26 de jun. de 2026

377) A ARTE DE RESISTIR

Outro dia, num café, um amigo indignado me perguntou por que tantos políticos acabam envolvidos em escândalos. A pergunta não era nova. Nova era apenas a lista dos acusados. Mudam-se os nomes, mudam-se os partidos, mudam-se os discursos, mas os noticiários continuam frequentando os mesmos pecados com uma fidelidade que faria inveja a muitos casamentos.

Meu amigo, imagino,  queria uma explicação econômica, sociológica ou psicológica. Eu poderia ter recorrido aos clássicos. Poderia citar as estruturas de poder, os incentivos perversos, as fragilidades institucionais ou a insuficiência dos mecanismos de controle. Preferi, contudo, recorrer a uma metáfora.

— Imagine um homem entrando num lupanário.

Ele arregalou os olhos.

— Que comparação é essa?

— Tenha paciência! Imagine que o sujeito entre naquele ambiente por livre e espontânea vontade. Ninguém o obrigou. Ninguém o empurrou porta adentro. Foi porque quis.

— E daí?

— Daí que seria estranho vê-lo sair de lá, algumas horas depois, alegando ter sido surpreendido pelas tentações que encontrou.

Meu amigo riu.

A verdade é que certas atividades humanas possuem uma concentração extraordinária de tentações. Não obrigam ninguém a pecar. Apenas colocam o indivíduo diante de oportunidades constantes para fazê-lo. A política é uma delas. Não digo isso para condenar a política. Pelo contrário. Ela é necessária. Sem ela, restariam apenas a força, o caos ou a tirania. O problema não é a política. O problema é o ser humano.

Desde os tempos mais antigos, o homem demonstra uma habilidade impressionante para desejar justamente aquilo que não deveria desejar. Eva possuía todo o jardim, mas fixou os olhos no único fruto proibido. Esaú trocou uma herança por um prato de lentilhas. Judas vendeu sua lealdade por algumas moedas de prata. Até Cristo, segundo os Evangelhos, precisou enfrentar tentações no deserto. Se nem o paraíso escapou delas, por que escapariam os poderes da República?

Os gregos também conheciam o problema. Conta Platão a história do pastor Giges, que encontrou um anel capaz de torná-lo invisível. Convencido de que jamais seria descoberto, usou o poder para conquistar riqueza, influência e o trono. A pergunta de Platão atravessou os séculos. O que faria um homem se tivesse certeza da impunidade? A resposta, infelizmente, continua sendo escrita diariamente nos jornais. Mudam as manchetes. O enredo permanece surpreendentemente fiel ao original.

A política possui algo do anel de Giges. Nem sempre torna invisível quem exerce o poder, mas frequentemente cria a ilusão de invisibilidade. O sujeito começa honesto. Depois aceita um pequeno favor. Mais tarde faz uma concessão insignificante. Em seguida fecha os olhos para um detalhe administrativo. Quando percebe, já está negociando princípios como quem troca figurinhas.

A corrupção raramente chega montada num cavalo negro, com chifres e enxofre. Normalmente ela chega sorrindo. Traz justificativas. Apresenta planilhas, projetos de leis sob encomenda. Promete vantagens. Oferece exceções. Veste gravata. Em muitos casos, fala em nome do interesse público.

Há quem imagine que o poder corrompe. Não tenho tanta certeza. Talvez o poder revele. Talvez funcione como aquelas soluções químicas usadas pelos fotógrafos antigos. A imagem já estava ali. O líquido apenas a tornava visível.

O homem vaidoso torna-se mais vaidoso. O ambicioso torna-se mais ambicioso. O honesto, quando consegue resistir, torna-se exemplo. E é justamente por isso que os homens públicos verdadeiramente íntegros despertam tanta admiração. Não porque sejam perfeitos, mas porque caminham diariamente por um terreno minado sem perder a direção. Virtude em ambiente fácil tem pouco mérito. O verdadeiro teste acontece quando a tentação está ao alcance da mão.

Meu amigo permaneceu alguns instantes em silêncio. Depois perguntou:

— Então você acha que todo político é corrupto?

