28 de jul. de 2020

312) COM A PALAVRA OS NEGACIONISTAS...


•Filhos angustiados por nem mesmo poderem despedir dos pais levados pela covid-19...

•Jovens médicos e enfermeiras com suas carreiras e vidas ceifadas pela mesma maldita doença...

•Crianças que mal podem compreender a morte dos pais também levados pela pandemia assassina...

•Pessoas morrendo em filas de alguns hospitais por superlotação e incapacidade de atendimento...

•Horripilantes sequência de covas rasas onde estão sendo enterradas dezenas, centenas de pessoas sem o conforto derradeiro de familiares.

Tudo isso retrata a miséria que presentemente assola o mundo, e de forma crescente também o nosso País, por essa pandemia de virulência sem precedentes, inimaginável, assustadora.

Como se diz que imagens valem mais do que mil palavras só resta perguntar àqueles que são contra o isolamento social prudente se é ainda preciso desenhar para que acreditem na severidade desta pandemia?

Com a palavra os negacionistas...

Edson Pinto
21/4/2020

311) SAUDADE DO MEU MAVERICK


Em 1975 comprei um Maverick vinho, carro elegante, esportivo... Uma máquina poderosa, mas voraz consumidora de combustível.

Em 1978 decidi vendê-lo. Precisava ficar em linha com a mentalidade ecológica que em vigor na época. Veio o choque do petróleo com decorrente aumento astronômico do preço do combustível. Foi triste, no entanto, guardei a desconfiança que um dia tudo poderia ser diferente, para melhor, é claro...

20/04/2020, o petróleo, com contratos para fechamento em maio próximo, chega ao inacreditável, inimaginável, surreal valor negativo de US-37,63. É isso mesmo, valor negativo... Produtores de petróleo estão pagando para os compradores o levarem. Não têm capacidade de armazenamento e o melhor é pagar para se verem livres do excesso do ainda chamado “ouro negro”.

Aí lembrei do meu Maverick que bebia mais do que o Zeca Pagodinho. Tivesse-o, ainda, estaria agora na hora de - ao invés de gastar com combustível - ganhar uma graninha quanto mais rodasse pelas estradas deste nosso imenso País..
.
Viram como neste mundo real em que vivemos não há nada que seja permanente, exceto, por ora, as leis de Newton?

Edson Pinto
20/4/2020

310) EXPLICANDO PARA MIM MESMO...


“Comigo me desavim (desentendi)
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim”
(Sá de Miranda)

Edson, por que o isolamento, também chamado de quarentena, é necessário para o enfrentamento do coronavírus?

Vou tentar explicar com números e exemplos, ok? Então siga meu raciocínio:

1) Suponha que o país X, muto bem organizado por sinal, tenha 1.000 leitos de UTI’s instalados. Cerca, apenas, de 10% deles, ou seja, 100 leitos constituem a reserva para eventualidades.

2) Surge uma nova pandemia, no caso a do coronavírus que leva à doença covid-19. Para evitar muitas mortes dos mais vulneráveis esse evento passa a exigir, repentinamente, 4.000 leitos adicionais de UTI’s durante 5 meses (20 semanas). Média de 800 leitos adicionais por mês.

3) A ciência já descobriu há tempos, que os surtos, epidemias ou pandemias grassam de forma irregular. No início do contágio, se nada for feito, lá pelas semanas 4, 5 ou 6 ocorre um pico que poderia, por exemplo, exigir, ao mesmo tempo, 2.000 leitos.

4) Obviamente esses leitos não existem. Mesmo que existissem, todo os demais componentes do sistema de saúde estariam esgotados. Não haveria médicos, enfermeiros, respiradores, equipamentos de proteção, remédios e outros prontamente disponíveis. Consequência: colapso total do sistema de saúde levando a enormes perdas de vidas que poderiam ser evitadas houvesse recursos adequados.

5) A arma inicial para enfrentar o inimigo é o isolamento. Com ele, dois resultados são esperados:

    5.1) a velocidade do contágio é reduzida devido ao brusco afastamento social. O pico é evitado.

    5.2) a redução das atividades sociais e econômicas minimiza eventos regulares que demandam leitos de UTI’s, liberando-os para uso dos casos graves de covid-19

6) Enquanto a população, ao máximo possível, se isola, o sistema de saúde é incrementado criando muito mais leitos, mais profissionais são envolvidos, mais respiradores, mais recursos são alocados para o enfrentamento da doença.

7) Findo o isolamento o sistema já está pronto para atender a nova demanda agora amenizada. Menos gente morrerá. A economia voltará gradativamente ao normal, talvez até mesmo mais vigorosa, mais pujante, mais criativa. É como o pós-guerra que cria oportunidades de crescimento nunca imaginadas.
 
Fui claro Edson?

Edson Pinto
4/04/2020

309) CÁ ENTRE NÓS...


Já imaginaram essa pandemia de COVID 19 tendo a Terra população idêntica à atual, isto é, 7,7 bilhões, porém sem a internet, sem as redes sociais, sem aplicativos de mensagens e outras maravilhas da informática e telecomunicações que já incorporamos ao nosso dia a dia?

Entre os séculos XIX e XX a Varíola matou cerca de 300 milhões; a Peste Negra, no século XIV, 50 milhões e a Gripe Espanhola, no início do século XX, outros 20 milhões.  E olha que o mundo tinha, em cada uma dessas épocas, bem menos gente.

Agora, dos 7,7 bilhões que somos, quantos pereceriam ou seriam afetados com essa nova doença de tão fácil transmissão? Tenho até repulsa em imaginar: dezenas de mihões, talvez...

Com a comunicação instantânea que temos hoje, ficou mais fácil prever, prevenir, orientar, trocar experiências, combater, enfim, o inimigo... Disso ninguém tem dúvida, em que pese o obscurantismo de gente que considera a situação como produto de imaginária conspiração indo contra a ciência e os fatos.

