Outro
dia, ouvi novamente a velha canção de Chico Buarque e Augusto Boal, Mulheres de
Atenas. Bastaram os primeiros versos para que voltassem à memória aquelas
mulheres habitantes de uma cidade
celebrada como berço da democracia, embora essa democracia tivesse o curioso
hábito de deixar as mulheres do lado de fora.
Na
Atenas antiga, a mulher livre podia ser respeitada dentro de casa e
praticamente inexistir fora dela. Não votava, não participava das decisões
políticas e vivia submetida a uma ordem construída essencialmente pelos homens.
Atenas inventou a democracia. Apenas esqueceu de convidar as mulheres para a
inauguração.
Em
1976, Chico e Boal recuperaram aquela imagem. A canção recomendava,
ironicamente, que as mulheres se mirassem no exemplo das atenienses, que viviam
para os maridos, esperavam, sofriam e se submetiam. Ao recomendar o exemplo, os
autores revelavam o absurdo dele. Cinquenta anos se passaram. Onde estão hoje
as mulheres de Atenas?
Procurei-as
nas universidades e encontrei professoras e pesquisadoras. Nos hospitais,
médicas e cirurgiãs. Nos tribunais, advogadas, juízas e ministras. Nas
empresas, executivas, engenheiras e empresárias. Até na política as encontrei,
embora ainda em número menor do que seria razoável. Talvez, pensei, finalmente
tenham deixado Atenas.
Mas
bastou olhar um pouco melhor. Encontrei uma mulher saindo do trabalho e
telefonando para saber quem buscaria o filho na escola. Outra encerrava uma
reunião pensando no jantar. Uma terceira, depois de uma jornada inteira fora de
casa, começava outra dentro dela. O marido ajudava. A palavra me incomodou.
Ajudava?
Quem
ajuda participa de uma responsabilidade que, aparentemente, pertence a outra
pessoa. Talvez Atenas estivesse escondida justamente ali, dentro do verbo. É
evidente que o caminho percorrido foi enorme. As mulheres conquistaram
autonomia, direitos e espaços que durante séculos lhes foram negados. Seria
absurdo ignorar essa transformação. O problema é que mudamos as leis mais
depressa do que mudamos os costumes. E os costumes mais depressa do que certas
expectativas que carregamos quase sem perceber.
Uma
menina hoje pode sonhar em ser presidente, cientista, astronauta ou empresária.
Isso é extraordinário. Restam perguntas bem menos extraordinárias: Quando ela
voltar para casa, quem lavará a louça? As mulheres deixaram Atenas? Em grande
medida, sim. Só não tenho certeza de que Atenas tenha deixado completamente as
mulheres. Ou, pensando melhor, talvez Atenas ainda não tenha deixado
completamente nenhum humano, porque certas cidades desaparecem dos mapas muito
antes de desaparecerem dos costumes.
Edson Pinto
Setembro,
2026

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