8 de mai. de 2025

327) O GALO DE AÇO E AS PROMESSAS DO AMOR



 

- Capítulo I -

 

O GALO DE AÇO E AS PROMESSAS DO AMOR


 Não é de hoje que ouço falar que o amor se parece a uma espécie de jogo de azar, desses em que se aposta o coração e se ganha - quando muito - um aperto no estômago...

Ainda assim, e talvez justamente por isso, dei-me ao luxo de me imaginar em peregrinação até a esplanada da Arena MRV, onde repousa, na minha Belo Horizonte da juventude dourada, em aço inoxidável e brilho olímpico, o Galo da Massa, símbolo sagrado do meu Clube Atlético Mineiro.

A escultura é descomunal. Soberba. Quase altiva. Mais de 8 metros de altura e uma massa bruta de 13 toneladas, por sinal o mesmo número que, no jogo do bicho, corresponde ao galo. Representa, dizem, não apenas um clube, mas uma paixão.

Ora, se há paixão que não se esgota com as derrotas, é a do torcedor; e se há fé que sobrevive ao improvável, é a do apaixonado.

O Galo, pois, é símbolo de ambos - e, talvez por isso, começaram a atribuir-lhe poderes que nem mesmo aos santos de altares mais consagrados as pessoas verdadeiramente apaixonadas ousariam reivindicar. Galo, um novo santo milagreiro? Por que não?

A história corre com a pressa e o entusiasmo das notícias bombásticas: já dizem os fervorosos que quem se aproxima do Galo com intenções amorosas sai de lá agraciado. Ou com um novo amor, ou com a consolidação do amor que já possui, ou já possuiu ou, ao menos, com a ilusão suficiente para tentar de novo.

Fui ver...

Não porque creia - já acreditei em amores eternos - e hoje coleciono cartas de fim de relacionamento escritas com a tinta poética do ressentimento. Fui, imaginariamente, porque havia tempo e melancolia de sobra numa tarde qualquer de um domingo trivial.

Lá estava ele, o Galo, reluzente ao sol como uma verdade que se recusa a ser discutida.

Aproximei-me com o respeito que se deve a tudo que é grande, imóvel e silencioso. Fiz uma súplica discreta, quase cínica. Pedi, se não amor, ao menos um motivo para continuar fingindo que ele existe.

O Galo, como era de esperar, nada disse. Nem um cacarejo simbólico. Mas juro - e não sou homem de muitos juramentos - que senti alguma coisa. Uma leve tontura. Um desconforto interior.

Talvez fosse fome. Pode ter sido esperança. O amor, afinal, muitas vezes se disfarça de ambas as coisas.

Voltei para casa sem companhia, é verdade. Mas com a impressão de ter sido ouvido por um monumento.

Dentro desse colosso de aço há de ter um coração de verdade, pensei, virei para o canto e dormi...

 

- Capítulo II -

EM QUE RECEBO UMA RESPOSTA, OU ALGO PARECIDO...

 

No dia seguinte à minha visita ao Galo da Esplanada - de onde, repito, voltei sem milagres nem companhia, mas com certa dignidade intacta - ocorreu-me uma ideia estapafúrdia:

“E se o Galo monumental e milagreiro me houvesse, de fato, escutado”?

Não me refiro à escuta dos ouvidos humanos que tudo filtram pela conveniência, mas àquela escuta das coisas que não falam: os cães, as paredes, os olhos que se desviam antes do beijo.

Há silêncio mais eloquente do que certas declarações, e talvez o Galo, com seu aço brilhante e altivo, houvesse me respondido com a melhor resposta de todas: a dúvida.

“Ora, não é o amor também uma espécie de dúvida bem-vestida, elegante”?

Decidi então observar os sinais. Não os divinos - que esses sempre aparecem atrasados ou metafóricos demais para minha paciência -, mas os humanos: uma mensagem inesperada, um reencontro acidental, um café oferecido com hesitação...

Foi aí que, ao sair da padaria, tropecei (não metaforicamente, desta vez) em Maria.

