1 de mai. de 2026

369) O ENCANTO DA DESORDEM

Agora que me encontro nos meus setenta, dei-me a refletir sobre o processo da vida. E não é que, quase sem querer querendo, resgatei na palavra “entropia” uma abordagem curiosa, ou seja: o conceito dos Físicos que fala da desordem inevitável, do gelo que vira água, da água que evapora.

Pois não é exatamente assim que se passa conosco?

Na infância, éramos cristal: tudo alinhado, firme, brilhante. Com os anos, a ordem se quebra: a memória embaralha, o corpo já não responde ao comando como outrora, e até as certezas se dissolvem em dúvidas. É o processo entrópico em andamento. Não no laboratório, mas na carne e no espírito.

Olhamos para trás e constatamos:

Nossas  vidas foram se fazendo e desfazendo, como quem escreve uma partitura e depois vê as notas se espalharem pelo vento. Em vez de lamentar a desordem, eu, pelo que me toca, descubro nela uma espécie de música oculta: o gelo que refrescou, a água que matou a sede, o vapor que se elevou invisível.

Se a entropia é lei, então viver é aprender a dançar com ela. E, aos 70 e picos, descubro que a vida, mesmo em dissolução, ainda sabe compor seus acordes.

Chamam a isso de “entropia”. Palavra bonita, mas que significa simplesmente o que  já foi dito: a ordem se desfaz. O gelo vira água, a vida se dispersa. ..

Tenho aprendido a ver nessa desordem um certo encanto.

Você também?

 Edson Pinto

Maio, 2026

 

Nota do Autor:

A entropia, segundo a física, é a lei da dispersão: tudo o que é ordenado tende a se desfazer, do gelo que derrete às estrelas que um dia se apagam. Curiosamente, a Bíblia fala em termos semelhantes: “do pó vieste e ao pó tornarás” (Gênesis 3:19). A ordem inicial da Criação caminha para a desordem, como se houvesse uma decadência inscrita no próprio mundo. Por isso, o ciclo da vida...