais elegante. O bêbado estatístico, aquele que anda sem destino, tropeça no acaso e, ainda assim, chega a algum lugar.

Leonard Mlodinow em seu livro O Andar do Bêbado, Zahar, 2008, o apresentou ao mundo com sobriedade científica. Eu o reencontrei naquela mancha marrom, bem no centro do peito, como um alvo existencial.

O passo do bêbado, ensinam os estudiosos, é imprevisível. Ele não caminha em linha reta. Vai para a esquerda sem saber por quê. Depois para a direita, com igual convicção. E nós, observadores sóbrios, ou quase, insistimos em ver método onde há apenas balanço. A vida faz algo parecido conosco. Planejamos a semana como quem desenha uma avenida, mas ela se comporta como um beco.

Conheço gente que estudou muito, trabalhou certo, fez tudo como manda o figurino e terminou sem figurino e sem palco. Outros erraram cedo, tropeçaram feio, escolheram mal e acabaram bem. Quando perguntados sobre o segredo do sucesso, respondem com frases motivacionais que não explicam nada, mas consolam bastante.  “Sempre acreditei em mim”, dizem.

Mentira piedosa. O acaso acreditou primeiro. O problema não é o acaso existir. É nossa mania de fingir que ele não entrou na sala. O bêbado estatístico nos ensina que muitos resultados não são fruto de genialidade, mas de persistência errante. Ele anda, anda, anda e por pura insistência acaba chegando mais longe do que o sujeito metódico que parou cedo demais para revisar o plano.

Isso explica, por exemplo, por que algumas ideias ruins dão certo e algumas ideias ótimas morrem na gaveta. A gaveta, aliás, é o cemitério mais povoado da inteligência humana. No cotidiano, o acaso usa disfarces modestos. Ele se chama “encontro por acaso”, “coincidência curiosa”, ou “quem diria?”. Raramente aparece como acaso mesmo, pois isso ofenderia nosso ego, que prefere imaginar-se piloto quando, na verdade, é passageiro de janela.

Outro dia, um amigo me disse:

— Se eu soubesse naquele tempo o que hoje sei , eu teria agido de forma diferente.

Respondi com a sabedoria que só o envelhecimento concede:

— Se você soubesse o que sabe hoje, hoje não seria hoje.

O bêbado não aprende o caminho antes de andar. Aprende andando. E nós também. Há uma certa libertação em aceitar isso. Não aquela libertação irresponsável, do tipo “entregue-se ao caos”, mas uma mais elegante,  como  reconhecer que nem tudo depende de nós e que, ainda assim, vale a pena caminhar.

O grande Machado, se estivesse entre nós, talvez dissesse que o acaso é um autor invisível que escreve conosco, mas nunca pede revisão. Corrige o texto depois de publicado. No fim das contas, talvez a sabedoria consista em três coisas bem simples:  A primeira, planejar, sim, porque o café precisa estar quente. A segunda, aceitar o acaso, porque ele vai derramar o café, terceira e não menos importante, rir da mancha, porque ela não saiu mesmo.

O bêbado continua andando. Nós continuamos explicando. E a vida, indiferente às nossas teorias, segue dando passos tortos que, misteriosamente, nos levam adiante. Não em linha reta, mas vivos.

 

Edson Pinto

Abril, 2026

3 de abr. de 2026

365) O ESPELHO COMO ARGUMENTO

 

Alguém foi acusado... Coisa pequena, doméstica, dessas que não entram na História, mas entram na conversa.

— “Você fez isso.”

Havia várias respostas possíveis: Poderia ter dito que fez, sim. Ou ter dito que não fez. Ou ainda argumentar que fez apresentando atenuantes, como circunstâncias vigentes na hora do ato, o vento, o pouco tempo de que dispunha, a lua fora de fase etc.

Mas o ser humano conhece atalhos. E alguns os usam com notável habilidade. A pessoa acusada respirou fundo, adotou um tom de dignidade improvisada e lançou a frase clássica, tão antiga quanto eficaz:

— “E você?”

Pronto. A conversa, que caminhava em linha reta, entrou numa rotatória. A acusação perdeu o endereço. O foco mudou de dono. O assunto original, constrangido, saiu de fininho. Essa manobra tem nome respeitável, originalmente em latim, desses que parecem tirados de um tratado antigo: “tu quoque”. Em português corrente significa “você também.” É a falácia do espelho. Não se responde ao que se fez. Aponta-se o que o outro fez.

E o curioso é que costuma funcionar. Não porque seja correta, mas porque é confortável. A verdade exige esforço. O desvio exige apenas um dedo em riste, de preferência apontando para o lado.

— “Você mentiu.”

— “E você, que exagera”

— “Você errou.”

— “E você, que não é exemplo”

A lógica, nesse momento, costuma ficar sentada num canto, como uma tia sensata em festa barulhenta. Está presente, ignorada e com vontade de ir embora mais cedo.

O “tu quoque” cria uma sensação rápida de justiça. Se o outro também falha, então a falha própria vira detalhe. Um deslize humano. Um pecado democrático. Mas a conta não fecha. Dois erros não formam um acerto. Duas falhas não produzem virtude. E dois atrasos não reinventam a pontualidade.

Ainda assim, o empate moral agrada. O empate é uma forma elegante de sair sem se explicar. Ninguém vence, ninguém perde e a verdade, como sempre, fica para depois. Ao final da conversa, a acusação inicial já não estava mais ali. Havia se diluído em comparações, lembranças oportunas e pequenos ressentimentos reciclados. No ambiente da política vimos também isso a todo instante. As acusações são frequentemente rebatidas com um sonoro “E você?”.

E assim o “tu quoque” cumpriu seu papel. Não defendeu ninguém, não esclareceu nada, mas mudou o assunto com eficiência exemplar.

A lógica observou tudo em silêncio. Anotou. E seguiu em frente, acostumada a ser preterida sempre que o espelho fala mais alto que o argumento.

 

Edson Pinto

Abril, 2026