Ando
com um problema. Não é grave. Não exige remédio. Não aparece nos exames
laboratoriais nem preocupa os médicos. Pelo contrário. É um daqueles problemas
que costumam atacar justamente quando a gente já deveria estar mais tranquilo. Uma
ideia grudou em mim. Ou melhor, três: O Bem, o Belo e o Justo.
A
famosa tríade de Platão resolveu instalar-se em minha cabeça sem pedir licença
e, desde então, me acompanha para todo lado. Acordo pensando nela. Tomo café
pensando nela. Vou ao computador pensando nela. Vejo televisão pensando nela.
Às vezes chego a suspeitar que Platão alugou um quarto em algum canto da minha
consciência.
Curiosamente,
isso me fez recordar a infância: Quando eu era menino, morávamos em um bairro
ainda cercado por terrenos baldios, capoeiras e pequenos matos que para nós
pareciam florestas amazônicas. Eu e meus amigos passávamos bons momentos explorando
aqueles territórios selvagens, travando batalhas imaginárias, caçando tesouros
inexistentes e fugindo de perigos inventados. Era através do mato que
encurtávamos a ida ao Mineirão ainda em construção na Pampulha dos anos 1960.
Voltávamos
para casa em estado lastimável. As mães examinavam os filhos como fiscais de
alfândega. Havia joelhos ralados, cotovelos esfolados, manchas de barro e,
sobretudo, carrapichos. Carrapichos por toda parte. Para quem não conhece, o
carrapicho é uma pequena invenção botânica destinada a testar a paciência
humana. Ele se agarra à roupa, às meias, aos cadarços e, se tiver oportunidade,
talvez até às ideias. Minha mãe passava longos minutos retirando aqueles
invasores de minhas calças. Eu os arrancava. Ela os arrancava. A roupa voltava
ao normal. Fim do problema. Pelo menos era o que eu pensava.
Décadas
depois descobri que existem carrapichos mais persistentes. São os que se
prendem ao pensamento. Algumas ideias têm exatamente esse comportamento.
Agarram-se à consciência e se recusam a ir embora. Ultimamente, os carrapichos
que me acompanham atendem pelos nomes de Bem, Belo e Justo. E eu me pergunto: O
que é, afinal, o Bem? O que é o Belo? O que é o Justo?
Perguntas
simples de formular e impossíveis de encerrar: Será justo que um homem passe a vida
produzindo riqueza e, ao final do dia, receba apenas uma fração do que ajudou a
criar, enquanto o restante segue outros caminhos? Será belo um edifício moderno
que substitui uma velha praça cheia de árvores? Será bom dizer sempre a
verdade, mesmo quando ela produz sofrimento? Quanto mais penso, menos certezas
encontro. Talvez seja por isso que essas perguntas sobrevivam há mais de dois
mil anos. Elas não foram feitas para serem respondidas de uma vez por todas. Foram
feitas para nos acompanhar.
Na
juventude, eu acreditava mais nos absolutos. Imaginava que a maturidade traria
respostas claras para quase tudo. A experiência, contudo, tratou de corrigir
esse excesso de confiança. A vida mostrou que o mundo raramente entrega o Bem
em estado puro, o Belo sem imperfeições ou o Justo sem alguma sombra de
injustiça. O que encontramos, quase sempre, são aproximações. Pequenas
aproximações. Um pouco de bondade aqui. Um pouco de beleza ali. Um pouco de
justiça acolá. Nada perfeito. Nada definitivo. Talvez seja justamente por isso
que continuemos procurando. Porque, se o ideal fosse plenamente alcançável, a
busca terminaria. E o ser humano parece ter sido construído para caminhar. Não
para chegar.
Penso
que Platão talvez compreendesse isso melhor do que imaginamos. Talvez o Bem, o
Belo e o Justo não sejam destinos. Talvez sejam bússolas. Ninguém alcança o
horizonte, mas ele ajuda o viajante a escolher a direção. Ninguém toca as
estrelas, mas elas orientaram navegadores durante séculos. Da mesma forma,
talvez ninguém alcance plenamente o Bem, o Belo ou o Justo, mas a simples
tentativa de aproximar-se deles já melhora a viagem.
Outro
dia percebi que minha relação com essa velha tríade é parecida com a relação
que eu tinha com os carrapichos da infância. A diferença é que aqueles eu podia
arrancar. Estes, não. E talvez nem queira. Há perguntas que incomodam. Há
perguntas que perturbam. Há perguntas que envelhecem conosco, mas existem
algumas que fazem mais do que isso: Elas nos mantêm vivos.
Por
isso, quando acordo e encontro novamente aqueles três velhos companheiros
agarrados ao pensamento, já não reclamo. Apenas sorrio. Afinal, os carrapichos
da infância ficaram perdidos em alguma calça antiga. Os de Platão continuam
firmemente presos à alma.
Edson Pinto
Junho,
2026

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