28 de ago. de 2026

386) O BARÃO E SEUS DISCÍPULOS

 

Hieronymus Karl Friedrich von Münchhausen nasceu na Alemanha no século XVIII e teve uma vida que, ao que tudo indica, foi bem menos extraordinária do que aquela que resolveu contar. Militar e extraordinário contador de histórias, tornou-se célebre pelos relatos que fazia em rodas de amigos, nos quais a realidade entrava pela porta e, poucos minutos depois, saía pela janela.

Em suas aventuras, viajou montado numa bala de canhão, foi à Lua, encontrou um cervo com uma cerejeira crescendo entre os chifres e chegou a salvar a si próprio e ao cavalo de um pântano puxando-se pelos cabelos. Arquimedes precisou de um ponto de apoio para mover o mundo. Ao Barão bastou-lhe a própria cabeleira. Suas histórias foram transformadas em literatura, principalmente por Rudolf Erich Raspe, e Münchhausen acabou emprestando seu nome à posteridade como sinônimo de exagero e mentira deslavada.

Talvez tenhamos sido injustos com ele. O Barão mentia, é verdade. Entretanto, havia em suas mentiras um contrato silencioso. Ele sabia que estava mentindo, o ouvinte também sabia e, provavelmente, o Barão sabia que o ouvinte sabia. Estavam todos de acordo. A mentira era uma brincadeira. O problema é que os séculos passaram e a mentira descobriu novas profissões. Uma delas foi a política.

Não que a política tenha inventado a mentira. Seria atribuir-lhe uma originalidade que certamente não merece. A mentira provavelmente nasceu poucos minutos depois da linguagem, quando o primeiro homem descobriu que poderia usar as palavras não apenas para contar o que acontecera, mas aquilo que lhe convinha que os outros acreditassem ter acontecido.

Foi então que o velho Barão ganhou discípulos. A diferença é que Münchhausen queria arrancar uma gargalhada. Seus sucessores pretendem arrancar um voto. E ganharam ferramentas que o mestre jamais possuiu. O Barão tinha uma mesa, alguns amigos e sua imaginação. Seus discípulos têm microfones, televisão e redes sociais. Uma falsidade pode ser repetida milhares de vezes antes que alguém tenha tempo de perguntar se é verdadeira. Ainda assim, talvez estejamos sendo injustos também com as máquinas. Máquinas não acreditam. Nós acreditamos.

E aí começa a parte menos confortável da história. Nem sempre somos enganados porque alguém mente muito bem. Às vezes somos enganados porque alguém mente exatamente aquilo que gostaríamos que fosse verdade. A mentira política conhece nossos medos, nossas raivas e nossos ressentimentos. Se fala mal de quem já não apreciamos, melhor ainda. Nossa exigência de provas diminui na mesma proporção em que aumenta nossa vontade de compartilhar. Uma pessoa repete. Dez compartilham. Mil comentam. Um milhão acredita. E a mentira ganha aquilo que nenhuma mentira deveria possuir: uma multidão.

Imagino então o velho Münchhausen diante de alguns discursos contemporâneos. A princípio sorriria. Depois ficaria admirado. Por fim, talvez sentisse inveja. Passara a vida aperfeiçoando a arte do exagero e descobriria, mais de dois séculos depois, que havia se tornado um amador.

Há, porém, uma diferença fundamental. Münchhausen precisava tornar suas mentiras inacreditáveis para que fossem engraçadas. Seus discípulos precisam torná-las acreditáveis para que sejam úteis. Talvez por isso, depois de conhecer nossos palanques e redes sociais, o Barão resolvesse regressar ao século XVIII. Montaria em seu cavalo, ajeitaria o casaco e lançaria um último olhar para nós. Não sei se estaria decepcionado com os políticos. Suspeito que estaria mais preocupado conosco. Afinal, durante toda a vida ele contou mentiras monumentais e teve a delicadeza de não exigir que ninguém acreditasse nelas.  Antes de partir, balançaria a cabeça e diria:

— Meus senhores, também não precisava exagerar tanto.

 

Edson Pinto

Agosto, 2026

21 de ago. de 2026

385) A VIDA EM ADVÉRBIOS

 O advérbio é a luz que não muda a paisagem, mas muda inteiramente a maneira de vê-la. Edson Pinto

Aprendi o que era um advérbio numa idade em que tinha coisas muito mais importantes com que me preocupar. Havia recreios, bolas, colegas, provas, férias e uma quantidade considerável de meninas que começavam a tornar a gramática portuguesa um assunto de importância bastante relativa.

A professora explicava que advérbio era a palavra que modificava o verbo, o adjetivo ou outro advérbio, acrescentando-lhe uma circunstância de tempo, modo, lugar, intensidade, afirmação, negação ou dúvida. Anotei tudo disciplinadamente. Talvez tenha até acertado a questão na prova. Depois disso, guardei o advérbio numa dessas gavetas mentais onde depositamos os conhecimentos escolares que julgamos não voltar a encontrar.