— Não. Da mesma forma que nem todo homem que entra num lupanário necessariamente se entrega aos seus encantos. A diferença é que, em ambos os casos, ninguém pode alegar desconhecimento dos riscos.

Encerramos o café e passamos a outro assunto, mas aquela pergunta continuou comigo. Talvez a questão central não seja por que tantos cedem à tentação, e sim outra, ainda mais importante.

Como alguns conseguem resistir?

 

Edson Pinto

Junho, 2026

19 de jun. de 2026

376) OS CARRAPICHOS DE PLATÃO

 

Ando com um problema. Não é grave. Não exige remédio. Não aparece nos exames laboratoriais nem preocupa os médicos. Pelo contrário. É um daqueles problemas que costumam atacar justamente quando a gente já deveria estar mais tranquilo. Uma ideia grudou em mim. Ou melhor, três: O Bem, o Belo e o Justo.

A famosa tríade de Platão resolveu instalar-se em minha cabeça sem pedir licença e, desde então, me acompanha para todo lado. Acordo pensando nela. Tomo café pensando nela. Vou ao computador pensando nela. Vejo televisão pensando nela. Às vezes chego a suspeitar que Platão alugou um quarto em algum canto da minha consciência.

Curiosamente, isso me fez recordar a infância: Quando eu era menino, morávamos em um bairro ainda cercado por terrenos baldios, capoeiras e pequenos matos que para nós pareciam florestas amazônicas. Eu e meus amigos passávamos bons momentos explorando aqueles territórios selvagens, travando batalhas imaginárias, caçando tesouros inexistentes e fugindo de perigos inventados. Era através do mato que encurtávamos a ida ao Mineirão ainda em construção na Pampulha dos anos 1960.

Voltávamos para casa em estado lastimável. As mães examinavam os filhos como fiscais de alfândega. Havia joelhos ralados, cotovelos esfolados, manchas de barro e, sobretudo, carrapichos. Carrapichos por toda parte. Para quem não conhece, o carrapicho é uma pequena invenção botânica destinada a testar a paciência humana. Ele se agarra à roupa, às meias, aos cadarços e, se tiver oportunidade, talvez até às ideias. Minha mãe passava longos minutos retirando aqueles invasores de minhas calças. Eu os arrancava. Ela os arrancava. A roupa voltava ao normal. Fim do problema. Pelo menos era o que eu pensava.

Décadas depois descobri que existem carrapichos mais persistentes. São os que se prendem ao pensamento. Algumas ideias têm exatamente esse comportamento. Agarram-se à consciência e se recusam a ir embora. Ultimamente, os carrapichos que me acompanham atendem pelos nomes de Bem, Belo e Justo. E eu me pergunto: O que é, afinal, o Bem? O que é o Belo? O que é o Justo?

Perguntas simples de formular e impossíveis de encerrar:  Será justo que um homem passe a vida produzindo riqueza e, ao final do dia, receba apenas uma fração do que ajudou a criar, enquanto o restante segue outros caminhos? Será belo um edifício moderno que substitui uma velha praça cheia de árvores? Será bom dizer sempre a verdade, mesmo quando ela produz sofrimento? Quanto mais penso, menos certezas encontro. Talvez seja por isso que essas perguntas sobrevivam há mais de dois mil anos. Elas não foram feitas para serem respondidas de uma vez por todas. Foram feitas para nos acompanhar.

Na juventude, eu acreditava mais nos absolutos. Imaginava que a maturidade traria respostas claras para quase tudo. A experiência, contudo, tratou de corrigir esse excesso de confiança. A vida mostrou que o mundo raramente entrega o Bem em estado puro, o Belo sem imperfeições ou o Justo sem alguma sombra de injustiça. O que encontramos, quase sempre, são aproximações. Pequenas aproximações. Um pouco de bondade aqui. Um pouco de beleza ali. Um pouco de justiça acolá. Nada perfeito. Nada definitivo. Talvez seja justamente por isso que continuemos procurando. Porque, se o ideal fosse plenamente alcançável, a busca terminaria. E o ser humano parece ter sido construído para caminhar. Não para chegar.

