Outro
dia, num café, um amigo indignado me perguntou por que tantos políticos acabam
envolvidos em escândalos. A pergunta não era nova. Nova era apenas a lista dos
acusados. Mudam-se os nomes, mudam-se os partidos, mudam-se os discursos, mas
os noticiários continuam frequentando os mesmos pecados com uma fidelidade que
faria inveja a muitos casamentos.
Meu
amigo, imagino, queria uma explicação
econômica, sociológica ou psicológica. Eu poderia ter recorrido aos clássicos.
Poderia citar as estruturas de poder, os incentivos perversos, as fragilidades
institucionais ou a insuficiência dos mecanismos de controle. Preferi, contudo,
recorrer a uma metáfora.
—
Imagine um homem entrando num lupanário.
Ele
arregalou os olhos.
—
Que comparação é essa?
—
Tenha paciência! Imagine que o sujeito entre naquele ambiente por livre e
espontânea vontade. Ninguém o obrigou. Ninguém o empurrou porta adentro. Foi
porque quis.
—
E daí?
—
Daí que seria estranho vê-lo sair de lá, algumas horas depois, alegando ter
sido surpreendido pelas tentações que encontrou.
Meu
amigo riu.
A
verdade é que certas atividades humanas possuem uma concentração extraordinária
de tentações. Não obrigam ninguém a pecar. Apenas colocam o indivíduo diante de
oportunidades constantes para fazê-lo. A política é uma delas. Não digo isso
para condenar a política. Pelo contrário. Ela é necessária. Sem ela, restariam
apenas a força, o caos ou a tirania. O problema não é a política. O problema é
o ser humano.
Desde
os tempos mais antigos, o homem demonstra uma habilidade impressionante para
desejar justamente aquilo que não deveria desejar. Eva possuía todo o jardim,
mas fixou os olhos no único fruto proibido. Esaú trocou uma herança por um
prato de lentilhas. Judas vendeu sua lealdade por algumas moedas de prata. Até
Cristo, segundo os Evangelhos, precisou enfrentar tentações no deserto. Se nem
o paraíso escapou delas, por que escapariam os poderes da República?
Os
gregos também conheciam o problema. Conta Platão a história do pastor Giges,
que encontrou um anel capaz de torná-lo invisível. Convencido de que jamais
seria descoberto, usou o poder para conquistar riqueza, influência e o trono. A
pergunta de Platão atravessou os séculos. O que faria um homem se tivesse
certeza da impunidade? A resposta, infelizmente, continua sendo escrita
diariamente nos jornais. Mudam as manchetes. O enredo permanece
surpreendentemente fiel ao original.
A
política possui algo do anel de Giges. Nem sempre torna invisível quem exerce o
poder, mas frequentemente cria a ilusão de invisibilidade. O sujeito começa
honesto. Depois aceita um pequeno favor. Mais tarde faz uma concessão
insignificante. Em seguida fecha os olhos para um detalhe administrativo. Quando
percebe, já está negociando princípios como quem troca figurinhas.
A
corrupção raramente chega montada num cavalo negro, com chifres e enxofre. Normalmente
ela chega sorrindo. Traz justificativas. Apresenta planilhas, projetos de leis
sob encomenda. Promete vantagens. Oferece exceções. Veste gravata. Em muitos
casos, fala em nome do interesse público.
Há
quem imagine que o poder corrompe. Não tenho tanta certeza. Talvez o poder
revele. Talvez funcione como aquelas soluções químicas usadas pelos fotógrafos
antigos. A imagem já estava ali. O líquido apenas a tornava visível.
O
homem vaidoso torna-se mais vaidoso. O ambicioso torna-se mais ambicioso. O
honesto, quando consegue resistir, torna-se exemplo. E é justamente por isso
que os homens públicos verdadeiramente íntegros despertam tanta admiração. Não
porque sejam perfeitos, mas porque caminham diariamente por um terreno minado
sem perder a direção. Virtude em ambiente fácil tem pouco mérito. O verdadeiro
teste acontece quando a tentação está ao alcance da mão.
Meu
amigo permaneceu alguns instantes em silêncio. Depois perguntou:
—
Então você acha que todo político é corrupto?
—
Não. Da mesma forma que nem todo homem que entra num lupanário necessariamente
se entrega aos seus encantos. A diferença é que, em ambos os casos, ninguém
pode alegar desconhecimento dos riscos.
Encerramos
o café e passamos a outro assunto, mas aquela pergunta continuou comigo. Talvez
a questão central não seja por que tantos cedem à tentação, e sim outra, ainda
mais importante.
Como
alguns conseguem resistir?
Edson Pinto
Junho,
2026

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