4 de set. de 2026

387) AS MULHERES DEIXARAM ATENAS?

 

Outro dia, ouvi novamente a velha canção de Chico Buarque e Augusto Boal, Mulheres de Atenas. Bastaram os primeiros versos para que voltassem à memória aquelas mulheres  habitantes de uma cidade celebrada como berço da democracia, embora essa democracia tivesse o curioso hábito de deixar as mulheres do lado de fora.

Na Atenas antiga, a mulher livre podia ser respeitada dentro de casa e praticamente inexistir fora dela. Não votava, não participava das decisões políticas e vivia submetida a uma ordem construída essencialmente pelos homens. Atenas inventou a democracia. Apenas esqueceu de convidar as mulheres para a inauguração.

Em 1976, Chico e Boal recuperaram aquela imagem. A canção recomendava, ironicamente, que as mulheres se mirassem no exemplo das atenienses, que viviam para os maridos, esperavam, sofriam e se submetiam. Ao recomendar o exemplo, os autores revelavam o absurdo dele. Cinquenta anos se passaram. Onde estão hoje as mulheres de Atenas?

Procurei-as nas universidades e encontrei professoras e pesquisadoras. Nos hospitais, médicas e cirurgiãs. Nos tribunais, advogadas, juízas e ministras. Nas empresas, executivas, engenheiras e empresárias. Até na política as encontrei, embora ainda em número menor do que seria razoável. Talvez, pensei, finalmente tenham deixado Atenas.

Mas bastou olhar um pouco melhor. Encontrei uma mulher saindo do trabalho e telefonando para saber quem buscaria o filho na escola. Outra encerrava uma reunião pensando no jantar. Uma terceira, depois de uma jornada inteira fora de casa, começava outra dentro dela. O marido ajudava. A palavra me incomodou.

Ajudava?

Quem ajuda participa de uma responsabilidade que, aparentemente, pertence a outra pessoa. Talvez Atenas estivesse escondida justamente ali, dentro do verbo. É evidente que o caminho percorrido foi enorme. As mulheres conquistaram autonomia, direitos e espaços que durante séculos lhes foram negados. Seria absurdo ignorar essa transformação. O problema é que mudamos as leis mais depressa do que mudamos os costumes. E os costumes mais depressa do que certas expectativas que carregamos quase sem perceber.

Uma menina hoje pode sonhar em ser presidente, cientista, astronauta ou empresária. Isso é extraordinário. Restam perguntas bem menos extraordinárias: Quando ela voltar para casa, quem lavará a louça? As mulheres deixaram Atenas? Em grande medida, sim. Só não tenho certeza de que Atenas tenha deixado completamente as mulheres. Ou, pensando melhor, talvez Atenas ainda não tenha deixado completamente nenhum humano, porque certas cidades desaparecem dos mapas muito antes de desaparecerem dos costumes.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026