Eu
ia escrever sobre alguma coisa. Não sei bem o quê, mas, juro por tudo que é sagrado,
que eu vinha muito decidido a fazê-lo...
Sentei-me.
Abri o arquivo no computador. Ajustei a cadeira, esse gesto solene que antecede
todas as indecisões importantes. O cursor piscava, impaciente, como quem diz:
“e então?” Não respondi. Nunca respondo bem a quem me cobra clareza logo no
início.
Pensei
em começar pelo começo, mas logo percebi que o começo não tinha sido avisado.
Pensei em um fato do dia. Nenhum se ofereceu. Pensei em mim mesmo. Ideia
recorrente, mas perigosa. Pensei em desistir, o que já é, em si, um tema
respeitável. Decidi escrever enquanto pensava. Erro clássico, mas produtivo.
A
crônica, quando não sabe do que vai falar, fica mais sincera. Ela anda pela
casa de pijama, abre a geladeira sem fome, olha pela janela sem procurar nada.
Às vezes encontra. Às vezes não. E segue
vivendo.
O
problema é que as ideias são tímidas. Se percebem que estamos atentos demais,
somem. Gostam de ser flagradas no descuido. Aparecem quando não são chamadas, como aquela lembrança antiga que surge no meio da fila do banco, sem educação
alguma. Enquanto isso, o texto vai se formando sozinho, feito fila de formigas.
Ninguém sabe quem começou, mas todas seguem.
Pensei
em dar um sentido a isso tudo. Pensei em organizar, concluir, amarrar, mas
desconfio profundamente das amarrações. Elas dão uma falsa sensação de que a
vida fecha. E não fecha. No máximo encosta.
Aliás,
há textos que nascem sabendo demais. Já vêm com tese, conclusão e até moral da
história. Esses me cansam. Prefiro os textos que gaguejam. Que erram o caminho.
Que chegam atrasados ao próprio assunto.
Esta
crônica, por exemplo, começou sem tema. Agora, perto do fim, continua sem saber
exatamente do que tratou. Talvez tenha falado do ato de escrever. Talvez do
vazio. Talvez de nada, que é um assunto vastíssimo. Se eu fosse rigoroso,
cortaria metade. Se fosse acadêmico, explicaria tudo. Como não sou nem uma
coisa nem outra, deixo assim.
A
verdade é que algumas crônicas não querem dizer nada. Querem apenas estar.
Fazer companhia. Sentar ao lado do leitor e comentar o silêncio. E se, ao
terminar, você tiver a sensação de que não aprendeu coisa alguma, mas também
não perdeu tempo, então esta crônica chegou exatamente aonde pretendia. Ou
talvez não.
E
está tudo bem...
Março, 2026

3 comentários:
Muito bom! Uma tempestade de pensamentos profundos em si mesmo! Gostei demais!
Forte abraço do Chico Morais!
Bloqueio do criativo e o estado puro da escrita. Voce conseguiu transformar o nada em algo substancial com a falta de assunto.Voce entregou uma definição sobre a honestidade do escrever. Parabens. Muito bom. Me identifico com isto.
Extremamente interessante, nos faz caminhar prazerosamente na contramão do ditado que orienta: se não sabe o que falar, não fale nada. O nada nos leva por caminhos nunca explorados.
Postar um comentário