Maria!

Nome de epopeia. Tínhamos tido uma história mal pontuada, cheia de vírgulas em lugares errados e pontos finais mal colocados. Nosso amor tinha sido como aqueles contos de jornal que ninguém termina, mas que deixam uma ideia agradável flutuando na cabeça.

Ela sorriu.

Eu também.

Conversamos como quem segura um livro antigo com mãos protegidas por luvas de  pelica, com todo o zelo necessário... Trocamos banalidades com o cuidado de quem sabe que qualquer frase pode ser uma armadilha ou uma ponte.

E ali, entre um “você está bem” e um “vamos tomar um café qualquer dia desses?”, senti, pela segunda vez, aquele desconforto interno, aquela tontura leve semelhante à de quando olhei o Galo na minha primeira visita.

Será que o Galo da Massa havia me empurrado em sua sabedoria futebolística-sentimental para esse reencontro?

Talvez..

Ou talvez o amor, esse trapaceiro astuto, tenha apenas aproveitado a ocasião para pregar mais uma peça no velho cético aqui. Não sei.. Mas saí andando com o coração um pouco menos cheio de sarcasmo

E isso, convenhamos, já é quase amar.

 

- Capítulo III -

EM QUE TENTO ESCAPAR DE MARIA, E DOU DE CARA COMIGO

 

Maria...

Nunca duvide de uma mulher que tenha Maria no nome!

Não pelos episódios bíblicos ou pelas ladainhas cantadas aos domingos. Não sou homem de beatas nem de teologias, mas porque Maria é um nome que carrega dentro dele a ideia do inevitável.

Todo homem que diz que “Maria foi só mais uma” está, no fundo, tentando escapar do fato de que foi ela que ficou, mesmo depois de ir.

Depois do reencontro fortuito em frente à padaria, achei por bem fazer o que todo homem sensato faria diante de uma estranha, mas compreensível paixão. Por sinal  ainda quente:

Fugir...

Passei a evitar o mercado de bairro, troquei de barbearia, alterei meu trajeto matinal como quem altera o rumo da própria vida com passos pequenos e indignos.

Maria, no entanto, reaparecia.

Não fisicamente - o que seria ao menos dramático - mas na forma mais perversa possível: no pensamento.

Eu lia um livro e lá estava ela, entre uma vírgula e um suspiro.

Bebia café e o gosto parecia ecoar aquele silêncio nosso depois das brigas. Silêncio que não era paz, mas um tipo de espera.

“Foi o Galo”, pensei...

Não o de Maria Antonieta, mas o da Esplanada.

Esse Galo de aço inoxidável que agora imagino rindo com sua crista e rabo reluzentes da minha tentativa de racionalizar o irracional. Talvez seja um novo tipo de divindade: uma obra de arte que concede castigos disfarçados de possibilidades.

E Maria era a maior de todas.

Cheguei a escrever-lhe uma carta. Não enviei. O ato de escrever já me pareceu exposição suficiente.

Na carta, eu pedia desculpas por tudo e por nada. Por não ter ficado, por ter ficado demais, por rir no momento errado e calar quando ela esperava por  palavras. Enfim, pelas pequenas traições que o cotidiano impõe e o orgulho sustenta.

Dobrei o papel, guardei na gaveta da cômoda que já foi nossa.

E, naquela noite, dormi como se ela ainda estivesse do outro lado da cama – de costas, como sempre dormia depois das discussões ou mesmo depois das paixões...

O amor, pensei antes de adormecer, é esse fantasma doméstico que acende luzes depois que saímos do cômodo como a dizer-nos: “eu estava vendo tudo...”

E Maria, esse nome que não consigo apagar do papel, talvez seja só isso: a lembrança persistente de um silêncio que um dia, quem sabe, eu teria conseguido entender...

 

 - Capítulo IV -

EM QUE VOLTO AO GALO, REENCONTRO MARIA E DOU FIM À MINHA HUMANIDADE

 

Voltei ao Galo.

