De repente, estou eu, encostado na janela,
olhando o Rio Verde que lá embaixo faz suas curvas caprichosas. Pego-me então
pensando na tal da consciência, essa hóspede silenciosa que mora dentro de cada
um de nós, mas que nunca bateu cartão de ponto. A gente sabe que ela está
lá. Sente sua presença, mas quando tentamos apontar o dedo e dizer “é ali que
você vive”, ela escapa como fumaça.
Há
quem pergunte se existe, no cérebro, um órgão específico da consciência. Uma
glândula, talvez, escondida atrás de alguma dobra da matéria cinzenta,
responsável por acender esse farol interno. A resposta, meus amigos, é um
sonoro “não”. Não existe um quartinho reservado onde a consciência repousa. Não
há placa de identificação, nem janela dando para o sol. O que existe é algo
maior, mais complexo, mais parecido com uma sinfonia do que com uma engrenagem.
O
maestro, porém, nós o conhecemos. Ele fica lá no fundo, no tronco encefálico,
aquela região pequena, discreta, que mantém o espetáculo aceso. Se o maestro
desmaia, a orquestra para. E pronto. Silêncio... É dele o papel humilde e, ao
mesmo tempo, gigante de nos manter acordados, presentes, disponíveis para o
mundo.
A
consciência não é só permanecer de olhos abertos. A música precisa circular
pelos instrumentos. Aí entra o tálamo, esse roteador elegante, que recebe
informações de todos os cantos e as distribui com a serenidade de um
bibliotecário antigo. Sem ele, as notas se amontoariam em confusão.
A
partir daí, o espetáculo se torna grandioso. No palco da frente, o córtex
pré-frontal ensaia pensamentos, decisões, julgamentos, planos . É o nosso “eu”
executivo, aquele que resolve se
trocamos a lâmpada hoje ou amanhã. Um pouco mais ao sul, na região parietal,
temporal e occipital, mora o que alguns chamam de “zona quente” da consciência.
É onde o filme interno passa. As cores que vemos, os medos que sentimos, os
cheiros que nos lembram da infância e da vovó ofegante no pilão.
Tudo
isso junto forma o que chamamos de ser. Não um lugar, mas um processo. Não um
órgão, mas um encontro. Uma dança permanente entre corpo, mente e mundo. E
talvez seja justamente essa complexidade que nos torna humanos. Não sabemos
explicar totalmente o que é a consciência, mas somos capazes de admirá-la, como
quem não entende a partitura, mas se emociona com a melodia.
Enquanto
escrevo, percebo que minha própria consciência está aqui, tocando piano no meu
peito, soprando ideias, acendendo memórias. Lembro do Caiçara, da infância simples,
das conversas na cozinha, das primeiras curiosidades sobre o que existe além da
pele e da carne. E entendo, de súbito, que essa sinfonia que não sabemos
localizar sempre tocou dentro de mim, desde menino. Talvez seja isso que
chamamos de alma, ou espírito, ou simplesmente vida acordada.
No
fundo, continuo como sempre fui. Um curioso do mistério. Um aprendiz da própria
mente e um admirador desse maestro secreto que insiste em reger a música
enquanto respiramos. A consciência pode não ter endereço fixo no cérebro, mas
mora, e sempre morou, naquilo que nos torna humanos.
Edson
Pinto
Abril, 2026

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