3 de abr. de 2026

365) O ESPELHO COMO ARGUMENTO

 

Alguém foi acusado... Coisa pequena, doméstica, dessas que não entram na História, mas entram na conversa.

— “Você fez isso.”

Havia várias respostas possíveis: Poderia ter dito que fez, sim. Ou ter dito que não fez. Ou ainda argumentar que fez apresentando atenuantes, como circunstâncias vigentes na hora do ato, o vento, o pouco tempo de que dispunha, a lua fora de fase etc.

Mas o ser humano conhece atalhos. E alguns os usam com notável habilidade. A pessoa acusada respirou fundo, adotou um tom de dignidade improvisada e lançou a frase clássica, tão antiga quanto eficaz:

— “E você?”

Pronto. A conversa, que caminhava em linha reta, entrou numa rotatória. A acusação perdeu o endereço. O foco mudou de dono. O assunto original, constrangido, saiu de fininho. Essa manobra tem nome respeitável, originalmente em latim, desses que parecem tirados de um tratado antigo: “tu quoque”. Em português corrente significa “você também.” É a falácia do espelho. Não se responde ao que se fez. Aponta-se o que o outro fez.

E o curioso é que costuma funcionar. Não porque seja correta, mas porque é confortável. A verdade exige esforço. O desvio exige apenas um dedo em riste, de preferência apontando para o lado.

— “Você mentiu.”

— “E você, que exagera”

— “Você errou.”

— “E você, que não é exemplo”

A lógica, nesse momento, costuma ficar sentada num canto, como uma tia sensata em festa barulhenta. Está presente, ignorada e com vontade de ir embora mais cedo.

O “tu quoque” cria uma sensação rápida de justiça. Se o outro também falha, então a falha própria vira detalhe. Um deslize humano. Um pecado democrático. Mas a conta não fecha. Dois erros não formam um acerto. Duas falhas não produzem virtude. E dois atrasos não reinventam a pontualidade.

Ainda assim, o empate moral agrada. O empate é uma forma elegante de sair sem se explicar. Ninguém vence, ninguém perde e a verdade, como sempre, fica para depois. Ao final da conversa, a acusação inicial já não estava mais ali. Havia se diluído em comparações, lembranças oportunas e pequenos ressentimentos reciclados. No ambiente da política vimos também isso a todo instante. As acusações são frequentemente rebatidas com um sonoro “E você?”.

E assim o “tu quoque” cumpriu seu papel. Não defendeu ninguém, não esclareceu nada, mas mudou o assunto com eficiência exemplar.

A lógica observou tudo em silêncio. Anotou. E seguiu em frente, acostumada a ser preterida sempre que o espelho fala mais alto que o argumento.

 

Edson Pinto

Abril, 2026

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