Não por fé - essa já me abandonou com a pressa circunstancial a exigir-me mais mudanças -, mas por exaustão. Há um cansaço que não é físico, nem da alma, mas do personagem. E eu, que fui amante, covarde, sentimental e irônico, estava farto de mim.

Era fim de tarde. A Esplanada vazia. O sol batia no aço inoxidável do Galo como se Deus, cansado de dar sinais sutis, decidisse usar um holofote.

E lá estava ele, o Galo. Intocado pelo tempo, como os sentimentos que nunca chegaram a ser ditos.

Fiquei alguns minutos calado, como quem espera julgamento.

Foi então que Maria surgiu.

Não como um milagre, mas como um relógio atrasado que, de vez em quando, acerta a hora.

Estava diferente - ou talvez fosse eu, com os olhos finalmente desembaçados pelo tempo. Trocamos um olhar que dispensou palavras.

Há silêncios que encerram bibliotecas...

“Então voltou”, ela disse, como quem fala com um fantasma.

“Voltei”, respondi, embora não soubesse exatamente de onde.

Caminhamos lado a lado pela esplanada, sem mãos dadas nem promessas. Apenas a presença mútua, que é o mais próximo que os desencantados chegam da eternidade.

Paramos diante do Galo. O céu de Belo Horizonte, sempre indeciso, nos oferecia uma meia-luz como se hesitasse entre o dia e a noite. Assim como nós entre a lembrança e o fim.

“Está bonito, não?”, disse ela.

“O Galo?”, perguntei.

“Não. O silêncio, ela sussurrou.”

E foi nesse instante, exato, imóvel, que compreendi: minha existência humana havia terminado. Não no sentido clínico - continuo respirando, pagando boletos, respondendo mensagens que não me interessam -, mas no essencial.

A parte de mim que esperava, desejava, se contorcia por dentro, essa foi sepultada ali, aos pés do Galo de aço, diante de Maria e do eco do que não dissemos.

Não chorei.

Não beijei.

Não pedi que ela ficasse, pois sabia ser impossível...

Fomos, cada um por um lado, como quem finalmente entende o fim de um livro sem se sentir com a obrigação de relê-lo...

O amor, tal qual a humanidade, é um delírio breve.

E eu, livre dele, segui meu caminho.

Inoxidável, como o Galo.

Inútil, como todos os deuses sinceros, pois nos tiram a ilusão de sucesso na reconfortante busca por explicação e sentido existencial...

 

Edson Pinto

Maio’ 2025

2 de mai. de 2025

326) O DIA EM QUE PENSEI QUE FOSSE VIEIRA OU MOISÉS...


Há dias em que a gente acorda sem saber muito bem o porquê. Acorda só porque o corpo ainda tem o velho e arraigado hábito de fazê-lo. Foi assim, comigo, ontem. Levantei, tomei café e queimei a ponta da língua.  Como sempre, sentei-me na varanda e pensei:

"Será que hoje algo acontece?"

E aconteceu. Mas não da forma que muda a vida - foi mais aquele estalo de Vieira -, sabe? Aquele clarão na cabeça acompanhado de um som tipo o “plim-plim” da Globo que parece dizer que você descobriu a resposta da vida, do universo e tudo mais. No meu caso, veio assim:

“E se eu adotasse um papagaio?”

Sim, um papagaio... Nem sei por quê. Talvez para ter com quem discutir o cotidiano, a vida ou a política, já que desde que a Jane se foi, a casa foi tomada por um silêncio ensurdecedor  (desculpem-me o oxímoro)... Fiquei ruminando a ideia, quando veio uma epifania, daquelas que não fazem barulho, mas mexem lá dentro. Um pensamento manso, quase poético:

“Você não quer um papagaio. Você quer é conversar, resenhar sem compromisso...”

A verdade é que, desde que a vida me aprontou, os dias ficaram tão parecidos que já nem sei em qual deles estou. Segunda ou sábado, tanto faz. E naquele instante, entendi que não era o papagaio. Era a falta de barulho. Falta de alguém para dizer “Bom dia”, sem ironia. ”Desce para o café”, com tom zeloso, “Eu te amo”, com sorriso sincero e franco...