Saibam, existe um poder superior de um mundo de micro-organismos que vive de articular formas para extinguir a nossa espécie. Os vírus, as bactérias e outros são os alienígenas que nos espreitam com a foice da morte permanentemente afiada.

Viva, portanto, o WhatsApp, o Face Book, e seus congêneres. Eles nos permitem visitar, sem contato físico, nossos parentes idosos, solucionar nossas pendências externas sem sair de casa e outros. Ainda bem!

Edson Pinto
17/3/2020

308) DE COMO COISAS SIMPLES SE TORNARAM COMPLICADAS...


Não faz muito tempo – após uma refeição em qualquer restaurante – bastava pedir um cafezinho. Pronto! Nada mais brasileiro, mais simples, mais rápido, mais prazeroso...

No entanto, mudam-se os tempos e os hábitos ficam mais sofisticados...

Hoje, em resposta ao pedido de um simples cafezinho o garçom devolve uma saraivada de perguntas tão ligeiras quanto embaraçosas:

__ Expresso, cappuccino, macchiato, latte, com chantilly, ristretto, curto, longo, pingado, carioca, breve, mocha etc., etc.?

Se ocorre de estar sem paciência para tão refinada escolha, cancele o pedido ou, então, seja prático dizendo:

Traga o que você quiser. Para mim tanto faz...

Edson Pinto
16/7/2019

307) PARA QUEM, COMO EU, GOSTA DE UM ABACAXI BEM DOCINHO...



Descrição em versos decassílabos que Caramuru, do árcade Frei Santa Rita Durão, faz ao de Rei de França quando descrevendo as frutas do Brasil (canto VII, estrofe XLIII, do poema épico sobre o descobrimento da Bahia, Caramuru):

"Das frutas do país a mais louvada
É o régio ananás, fruta tão boa,
Que a mesma natureza namorada
Quis como a rei cingi-la da coroa:
Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Surpreende o olfato de qualquer pessoa;
Que a não ser do ananás distinto aviso,
Fragrância a cuidará do paraíso."

Edson Pinto
13/4/2019

15 de nov. de 2017

306) ANÕES DE JARDIM? SIM, ELES EXISTEM!




Confesso, prazerosamente, que gosto de mexer no jardim de casa. Às vezes sozinho. Normalmente, porém, com o suporte do polivalente Ivo, nosso caseiro, mais hábil, mais jovem, mais rápido e mais entendido na matéria que eu.

No pré-sono, não raro, devaneios me assolam: “Amanhã farei isso e aquilo no jardim”. Lembro-me do cantinho das flores que segue desprestigiado; do gramado com ervas daninhas insistentes. Lembro-me também daquela arvorezinha que agora começa a tomar corpo e já se faz merecedora de um escoramento; da premência de algumas podas, há muito, absolutamente necessárias; da manutenção de alguns canteiros. Planejo até mesmo rasteladas pontuais, pois, as gerais e o corte da grama, eu as deixo para o Ivo; Ufa! 

Para quem anda verdadeiramente procurando trabalho, o jardim - asseguro com absoluto conhecimento de causa - é um enorme demandante de mão de obra. Habilite-se, principalmente se você for do tipo meio filosofo, como eu. Aos benefícios próprios dos exercícios físicos tão comprovadamente eficazes para se mitigar os males da vida provecta, tem-se a oportunidade de uma satisfação de ordem espiritual. O trabalho com as mãos em direto contato com a natureza, magicamente, nos cria facilidades para reflexões metafísicas. 

Acreditam?

Pois saiba que a vida é como um jardim. Cada pequena intervenção do bem vai melhorando as suas condições de sobrevivência. É como a nossa própria vida. Cada ato útil praticado nos melhora a existência como um todo. O jardim fica mais viçoso, a vida também; as flores aparecem com mais frequência, atrai pássaros, borboletas, abelhas... Um jardim, tal qual a nossa própria vida, ao receber os cuidados essenciais resplandece e chama a atenção. Que bom, não?

O vizinho, transeunte eventual, passa, alheio - penso - ao requerido rigor do trabalho e dos cuidados dedicados à vida e ao jardim. Só tem a passiva percepção estética do que lhe salta aos olhos. Gentilmente me cumprimenta emendando questão objetiva sobre o segredo existente por detrás - na percepção dele - do meu bem cuidado vergel. Apoio-me no rastelo, dou um sorriso inocente e digo: “Vou te contar o segredo. Eu também só o descobri recentemente”:

Madrugada dessas, tendo perdido o sono, calhou-me ouvir sussurros que vinham deste jardim. Furtivamente fiquei atrás da cortina daquela janela (apontei a janela) e por uma fresta vi e ouvi o que ocorria neste espaço. Custei a acreditar, mas prossegui na espreita.  Eram sete anões que, com enorme agilidade, faziam todas as tarefas que o seu líder, entendi chamar-se Mestre, determinava: Limpe aquele canteiro ali, Feliz! Não durma Soneca, temos pressa! Atchim recolha as folhas! Zangado e Dunga cortem logo essa grama! Dengoso, regue as plantas! Agora vamos!  Recolham as ferramentas, pois ainda temos de fazer o jardim de Branca de Neve!

Assim é, pois, tanto a vida como o jardim... Às vezes real. Às vezes pura lenda. Tudo depende - é claro - do quanto nós nos damos conta - ou não - de que a vida e o jardim somos nós mesmos que fazemos. O resto é lenda...

 Pensem nisso!

Edson Pinto

Novembro’ 2017

20 de ago. de 2017

305) TUDO FLUI COMO UM RIO


Heráclito de Éfeso, filósofo grego, (535 a.C. – 475 a.C.) foi quem disse: “Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio”.

Faz sentido?

Sim, faz! Principalmente se considerarmos que a água que flui e faz o rio no exato momento em que nele nos adentramos não será a mesma nos momentos seguintes, nem também seria a mesma dos momentos anteriores. Ela flui para seu destino e é renovada, substituída permanentemente.

