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"O
futebol é uma construção psicossocial."
A
frase me ocorreu enquanto assistia ao Brasil enfrentando o Japão pela
Copa do Mundo que ora mobiliza a atenção planeta afora. À primeira vista,
parece exagero. Afinal, trata-se apenas de vinte e dois jogadores correndo
atrás de uma bola. Mas basta olhar um pouco além das quatro linhas para
perceber que, há muito tempo, o futebol deixou de ser apenas um esporte.
Durante
algumas semanas, o planeta parece reorganizar seus próprios sentimentos. Países
inteiros suspendem, ainda que por instantes, as preocupações cotidianas para
compartilhar uma expectativa comum. Milhões de pessoas, que jamais se
encontrarão pessoalmente, experimentam a mesma ansiedade antes do apito
inicial, o mesmo grito de gol, a mesma frustração diante da derrota ou a mesma
alegria quase infantil da vitória.
É
curioso observar que isso acontece em culturas muito diferentes. Povos
expansivos e povos reservados, nações latinas e asiáticas, democracias
consolidadas e países marcados por conflitos. Durante a Copa, todos parecem
falar uma linguagem comum. A bola torna-se um idioma universal.
No
Brasil, talvez esse fenômeno seja ainda mais visível. O brasileiro, já
conhecido por sua espontaneidade, parece reencontrar uma versão mais luminosa
de si mesmo. Multiplicam-se as bandeiras nas janelas, as conversas nas
esquinas, os abraços entre desconhecidos e a esperança de que, por noventa
minutos, tudo possa terminar bem.
Mas
esse sentimento não é exclusivamente brasileiro. Basta olhar para as ruas de
Buenos Aires, Tóquio, Rabat, Londres, Oslo, Seul ou Cidade do México. Em cada canto
do planeta, o futebol desperta algo que vai muito além da competição. Ele
fortalece o sentimento de pertencimento. Recorda às pessoas que fazem parte de
uma história, de uma cultura e de uma comunidade.
Talvez
seja esse o verdadeiro espetáculo. Não apenas o drible genial ou o gol
improvável, mas a capacidade que o esporte possui de produzir uma emoção
coletiva. Por alguns dias, milhões de indivíduos deixam de ser apenas
indivíduos. Tornam-se uma torcida, uma nação, um povo.
Os
sociólogos talvez expliquem esse fenômeno pelas identidades coletivas. Os
psicólogos falarão do contágio emocional. Os economistas medirão os bilhões
movimentados. Todos terão alguma razão.
Mas
quem já assistiu a uma Copa sabe que há algo difícil de medir. Existe uma
alegria compartilhada que atravessa fronteiras, idiomas, religiões e diferenças
políticas. Como se, durante alguns instantes, a humanidade aceitasse brincar
junta.
Talvez
por isso o futebol seja muito mais do que um jogo. Ele é um dos raros momentos
em que o mundo inteiro parece lembrar que, antes de sermos adversários, somos
companheiros da mesma aventura humana. Deus
criou muitos idiomas para que os povos aprendessem a conversar, e o homem,
depois de minimamente civilizado, inventou o futebol, sem necessidade de palavras, para que
aprendessem a comemorar juntos.
Edson Pinto
Julho, 2026
