Minha
irmã Celma jura que a mancha que tem no muro de seu quintal é a face de Jesus, generoso e piedoso iluminando com sorriso suave o seu lar e sua vida. Tanto acredita, que o pintor que repintava o muro teve que deixar
aquela mancha intocada. Jesus continua lá. Isso faz bem à ela...
Descobri,
não sem certo constrangimento, que isso tem nome elegante: “pareidolia”. Nome
grego, desses que chegam com sandálias filosóficas e ar de quem sabe mais do
que diz, mas, no fundo, trata-se de uma velha inclinação nossa, aquela de
enxergar sentido onde há apenas sugestão, de ver rostos onde antes havia apenas
manchas.
Confesso que sempre simpatizei com esse
defeito. Há nele uma espécie de ternura cognitiva. O cérebro, apressado e
solícito, prefere errar por generosidade. Em vez de dizer “não sei”, ele
arrisca um “talvez seja isto”. E, muitas vezes, acerta. Reconhecer um rosto no
meio da multidão, distinguir um amigo à distância, perceber um perigo antes que
ele se anuncie, tudo isso deve algo a esse pequeno exagero da percepção.
O
engano, nesse caso, é produtivo. É um erro com vocação para acerto. Porém, e
aqui entra a vírgula da vida, o mesmo mecanismo que nos salva no cotidiano pode
nos trair no coletivo. Porque a pareidolia não se contenta com paredes e
nuvens. Ela também se aventura pelos campos mais perigosos como a política, a
fé, a vida social. Onde há incerteza, ela trabalha. Onde há ansiedade, ela
prospera.
E
assim, em tempos de confusão, surgem rostos onde há apenas contornos. Líderes
são vistos como salvadores antes de serem compreendidos como homens. Discursos
incompletos são preenchidos com esperanças inteiras. Um gesto vira caráter. Uma
frase vira destino. E o que era apenas um traço ganha a densidade de uma face
confiável. Criamos, com a mesma facilidade com que vemos figuras nas nuvens, os
nossos pequenos, e às vezes grandes, messias...
Não
se trata aqui de acusar a ingenuidade alheia. Seria injusto. Trata-se de
reconhecer em nós mesmos essa pressa de significado. Esse desejo quase infantil
de que alguém, enfim, dê forma ao caos. A pareidolia, quando sobe ao palanque,
troca a inocência pela convicção, e aí já não é apenas percepção, é crença. E
crenças, como sabemos, têm pernas longas.
Há,
no entanto, uma defesa possível, discreta, quase silenciosa. Não consiste em
abandonar a pareidolia, o que seria tão impossível quanto deixar de sonhar.
Consiste, isto sim, em educá-la. Em saber que o rosto visto pode não estar lá.
Em suspeitar, com elegância, das imagens que nos parecem perfeitas demais, porque
o mesmo cérebro que inventa também pode revisar.
Talvez
o verdadeiro aprendizado humano esteja nesse equilíbrio delicado, ou seja, permitir-se ver antes de saber, mas aprender a
duvidar depois de ver. Um passo à frente da intuição, outro ao lado da razão.
Nem cego à imaginação, nem refém dela.
No
fim das contas, a pareidolia nos ensina algo que raramente admitimos, o fato de
não vemos o mundo como ele é. Vemo-lo
como conseguimos e, às vezes, como desejamos. Entre o que está e o que pensamos
ver, constrói-se silenciosamente a nossa história.
Edson Pinto
Junho, 2026

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