Já percebeu que a vida também é assim?

Cada momento se faz diferente. As oportunidades surgem e desaparecem à medida que também ficamos menos iguais ao que éramos. A Biologia nos ensina que renovamos nossas células com razoável frequência. Enquanto os neurônios nos acompanham por toda a vida, as hemácias se renovam a cada quatro meses. Outras, em tempos ainda menores. De qualquer forma, tal qual o rio, não somos hoje exatamente o que éramos há meses, nem seremos iguais nos seguintes.

O que quero dizer com isso?

Tudo muda à medida que nossas vidas caminham para o fim. É inexorável que isso aconteça. Nem o rio, nem nós, somos mais os mesmos. Felizes aqueles que mesmo mudando conseguem uma existência longeva, produtiva, alegre e com saúde. Quem envelhece desta forma não pensa em outra coisa a não ser como tirar de sua própria vida o máximo do melhor que ela pode lhe dar.

Como nunca saberemos exatamente como é e o que nos reserva o misterioso “lado de lá”, só nos resta filosofar sobre a própria condição humana. Se nós temos consciência de que a vida é bela, boa, instigante e real, por que não nos permitir colocar ao menos um pé na água agradável desse rio que flui ininterruptamente?

Existem pessoas que, ainda com muito tempo de vida pela frente, podem ser colhidas por doenças incapacitantes ou impedimentos de natureza diversa que as privem de gozar as mesmas prerrogativas dos idosos saudáveis e bem resolvidos. Infelizmente, a vida não é igual para todos.

É de se compadecer, contudo e por essa razão, daqueles que, mesmo aquinhoados com essas vantagens, se entregam a mais triste das atitudes que é a da renúncia ao sagrado direito de gozo pleno da fase derradeira da sua merecida e bem sucedida jornada que celeremente se aproxima do fim.

Dói ver semelhantes, saudáveis física e mentalmente, a vegetar enquanto aguardam - como disse Raul Seixas em sua celebre canção Ouro de Tolo - “com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”...

Agora, se - sem que se esperasse - a vida lhe desse de presente alguns recursos extraordinários e te encontrasse com saúde boa, filhos bem encaminhados, boa intuição para controle das finanças pessoais, gosto por ser dono do próprio nariz e achando que vale muito a pena manter sua independência moral, emocional e financeira, o que faria?

Não sei da vida de cada um, mas, no meu caso, colocaria logo, não um, e sim os dois pés no rio que ora flui. Afinal, minha alegria de viver depende da preservação da minha independência para praticar os atos que quiser, quando quiser, como quiser, até quando Deus quiser...

Podemos mudar e envelhecer, mas não necessariamente perder o domínio do próprio destino. Cada momento da vida é diferente, apresentam-se desafios e obstáculos novos, mas também oferecerem-nos oportunidades que nem imaginávamos.

É pra pensar!

 “Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio”.

Edson Pinto

Agosto’ 2017

27 de mai. de 2016

304) SEGMENTO MAL-ACOSTUMADO


Não faz meu gênero recorrer ao saudosismo para subsidiar pontos de vista pessoais. Sei que não é fácil, mas pratico um esforço consciente para adaptar-me aos novos tempos, às circunstâncias do momento e também à realidade.  A vida é como uma corrida de obstáculos que devem ser superados para se chegar bem ao final.

Muitos, como eu, são do tempo em que a escola pública, além de ser a principal opção para a formação educacional, era também a que apresentava a melhor qualidade de ensino. Adentrávamos a ela aos sete anos de idade e isso não significava atraso de vida. Boa parte da intelectualidade brasileira fez-se nesse padrão. Não me consta que Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves, José de Alencar e outros tantos de áreas variadas do conhecimento humano precisaram de Maternal, de Jardim de Infância e de outras facilidades para se tornarem os grandes intelectuais que foram em vida. Ao final do primeiro ano da escola, já se dava boa conta das letras e dos números. Hoje, – até pelas circunstâncias da vida moderna – nossos bebês já vão para as creches, para os ciclos infantis e para a pré-escola. Nada contra! Os tempos são outros. Os pais trabalham fora de casa e assim há de se ter alguém para cuidar dos rebentos. Se isso é bom ou não, confesso-me incompetente aqui para opinar de forma colaborativa.

O que guardo na mente é que saíamos de casa com nossas lancheiras (na minha terra chamava-se merendeiras) preparadas pela mãe. As escolas davam professores competentes e ambientes adequados para o ensino. A questão da alimentação, porém, era assumida pelos pais.  Havia certo consenso de que cada um fazia a sua parte: pagamos impostos que serviam para custear as escolas; os professores ensinavam; e os pais, além de acompanhar o desenvolvimento dos filhos, também os alimentavam. A eventual compra de nova lancheira era o ponto alto da temporada preparatória para o retorno às aulas. Ali, seria colocado o lanche preparado com carinho pela mamãe. Mesmo para os mais pobres havia sempre uma maneira de se garantir a alimentação básica na própria escola. Em ambientes de pobreza, isso sim era e ainda é uma obrigação do governo, pois não se obtém sucesso no ensino deixando crianças de barriga vazia.  

Passou o tempo e ficamos mais e mais dependentes do Leviatã. Um segmento considerável da população tomou gosto pelo populismo de governantes recentes.  Se não tem casa, há um organismo ao qual se recorrer, o MTST. O governo tem planos mirabolantes para construir casas e entregá-las a custos subsidiados. Não tem terra? Há o MST que vai dar uma gleba que você usará ou não. Pode até vendê-la, pois não há controle efetivo sobre isso. Quer estudar no exterior, legal! O governo vai colocar nossos jovens no programa Ciências sem Fronteiras. Vão passar uns tempos em um país do primeiro mundo e depois, voltam, ou não, para aplicar seus conhecimentos. Também não tem controle rígido sobre isso.

