29 de mai. de 2026

373) FARINHA DO MESMO SACO

 

Na rua de cima, onde o sol batia mais cedo e o tempo andava mais devagar, morava Pedro, velho amigo de Liberato. Bom de conversa, alma de filósofo, mas de histórico amoroso confuso. Estava, de novo, solteiro e só.

Era um bairro relativamente novo, mas já com poeira de velho. Aliás, eles envelheceram juntos. Ali, tudo o que era simples ganhava um ar de mistério, como se as galinhas soubessem segredos e os postes cochichassem à noite.

Margarida morava, também sozinha, na casa contígua à de Pedro. Balzaquiana em boa forma, era viúva de dois casamentos anteriores. Suspeitava-se, além disso, de ter dado cabo de um terceiro, que ninguém sabia se existiu, de fato, ou foi só invenção para dar tema às conversas da tarde. Tinha larga experiência de vida, e filosofava, como quem já viu demais...

Liberato foi prosar com Pedro na frente da casa deste. Estavam recostados no portão, como se recosta no tempo, só vendo o mundo passar. Diga-se, a propósito, que esse é o melhor jeito de aprender sem professor. Foi ali que Pedro, um tanto amargo com a vida e tocado pela desafortunada lembrança da mais recente paixão desfeita, soltou sobre ela:

— Já foi farinha de primeira. Agora virou farelo. Não dava mais para suportar.

Liberato, que já colecionava frases como quem coleciona figurinhas, ficou calado, anotando mentalmente o veneno. Mas, Margarida, vindo da casa do lado e que fingia escutar sem ouvir, como quem já ouvira aquilo antes, ergueu os olhos por cima do muro baixo e intercedeu, lançando uma sentença complementar, como quem crava prego em cruz:

— Farinha fina também vira farelo, quando esquece do saco de onde veio. No fim das contas, meus caros, é tudo farinha do mesmo saco.

Liberato percebeu que Margarida chamava Pedro pelo olhar, como quem continua uma conversa antiga. Pedro não teve como evitar de encarar Margarida ao ouvir a sentença, atitude típica dos homens que já foram íntimos demais. Havia entre Margarida e Pedro certa familiaridade silenciosa que os vizinhos atribuíam à amizade antiga. Os vizinhos, porém, erram muito... 

Liberato, espantado, sorriu de canto, com aquele constrangimento discreto dos homens que percebem ter sido incluídos numa conversa sem terem sido mencionados. Houve até um instante em que Margarida e Liberato evitaram os olhos um do outro. Foi rápido. Coisa pequena. Mas há pecados que passam inteiros dentro de um segundo.

Ficaram, Pedro e Liberato, parados. Até o silêncio pareceu encostar no muro. Foi como se Deus soprasse a poeira das suas vidas  e mostrasse que até o que brilha pode empanar. Pedro, com sua cara de quem entendeu pela metade, fez que sim com a cabeça. Liberato olhou para o chão, talvez procurando as migalhas, não sabia do quê.

Margarida voltou para dentro de sua casa, sem glória nem pressa, como se não tivesse acabado de jogar filosofia nas suas cabeças confusas. Pedro remoía seus envolvimentos, sua condição, seu destino. Liberato, o mesmo...

Convém ao leitor apressado não se apressar...

Se o leitor enxergou naquela conversa mais intimidade do que convinha à simples vizinhança, não discutirei com ele. Tampouco o confirmarei. A vida, como se sabe, raramente se deixa reduzir a atas e testemunhos, e menos ainda quando se trata de sentimentos. Esses, sim, são especialistas em esconder o essencial sob o trivial.

Dirá alguém que Margarida apenas filosofou. Pode ser. Há quem filosofe por hábito, como quem varre a calçada ao fim da tarde, mas há também os que, ao filosofar, deixam escapar, entre uma ideia e outra, restos de memória, pequenas confissões disfarçadas de sabedoria.

Quanto a Pedro, não lhe atribuo mais do que lhe cabe: um certo cansaço do mundo e uma disposição, talvez involuntária, para repetir os próprios enredos. Se isso o liga   a Margarida, não sei. Ou melhor: sei tanto quanto o leitor. E o leitor, diga-se, já sabe o suficiente.

Se houve entre ela e os dois amigos alguma afinidade além da vizinhança, deixo à imaginação de cada um, que é, no fundo, a única testemunha verdadeiramente interessada no caso. Eu, de minha parte, limitei-me a ouvir, ver e, com alguma suspeita, registrar. Porque, afinal, em matéria de gente, e de farinha, quase nunca se sabe ao certo o saco de onde veio, nem o destino que lhe aguarda. E talvez seja melhor assim...

