Eu,
da minha janela, fito o Rio Verde que corre ali adiante. Não me perguntem por
que sempre acabo diante dele, como se a água tivesse mais respostas que os
homens. Talvez seja porque o rio, com sua pressa disfarçada de calma, me
empresta a metáfora de meus próprios pensamentos: sempre a correr, mas fingindo
que repousam. Foi assim que percebi os meus, e, ouso acreditar, também os seus: "olhos longes".
Não
são olhos míopes, tampouco cegos. São olhos que enxergam, mas não se contentam
em ver o que está posto. Enquanto a cabeça geme de memórias e o café esfria na
xícara, eles se projetam para o ontem e para o amanhã, como se o presente fosse
apenas uma escada entre dois andares mais interessantes.
De
minha parte, confesso: tenho-os. Os “olhos
longes” são meus companheiros. Não raro, em vez de água, vejo os meninos que
fomos, correndo descalços à beira do tempo. Outras vezes, olho o mesmo rio e,
não sei como, já avisto meus netos correndo adiante de mim, navegando em barcos de papel,
que serão absorvidos pela primeira chuva.
E
assim vou, com os “olhos longes”: ora ancorados na infância, ora vagueando
pelo futuro, e quase nunca assentados no agora, como seria mais prudente. A
prudência, aliás, é coisa que se perde justamente nos “olhos longes”. Eles não
obedecem a convenções, preferem vagar.
Machado
de Assis, se aqui estivesse, riria de minha fraqueza. Diria que, se me faltam
respostas no presente, invento-as no passado ou no futuro. E não estaria
errado. Eu, sem lhe pedir licença, retruco: se é verdade que os “olhos longes”
nos afastam da realidade, também é verdade que nos salvam dela.
Se
o amigo me perguntar de onde tirei esses tais “olhos longes”, direi que não os
inventei: apenas os encontrei em mim mesmo e, quem sabe, também nos outros. São
herança da literatura e da vida. Drummond os usou para enxergar Itabira quando
já estava longe de Itabira; Cecília, para ver a claridade que não era do dia,
mas da eternidade; e Machado, sempre desconfiado, talvez preferisse chamá-los de olhos
vagos, talvez temendo que neles se escondesse um segredo de amor ou de
filosofia.
Penso afinal concluir, caros amigos, que “olhos longes” sejam como rios: às vezes, não se sabe exatamente onde começam nem onde acabam.
Apenas seguem, carregando consigo o passado, o futuro e esse presente que, de
tão breve, já se despede no instante em que piscamos.
Edson Pinto
Julho, 2026
Nota
do autor:
Olhos Longes, Olhos Lointains: Há palavras que viajam mais do que a
gente. O longe, por exemplo, começou discreto, um simples advérbio latino, longe,
significando “à distância”. Servia para
dizer que a coisa não estava aqui, mas acolá. Nada demais, até que os poetas
resolveram dar-lhe uma segunda vida. De advérbio obediente, virou substantivo
rebelde: “os longes”. Pronto, em vez de uma única distância, surgiram
horizontes múltiplos, miragens infinitas. Não fomos só nós, lusófonos, que
tivemos esse capricho. Do outro lado do Atlântico, os franceses já falavam em “les
lointains”. Victor Hugo suspirava nos lointains bleus du rêve, Verlaine deixava
que os lointains se desfizessem em música, e Baudelaire via perfumes e sons
confundirem-se “de loin”. Tudo muito parisiense, nebuloso e elegante. E cá
deste lado, Olavo Bilac correu “países longes”, Cecília Meireles pediu aos
cavalos do vento que a levassem a “longes verdes”. Pessoa escutou também “os
longes” chamando por ele. Não era plágio, mas ressonância. O simbolismo francês
sussurrava em francês, e nós respondíamos em português. E eis que surge a
expressão “olhos longes”. Não é mero deslize gramatical, mas um atestado
poético: olhos que não estão aqui, mas espalhados em mil horizontes. Olhos que
contemplam lembranças, saudades, esperanças, tudo ao mesmo tempo. Singular
seria pouco; a alma precisa de plural. Dirá
o gramático: “Mas por que não ‘olhos longe’?”. Ao que responde o poeta: “Porque
só os ‘olhos longes’ conseguem olhar o que não existe ainda, e ainda assim
enxergar.” E talvez seja isso: quando dizemos “olhos longes”, estamos falando
em português com um sotaque francês, ou em francês com a melancolia mineira. No
fundo, estamos nomeando um estado de espírito: aquele em que o olhar atravessa
fronteiras e se perde em horizontes que ninguém mais vê.

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