Hieronymus
Karl Friedrich von Münchhausen nasceu na Alemanha no século XVIII e teve uma
vida que, ao que tudo indica, foi bem menos extraordinária do que aquela que
resolveu contar. Militar e extraordinário contador de histórias, tornou-se
célebre pelos relatos que fazia em rodas de amigos, nos quais a realidade
entrava pela porta e, poucos minutos depois, saía pela janela.
Em
suas aventuras, viajou montado numa bala de canhão, foi à Lua, encontrou um
cervo com uma cerejeira crescendo entre os chifres e chegou a salvar a si
próprio e ao cavalo de um pântano puxando-se pelos cabelos. Arquimedes precisou
de um ponto de apoio para mover o mundo. Ao Barão bastou-lhe a própria
cabeleira. Suas histórias foram transformadas em literatura, principalmente por
Rudolf Erich Raspe, e Münchhausen acabou emprestando seu nome à posteridade
como sinônimo de exagero e mentira deslavada.
Talvez
tenhamos sido injustos com ele. O Barão mentia, é verdade. Entretanto, havia em
suas mentiras um contrato silencioso. Ele sabia que estava mentindo, o ouvinte
também sabia e, provavelmente, o Barão sabia que o ouvinte sabia. Estavam todos
de acordo. A mentira era uma brincadeira. O problema é que os séculos passaram
e a mentira descobriu novas profissões. Uma delas foi a política.
Não
que a política tenha inventado a mentira. Seria atribuir-lhe uma originalidade
que certamente não merece. A mentira provavelmente nasceu poucos minutos depois
da linguagem, quando o primeiro homem descobriu que poderia usar as palavras
não apenas para contar o que acontecera, mas aquilo que lhe convinha que os
outros acreditassem ter acontecido.
Foi
então que o velho Barão ganhou discípulos. A diferença é que Münchhausen queria
arrancar uma gargalhada. Seus sucessores pretendem arrancar um voto. E ganharam
ferramentas que o mestre jamais possuiu. O Barão tinha uma mesa, alguns amigos
e sua imaginação. Seus discípulos têm microfones, televisão e redes sociais.
Uma falsidade pode ser repetida milhares de vezes antes que alguém tenha tempo
de perguntar se é verdadeira. Ainda assim, talvez estejamos sendo injustos
também com as máquinas. Máquinas não acreditam. Nós acreditamos.
E
aí começa a parte menos confortável da história. Nem sempre somos enganados
porque alguém mente muito bem. Às vezes somos enganados porque alguém mente
exatamente aquilo que gostaríamos que fosse verdade. A mentira política conhece
nossos medos, nossas raivas e nossos ressentimentos. Se fala mal de quem já não
apreciamos, melhor ainda. Nossa exigência de provas diminui na mesma proporção
em que aumenta nossa vontade de compartilhar. Uma pessoa repete. Dez
compartilham. Mil comentam. Um milhão acredita. E a mentira ganha aquilo que
nenhuma mentira deveria possuir: uma multidão.
Imagino
então o velho Münchhausen diante de alguns discursos contemporâneos. A
princípio sorriria. Depois ficaria admirado. Por fim, talvez sentisse inveja.
Passara a vida aperfeiçoando a arte do exagero e descobriria, mais de dois
séculos depois, que havia se tornado um amador.
Há,
porém, uma diferença fundamental. Münchhausen precisava tornar suas mentiras
inacreditáveis para que fossem engraçadas. Seus discípulos precisam torná-las
acreditáveis para que sejam úteis. Talvez por isso, depois de conhecer nossos
palanques e redes sociais, o Barão resolvesse regressar ao século XVIII.
Montaria em seu cavalo, ajeitaria o casaco e lançaria um último olhar para nós.
Não sei se estaria decepcionado com os políticos. Suspeito que estaria mais
preocupado conosco. Afinal, durante toda a vida ele contou mentiras monumentais
e teve a delicadeza de não exigir que ninguém acreditasse nelas. Antes de partir, balançaria a cabeça e diria:
—
Meus senhores, também não precisava exagerar tanto.
Edson Pinto
Agosto,
2026

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