Penso que Platão talvez compreendesse isso melhor do que imaginamos. Talvez o Bem, o Belo e o Justo não sejam destinos. Talvez sejam bússolas. Ninguém alcança o horizonte, mas ele ajuda o viajante a escolher a direção. Ninguém toca as estrelas, mas elas orientaram navegadores durante séculos. Da mesma forma, talvez ninguém alcance plenamente o Bem, o Belo ou o Justo, mas a simples tentativa de aproximar-se deles já melhora a viagem.

Outro dia percebi que minha relação com essa velha tríade é parecida com a relação que eu tinha com os carrapichos da infância. A diferença é que aqueles eu podia arrancar. Estes, não. E talvez nem queira. Há perguntas que incomodam. Há perguntas que perturbam. Há perguntas que envelhecem conosco, mas existem algumas que fazem mais do que isso: Elas nos mantêm vivos.

Por isso, quando acordo e encontro novamente aqueles três velhos companheiros agarrados ao pensamento, já não reclamo. Apenas sorrio. Afinal, os carrapichos da infância ficaram perdidos em alguma calça antiga. Os de Platão continuam firmemente presos à alma.

Edson Pinto

Junho, 2026

12 de jun. de 2026

375) A LIÇÃO QUE NÃO ESTAVA NO CADERNO

 

Outro dia deparei-me com uma dessas notícias que costumam atravessar as redes sociais em velocidade recorde. Em geral, elas passam diante dos nossos olhos como nuvens de verão. Vemos, curtimos, comentamos e seguimos adiante. Esta, porém, resolveu ficar.

Contava a história de um brasileirinho de dez anos que entrou numa loja de informática e pediu licença para usar um tablet que tinha em exposição. O atendente consentiu. Sentado diante do aparelho, o garoto não abriu jogos, não procurou vídeos engraçados, não navegou por curiosidades passageiras. Tirou do bolso uma caneta, pegou o caderno escolar e começou a estudar, anotando detalhes.

A professora havia passado um trabalho de geografia. Em sua casa não havia computador, nem tablet, nem internet disponível. Havia apenas uma tarefa a cumprir e uma vontade obstinada de aprender. Confesso que a cena me fez pensar:

Vivemos num tempo muito curioso. Nunca houve tanta informação ao alcance das mãos. Carregamos bibliotecas inteiras no bolso. Conversamos com máquinas inteligentes. Assistimos a aulas produzidas pelos melhores professores do mundo. Em que pese isso, sabemos que, milhões de pessoas que  possuem acesso às ferramentas, demostram pouca disposição para utilizá-las. Aquele menino vivia a situação inversa. Faltavam-lhe os recursos, mas sobrava-lhe o desejo.

Talvez seja essa a diferença que nem sempre aparece nas estatísticas. A pobreza costuma ser medida pela ausência de bens materiais. Conta-se a renda, contam-se os metros quadrados da casa, contam-se os objetos disponíveis. Mais difícil, contudo, é medir a riqueza dos sonhos. O garoto não pediu brinquedos. Não pediu dinheiro. Não pediu favores. Pediu alguns minutos diante de uma tela para fazer a lição de casa. Enquanto muitos enxergam nos estudos uma obrigação, ele enxergava uma oportunidade.

A vida é, de fato, injusta. Alguns nascem cercados de conforto. Outros começam a corrida muitos quilômetros atrás da linha de partida. Não escolheram a família, o bairro, a escola ou as circunstâncias em que chegaram ao mundo.

Mas há algo que torna certas histórias inesquecíveis. De vez em quando surge alguém que, mesmo carregando o peso das dificuldades, recusa-se a abandonar os próprios sonhos. E então acontece o milagre mais simples de todos: Alguém observa. Foi o que ocorreu naquela loja. Os funcionários perceberam o esforço do menino. O proprietário soube da história e decidiu ajudá-lo. Um gesto pequeno para quem oferece. Gigante para quem recebe.