Enganei-me.

Hoje, depois de muitos anos de convivência com as palavras nos meus livros e no meu blog, e de uma convivência ainda mais longa com a vida, começo a suspeitar que aquela professora tentava me ensinar muito mais do que gramática. Eu é que era jovem demais para perceber. A juventude tem esse pequeno defeito. Aprende depressa aquilo que ainda não tem idade para compreender.

Sabemos o significado de “sempre” antes de termos vivido tempo suficiente para desconfiar dele. Dizemos “nunca” com uma segurança que somente os jovens possuem. Pronunciamos “amanhã” como se tivéssemos assinado contrato de propriedade sobre o futuro. E usamos “talvez” apenas quando estamos em dúvida, sem imaginar que, muitos anos depois, descobriremos que boa parte da existência cabe exatamente dentro dele.

O substantivo, reconheço, é importante. Dá nome ao mundo. Casa, rio, árvore, homem, mulher, saudade. Sem ele, andaríamos por aí apontando para as coisas.

O verbo é ainda mais atrevido. Faz o mundo funcionar. Nascer, correr, trabalhar, amar, partir, voltar. Sem verbos, a humanidade seria uma fotografia.

O adjetivo chega depois e começa a distribuir opiniões. A casa é bonita, o rio é tranquilo, a árvore é antiga, o homem é sábio, a mulher é encantadora. O adjetivo tem algo de crítico literário. Nada lhe basta existir. É preciso qualificá-lo.

Então aparece o advérbio. Discreto, quase modesto, aproxima-se do verbo e cochicha uma circunstância. Não basta amar. Pode-se amar profundamente. Não basta esperar. Pode-se esperar pacientemente. Não basta partir. Pode-se partir cedo. Não basta chegar. Pode-se chegar tarde.

E descobri, com certo atraso, que a vida talvez esteja menos nos verbos do que nos advérbios que os acompanham. Todos vivemos. A questão é como. Todos partiremos. A questão é quando. Todos estamos em algum lugar. A questão é onde. E todos desejamos alguma coisa. A questão, frequentemente, é quanto. A gramática chama isso de circunstância. A filosofia talvez chamasse de existência. Há advérbios que, vistos da maturidade, adquiriram para mim uma grandeza que os livros escolares jamais conseguiram revelar.

Quase, por exemplo. Que palavra perigosa. Quase fui. Quase disse. Quase consegui. Quase voltei. Quase amei. Há vidas inteiras escondidas dentro de um quase. Ele é uma espécie de varanda da realização. Chegamos até ali, vemos a paisagem, mas não entramos na casa.

Nunca é diferente. Nunca é um sujeito autoritário. Apaga a luz, fecha a porta e ainda leva a chave. Talvez por isso devêssemos pronunciá-lo com mais cautela. A vida possui certa predileção por desmentir quem diz nunca.

Sempre não é muito melhor. É romântico, exagerado e irresponsável. Faz promessas eternas com a facilidade de quem não será chamado a prestar contas depois de cinquenta anos.

Já o talvez me parece mais sábio. Quando jovem, eu o considerava hesitante. Hoje o considero prudente. Talvez conhece a fragilidade das certezas humanas. Sabe que o futuro não costuma consultar nossos planos antes de acontecer. Há alguma coisa de filósofo cético nesse pequeno advérbio.

Mas há um de que gosto especialmente.

Ainda. Ainda é uma palavra que a juventude desperdiça porque possui futuro demais para precisar dela. É somente depois que o calendário acumula páginas que começamos a compreender sua delicadeza. Ainda caminho. Ainda penso. Ainda me surpreendo. Ainda tenho curiosidade. Ainda espero. Ainda escrevo. O “ainda” não nega o tempo. Ao contrário, reconhece-o. Sabe que muita coisa passou, mas recusa-se educadamente a admitir que tudo tenha passado.

Talvez seja por isso que hoje compreendo melhor aquela velha definição da professora. O advérbio modifica o verbo, o adjetivo e até outro advérbio. Passou a vida inteira modificando também a mim, sem que eu percebesse. Aos poucos, fui aprendendo que não basta viver. É preciso perceber como vivemos. Não basta saber onde chegamos. Convém lembrar de onde viemos. Não basta perguntar quanto tempo nos resta. Talvez seja mais importante perguntar com que intensidade habitaremos o tempo que temos.

Curioso. Precisei envelhecer para compreender uma aula de português da infância. Se encontrasse hoje aquela professora, talvez lhe dissesse que finalmente aprendi o advérbio. Ela provavelmente perguntaria se demorei tanto assim. Eu responderia:

— Demorei.

