Agora que me encontro nos meus setenta, dei-me a refletir sobre o processo da vida. E não é que, quase sem querer querendo, resgatei na palavra “entropia” uma abordagem curiosa, ou seja: o conceito dos Físicos que fala da desordem inevitável, do gelo que vira água, da água que evapora.
Pois
não é exatamente assim que se passa conosco?
Na
infância, éramos cristal: tudo alinhado, firme, brilhante. Com os anos, a ordem
se quebra: a memória embaralha, o corpo já não responde ao comando como
outrora, e até as certezas se dissolvem em dúvidas. É o processo entrópico em
andamento. Não no laboratório, mas na carne e no espírito.
Olhamos
para trás e constatamos:
Nossas vidas foram se fazendo e desfazendo, como
quem escreve uma partitura e depois vê as notas se espalharem pelo vento. Em vez de lamentar a desordem, eu, pelo que me toca, descubro nela uma espécie
de música oculta: o gelo que refrescou, a água que matou a sede, o vapor que se
elevou invisível.
Se
a entropia é lei, então viver é aprender a dançar com ela. E, aos 70 e picos,
descubro que a vida, mesmo em dissolução, ainda sabe compor seus acordes.
Chamam
a isso de “entropia”. Palavra bonita, mas que significa simplesmente o que já foi dito: a ordem se desfaz. O gelo vira
água, a vida se dispersa. ..
Tenho
aprendido a ver nessa desordem um certo encanto.
Você
também?
Maio, 2026
Nota do Autor:
A
entropia, segundo a física, é a lei da dispersão: tudo o que é ordenado tende a
se desfazer, do gelo que derrete às estrelas que um dia se apagam.
Curiosamente, a Bíblia fala em termos semelhantes: “do pó vieste e ao pó
tornarás” (Gênesis 3:19). A ordem inicial da Criação caminha para a desordem,
como se houvesse uma decadência inscrita no próprio mundo. Por isso, o ciclo da
vida...