Quer fazer uma peça de teatro, um filme, uma turnê de shows, lançar um DVD? Isso não é problema. Tem a Lei Rouanet que dá um jeitinho ao jorrar milhões na sua produção através de mecanismos de renúncia na arrecadação do Imposto de Renda. Continua pobrezinho e não é bem chegado ao trabalho? Também não é problema. Que tal um Bolsa Família, um Minha Casa Minha Vida, um Minha Casa Melhor para comprar móveis e eletrodomésticos? Não conseguiu entrar na Faculdade Pública que somente em poucos países, como no Brasil, é de graça? Não se preocupe, pois o tal o PROUNI financiará, a juros subsidiados, os seus estudos, tanto faz se você realmente precisa dessa ajuda ou se você é rico, porém bem apadrinhado?

Embora pudesse listar bem mais benesses populistas que objetivam a conquista de votos nas eleições, ficarei com apenas mais uma: Quer uma escola grátis para a sua formação técnico/profissional?  O ente estadual abre suas portas sem quaisquer custos para uma ETEC. Legal? Agora você estuda de graça, tem certamente maior chance de adentrar ao mercado de trabalho, mas se recusa a ir às aulas porque a escola não dá a refeição na qualidade que você exige. Aí você se junta à meia dúzia de filhinhos de papai invade escolas, o poder legislativo e bate o pé: Sem comida, nada feito, não estudo! É claro que se a razão do movimento for a sabida malversação das verbas públicas (cancro da nossa atual realidade), tudo bem, o protesto não é só válido como até mesmo oportuno. Mas, – perdoem-me os amigos – o meu enfoque neste texto é sobre aspecto mais transcendente da mesma questão. Falo de ensinar a pescar ou dar o peixe, entende?

Vejam como a coisa funciona: O governo, para não perder esses votos faz mais essa e outras tantas concessões que se lhe pedirem. Para isso, aumenta os impostos. Aquele outro segmento da sociedade que sustenta o paraíso vai se enervando, enervando até que ocorre uma ruptura, mesmo porque, fazer cortesia com o chapéu dos outros é algo que um dia acaba. E isso não é o pior. Para mim, o que mais incomoda é o fato de estarmos construindo uma nação com um significativo segmento de pidões; uma nação de acomodados que acham que tudo tem que vir do governo. Nunca percebem que o governo não tem dinheiro próprio, não gera riqueza, e sim que o dinheiro que ele distribui, e geralmente distribui mal, vem dos impostos que tira em volume abusivamente crescente da sociedade.

Respeitada as devidas proporção e condicionalidade, é como se os pais criassem mal seus filhos não lhes dando desafios e sacrifícios ao oferecer-lhes, de graça e prontamente, tudo o que querem na vida. Filhos assim criados não gostam de trabalhar, odeiam receber “nãos” e sempre acham que deve existir alguém para atender-lhes os desejos. Só se constrói uma sociedade verdadeiramente justa quando os seus membros têm consciência de que é necessário dar o que têm de melhor, incluindo trabalho, criatividade, empenho e seriedade. Aos que, por razões justas e humanitárias, não são capazes de - temporária ou mesmo definitivamente - contribuírem, aí, sim, a sociedade, via seu governo e/ou ações não governamentais, há de criar os mecanismos necessários ao nobre ato da solidariedade. Essa ideia de ganhar tudo do governo é comunismo e, conforme amplamente provado, não funcionou, não funciona e jamais funcionará...

Edson Pinto                                                                                   

Maio’2016 

15 de fev. de 2016

303) SIMPLESMENTE, SÓ MAIS UM CARNAVAL





Pedro parecia exausto. Viera de um ano muito difícil. A família crescera, as contas saltaram para patamar mais elevado, a inflação corroia seu escasso salário e tudo o que via e ouvia de amigos tinha a ver com os temas, desemprego, falhas no atendimento da saúde pública, corrupção envolvendo governistas e estatais, e essas tantas outras mazelas que não só tornam mais difícil a vida presente do cidadão comum como parece roubar-lhe as esperanças de um dia viver em um país socialmente mais justo e economicamente mais progressista.

Pedro até mesmo se inteirava, pela TV e pelo que o povo comentava no boca a boca, sobre as descobertas de que figurões de terno e gravata assaltavam a Petrobrás, recebiam propinas e mandavam de forma ilícita dinheiro para o exterior, compravam e ocultam propriedades e coisas do gênero. E o pior: Sempre se declaravam inocentes ou que nada sabiam... Alguns iam presos, é verdade, mas ao que tudo indicava havia mais, muito mais de podridão a ser descoberta no País. O clima definitivamente não combinava com carnaval. Parecia-lhe, em que pesasse seus quase 50 anos de vida, nunca ter visto nada tão desanimador.

Com um pano de fundo desses, será que Pedro iria – como fazia há anos – entregar-se incondicionalmente aos comandos de Momo?

Ele era daqueles foliões que emendavam da sexta-feira à noite até o raiar da quarta-feira de cinzas, bebendo com os amigos, fantasiado, ora de mulher, ora de bebe chorão, ora de pierrô, ora de qualquer coisa que contribuísse para que desligasse, pelo tempo do carnaval, de sua verdadeira identidade de trabalhador honesto e responsável. Nunca deixou de pagar impostos, nunca roubara nada de material nem mesmo imaterial como os sonhos de sua esposa e filhos por uma vida melhor. Acreditava no amanhã. Era otimista, positivo, brincalhão...

Martinha, sua esposa há quase 20 anos, também gostava de acompanhá-lo naquela pausa anual. Se ele vestia de mulher, ela ia de homem. Ele de bebe chorão, ela de enfermeira. Ele de pierrô, obviamente, ela de colombina. Entendiam-se até no carnaval. Por isso, e apesar disso, não havia outra decisão a tomar, mesmo porque, dominava-lhes a certeza de que “não há mal que sempre dure”. Um dia esse estado desfavorável das coisas haveria de passar...

