19 de jun. de 2026

376) OS CARRAPICHOS DE PLATÃO

 

Ando com um problema. Não é grave. Não exige remédio. Não aparece nos exames laboratoriais nem preocupa os médicos. Pelo contrário. É um daqueles problemas que costumam atacar justamente quando a gente já deveria estar mais tranquilo. Uma ideia grudou em mim. Ou melhor, três: O Bem, o Belo e o Justo.

A famosa tríade de Platão resolveu instalar-se em minha cabeça sem pedir licença e, desde então, me acompanha para todo lado. Acordo pensando nela. Tomo café pensando nela. Vou ao computador pensando nela. Vejo televisão pensando nela. Às vezes chego a suspeitar que Platão alugou um quarto em algum canto da minha consciência.

Curiosamente, isso me fez recordar a infância: Quando eu era menino, morávamos em um bairro ainda cercado por terrenos baldios, capoeiras e pequenos matos que para nós pareciam florestas amazônicas. Eu e meus amigos passávamos bons momentos explorando aqueles territórios selvagens, travando batalhas imaginárias, caçando tesouros inexistentes e fugindo de perigos inventados. Era através do mato que encurtávamos a ida ao Mineirão ainda em construção na Pampulha dos anos 1960.

Voltávamos para casa em estado lastimável. As mães examinavam os filhos como fiscais de alfândega. Havia joelhos ralados, cotovelos esfolados, manchas de barro e, sobretudo, carrapichos. Carrapichos por toda parte. Para quem não conhece, o carrapicho é uma pequena invenção botânica destinada a testar a paciência humana. Ele se agarra à roupa, às meias, aos cadarços e, se tiver oportunidade, talvez até às ideias. Minha mãe passava longos minutos retirando aqueles invasores de minhas calças. Eu os arrancava. Ela os arrancava. A roupa voltava ao normal. Fim do problema. Pelo menos era o que eu pensava.

Décadas depois descobri que existem carrapichos mais persistentes. São os que se prendem ao pensamento. Algumas ideias têm exatamente esse comportamento. Agarram-se à consciência e se recusam a ir embora. Ultimamente, os carrapichos que me acompanham atendem pelos nomes de Bem, Belo e Justo. E eu me pergunto: O que é, afinal, o Bem? O que é o Belo? O que é o Justo?

Perguntas simples de formular e impossíveis de encerrar:  Será justo que um homem passe a vida produzindo riqueza e, ao final do dia, receba apenas uma fração do que ajudou a criar, enquanto o restante segue outros caminhos? Será belo um edifício moderno que substitui uma velha praça cheia de árvores? Será bom dizer sempre a verdade, mesmo quando ela produz sofrimento? Quanto mais penso, menos certezas encontro. Talvez seja por isso que essas perguntas sobrevivam há mais de dois mil anos. Elas não foram feitas para serem respondidas de uma vez por todas. Foram feitas para nos acompanhar.

Na juventude, eu acreditava mais nos absolutos. Imaginava que a maturidade traria respostas claras para quase tudo. A experiência, contudo, tratou de corrigir esse excesso de confiança. A vida mostrou que o mundo raramente entrega o Bem em estado puro, o Belo sem imperfeições ou o Justo sem alguma sombra de injustiça. O que encontramos, quase sempre, são aproximações. Pequenas aproximações. Um pouco de bondade aqui. Um pouco de beleza ali. Um pouco de justiça acolá. Nada perfeito. Nada definitivo. Talvez seja justamente por isso que continuemos procurando. Porque, se o ideal fosse plenamente alcançável, a busca terminaria. E o ser humano parece ter sido construído para caminhar. Não para chegar.

Penso que Platão talvez compreendesse isso melhor do que imaginamos. Talvez o Bem, o Belo e o Justo não sejam destinos. Talvez sejam bússolas. Ninguém alcança o horizonte, mas ele ajuda o viajante a escolher a direção. Ninguém toca as estrelas, mas elas orientaram navegadores durante séculos. Da mesma forma, talvez ninguém alcance plenamente o Bem, o Belo ou o Justo, mas a simples tentativa de aproximar-se deles já melhora a viagem.

Outro dia percebi que minha relação com essa velha tríade é parecida com a relação que eu tinha com os carrapichos da infância. A diferença é que aqueles eu podia arrancar. Estes, não. E talvez nem queira. Há perguntas que incomodam. Há perguntas que perturbam. Há perguntas que envelhecem conosco, mas existem algumas que fazem mais do que isso: Elas nos mantêm vivos.

Por isso, quando acordo e encontro novamente aqueles três velhos companheiros agarrados ao pensamento, já não reclamo. Apenas sorrio. Afinal, os carrapichos da infância ficaram perdidos em alguma calça antiga. Os de Platão continuam firmemente presos à alma.

Edson Pinto

Junho, 2026

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