 

Edson Pinto

Maio, 2026


 


22 de mai. de 2026

372) QUATRO ANOS DEPOIS

 

No próximo dia 27 de maio, fará quatro anos. Quatro anos não é muito tempo para quem mede a vida em calendários, mas é uma eternidade para quem a mede em ausências.

Jane partiu em 27 de maio de 2022. Partiu assim, como quem fecha uma porta com delicadeza, sem ruído, sem aviso, sem despedidas longas. Um infarto. Rápido. Limpo. Quase elegante, se me permitem o termo impróprio. Não deu trabalho. Não exigiu cuidados prolongados. Não nos preparou. E, curiosamente, deixou intacta a última imagem: uma mulher ainda viva em todos os sentidos, saudável, alegre, pronta para um jantar, para uma conversa, para mais um capítulo daquilo que vínhamos escrevendo há décadas, porque não foram poucos anos.

Eu a conheci na infância, quando ainda não sabíamos dar nome às coisas. Namoramos na adolescência, quando achávamos que o amor era uma invenção nossa. Casamos na juventude, quando já sabíamos que ele, o amor, existia antes de nós. E permanecemos juntos por 45 anos de casamento, que, somados ao antes, dão uns 60 anos de convivência.

Sessenta anos... Há casamentos que duram menos que um torneio de verão. O nosso foi um modo de existir. E então, de um dia para o outro, esse modo desaparece. A viuvez, sobretudo quando chega depois de uma vida longa a dois, não é apenas uma perda. É uma reorganização forçada do mundo. Não se perde só a pessoa, perde-se a rotina, o reflexo, a testemunha cotidiana da própria existência. Você continua falando, mas falta o interlocutor habitual. Continua vivendo, mas sem aquele olhar que confirmava que a vida estava, de fato, acontecendo.

Os dois primeiros anos foram os mais difíceis. Não por acaso. São os anos em que a ausência ainda tem cheiro, ainda ocupa lugar na mesa, ainda responde, ou parece responder, quando a memória insiste em não aceitar o fato consumado. É o tempo em que a casa ainda não entendeu que ficou maior, e o coração, menor. Depois disso, aos poucos, as coisas começam a se rearrumar. Não voltam ao que eram, isso seria pedir demais da existência, mas encontram um novo equilíbrio, mais silencioso, mais sóbrio.

E foi nesse silêncio que algo inesperado aconteceu: Jane, ao partir, deixou-me um presente. Sim, um presente, ainda que envolto na embalagem áspera da dor. Deixou-me o tempo. Tempo de solidão, é verdade, mas também tempo de reencontro. Tempo de revisitar antigas paixões que a vida, na sua pressa, havia colocado em segundo plano. Tempo de escrever. Foi nesses quatro anos que muitos dos livros que estavam apenas na minha cabeça encontraram papel. Foi nesse intervalo que a literatura, minha velha companheira, voltou a sentar-se comigo à mesa. E aqui reside um dos paradoxos mais humanos: a ausência que dói também pode ser a ausência que abre espaço. Não escolhemos isso, mas, uma vez dado, podemos, com algum esforço e alguma humildade, transformar.

Hoje, olhando para trás, sinto que o pior já passou. Não que a saudade tenha diminuído. A saudade não é um objeto que se desgaste com o uso. Ela apenas muda de forma. Deixa de ser um grito e passa a ser um murmúrio constante, quase uma música de fundo. Porém, a dor aguda, aquela que interrompe o pensamento, essa, sim, vai cedendo.

Neste ponto do desabafo, eu confesso algo que talvez soe estranho: foi melhor que Jane tenha partido antes de mim. Não por falta de amor. Ao contrário. Justamente por amor. Eu temia que, se fosse eu o primeiro, ela carregaria esse peso que me açoitou e ainda, mesmo já moderado, se faz presente. Não sei se teria a estrutura, ou a disposição, para atravessar esse período como eu atravessei. Coube-me essa tarefa. E, dentro do possível, procurei cumpri-la.

Cada um de nós tem a sua cruz invisível. Essa foi a minha. Jane deixou três filhos, seis netos e uma memória que não pesa, mas sustenta. Era forte, carinhosa, presente. Daquelas pessoas que organizam o mundo ao redor sem fazer alarde. E talvez seja isso que mais permaneça: não os grandes gestos, mas a constância.

No fim das contas, a vida é isso mesmo. Um movimento contínuo de construção e dissolução. Uma espécie de entropia existencial: nascemos, crescemos, amamos, envelhecemos e, inevitavelmente, cedemos lugar. Há quem lute contra isso. Há quem negue. Há quem se revolte. Eu, hoje, prefiro compreender. A vida vale a pena, e digo isso sem retórica, quando se aceita o ciclo que a governa. Quando se entende que o fim não é uma falha do processo, mas parte dele. E que, no meio disso tudo, o que realmente fica não é o tempo que tivemos, mas a forma como o vivemos.