“Vamos pra rua minha nega!” - ordenou ele a despeito de tudo o que o afligia. E foram. E fizeram o carnaval de suas vidas. Cantaram as marchinhas de sempre, o “mamãe eu quero mamar”, “o Pierrô apaixonado”, a “cabeleira do Zezé” e tudo o que a espontaneidade do povo trazia a mente e jogava no ar.

 Há no carnaval, pensou ele, uma forma muito especial de dizer não ao que nos incomoda e dizer sim ao que gostamos. E podemos fazer isso de coração aberto, sem que nada nos impeça de ser sinceros.

 __ O carnaval, - falou Pedro para Martinha enquanto extasiado de tanta farra voltavam para casa na quarta-feira de cinzas - é como deveria ser sempre as nossas vidas: livres de preconceitos, livres para pensar e falar o que quiséssemos, sem compromissos, sem contas a pagar, sem doenças, sem, sem, sem...

Foi quando cruzaram por um derradeiro folião que, como eles, voltava também para casa. A figura, fantasiada de presidiário cantava, e Pedro e Martinha ainda tiveram fôlego para acompanhá-lo no refrão:

“Ai meu Deus / Me dei mal / Bateu a minha porta / O japonês da Federal...”

Afinal, carnaval é também esperança. Aquele refrão parecia adequado para fazer a ligação entre o fim da orgia de Momo e a retomada da realidade. Quem sabe – pensaram e questionaram em uníssono - no ano que vem eles tenham a alegria de encerrar a festa de Momo com o inocente pierrô apaixonado pela sua colombina de sempre?

Edson Pinto

Fevereiro’2016

23 de dez. de 2015

302) RASTELANDO O BRASIL PARA UM FELIZ 2016

Nossos corpos são nossos jardins, nossas vontades são nossos jardineiros. (William Shakespeare)
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Meus amigos mais próximos sabem que cultivo, há anos, o hábito de caminhadas regulares. Enquanto caminho, penso na vida, vejo jardins alheios, perscruto novos pássaros que me cruzam a senda, e me ligo em um "podcast", recurso moderno em favor da velha sabedoria de que neurônios precisam manter-se ativos. Assim, uno o útil ao agradável...

Contudo, Ivo, o caseiro de quase duas décadas, saiu de férias. Ordenei, então, a mim mesmo: Vou cuidar pessoalmente do jardim! Substituo as minhas caminhadas pela jardinagem. Exercício garantido para o corpo e para a alma! Dito e feito:

No primeiro dia, confesso, doeram-me um pouco as costas e suei bastante. No segundo, lamúrias vieram dos músculos das pernas agora mais usados na faina de agachar para coletar folhas e arrancar as ervas daninhas. No terceiro e seguintes, comecei a sentir um prazer inenarrável: À medida que via o resultado do meu trabalho e os músculos cessaram seus queixumes tudo me pareceu perfeito. Ver o gramado limpo, viçoso, as flores resplandecentes me deu orgulho, ânimo e vontade de continuar. Acho que vou me tornar um jardineiro...

A cabeça a mil me leva a memória de Justin Quayle, o personagem de John Le Carré do livro O Jardineiro Fiel, em que o diplomata britânico era apaixonado pela jardinagem. Lembrei-me igualmente de Pu Yi, o último imperador da China, que ao abdicar-se do trono tornou-se jardineiro. De Camões, que, em Os Lusíadas, dedica impressionantes versos às advertências que fizera o velho do restelo. Mas lembrei-me também do meu amigo Raul Canovas que não só concebeu o jardim de minha casa como me deu, há anos, lições de jardinagem que, infelizmente e por tanto tempo deixei de pôr em prática. Como terapia ocupacional – salvo melhor juízo – poucas coisas se mostram mais eficientes do que a jardinagem. Imaginei as turmas do Mensalão, do Petrolão e de tantos outros "ãos" rastelando e refletindo...

Enquanto jardino, impossível também não ver semelhança com a vida do país em que vivemos: Não se consegue um jardim, ou mesmo um país bonito se não lhes tiramos as ervas daninhas que malversam o alimento e o espaço das plantas e pessoas de bem; se não lhe podamos os galhos secos, inúteis que roubam a seiva vital da Nação e impedem que os ramos novos brotem e cresçam; se não lhe aguamos na medida certa para que as folhas cresçam verdes e as flores surjam multicoloridas honrando a natureza bela e pródiga que Deus deu a nós brasileiros. Há também o rastelar permanente do gramado que nos dá a exata ideia do que foi este ano de 2015 que ora se esvai e o que serão os próximos para o nosso querido Brasil.

Precisamos ter em mente que o rastelo metafórico deve estar sempre às mãos de cada um de nós. É com ele que afastaremos as folhas secas, os galhos decaídos e revolveremos aquilo que impede que o "Brasil-Jardim" fique bonito. Um país bonito é, portanto, um país permanentemente bem cuidado. Vamos fazer de 2016 o ano da virada! Bom Natal e um 2016 rigorosamente rastelado!

 Edson Pinto

Dezembro’2015 

14 de set. de 2015

301) QUESTÃO DE VALOR


“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele tem pelos seus próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter.” (Adam Smith).



Quem como eu já não se pôs em algum momento da vida a refletir sobre o valor que as pessoas, em geral, dão aos objetivos da vida social? Seria maravilhoso se partisse da pureza d’alma de cada um - se é que todas as almas são puras - a força motriz que promoveria, pelo apreço ao ideal do bem comum, a renúncia ao egoísmo.

As pessoas de todas as ideologias, classes sociais ou mesmo religiões não só entenderiam, mas efetivamente se portariam com denodo e elevado espírito público, deixando em segundo plano os seus interesses pessoais. Algo como o que fazem as abelhas, as formigas, as vespas e mesmo os cupins que priorizam a vida comunitária em detrimento de objetivos individuais. Seria espetacular, mas, infelizmente, a vida nos tem mostrado tratar-se isso da mais autêntica utopia.

