17 de abr. de 2026

367) A SINFONIA DA CONSCIÊNCIA

 De repente, estou eu, encostado na janela, olhando o Rio Verde que lá embaixo faz suas curvas caprichosas. Pego-me então pensando na tal da consciência, essa hóspede silenciosa que mora dentro de cada um de nós, mas que nunca bateu cartão de ponto. A gente sabe que ela está lá. Sente sua presença, mas quando tentamos apontar o dedo e dizer “é ali que você vive”, ela escapa como fumaça.

Há quem pergunte se existe, no cérebro, um órgão específico da consciência. Uma glândula, talvez, escondida atrás de alguma dobra da matéria cinzenta, responsável por acender esse farol interno. A resposta, meus amigos, é um sonoro “não”. Não existe um quartinho reservado onde a consciência repousa. Não há placa de identificação, nem janela dando para o sol. O que existe é algo maior, mais complexo, mais parecido com uma sinfonia do que com uma engrenagem.

O maestro, porém, nós o conhecemos. Ele fica lá no fundo, no tronco encefálico, aquela região pequena, discreta, que mantém o espetáculo aceso. Se o maestro desmaia, a orquestra para. E pronto. Silêncio... É dele o papel humilde e, ao mesmo tempo, gigante de nos manter acordados, presentes, disponíveis para o mundo.

A consciência não é só permanecer de olhos abertos. A música precisa circular pelos instrumentos. Aí entra o tálamo, esse roteador elegante, que recebe informações de todos os cantos e as distribui com a serenidade de um bibliotecário antigo. Sem ele, as notas se amontoariam em confusão.

A partir daí, o espetáculo se torna grandioso. No palco da frente, o córtex pré-frontal ensaia pensamentos, decisões, julgamentos, planos . É o nosso “eu” executivo, aquele que  resolve se trocamos a lâmpada hoje ou amanhã. Um pouco mais ao sul, na região parietal, temporal e occipital, mora o que alguns chamam de “zona quente” da consciência. É onde o filme interno passa. As cores que vemos, os medos que sentimos, os cheiros que nos lembram da infância e da vovó ofegante no pilão.

Tudo isso junto forma o que chamamos de ser. Não um lugar, mas um processo. Não um órgão, mas um encontro. Uma dança permanente entre corpo, mente e mundo. E talvez seja justamente essa complexidade que nos torna humanos. Não sabemos explicar totalmente o que é a consciência, mas somos capazes de admirá-la, como quem não entende a partitura, mas se emociona com a melodia.

Enquanto escrevo, percebo que minha própria consciência está aqui, tocando piano no meu peito, soprando ideias, acendendo memórias. Lembro do Caiçara, da infância simples, das conversas na cozinha, das primeiras curiosidades sobre o que existe além da pele e da carne. E entendo, de súbito, que essa sinfonia que não sabemos localizar sempre tocou dentro de mim, desde menino. Talvez seja isso que chamamos de alma, ou espírito, ou simplesmente vida acordada.

No fundo, continuo como sempre fui. Um curioso do mistério. Um aprendiz da própria mente e um admirador desse maestro secreto que insiste em reger a música enquanto respiramos. A consciência pode não ter endereço fixo no cérebro, mas mora, e sempre morou, naquilo que nos torna humanos.

 

Edson Pinto

Abril, 2026 


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