A partir daí que o negócio pegou fogo: Pus-me a navegar no infinito mar do Youtube com o propósito de encontrar algo que prestasse, quando apareceu o vídeo de um pastor de almas dizendo:

“Deus tem um propósito pra você!”

Foi como a sarça ardente de Moisés, só que de paletó bem cortado, microfone em punho e um jeitão do Dick Vigarista da Hanna Barbera... Meu coração, carente e crédulo, acreditou:

“É isso, tenho um chamado!”

Levantei-me com firmeza, fui até o espelho e me olhei como quem encara o destino. Fiquei em dúvida se tomava banho ou só trocava de camisa. Resolvi lavar o rosto. Foi o bastante. No fim do dia parecia tudo muito bem esclarecido:

Não adotei o papagaio. Não virei missionário, nem descobri meu propósito transcendental. Mas, sentei-me, escrevi esta crônica e ri sozinho, porque talvez - só mesmo talvez - o estalo de Vieira, a epifania e a sarça ardente sejam só maneiras de o universo lembrar que ainda tem vida aqui dentro da gente.

E, não raro, isso já é suficiente...

Edson Pinto

Maio’ 2025

30 de abr. de 2025

325) O ESTEREÓTIPO E A ARTE DE NÃO PENSAR


                                            

Tem gente que acorda, toma café e sai distribuindo estereótipos como quem oferece santinhos em tempos de campanha eleitoral. É automático, quase inconsciente: O mineiro é desconfiado, quieto e se entope de pão de queijo. O baiano é preguiçoso, o paulista vive com pressa, todo brasileiro dança samba e joga futebol, o político é corrupto, todo russo se afoga em vodca, o adolescente é rebelde, o pobre é preguiçoso, o rico é arrogante. Cada grupo, um rótulo; cada pessoa uma caricatura, uma visão simplificada e simplória...

O estereótipo, intelectualmente falando, é uma espécie de atalho mental, uma forma cômoda de não precisar pensar. Afinal, por que tentar entender alguém se é mais fácil encaixá-lo num molde pronto, não é? Dá menos trabalho. E, para muitos, isso já basta. Mas esse atalho tem pedágio alto: o da ignorância.

No cotidiano, o estereótipo veste argumentos como se fossem ternos bem cortados, costurados e caprichosamente bem passados.. Está nas conversas de bares, nos debates políticos rasos, nas redes sociais onde todo mundo tem opinião sobre tudo e todos, mas pouca escuta para assimilar as eventuais contra argumentações. Serve para vencer uma discussão sem precisar ter razão, só impacto. É o famoso “todo político rouba” que silencia o debate sobre ética; o “isso é coisa de fascista” que encerra qualquer tentativa de empatia na seara política.

E o pior: muitas vezes quem usa dos estereótipos na argumentação nem se dá conta disso. Acha que está sendo realista, direto, até sagaz. Não percebe que repete falas herdadas, ideias empacotadas que nunca foram questionadas. O estereótipo é a ferramenta do ignorante. Trabalha com ela para atingir seu objetivo argumentativo. Porque, ignorância, no fim das contas, é só a ausência de olhar mais profundo, de ferramenta mais adequada...

Desconstruir estereótipos dá trabalho. Exige curiosidade, disposição para o incômodo, vontade de ouvir histórias que fogem do script. Mas é nesse esforço que mora a empatia.

E quem sabe, um pouco de sabedoria.

Edson Pinto

Abril, 2025

6 de abr. de 2025

324) O ESTRANHO SONHO DE ÉRICO


Érico sonhou que fora preso. Não sabia ao certo se seria por semanas, meses ou anos. A cela era fria, úmida, como se chorasse sua própria existência. Havia uma cama de solteiro com um colchão ralo, um vaso sanitário manchado pelo tempo, e uma estante de ferro com apenas um objeto: um volume grosso, encadernado em couro gasto, com a letra "E" gravada em dourado na lombada.