Muita gente acredita que o mundo muda apenas por grandes revoluções. Eu desconfio que ele também muda por pequenas gentilezas. Uma porta aberta. Um livro emprestado. Um professor que incentiva. Um desconhecido que estende a mão. Aquele garoto entrou na loja só para fazer um trabalho de geografia. Sem perceber, acabou ensinando uma lição muito mais importante, ou seja, aquela lição que não estava no caderno.

 

Edson Pinto

Junho, 2026

5 de jun. de 2026

374) O ROSTO QUE ESTÁ LÁ


Há dias em que o mundo parece tímido. Não se oferece inteiro. Vem em manchas, em sombras, em sinais incompletos, como uma parede antiga, dessas que já viram mais histórias do que nós. E então, como quem não suporta o vazio, o espírito humano começa a completar o quadro. Um risco vira um sorriso. Duas manchas, olhos. E eis que nasce um rosto onde antes havia apenas cal.

Minha irmã Celma jura que a mancha que tem no muro de seu quintal é a face de Jesus, generoso e piedoso iluminando com sorriso suave o seu lar e sua vida. Tanto acredita, que o pintor que repintava o muro teve que deixar aquela mancha intocada. Jesus continua lá. Isso faz bem à ela...

Descobri, não sem certo constrangimento, que isso tem nome elegante: “pareidolia”. Nome grego, desses que chegam com sandálias filosóficas e ar de quem sabe mais do que diz, mas, no fundo, trata-se de uma velha inclinação nossa, aquela de enxergar sentido onde há apenas sugestão, de ver rostos onde antes havia apenas manchas.

 Confesso que sempre simpatizei com esse defeito. Há nele uma espécie de ternura cognitiva. O cérebro, apressado e solícito, prefere errar por generosidade. Em vez de dizer “não sei”, ele arrisca um “talvez seja isto”. E, muitas vezes, acerta. Reconhecer um rosto no meio da multidão, distinguir um amigo à distância, perceber um perigo antes que ele se anuncie, tudo isso deve algo a esse pequeno exagero da percepção.

O engano, nesse caso, é produtivo. É um erro com vocação para acerto. Porém, e aqui entra a vírgula da vida, o mesmo mecanismo que nos salva no cotidiano pode nos trair no coletivo. Porque a pareidolia não se contenta com paredes e nuvens. Ela também se aventura pelos campos mais perigosos como a política, a fé, a vida social. Onde há incerteza, ela trabalha. Onde há ansiedade, ela prospera.

E assim, em tempos de confusão, surgem rostos onde há apenas contornos. Líderes são vistos como salvadores antes de serem compreendidos como homens. Discursos incompletos são preenchidos com esperanças inteiras. Um gesto vira caráter. Uma frase vira destino. E o que era apenas um traço ganha a densidade de uma face confiável. Criamos, com a mesma facilidade com que vemos figuras nas nuvens, os nossos pequenos, e às vezes grandes, messias...

Não se trata aqui de acusar a ingenuidade alheia. Seria injusto. Trata-se de reconhecer em nós mesmos essa pressa de significado. Esse desejo quase infantil de que alguém, enfim, dê forma ao caos. A pareidolia, quando sobe ao palanque, troca a inocência pela convicção, e aí já não é apenas percepção, é crença. E crenças, como sabemos, têm pernas longas.

Há, no entanto, uma defesa possível, discreta, quase silenciosa. Não consiste em abandonar a pareidolia, o que seria tão impossível quanto deixar de sonhar. Consiste, isto sim, em educá-la. Em saber que o rosto visto pode não estar lá. Em suspeitar, com elegância, das imagens que nos parecem perfeitas demais, porque o mesmo cérebro que inventa também pode revisar.

Talvez o verdadeiro aprendizado humano esteja nesse equilíbrio delicado, ou seja,  permitir-se ver antes de saber, mas aprender a duvidar depois de ver. Um passo à frente da intuição, outro ao lado da razão. Nem cego à imaginação, nem refém dela.

No fim das contas, a pareidolia nos ensina algo que raramente admitimos, o fato de  não vemos o mundo como ele é. Vemo-lo como conseguimos e, às vezes, como desejamos. Entre o que está e o que pensamos ver, constrói-se silenciosamente a nossa história.

 

Edson Pinto

Junho, 2026