Foi o que o um professor do ensino médio constatou e contou-me quando de uma agradável e recente palestra pessoal em que nos pusemos a filosofar sobre a impossibilidade de se tornar concreto o sonho do comunismo que tanta gente ingênua ainda aspira. Deu-me ele, com o conhecimento de quem procura com afinco educar cerca de 40 jovens de uma mesma classe de aula, um exemplo que reputo digno de ser compartilhado com os meus amigos.  Deliciei-me com a sua narrativa. Prestem bem a atenção!

“Incomodava-me - disse-me ele - as frequentes ausências de meus alunos. Um dia não compareciam cinco deles. Em outros, a classe não chegava sequer a 20 alunos. A continuidade do ensino que deve ser feita como o subir de uma escada, isto é, degrau a degrau, ficava muito comprometida. Além disso, - acrescentou, - nem metade dos alunos cumpriam as tarefas de casa. Perdia eu um tempo enorme para dar uma ajeitada no conhecimento daqueles jovens. Mesmo assim, era frustrante chegar ao final do ano letivo tendo passado a matéria de forma tão superficial. Como professor me sentia derrotado”.

Então lhe ocorreu uma ideia que, solenemente, explicou a seus alunos:

“Todos os dias farei uma pergunta a cada um de vocês sobre a matéria da aula anterior. Quem acertar levará ¼ de ponto para somar à prova do mês. Tenho dez pontos para distribuir diariamente. Se alguém não comparecer, ou comparecendo não conseguir responder satisfatoriamente a pergunta, o seu 1/4 de ponto será distribuindo proporcionalmente aos alunos que acertarem as suas respectivas perguntas”.

Dito e feito...

No primeiro mês por não terem entendido completamente a ideia do professor alguns alunos malandros consideraram que o 0,25 ponto percentual  seria pouco e, portanto continuaram ou faltando ou não estudando a matéria. Só vieram a entender o mal que lhes fazia a opção pela malandragem quando viram que os colegas assíduos e estudiosos chegaram com facilidade à nota máxima. Foram, como consequência, ficando cada vez mais para trás até que se deram conta de que para serem aprovados seria necessário se esforçar vencendo a preguiça de ir às aulas e estudando para fazer jus às notas que lhes passariam de ano.

Num determinado dia choveu muito e o professor imaginou que a frequência seria baixa e que, portanto aqueles poucos que sempre demonstraram maior empenho e interesse em se destacarem iriam abocanhar mais meios pontos dos faltosos. Para sua surpresa, a sala estava completa com todos os alunos. Propositadamente, perguntou a alguns daqueles que no inicio do ano eram os mais relapsos sobre a razão de estarem ali em que pesasse tanta chuva lá fora. A resposta que obteve: “Imaginei que outros não viriam e que valeria a pena habilitar-me aos pontos deles”. Todos pensando assim, a classe foi em frente e o ano letivo foi altamente proveitoso com alunos e professores felizes com o resultado que obtiveram.

Se há uma lição a se tirar desse episódio é a de que o ser humano precisa ser incitado, incentivado, despertado para que transforme o egoísmo que lhe é da essência em ações úteis para a sociedade como um todo. Prover de forma paternalista as necessidades dos outros sem exigir-lhes esforço para que melhorem, prejudica mais do que ajuda. O Comunismo fracassou e continuará a fracassar enquanto a sociedade através dos governos e mesmo do senso comum não entenderem que o importante é ensinar a pescar e não fornecer graciosamente e de forma continua o peixe.

Edson Pinto                                                                  

Agosto’ 2015

11 de ago. de 2015

300) DOBRANDO A META...

Para um determinado programa governamental, a presidente Dilma andou recentemente falando que não tinha estabelecido meta. Mas, sugeriu que, quando se atingisse a meta, então, deveriam dobrar a meta. Se alguém entendeu esse intricado raciocínio, que bom. Parabéns! Se não, vai aqui uma interpretação: Não ter meta é o mesmo que meta zero, não é? Então, se você atinge esse zero e depois dobra esse mesmo zero, logo a meta final continuará sendo zero, pois, segundo a Matemática, zero multiplicado por qualquer número será sempre zero, ou não é mais? É claro que ela não quis zombar nem enganar ninguém de forma consciente. O problema é que ela é confusa assim mesmo. Provas disso se espalham por toda a vida nacional. Mas isso é assunto de política e eu quero, hoje, é falar apenas dos textos do meu blog.

Não vou falar, repito, das metas da Dilma, mas sim das minhas próprias metas relacionadas com o meu esforço prazeroso de publicar com certa regularidade textos neste blog. Em outubro de 2008 atingi a minha meta de 50 textos publicados. Na época impus-me dobrar a meta e fui para o 100º texto que publiquei um ano depois no mês de outubro de 2009. Impus-me, então e novamente, dobrar a meta para 200 e isso aconteceu em abril de 2012. Na ocasião, claro, não fui leviano a ponto de prometer novo dobro da meta, pois entraria numa exponencial impossível de realização. Quem não se lembra de Malba Tahan em “O Homem Que Calculava” que conta essa deliciosa história:

Um Rei, para gratificar um sábio que lhe prestara bons serviços concede-lhe o direito da escolha de um presente. O sábio pede, então, que seja presenteado com grãos de trigo. Seguindo o desejo do sábio, mas surpreso com a singeleza de seu pedido, o Rei ordena que lhes trouxessem um tabuleiro de xadrez. O sábio então diz: coloquem 1 grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, 2 na segunda, 4 na terceira, 8 na quarta e continuem dobrando a quantidade de grãos até concluir as 64 casas do tabuleiro. Será que o Rei foi capaz de atender ao pedido do sábio? Ao final do texto volto ao assunto.