Era um volume de uma conhecida Enciclopédia, letra E, apenas isso. Nenhum outro livro, nenhum outro escape. No início, Érico ignorou o tomo. Passava os dias deitado, os olhos fixos nas rachaduras do teto, ouvindo os ruídos longínquos do exílio como uma trilha sonora de condenação.

Mas ao passar os dias, a curiosidade o venceu. Abriu o livro como quem abre uma porta secreta.

"Ebulição", dizia o primeiro verbete. Ele leu, releu, aprendeu tudo sobre o ponto em que a matéria líquida se transforma em gás. Pensou no corpo fervendo de raiva, na mente em ebulição diante das injustiças e desagradáveis momentos da vida...

Depois veio "Eclipse" e ele se lembrou da última vez que viu o céu. Leu sobre a dança dos astros e sombras. Imaginou-se como sendo a Lua ocultando a luz do próprio ser apenas à espera de se mostrar de novo.

Havia também "Epifania", e foi ali que ele teve a sua: aquele volume seria sua liberdade. Não a liberdade física, mas uma fuga mais sutil e talvez mais poderosa.

Por semanas, ele devorou tudo e a fundo de cada verbete. "Entropia", "Estalactite", "Esfinge", "Exílio" - palavra que doía como ferida aberta. Com cada nova entrada, Érico via o mundo se expandir dentro das paredes cinzentas. Aprendia termos científicos, mitológicos, filosóficos. Começou a criar histórias com as palavras, a imaginar mundos inteiros a partir de "Eneida" e "Etéreo".

Logo, os guardas começaram a notar algo estranho. O preso da cela 22 falava de forma diferente, usava palavras incomuns, fazia perguntas estranhas: "Você já ouviu falar em ergástulo?", "Sabia que espermatófitas são plantas com sementes?"

Quando, alguns anos depois, Érico foi finalmente libertado - erro judicial, disseram -, ele saiu com um caderno cheio de anotações e ideias, todas começando com a mesma letra. E, ao ser abordado por um amigo curioso por essa fixação com o “E”, ele respondeu:

—  A prisão me deu a oportunidade de saber tudo sobre mim, até mesmo sobre como ser poderoso comigo mesmo e para sempre ...

Edson Pinto

5/4/2025


12 de nov. de 2020

323) EMPATIA, O QUE SERÁ?

 

Sabe aquela pessoa que, no Museu do Louvre, não consegue ter nenhuma manifestação emocional diante da Monalisa de Leonardo da Vinci?  No Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madri, diante do Guernica de Pablo Picasso, comporta-se em absoluto alheamento? Ou, na Capela Sistina, em Roma, dá mais importância à dor de pescoço que teve por ter de olhar para cima para admirar o magnifico afresco de Michelangelo, do que ao que a obra representa?

Pode ser ainda aquela outra que mesmo defrontando-se com a morte de milhares de pessoas por uma epidemia devastadora são incapazes de se colocar no lugar dos que sofrem pela perda de entes queridos, pois acham que a assim mesmo... Que todos nós um dia vamos morrer, e coisas do gênero?

Sim, elas existem! E o que lhes unem numa categoria toda à parte é o que comumente chamamos de pessoas que não são capazes de ter e demonstrar empatia. Para que não fiquem dúvidas, vai aqui a definição do dicionário Aurélio:

“Empatia é a capacidade psicológica para se identificar com o eu do outro, conseguindo sentir o mesmo que este nas situações e circunstâncias por esse outro vivenciadas. Ato de se colocar no lugar do outro”

Porém, é aqui que o diabo mora...

Como alguém que se propõe a liderar um grupo social, pequeno ou grande. Uma família; uma associação; uma entidade pública ou privada ou até mesmo uma enorme nação com milhões de habitantes, pode fazê-lo desprovido dessa capacidade psicológica tão básica?