E, depois de pensar um pouco, acrescentaria o advérbio que explica quase toda a minha relação com a vida:

— Muito.

 

Edson Pinto

Agosto, 2026

14 de ago. de 2026

384) O MEU PRÓPRIO B-612

Quando li pela primeira vez O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry, eu era um menino sério, daqueles que tentam, ao contrário do personagem filosófico do livro, desenhar jiboias por dentro, mas acabam se contentando com elefantes por fora.

Publicado em 1943, em meio a um mundo em guerra, o livro atravessa o tempo como um sussurro cheio de ternura. Sob a aparência de um conto infantil, abriga em suas páginas uma das mais delicadas e profundas meditações sobre a vida, o amor, a amizade e o sentido da existência. Arrisco-me até mesmo a dizer que é só na maturidade que nos encontramos em plenitude para compreendê-lo.

Fiquei intrigado com aquele tal Planeta B-612, pequeno, solitário e cheio de significado. O que me espantou não foi o planeta em si, mas a revelação de que cada um de nós carrega o próprio B-612 dentro do peito. Só que, ao contrário do Pequeno Príncipe, que vivia com sua rosa e três vulcões, o meu planeta tinha outras coordenadas, e outras rosas também...

O meu B-612 fica entre a fictícia Vila dos Ventos e o bairro do Caiçara, em Belo Horizonte, onde passei minha infância e juventude. Esses dois lugares remetem a dois de meus livros, O Resgate do Tempo Perdido e Memórias do Caiçara. Estão, portanto, fora do alcance de telescópios modernos, embora qualquer menino com um pouco de saudade seja capaz de enxergá-lo. Não se encontra em mapas celestes, mas mora nos desvios da memória, onde a infância resolveu se esconder.

Na Terra, tenho nome, CPF, compromissos, sentimentos, dores, memórias, mas, no meu planeta fictício, sou apenas o menino que se lembra demais, como se a lembrança fosse um tipo de combustível cósmico. Lá, também, a fictícia Vila dos Ventos continua intocada. O sino da igreja ainda toca como se anunciasse o retorno dos que nunca voltam. E a praça? Ah, a praça ainda abriga encontros no banco perto do coreto e histórias que a memória conserva melhor que  o cheiro de pão de queijo saído do forno.

No Caiçara de minhas memórias, meu pai ainda caminha com as mãos nos bolsos e chapéu de feltro. Os ex-combatentes, que até recentemente ainda estavam por aqui, mas já partiram todos, contavam histórias que misturavam a Segunda Guerra com o nascimento do bairro, como se Monte Castelo e o Caiçara fossem vizinhos de muro. No planeta, Laurinha ainda penteia os cabelos na varanda. E juro que ela me olha. Não com os olhos da infância, mas com aqueles que dizem: “Era você o tempo todo, seu distraído!”

Tenho também três vulcões, embora o terceiro só entre em erupção quando ouço certas músicas ou sinto o cheiro de cadernos antigos. Tenho a minha própria rosa. Companheira fiel, sensível, com seus espinhos e exigências, como toda rosa que se preze. Dedico a ela rega constante de boas lembranças, adubo de palavras carinhosas e ausência de vento. Mesmo quando esqueço de cuidar, ela insiste em florir. Talvez seja amor, talvez seja teimosia vegetal,  ou talvez porque, antes de partir, tenha plantado sementes no nosso jardim.

A vida no B-612 não exige documentos. Apenas silêncio, tempo e um pouco de coragem para se comover. Lá, os pores de sol obedecem à emoção do dia: se a saudade é grande, eles se repetem até que eu me acalme. Já assisti a doze deles de uma só vez. E, em todos, ouvi o mesmo sussurro: “O essencial é invisível aos olhos.”

Volto ao meu planeta quando posso. Às vezes, uma palavra me leva. Outras, um cheiro. Às vezes, basta uma tarde em que o mundo parece não fazer sentido. E então lá estou, sentado numa cadeira imaginária, contemplando o que só existe porque um dia existiu. Os adultos diriam que esse planeta é invenção. Que não existe. Que é escapismo, romantismo, delírio literário. Talvez…

Aprendi com a raposa, não com aquela que habita os arredores da Pampulha, pois sou atleticano de fé, que só conhecemos bem aquilo que nos cativa. Fui cativado. Pela Vila dos Ventos, pela rosa que me desafiava com seus espinhos, pelas ruas numeradas e calçadas de pedras irregulares do Caiçara, pelas mulheres que passaram pela minha vida, pelos silêncios do meu pai e pelas palavras que nunca disse, mas que ecoam em mim como se fossem um idioma secreto.

