20 de mar. de 2026

363) FALAR SEM PENSAR

Já vi muita coisa neste longo caminho que a vida me emprestou, mas poucas me impressionam tanto quanto essa mania moderna de falar sem pensar. 

O verbo, esse impulso pré-reflexivo que se solta antes que a ideia madureça, hoje, parece ter adquirido personalidade própria. Ele salta, dispara, atropela, tudo isso antes que o pensamento consiga amarrar os sapatos.

Basta ligar a televisão para testemunhar o espetáculo: Há políticos despejando palavras como se fossem foguetes de São João, subindo rápido, fazendo barulho, mas raramente iluminando alguma coisa. Falam tanto que fico imaginando se as ideias deles não ficaram retidas na alfândega do cérebro, aguardando liberação. Enquanto isso, a boca, impaciente, segue viagem.

E a plateia, nós os cidadãos, acaba muitas vezes adotando o mesmo ritmo. Viramos papagaios de luxo, repetindo frases prontas com a convicção de quem manuseia verdades eternas, quando na verdade estamos apenas ecoando o barulho alheio. É a era das opiniões de micro-ondas. Prontas em poucos segundos, porém, sem sabor, sem substância, mas quentinhas para serem servidas em qualquer conversa.

O mais curioso é que, nesse campeonato silencioso, vence quem fala mais alto, quem ocupa mais espaço, quem não dá trégua ao próprio silêncio. A impressão que tenho é que muita gente acredita que a vitória pertence ao mais barulhento. Uma lógica perversa, pois  quanto menos se pensa, mais se fala.

Entretanto, a vida, essa velha professora sem diploma, me ensinou algo diferente. Aprendi, com o tempo, que a sabedoria gosta de caminhar devagar. Que a pausa é a incubadora da ideia. Que o silêncio, longe de ser falta, é germinação. E que o pensamento só se mostra quando o verbo não o atropela.

O problema do mundo atual é que a pressa virou sinônimo de inteligência, quando muitas vezes é apenas o disfarce da superficialidade. Falar sem pensar dá uma sensação agradável de participação, de protagonismo, de coragem. É ilusão, o que fala sem pensar quase sempre pensa sem profundidade.

Por isso deixo aqui uma reflexão que tem algo de apelo moral e de pedido de prudência: Não apresse o verbo! Deixe a palavra descansar um pouco antes de nascer. Permita que o pensamento inteiro chegue primeiro, com calma, com dignidade, como quem visita uma casa e tira os sapatos antes de entrar.

No fim das contas, e digo isso com a serenidade de quem já atravessou algumas estações da vida,  o mundo seria melhor se as pessoas falassem menos… e pensassem mais.

 

Edson Pinto

Março, 2026

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bem colocado. Parabéns por mais essa excelente escrita.
Forte abraço do Chico Morais.