3 de jul. de 2026

378) A BOLA E A ALMA

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"O futebol é uma construção psicossocial."

A frase me ocorreu enquanto assistia ao Brasil enfrentando o Japão pela Copa do Mundo que ora mobiliza a atenção planeta afora. À primeira vista, parece exagero. Afinal, trata-se apenas de vinte e dois jogadores correndo atrás de uma bola. Mas basta olhar um pouco além das quatro linhas para perceber que, há muito tempo, o futebol deixou de ser apenas um esporte.

Durante algumas semanas, o planeta parece reorganizar seus próprios sentimentos. Países inteiros suspendem, ainda que por instantes, as preocupações cotidianas para compartilhar uma expectativa comum. Milhões de pessoas, que jamais se encontrarão pessoalmente, experimentam a mesma ansiedade antes do apito inicial, o mesmo grito de gol, a mesma frustração diante da derrota ou a mesma alegria quase infantil da vitória.

É curioso observar que isso acontece em culturas muito diferentes. Povos expansivos e povos reservados, nações latinas e asiáticas, democracias consolidadas e países marcados por conflitos. Durante a Copa, todos parecem falar uma linguagem comum. A bola torna-se um idioma universal.

No Brasil, talvez esse fenômeno seja ainda mais visível. O brasileiro, já conhecido por sua espontaneidade, parece reencontrar uma versão mais luminosa de si mesmo. Multiplicam-se as bandeiras nas janelas, as conversas nas esquinas, os abraços entre desconhecidos e a esperança de que, por noventa minutos, tudo possa terminar bem.

Mas esse sentimento não é exclusivamente brasileiro. Basta olhar para as ruas de Buenos Aires, Tóquio, Rabat, Londres, Oslo, Seul ou Cidade do México. Em cada canto do planeta, o futebol desperta algo que vai muito além da competição. Ele fortalece o sentimento de pertencimento. Recorda às pessoas que fazem parte de uma história, de uma cultura e de uma comunidade.

Talvez seja esse o verdadeiro espetáculo. Não apenas o drible genial ou o gol improvável, mas a capacidade que o esporte possui de produzir uma emoção coletiva. Por alguns dias, milhões de indivíduos deixam de ser apenas indivíduos. Tornam-se uma torcida, uma nação, um povo.

Os sociólogos talvez expliquem esse fenômeno pelas identidades coletivas. Os psicólogos falarão do contágio emocional. Os economistas medirão os bilhões movimentados. Todos terão alguma razão.

Mas quem já assistiu a uma Copa sabe que há algo difícil de medir. Existe uma alegria compartilhada que atravessa fronteiras, idiomas, religiões e diferenças políticas. Como se, durante alguns instantes, a humanidade aceitasse brincar junta.

Talvez por isso o futebol seja muito mais do que um jogo. Ele é um dos raros momentos em que o mundo inteiro parece lembrar que, antes de sermos adversários, somos companheiros da mesma aventura humana.  Deus criou muitos idiomas para que os povos aprendessem a conversar, e o homem, depois de minimamente civilizado, inventou o futebol, sem necessidade de palavras, para que aprendessem a comemorar juntos.

 

Edson Pinto

Julho, 2026