10 de abr. de 2026

366) ELOGIO DO PASSO INCERTO

 

Acordei decidido a ser lógico. O dia prometia ordem: Café às oito, internet  às nove e  ideias alinhadas às dez. Às oito e cinco, derrubei o café na camisa. Foi ali que me lembrei do bêbado.

Não exatamente do bêbado da esquina, embora este também mereça um tratado filosófico, mas do outro, o mais elegante. O bêbado estatístico, aquele que anda sem destino, tropeça no acaso e, ainda assim, chega a algum lugar.

Leonard Mlodinow em seu livro O Andar do Bêbado, Zahar, 2008, o apresentou ao mundo com sobriedade científica. Eu o reencontrei naquela mancha marrom, bem no centro do peito, como um alvo existencial.

O passo do bêbado, ensinam os estudiosos, é imprevisível. Ele não caminha em linha reta. Vai para a esquerda sem saber por quê. Depois para a direita, com igual convicção. E nós, observadores sóbrios, ou quase, insistimos em ver método onde há apenas balanço. A vida faz algo parecido conosco. Planejamos a semana como quem desenha uma avenida, mas ela se comporta como um beco.

Conheço gente que estudou muito, trabalhou certo, fez tudo como manda o figurino e terminou sem figurino e sem palco. Outros erraram cedo, tropeçaram feio, escolheram mal e acabaram bem. Quando perguntados sobre o segredo do sucesso, respondem com frases motivacionais que não explicam nada, mas consolam bastante.  “Sempre acreditei em mim”, dizem.

Mentira piedosa. O acaso acreditou primeiro. O problema não é o acaso existir. É nossa mania de fingir que ele não entrou na sala. O bêbado estatístico nos ensina que muitos resultados não são fruto de genialidade, mas de persistência errante. Ele anda, anda, anda e por pura insistência acaba chegando mais longe do que o sujeito metódico que parou cedo demais para revisar o plano.

Isso explica, por exemplo, por que algumas ideias ruins dão certo e algumas ideias ótimas morrem na gaveta. A gaveta, aliás, é o cemitério mais povoado da inteligência humana. No cotidiano, o acaso usa disfarces modestos. Ele se chama “encontro por acaso”, “coincidência curiosa”, ou “quem diria?”. Raramente aparece como acaso mesmo, pois isso ofenderia nosso ego, que prefere imaginar-se piloto quando, na verdade, é passageiro de janela.

Outro dia, um amigo me disse:

— Se eu soubesse naquele tempo o que hoje sei , eu teria agido de forma diferente.

Respondi com a sabedoria que só o envelhecimento concede:

— Se você soubesse o que sabe hoje, hoje não seria hoje.

O bêbado não aprende o caminho antes de andar. Aprende andando. E nós também. Há uma certa libertação em aceitar isso. Não aquela libertação irresponsável, do tipo “entregue-se ao caos”, mas uma mais elegante,  como  reconhecer que nem tudo depende de nós e que, ainda assim, vale a pena caminhar.

O grande Machado, se estivesse entre nós, talvez dissesse que o acaso é um autor invisível que escreve conosco, mas nunca pede revisão. Corrige o texto depois de publicado. No fim das contas, talvez a sabedoria consista em três coisas bem simples:  A primeira, planejar, sim, porque o café precisa estar quente. A segunda, aceitar o acaso, porque ele vai derramar o café, terceira e não menos importante, rir da mancha, porque ela não saiu mesmo.

O bêbado continua andando. Nós continuamos explicando. E a vida, indiferente às nossas teorias, segue dando passos tortos que, misteriosamente, nos levam adiante. Não em linha reta, mas vivos.

 

Edson Pinto

Abril, 2026

Um comentário:

Anônimo disse...

Edson, um belo texto. Ele constrói uma crítica sutil à crença excessiva no mérito e no controle racional, ao mostrar como o acaso atravessa e redefine nossas trajetórias. Ao usar o “bêbado estatístico” como metáfora, você expõe a fragilidade das explicações simplistas para sucesso e fracasso, freqüentemente mascaradas por discursos motivacionais. O tom irônico e reflexivo reforça a idéia de que planejar é importante, mas insuficiente, e que reconhecer o imprevisível não é fraqueza, e sim maturidade. Uma defesa lúcida da humildade diante da vida e de seus desvios inevitáveis.