Se me perguntarem o que restou de Jane, eu diria: não foi pouco. Ficaram os filhos, os netos, as lembranças  e uma certa maneira de olhar a vida, que, de algum modo, continua em mim. E isso, convenhamos, já é uma forma discreta, mas eficaz, de permanência.

 

Edson Pinto

Maio. 2026

15 de mai. de 2026

371)QUANDO AS FRATURAS SE TORNAM VISÍVEIS

Há cerca de dois anos, comecei um projeto que, naquele momento, parecia maior do que minhas próprias possibilidades de organização, disciplina e coragem intelectual.

Como acontece com muitas coisas da vida, ele avançou entre pausas, interrupções, desvios, retornos e recomeços. Houve períodos de intensa escrita. Houve semanas de silêncio. Houve momentos em que os livros pareciam caminhar sozinhos. Em outros, eu mesmo já não sabia exatamente para onde eles me levavam.

O interessante é que certas ideias têm paciência. Elas aguardam. E foi assim que nasceram os três livros que agora formam A Trilogia das Fraturas Humanas: “Abismos Globais”, “A Parte Justa” e “Governança Global”.

Embora independentes entre si, os três livros dialogam como vizinhos de uma mesma inquietação. Aos poucos, percebi que todos giravam em torno de um tema comum: as fraturas humanas do nosso tempo. As fraturas entre países ricos e pobres. As fraturas entre o capital e o trabalho. As fraturas entre uma humanidade cada vez mais interdependente e a dificuldade de coordenar coletivamente o próprio destino.

Vivemos uma época curiosa. Nunca estivemos tão conectados tecnologicamente e, ao mesmo tempo, tão divididos econômica, política e socialmente. As grandes tensões do mundo deixaram de ser apenas assuntos diplomáticos ou acadêmicos. Elas passaram a frequentar a mesa do jantar, as redes sociais, os supermercados, as migrações, o clima, o emprego, a solidão e até a esperança das pessoas comuns.

Talvez por isso eu tenha insistido tanto nesses temas ao longo desses dois anos. Não para oferecer respostas definitivas, pois desconfio cada vez mais delas, mas para tentar compreender melhor as contradições do nosso tempo. Escrever, afinal, também é uma forma de perguntar. Talvez seja essa a verdadeira função de um livro, qual seja, a de não encerrar discussões, mas abri-las.

Ao concluir essa trilogia, tenho a sensação de quem termina uma longa travessia intelectual e humana. Foram muitos textos, leituras, anotações, pesquisas na internet, nos livros que tenho, revisões, gráficos, dúvidas, mudanças de rumo e incontáveis conversas silenciosas comigo mesmo diante da tela do computador.

Agora os livros seguem seu próprio caminho. E eu os entrego aos leitores com humildade, curiosidade e esperança de que possam provocar reflexão, diálogo e inquietação, porque, às vezes, compreender o mundo já é o primeiro passo para transformá-lo.

Maiores detalhes sobre os três livros estão disponíveis na coluna direita deste blog.

 

Edson Pinto

Maio, 2026 

8 de mai. de 2026

370) A DELICADA ARTE DE PERTENCER

 

Dizem que todo mundo pertence a alguma coisa. Uns pertencem à pátria, outros à saudade. Há quem pertença à profissão, à família, ao time do coração. E há aqueles, mais discretos, que pertencem ao silêncio e não fazem alarde disso. Eu mesmo, confesso, pertenço a um punhado de coisas que nem sempre escolhi:

Pertenço ao bairro onde cresci, à calçada que guardou minhas pegadas de menino. Pertenço às histórias que ouvi sem querer e levei comigo como quem carrega bolinhas de gude no bolso. Pertenço, sobretudo, a pessoas que talvez nem saibam disso. E mesmo assim, ou por isso mesmo, é uma “pertença” ou “ pertencimento” funda, dessas que a gente sente mais do que explica.

Mas “pertença” é um bicho danado. Às vezes ela é um abraço. Noutras, uma algema. Ela acolhe, mas também limita. Quem nunca quis fugir justamente daquilo a que mais pertencia? O sobrenome, o costume, a fé da infância, tudo isso forma um território interno. E sair dele dói, mas ficar pode também doer.

Filosoficamente falando - e sempre que filosofamos um pouco a vida parece menos indomável - a tal da “pertença” não é só estar junto. É uma espécie de “ser com”: Ser com o mundo, com o outro, com o tempo...