Este meu texto de hoje é o de número 300, como pode ser visto no seu título. Este e os outros 299 encontram-se postado no blog e podem ser acessados facilmente. Pode ser pouco para quem vive profissionalmente de publicar seus pensamentos fazendo critica do cotidiano ou mesmo externando sua criatividade na forma de textos ficcionais. Mas pode ser muito para quem, como eu, já faz contagem regressiva e tem consciência da preciosidade de cada novo dia que ganha de presente quando levanta da cama ao amanhecer. É como regular o consumo das trufas que se esgotam da última caixa. Cada uma delas merece ser saboreada com prazer extremo. Para um homem maduro, cada novo dia vale mais do que vale para um jovem que tem uma infinidade de dias pela frente. Não se deve desperdiçá-los nem deles fazer uso impróprio. Escrever, por óbvio, não é usar irresponsavelmente o dia que se ganha de presente, mas a vida, convenhamos, tem muitas outras tarefas igualmente prazerosas.

Atingi 300 textos investindo ao redor de igual quantidade de meus preciosos dias. Agora que atingi a meta torno-me propenso a acatar o brilhante raciocínio de Dilma. Não colocarei meta adicional alguma. Se me virem eventualmente dobrando a meta é porque não produzi mais nada. O dobro de zero, como já dito, será sempre zero. A única coisa que gostaria de continuar tendo como meta seria o de sempre agradecer aos amigos que ao longo destes meus 8 anos de blog tiveram a paciência de ler os meus textos. Muitos se manifestaram e ainda se manifestam sobre o que escrevo. Obrigado a todos! Se não me virem escrevendo no blog, fiquem tranquilos! Estarei fazendo jardinagem, caminhando pelas ruas do bairro, cuidando da horta caseira, passeando com a família, almoçando ou jantando com amigos ou mesmo lendo blogs dos outros...

A propósito, o Rei, mesmo com toda a sua fortuna pessoal somada a do seu reino, não conseguiu presentear o sábio com os grãos de trigos que ele pediu de presente. Se tivessem conseguido dobrar os grãos nas 64 casas do tabuleiro de xadrez, seriam necessários exatos 18.446.744.073.709.551.615 grãos de trigo (18,4 quintilhões). É sabido que 1 m³ desse cereal contém aproximadamente 15 milhões de grãos. Extrapolando para o fantástico número de 20 algarismos acima mencionado isto ocuparia um espaço correspondente a 12.000 km³.  Considerando as dimensões do celeiro como sendo 4 metros de altura por 10 metros de largura, teríamos um comprimento de 300 milhões de quilômetros lineares, ou seja, o correspondente a uma estupenda viagem de ida e volta deste nosso maravilhoso planeta ao rei Sol.  

Edson Pinto

Agosto’2015

23 de jul. de 2015

299) FALÁCIA “TU QUOQUE” (VOCÊ TAMBÉM)


Em decorrência da apuração de suposto desvio de bilhões dos cofres de uma empresa pública, um dos envolvidos se encontra preso em uma cela da Polícia Federal em um lugar qualquer deste imenso País. Embora diminuta, a cela tem duas portas vigiadas por dois policiais protegidos por máscaras para não serem identificados. As portas, igualmente não identificadas, têm cada qual um destino. Uma leva à liberdade, a outra à morte moral e política.

É dada ao preso a oportunidade de escolha de uma das portas para dali sair. Obviamente ele quer escolher a porta que o leve à liberdade. O carcereiro permite-lhe fazer apenas uma pergunta a um dos dois policiais que vigiam as portas. É dito ainda que um dos policiais, sem que se identifique qual, fala sempre a verdade, enquanto o outro é um mentiroso contumaz.

Estivesse você no lugar do preso, que pergunta você faria a um dos guardas?

Volto à resposta ao final do texto.

Antes:

Adaptei esse clássico e já bem conhecido problema de lógica para mostrar que vivemos um momento ímpar da vida nacional. Como nunca antes visto, recorrer aos ensinamentos da Filosofia se tornou tão necessário quanto o ar que respiramos, o alimento que ingerimos e a água que bebemos. Na Grécia antiga – não nessa Grécia estropiada de hoje – filósofos como Aristóteles já haviam detectado a importância de se estudar os processos intelectuais que levam ao conhecimento correto de tudo o que nos rodeia. Só assim seremos capazes de entender quais argumentos são verdadeiros e quais são falaciosos, mentirosos...

Vivemos em um mundo de falácias quando argumentações com aparência de verdades são produzidas para os propósitos de engano. Tanto na esfera da lógica como na esfera da retórica as falácias pululam de forma permanente como recurso para livrar a cara daqueles que agem política e moralmente de maneira condenável. Não raro, argumentos que vêm embrulhados em lindo papel de verdades incontestes não trazem mais do que um conteúdo falso. Entre dezenas de tipos já classificadas de falácias, quero pinçar e comentar sobre uma delas:

A falácia “Tu quoque”, ou “você também”: É o argumento daquele partido político - por exemplo - que já não tendo encontrado justificativa convincente para as suas pedalas fiscais não encontra outra saída senão a de admitir os seus erros, mas justificá-los com o fato de que outros também o cometeram. Assim, imaginam que ao se igualarem a outros pecadores que por quaisquer razões não foram punidos também deveriam merecer o mesmo tratamento. Lembrem-se daquele personagem do saudoso Chico Anysio, Tavares, um hipócrita assumido, bêbado, que sempre saia com a máxima de: “Sou, mas quem não é?”.

O governo que esta aí e com o volume de problemas que conseguiu acumular, por mais boa vontade que tenhamos para com ele, já deve ter esgotado todo o arsenal de falácias possíveis e imaginárias na tentativa, hoje, vã de transformar mentiras em verdades. Se acontecer uma reviravolta do quadro atual mantendo-se os mesmos personagens será não só um milagre, mas a contestação histórico/milenar de que a lógica e a coerência deveriam sempre reinar sobre os atos da vida. A Filosofia e a sua afilhada, a Lógica, seriam colocadas de cabeça para baixo...

