6 de mar. de 2026

362) CRÕNICA PROVISORIA SOBRE UM ASSUNTO QUE AINDA NÃO CHEGOU...

 

Eu ia escrever sobre alguma coisa. Não sei bem o quê, mas, juro por tudo que é sagrado, que eu vinha muito decidido a fazê-lo...

Sentei-me. Abri o arquivo no computador. Ajustei a cadeira, esse gesto solene que antecede todas as indecisões importantes. O cursor piscava, impaciente, como quem diz: “e então?” Não respondi. Nunca respondo bem a quem me cobra clareza logo no início.

Pensei em começar pelo começo, mas logo percebi que o começo não tinha sido avisado. Pensei em um fato do dia. Nenhum se ofereceu. Pensei em mim mesmo. Ideia recorrente, mas perigosa. Pensei em desistir, o que já é, em si, um tema respeitável. Decidi escrever enquanto pensava. Erro clássico, mas produtivo.

A crônica, quando não sabe do que vai falar, fica mais sincera. Ela anda pela casa de pijama, abre a geladeira sem fome, olha pela janela sem procurar nada. Às vezes encontra.  Às vezes não. E segue vivendo.

O problema é que as ideias são tímidas. Se percebem que estamos atentos demais, somem. Gostam de ser flagradas no descuido. Aparecem quando não são chamadas, como aquela lembrança antiga que surge no meio da fila do banco, sem educação alguma. Enquanto isso, o texto vai se formando sozinho, feito fila de formigas. Ninguém sabe quem começou, mas todas seguem.

Pensei em dar um sentido a isso tudo. Pensei em organizar, concluir, amarrar, mas desconfio profundamente das amarrações. Elas dão uma falsa sensação de que a vida fecha. E não fecha. No máximo encosta.

Aliás, há textos que nascem sabendo demais. Já vêm com tese, conclusão e até moral da história. Esses me cansam. Prefiro os textos que gaguejam. Que erram o caminho. Que chegam atrasados ao próprio assunto.

Esta crônica, por exemplo, começou sem tema. Agora, perto do fim, continua sem saber exatamente do que tratou. Talvez tenha falado do ato de escrever. Talvez do vazio. Talvez de nada, que é um assunto vastíssimo. Se eu fosse rigoroso, cortaria metade. Se fosse acadêmico, explicaria tudo. Como não sou nem uma coisa nem outra, deixo assim.

A verdade é que algumas crônicas não querem dizer nada. Querem apenas estar. Fazer companhia. Sentar ao lado do leitor e comentar o silêncio. E se, ao terminar, você tiver a sensação de que não aprendeu coisa alguma, mas também não perdeu tempo, então esta crônica chegou exatamente aonde pretendia. Ou talvez não.

E está tudo bem...

 Edson Pinto

Março, 2026

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom! Uma tempestade de pensamentos profundos em si mesmo! Gostei demais!
Forte abraço do Chico Morais!

Carlos Tanure disse...

Bloqueio do criativo e o estado puro da escrita. Voce conseguiu transformar o nada em algo substancial com a falta de assunto.Voce entregou uma definição sobre a honestidade do escrever. Parabens. Muito bom. Me identifico com isto.

Anônimo disse...

Extremamente interessante, nos faz caminhar prazerosamente na contramão do ditado que orienta: se não sabe o que falar, não fale nada. O nada nos leva por caminhos nunca explorados.