Heidegger, que entendia dessas coisas com cara séria e palavras fundas, dizia que o ser humano não está no mundo como quem o visita. Ele, na verdade, é o mundo. É parte dele, como a janela é parte da casa. E não é curioso?  A gente pertence até ao que perdeu:  Pertence ao cheiro de alguém que partiu.  Pertence a uma música que já não ouve, mas que toca dentro da gente como se tivesse licença eterna.

Às vezes, eu pertenço à ausência. À falta de resposta. Ao eco de uma promessa antiga. Como se até a solidão fosse uma forma de vínculo. Tem dias em que acho que pertenço mais às palavras do que a qualquer coisa. Elas me vestem, me explicam, me escondem. Me traem às vezes também, mas só porque são íntimas demais.  E outras vezes, percebo que pertenço mesmo é à infância. Tudo o resto parece ser consequência: o jeito de andar, o riso meio torto, a mania de observar nuvens.

Se há uma sabedoria nisso tudo, talvez esteja em aceitar que a verdadeira “pertença“ não aprisiona. Ela cuida. É quando alguém, ou alguma coisa, nos acolhe sem exigir troca. Como quando alguém sabe que você está triste só pelo modo como você pousa a xícara sobre a mesa. Ou quando um lugar nos recebe como se fôssemos parte dele, ainda que tenhamos estado longe por anos. Aí sim, pertencemos...

E você? A quem, ou a quê, pertence? Talvez essa seja a pergunta mais sincera que possamos fazer uns aos outros. E não os surrados:

__ O que você faz?

__ Onde você mora?

__ Qual seu signo?

Mas isso:

__ Onde mora o seu pertencimento?

Se descobrir, me avise. Ou melhor, grave um vídeo, conte num bilhete, escreva num guardanapo. Porque saber a quem pertencemos é, talvez, começar a entender quem somos.

 

Edson Pinto

Maio, 2026

 

 Nota do Autor

Martin Heidegger (1889–1976), filósofo de poucas concessões e muitas inquietações, teve o mérito, ou o atrevimento, de nos lembrar que o homem não chega ao mundo como quem entra num salão vazio. Chega já sentado à mesa, com a conversa em andamento e, o que é mais curioso, como se sempre tivesse estado ali. Chamou a isso de ser-no-mundo. Nome austero para uma ideia quase doméstica: a de que não há existência fora de algum pertencimento. Antes mesmo de escolhermos, já fomos escolhidos: por uma língua, por um tempo, por uma vizinhança de afetos e circunstâncias. Heidegger não escreveu propriamente sobre “pertencer”, ao menos não com essa palavra simpática. Preferiu termos mais severos. Ainda assim, sua filosofia nos sussurra, com certa gravidade: não pertencemos como quem adere,  pertencemos como quem já chegou tarde demais para negar o convite.

1 de mai. de 2026

369) O ENCANTO DA DESORDEM

Agora que me encontro nos meus setenta, dei-me a refletir sobre o processo da vida. E não é que, quase sem querer querendo, resgatei na palavra “entropia” uma abordagem curiosa, ou seja: o conceito dos Físicos que fala da desordem inevitável, do gelo que vira água, da água que evapora.

Pois não é exatamente assim que se passa conosco?

Na infância, éramos cristal: tudo alinhado, firme, brilhante. Com os anos, a ordem se quebra: a memória embaralha, o corpo já não responde ao comando como outrora, e até as certezas se dissolvem em dúvidas. É o processo entrópico em andamento. Não no laboratório, mas na carne e no espírito.

Olhamos para trás e constatamos:

Nossas  vidas foram se fazendo e desfazendo, como quem escreve uma partitura e depois vê as notas se espalharem pelo vento. Em vez de lamentar a desordem, eu, pelo que me toca, descubro nela uma espécie de música oculta: o gelo que refrescou, a água que matou a sede, o vapor que se elevou invisível.

Se a entropia é lei, então viver é aprender a dançar com ela. E, aos 70 e picos, descubro que a vida, mesmo em dissolução, ainda sabe compor seus acordes.

Chamam a isso de “entropia”. Palavra bonita, mas que significa simplesmente o que  já foi dito: a ordem se desfaz. O gelo vira água, a vida se dispersa. ..

Tenho aprendido a ver nessa desordem um certo encanto.

Você também?

 Edson Pinto

Maio, 2026

 

Nota do Autor:

A entropia, segundo a física, é a lei da dispersão: tudo o que é ordenado tende a se desfazer, do gelo que derrete às estrelas que um dia se apagam. Curiosamente, a Bíblia fala em termos semelhantes: “do pó vieste e ao pó tornarás” (Gênesis 3:19). A ordem inicial da Criação caminha para a desordem, como se houvesse uma decadência inscrita no próprio mundo. Por isso, o ciclo da vida...