A propósito, a única pergunta que levaria o preso para o caminho da liberdade seria pergunta a qualquer um dos guardas: Qual porta o outro guarda indicará como sendo a da liberdade?

Explico:

Primeiro, se a pergunta cair para o guarda mentiroso, ele certamente dirá que o outro guarda (por exclusão o que fala a verdade) apontará determinada porta como a porta da liberdade. Estaria, como sempre, mentindo, distorcendo, a verdade do outro.

Segundo, se a pergunta cair para o guarda que só fala a verdade e sendo este sabedor que o outro guarda sempre mente, este também apontará para a mesma porta como sendo a porta que levará à liberdade.

Conclusão: Como ambos indicariam a porta da morte como sendo a que pressupostamente levaria à liberdade, bastaria então seguir para a outra porta, ela sim a porta da liberdade.

O preso não viu, pois os guardas encontravam-se mascarados. Soube, contudo e apenas depois de já se encontrar em liberdade, que o guarda mentiroso tinha em seu peito a tatuagem de uma estrela vermelha.

Edson Pinto

Julho’2015

3 de jul. de 2015

298) O CUSTO DA BURRICE

Qualquer pessoa minimamente observadora, especialmente aquelas que já visitaram outros países ou que já adotam o salutar hábito de pesquisar preços na internet, sabe muito bem que tudo aqui na nossa terrinha, com raríssimas exceções, custa mais do que alhures. E não é só a questão do valor relativo entre moedas, pois o nosso cada vez mais pobre Real vem sofrendo desvalorização considerável nos últimos meses e mesmo assim nossos preços continuam exorbitantes.

Os economistas referem-se a isso como sendo o “Custo Brasil”. Ele é formado, entre outros fatores, pela nossa elevada carga tributária; pela precariedade da nossa infraestrutura que nos impõe custos elevados de transporte, armazenamento e logística em geral; pelo protecionismo tarifário de certos segmentos de bens e serviços; pelas elevadas taxas de juros; pela corrupção; pela excessiva burocracia que herdamos do período colonial e, acrescento, por minha própria conta; pelo despreparo de nossos profissionais e pela nossa arraigada falta de educação, ambos estes fatores geradores do que popularmente conhecemos como “burrice”.

Qualquer um poderia listar exemplos que não se esgotam de casos em que o custo Brasil, com base nos diversos fatores que citei, fica bem evidente. Hoje, contudo, quero falar apenas desse último bloco que denominei “burrice”:

Este substantivo pode ser encontrado em qualquer dicionário sempre com a definição de que se refere à falta de inteligência, parvoíce, idiotice e outros termos não menos depreciativos. A característica comum da burrice é que ela, em geral, impede uma pessoa de agir racionalmente e de forma produtiva. Sintetizo meu pensamento com a menção ao que disse o economista e historiador italiano Carlo Cipolla: “Uma pessoa burra é aquela que causa algum dano à outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo – ou até mesmo se prejudicando”

Claro que existe burrice decorrente da formação escolar falha, insuficiente, inadequada. Mas, há burrice oriunda do egoísmo, da preguiça ou da visão destorcida de mundo que uma pessoa tenha desenvolvido ao longo de sua existência. E olha que Roberto Campos já tinha alertado que a “burrice não respeita fronteiras ideológicas”... O problema é quando burrice se junta a outros interesses, outros fatores e engorda o Custo Brasil...

Experiência desta semana que comprova a existência irrefutável da burrice:

Estando este modesto escriba no balcão de uma farmácia, observa que um senhor bem mais idoso do que ele, agravado pelo fato de demonstrar certa dificuldade de caminhar, chega esbaforido com uma receita na mão e a entrega ao balconista que cuida da chamada Farmácia Popular, esse justo programa social pelo qual o governo devolve uma ínfima parte dos impostos que pagamos na forma de entrega “grátis” de certos medicamentos notadamente os ligados ao combate da hipertensão arterial.

O velhinho diz: “Voltei ao médico e agora ele colocou o carimbo e a assinatura também no anverso da receita”. O quê?  - Interferi dirigindo-me diretamente ao balconista. “É que são três medicamentos – tenta me explicar - os de números 1 e 2 estão no anverso da receita e o de número 3 está no verso onde se encontra o carimbo e a assinatura do médico. Tive que pedir que ele, (o velhinho coxo, lembrem-se!) que voltasse ao seu médico para que ele repetisse o carimbo e assinatura no anverso da receita, se não, como saberia que ele está pedindo os 3 remédios? Além disso – completou com a singeleza de um asno manso - quando eu tirar uma cópia da receita, na primeira parte, não terá o carimbo e assinatura do médico”...

Se isso não é algum truque comercial para levar a uma transação mais lucrativa, ou se não é uma espécie doentia de sadismos que lhe dá prazer em ver um velhinho com dificuldade de locomoção ter que voltar ao médico, enfrentar novas filas só para pegar um carimbo que já estava no devido lugar, isto é no final do receituário, ou qualquer outro enigma que um ser humano normal não consegue captar, então concluo:

Só pode ser burrice...

Para tirar essa dúvida, aproveito uma visita posterior à outra farmácia onde conheço de longa data balconistas bem mais preparados e questiono sobre o fato que acabo de narrar. O que ele me explica é de estarrecer a um marciano, mas não a um brasileiro calejado como eu: Nada disso é necessário, me asseverou. Não temos essa exigência aqui na nossa Farmácia Popular. Pelo contrário, até facilitamos ao máximo o atendimento ao programa, pois o governo nos reembolsa pelo valor de tabela do medicamento enquanto aos clientes avulsos concedemos até 30% de desconto.

Bingo!

A farmácia popular é lucrativa. O patrão que não deve ser nem bobo nem burro certamente quer vender por ela. O funcionário que cria dificuldades para que isso aconteça é porque não gosta do patrão, nem do próprio emprego ou é realmente mais um detentor da burrice que assola e aumenta o Custo Brasil.

Pobre País!

Edson Pinto

Julho’ 2015