O meu B-612 é isso: um planetinha só meu, onde as dores são pequenas, os afetos têm nome e os pores de sol sabem esperar. É desse pequeno planeta que nascem muitas das crônicas que eu publico em meu blog. Cada texto é uma pedra, uma flor, uma estrela ou um pôr do sol do meu planetinha. Quem quiser pousar está convidado. Não precisa traje espacial.

Basta trazer o coração desarmado.

 Edson Pinto

Agosto, 2026



7 de ago. de 2026

383) A INTELIGÊNCIA E SUAS FERRAMENTAS

Há uma curiosa ilusão que parece acompanhar todas as grandes invenções da humanidade. Sempre que surge uma nova ferramenta, alguém anuncia o fim do mérito humano. Foi assim com a escrita, com a imprensa, com a máquina de calcular, com o computador e, agora, com a inteligência artificial. Como se o valor de uma obra estivesse na dificuldade do instrumento utilizado, e não na grandeza da ideia que lhe deu origem.

A história, entretanto, conta uma versão bem diferente: Nenhum grande criador trabalhou sozinho. Cada geração recebeu como herança o conhecimento acumulado pelas anteriores e, sobre esse alicerce, construiu novos horizontes. Newton reconheceu que enxergava mais longe porque estava sobre os ombros de gigantes. Einstein desenvolveu sua teoria apoiando-se na matemática, na física e nas descobertas de muitos outros pesquisadores. Cervantes escreveu utilizando uma língua que levou séculos para se formar. Beethoven compôs ao piano. Nenhum deles começou do zero. Nenhum precisou renunciar às ferramentas disponíveis para provar o próprio talento.

Talvez resida aí um dos maiores equívocos de nosso tempo. Confundimos, por vezes, o valor da inteligência com a simplicidade dos instrumentos de que ela dispõe. Esquecemos que a criatividade nunca nasceu do isolamento, mas do diálogo permanente entre a mente humana e os recursos que ela própria inventa.

A inteligência artificial é apenas o capítulo mais recente dessa longa história. Ela não cria sensibilidade onde ela não existe. Não produz discernimento em quem nunca o cultivou. Não substitui experiência, imaginação, caráter ou sabedoria. Essas continuam sendo conquistas exclusivamente humanas. O que ela faz é ampliar possibilidades.

Nas mãos de um pesquisador, pode acelerar descobertas. Nas de um professor, enriquecer o aprendizado. Nas de um escritor, ajudar a organizar ideias que já estavam em gestação. Nas de um artista, abrir novos caminhos para a criação. Mas nenhuma dessas realizações pertence à máquina. Continuam pertencendo ao ser humano que pergunta, escolhe, interpreta, aceita ou rejeita cada sugestão. Toda ferramenta amplia capacidades, mas nenhuma substitui a inteligência que lhe dá direção.

É verdade que a inteligência artificial também traz riscos. Como toda inovação poderosa, pode ser usada para manipular, desinformar, copiar, vigiar ou produzir dependência intelectual. Ignorar esses perigos seria ingenuidade. Mas condenar uma tecnologia apenas porque ela pode ser mal utilizada seria esquecer que quase todas as grandes invenções da história carregaram a mesma ambivalência. A imprensa difundiu conhecimento e propaganda. A química produziu medicamentos e venenos. A energia nuclear iluminou cidades e destruiu outras. O problema nunca esteve apenas nas ferramentas. Sempre esteve, sobretudo, nas mãos que as conduzem.

A verdadeira questão não é saber se devemos utilizar a inteligência artificial. A pergunta mais importante é outra. Estamos preparando pessoas capazes de utilizá-la com responsabilidade, espírito crítico e criatividade? As ferramentas mudam. O desafio humano permanece.

Cada época exige competências diferentes. Houve um tempo em que o mérito estava em memorizar informações. Depois, em encontrá-las rapidamente. Hoje, começa a estar na capacidade de formular boas perguntas, distinguir o verdadeiro do falso, estabelecer relações inesperadas e produzir ideias que nenhuma máquina é capaz de viver antes de escrever. A inteligência artificial pode organizar palavras, mas não vive nossas experiências. Não sofre nossas perdas. Não conhece nossos afetos. Não constrói nossa consciência. Ela amplia a voz. Não cria a alma.

Faz, então, sentido que não veja a inteligência artificial como uma ameaça à inteligência humana, mas como um espelho. Ela torna mais evidente aquilo que sempre esteve diante de nós. Ferramentas nunca produziram gênios. Apenas revelaram, com mais clareza, o que cada pessoa era capaz de fazer com elas.

A história raramente sorriu para aqueles que recusaram olhar pelo telescópio, abrir um livro recém-impresso ou ligar um computador. Em geral, ela avançou graças aos que tiveram coragem de experimentar, aprender e seguir adiante. Talvez esteja acontecendo exatamente a mesma coisa diante de nossos olhos.

 Edson Pinto

Agosto, 2026