Na
rua de cima, onde o sol batia mais cedo e o tempo andava mais devagar, morava
Pedro, velho amigo de Liberato. Bom de conversa, alma de filósofo, mas de
histórico amoroso confuso. Estava, de novo, solteiro e só.
Era
um bairro relativamente novo, mas já com poeira de velho. Aliás, eles
envelheceram juntos. Ali, tudo o que era simples ganhava um ar de mistério,
como se as galinhas soubessem segredos e os postes cochichassem à noite.
Margarida
morava, também sozinha, na casa contígua à de Pedro. Balzaquiana em boa forma,
era viúva de dois casamentos anteriores. Suspeitava-se, além disso, de ter dado
cabo de um terceiro, que ninguém sabia se existiu, de fato, ou foi só invenção
para dar tema às conversas da tarde. Tinha larga experiência de vida, e
filosofava, como quem já viu demais...
Liberato
foi prosar com Pedro na frente da casa deste. Estavam recostados no portão,
como se recosta no tempo, só vendo o mundo passar. Diga-se, a propósito, que
esse é o melhor jeito de aprender sem professor. Foi ali que Pedro, um tanto
amargo com a vida e tocado pela desafortunada lembrança da mais recente paixão
desfeita, soltou sobre ela:
—
Já foi farinha de primeira. Agora virou farelo. Não dava mais para suportar.
Liberato,
que já colecionava frases como quem coleciona figurinhas, ficou calado,
anotando mentalmente o veneno. Mas, Margarida, vindo da casa do lado e que
fingia escutar sem ouvir, como quem já ouvira aquilo antes, ergueu os olhos por
cima do muro baixo e intercedeu, lançando uma sentença complementar, como quem
crava prego em cruz:
—
Farinha fina também vira farelo, quando esquece do saco de onde veio. No fim
das contas, meus caros, é tudo farinha do mesmo saco.
Liberato
percebeu que Margarida chamava Pedro pelo olhar, como quem continua uma
conversa antiga. Pedro não teve como evitar de encarar Margarida ao ouvir
a sentença, atitude típica dos homens que já foram íntimos demais. Havia
entre Margarida e Pedro certa familiaridade silenciosa que os vizinhos
atribuíam à amizade antiga. Os vizinhos, porém, erram muito...
Liberato,
espantado, sorriu de canto, com aquele constrangimento discreto dos homens que
percebem ter sido incluídos numa conversa sem terem sido
mencionados. Houve até um instante em que Margarida e Liberato evitaram os
olhos um do outro. Foi rápido. Coisa pequena. Mas há pecados que passam
inteiros dentro de um segundo.
Ficaram,
Pedro e Liberato, parados. Até o silêncio pareceu encostar no muro. Foi como se
Deus soprasse a poeira das suas vidas e mostrasse que até o que brilha
pode empanar. Pedro, com sua cara de quem entendeu pela metade, fez que sim com
a cabeça. Liberato olhou para o chão, talvez procurando as migalhas, não sabia
do quê.
Margarida
voltou para dentro de sua casa, sem glória nem pressa, como se não tivesse
acabado de jogar filosofia nas suas cabeças confusas. Pedro remoía seus
envolvimentos, sua condição, seu destino. Liberato, o mesmo...
Convém
ao leitor apressado não se apressar...
Se
o leitor enxergou naquela conversa mais intimidade do que convinha à simples
vizinhança, não discutirei com ele. Tampouco o confirmarei. A vida, como se
sabe, raramente se deixa reduzir a atas e testemunhos, e menos ainda quando se
trata de sentimentos. Esses, sim, são especialistas em esconder o essencial sob
o trivial.
Dirá
alguém que Margarida apenas filosofou. Pode ser. Há quem filosofe por hábito,
como quem varre a calçada ao fim da tarde, mas há também os que, ao filosofar,
deixam escapar, entre uma ideia e outra, restos de memória, pequenas confissões
disfarçadas de sabedoria.
Quanto
a Pedro, não lhe atribuo mais do que lhe cabe: um certo cansaço do mundo e uma
disposição, talvez involuntária, para repetir os próprios enredos. Se isso o liga a Margarida, não sei. Ou melhor: sei tanto
quanto o leitor. E o leitor, diga-se, já sabe o suficiente.
Se
houve entre ela e os dois amigos alguma afinidade além da vizinhança, deixo à
imaginação de cada um, que é, no fundo, a única testemunha verdadeiramente
interessada no caso. Eu, de minha parte, limitei-me a ouvir, ver e, com alguma
suspeita, registrar. Porque, afinal, em matéria de gente, e de farinha, quase
nunca se sabe ao certo o saco de onde veio, nem o destino que lhe aguarda. E
talvez seja melhor assim...
Edson
Pinto
Maio, 2026

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