Em
um desses dias, acompanhando pela
televisão jogos e a tabela da Copa do Mundo de Futebol, dei-me conta de uma
curiosidade que sempre esteve diante dos meus olhos, mas que eu nunca havia
realmente percebido.
A
competição começa reunindo dezenas de países. Cada povo chega carregando
sonhos, bandeiras, cantos e esperanças. Durante algumas semanas, o planeta
inteiro parece respirar no mesmo ritmo. Crianças pintam o rosto, famílias se
reúnem diante da televisão, desconhecidos conversam como velhos amigos. O
futebol realiza um pequeno milagre. Por alguns instantes, milhões de pessoas
esquecem diferenças políticas, econômicas e religiosas para compartilhar uma
única paixão.
Mas
a matemática da Copa é implacável. Primeiro são muitos. Na atual Copa, quarenta
e oito. Depois restam menos. Em seguida, menos ainda. A cada fase, uma parte da
alegria faz as malas e volta para casa. Ao final, sobra apenas um campeão.
Foi então que imaginei uma Copa diferente. Não uma nova modalidade de futebol, mas um campeonato da própria humanidade. Nessa Copa, ninguém seria eliminado. Ela começaria com apenas duas nações. Depois chegariam mais duas. Em seguida, oito. Dezesseis. Trinta e duas. Quarenta e oito. Cento e noventa e três. Cada participante teria como missão trazer outro para dentro da competição. O objetivo deixaria de ser excluir adversários e passaria a ser ampliar parceiros.
As vitórias não seriam medidas pelo número de derrotas provocadas,
mas pela quantidade de amizades construídas. O arbítrio seria a consciência. O
placar seria medido pelo número de vidas melhoradas. Os gols seriam acordos de
paz. As assistências seriam gestos de solidariedade. Os troféus seriam escolas
abertas, hospitais funcionando, ciência compartilhada, comércio justo,
tecnologia dividida com responsabilidade, alimentos chegando onde falta pão e
esperança alcançando onde falta futuro. Em vez de levantar barreiras, as
equipes aprenderiam a construir pontes. As grandes jogadas seriam aquelas em
que um país descobrisse que prosperar junto é mais inteligente do que prosperar
sozinho.
Enquanto
imaginava essa Copa impossível, pensei que talvez nós, seres humanos, tenhamos
aprendido cedo demais a admirar torneios eliminatórios. Gostamos de separar
vencedores e vencidos. Os melhores e os piores. Os ricos e os pobres. Os fortes
e os fracos. Como se a história fosse uma sucessão interminável de partidas nas
quais alguém só pode sorrir depois que outro chora.
No
entanto, a própria vida parece ensinar outra coisa. Quando uma vacina é
descoberta, o verdadeiro vencedor não é apenas o laboratório que a criou. É a
humanidade. Quando uma tecnologia reduz o sofrimento, quando uma guerra é
evitada, quando uma criança aprende a ler, quando duas nações trocam
conhecimento em vez de ameaças, todos atravessam juntos a linha de chegada. Há
conquistas que não diminuem quando são repartidas. Ao contrário. Crescem. Talvez
seja essa a mais curiosa diferença entre os bens materiais e as alegrias
humanas. Um pedaço de pão dividido fica menor. A esperança dividida fica maior.
Foi
então que compreendi que a Copa do Mundo, do jeito que ela existe, talvez seja
apenas um belo retrato do esporte. Mas a Copa da vida precisa obedecer a outra
lógica. Nela, o campeão não é quem permanece sozinho segurando a taça. É quem
consegue fazer caber mais gente na comemoração.
Talvez
Deus não sonhe com um mundo onde um povo vença todos os outros. Talvez sonhe
com um mundo onde cada vitória seja capaz de produzir novas vitórias, até que a
alegria deixe de pertencer a um único país e passe a ser patrimônio da
humanidade. Nesse campeonato, finalmente, ninguém precisaria ser eliminado. E,
pela primeira vez na história, todos levantariam a mesma taça. Afinal, uma
alegria que pertence apenas a um povo continua sendo pequena para um planeta
inteiro.
Quando
desliguei a televisão, a tabela da Copa continuava exatamente igual. Quarenta e
oito. Trinta e duas. Dezesseis. Oito. Quatro. Dois. Uma. Mas, desde aquele
instante, confesso que nunca mais consegui olhar para ela da mesma maneira.
Edson Pinto
Julho,
2026

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