8 de mai. de 2026

370) A DELICADA ARTE DE PERTENCER

 

Dizem que todo mundo pertence a alguma coisa. Uns pertencem à pátria, outros à saudade. Há quem pertença à profissão, à família, ao time do coração. E há aqueles, mais discretos, que pertencem ao silêncio e não fazem alarde disso. Eu mesmo, confesso, pertenço a um punhado de coisas que nem sempre escolhi:

Pertenço ao bairro onde cresci, à calçada que guardou minhas pegadas de menino. Pertenço às histórias que ouvi sem querer e levei comigo como quem carrega bolinhas de gude no bolso. Pertenço, sobretudo, a pessoas que talvez nem saibam disso. E mesmo assim, ou por isso mesmo, é uma “pertença” ou “ pertencimento” funda, dessas que a gente sente mais do que explica.

Mas “pertença” é um bicho danado. Às vezes ela é um abraço. Noutras, uma algema. Ela acolhe, mas também limita. Quem nunca quis fugir justamente daquilo a que mais pertencia? O sobrenome, o costume, a fé da infância, tudo isso forma um território interno. E sair dele dói, mas ficar pode também doer.

Filosoficamente falando - e sempre que filosofamos um pouco a vida parece menos indomável - a tal da “pertença” não é só estar junto. É uma espécie de “ser com”: Ser com o mundo, com o outro, com o tempo...

Heidegger, que entendia dessas coisas com cara séria e palavras fundas, dizia que o ser humano não está no mundo como quem o visita. Ele, na verdade, é o mundo. É parte dele, como a janela é parte da casa. E não é curioso?  A gente pertence até ao que perdeu:  Pertence ao cheiro de alguém que partiu.  Pertence a uma música que já não ouve, mas que toca dentro da gente como se tivesse licença eterna.

Às vezes, eu pertenço à ausência. À falta de resposta. Ao eco de uma promessa antiga. Como se até a solidão fosse uma forma de vínculo. Tem dias em que acho que pertenço mais às palavras do que a qualquer coisa. Elas me vestem, me explicam, me escondem. Me traem às vezes também, mas só porque são íntimas demais.  E outras vezes, percebo que pertenço mesmo é à infância. Tudo o resto parece ser consequência: o jeito de andar, o riso meio torto, a mania de observar nuvens.

Se há uma sabedoria nisso tudo, talvez esteja em aceitar que a verdadeira “pertença“ não aprisiona. Ela cuida. É quando alguém, ou alguma coisa, nos acolhe sem exigir troca. Como quando alguém sabe que você está triste só pelo modo como você pousa a xícara sobre a mesa. Ou quando um lugar nos recebe como se fôssemos parte dele, ainda que tenhamos estado longe por anos. Aí sim, pertencemos...

E você? A quem, ou a quê, pertence? Talvez essa seja a pergunta mais sincera que possamos fazer uns aos outros. E não os surrados:

__ O que você faz?

__ Onde você mora?

__ Qual seu signo?

Mas isso:

__ Onde mora o seu pertencimento?

Se descobrir, me avise. Ou melhor, grave um vídeo, conte num bilhete, escreva num guardanapo. Porque saber a quem pertencemos é, talvez, começar a entender quem somos.

 

Edson Pinto

Maio, 2026

 

 Nota do Autor

Martin Heidegger (1889–1976), filósofo de poucas concessões e muitas inquietações, teve o mérito, ou o atrevimento, de nos lembrar que o homem não chega ao mundo como quem entra num salão vazio. Chega já sentado à mesa, com a conversa em andamento e, o que é mais curioso, como se sempre tivesse estado ali. Chamou a isso de ser-no-mundo. Nome austero para uma ideia quase doméstica: a de que não há existência fora de algum pertencimento. Antes mesmo de escolhermos, já fomos escolhidos: por uma língua, por um tempo, por uma vizinhança de afetos e circunstâncias. Heidegger não escreveu propriamente sobre “pertencer”, ao menos não com essa palavra simpática. Preferiu termos mais severos. Ainda assim, sua filosofia nos sussurra, com certa gravidade: não pertencemos como quem adere,  pertencemos como quem já chegou tarde demais para negar o convite.

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