Já vi muita coisa neste longo caminho que a vida me emprestou, mas poucas me impressionam tanto quanto essa mania moderna de falar sem pensar.
O verbo, esse
impulso pré-reflexivo que se solta antes que a ideia madureça, hoje, parece ter
adquirido personalidade própria. Ele salta, dispara, atropela, tudo isso antes
que o pensamento consiga amarrar os sapatos.
Basta
ligar a televisão para testemunhar o espetáculo: Há políticos despejando
palavras como se fossem foguetes de São João, subindo rápido, fazendo barulho,
mas raramente iluminando alguma coisa. Falam tanto que fico imaginando se as
ideias deles não ficaram retidas na alfândega do cérebro, aguardando liberação.
Enquanto isso, a boca, impaciente, segue viagem.
E
a plateia, nós os cidadãos, acaba muitas vezes adotando o mesmo ritmo. Viramos
papagaios de luxo, repetindo frases prontas com a convicção de quem manuseia
verdades eternas, quando na verdade estamos apenas ecoando o barulho alheio. É
a era das opiniões de micro-ondas. Prontas em poucos segundos, porém, sem
sabor, sem substância, mas quentinhas para serem servidas em qualquer conversa.
O
mais curioso é que, nesse campeonato silencioso, vence quem fala mais alto,
quem ocupa mais espaço, quem não dá trégua ao próprio silêncio. A impressão que
tenho é que muita gente acredita que a vitória pertence ao mais barulhento. Uma
lógica perversa, pois quanto menos se
pensa, mais se fala.
Entretanto,
a vida, essa velha professora sem diploma, me ensinou algo diferente. Aprendi,
com o tempo, que a sabedoria gosta de caminhar devagar. Que a pausa é a
incubadora da ideia. Que o silêncio, longe de ser falta, é germinação. E que o
pensamento só se mostra quando o verbo não o atropela.
O
problema do mundo atual é que a pressa virou sinônimo de inteligência, quando
muitas vezes é apenas o disfarce da superficialidade. Falar sem pensar dá uma
sensação agradável de participação, de protagonismo, de coragem. É ilusão, o
que fala sem pensar quase sempre pensa sem profundidade.
Por
isso deixo aqui uma reflexão que tem algo de apelo moral e de pedido de
prudência: Não apresse o verbo! Deixe a palavra descansar um pouco antes de
nascer. Permita que o pensamento inteiro chegue primeiro, com calma, com
dignidade, como quem visita uma casa e tira os sapatos antes de entrar.
No
fim das contas, e digo isso com a serenidade de quem já atravessou algumas
estações da vida, o mundo seria melhor
se as pessoas falassem menos… e pensassem mais.
Edson Pinto
Março, 2026

Um comentário:
Muito bem colocado. Parabéns por mais essa excelente escrita.
Forte abraço do Chico Morais.
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