Como pode um líder ter influência sobre seus liderados se não for capaz de ter empatia para com eles? Há hipóteses para isso: a credulidade inocente de pessoas que deixam que outros moldem o seu comportamento, as suas ideias e opiniões sem um mínimo de questionamento. Servem como massa de manobra para os falsos líderes. Outra hipótese é a de que tais liderados são farinha do mesmo saco, desprovidos também de empatia...

Se acreditamos que o homem é por essência bom, mais cedo ou mais tarde, a sociedade se dará conta de que líderes sem empatia devem ser descartados. Mas, se associarmos à vertente que propugna o homem como sendo mau, por natureza, aí só restará à sociedade a esperança de que esse grupo de sem empatia seja pequeno ao ponto de não ter votos suficientes para eleger falsos líderes...

Edson Pinto

Novembro, 2020


11 de set. de 2020

322) POR QUE NÃO PARAS RELÓGIO?

Com o primeiro salário do meu primeiro emprego formal, então com 14 anos de idade, em março de 1963, comprei o meu primeiro relógio de pulso. Façanha tamanha para quem não só se via equipado com o instrumento símbolo da modernidade como o fazia com recursos próprios...

Minha memória me recoloca, agora, no trecho de poucos quarteirões da Rua Carijós que liga a Avenida Paraná à Praça Sete, e dali, pela Avenida Afonso Pena, até ao viaduto Santa Tereza com destino a Philips na minha Belo Horizonte de lembranças imorredouras. Queria que o relógio andasse rápido. A vida tinha muito ainda a me mostrar...

4, 5 vezes, em média, nessa breve caminhada, era parado por gente ciosa do cumprimento de seus compromissos pessoais, mas desprovida do instrumento de que eu, orgulhosamente, já era possuidor, um relógio portátil, meu companheiro de todos os dias:

__ Por favor, que horas são?  __ Poderia me dizer as horas?  __ Já são 8 horas?

Essa faceta civilizatória que sanciona a qualquer um o direito de interromper o fluxo regular da vida de um desconhecido para satisfação de uma necessidade bem pessoal é, sem dúvidas, tipicamente brasileira. Estejamos absorvidos por preocupações importantes, mesmo assim não nos sentimos, ou não sentíamos, na época, incomodados pela intromissão de um estranho só para compartilhar conosco as horas que o nosso relógio marcava.

Não era só pelo prazer de ajudar a quem me dirigia a pergunta. Havia também, no fundo daquela alma juvenil, a satisfação de quem se tornara importante por ter tomado a decisão correta de investir o modesto ganho de aprendiz em algo tão útil, tão moderno, tão cobiçado...

Claro que aquele relógio só funcionava às custas de dar-lhe corda várias vezes ao longo ao dia. Atrasava ou adiantava um pouco, sim, mas isso não fazia diferença para que nem relógio tinha, não é mesmo? Afinal, a vida moderna já tinha feito da pontualidade uma questão de grande significado. Eu continuava, contudo, desejoso de que as horas passassem ligeiras...

A modernidade e os anos avançaram.  Fez-se, o relógio, onipresente. Hoje, ele está nos braços de todos, nos vários cômodos de nossas casas, nos celulares, na tv, no computador pessoal, no topo do edifício e até em lugares inimagináveis.

Agora, não me param na rua, nem a ninguém mais, a perguntar pelas horas. Fechou-se mais uma oportunidade de contato e integração social. Para além disso, pelo menos para mim, também já não tenho mais o desejo de que as horas passem rápidas. Pelo contrário - como na antiga canção -, e se possível fosse, pediria aos relógios que detivessem o tempo, tornando a minha vida e a de meus amigos, perpétuas...

Edson Pinto

Setembro’ 2020

26 de ago. de 2020

321) LIVRO QUE RECOMENDO

 

Não é necessário ser cientista, bioquímico, infectologista ou ter formação em áreas da biomedicina para entender como uma epidemia pode ser cruel para com a humanidade.

Qual é a diferença entre bactéria e vírus?

O que é um antígeno?

O que é um patógeno?

Como funciona o nosso sistema imunológico?

Como uma doença transmissível se torna uma pandemia?

Isso e muito mais encontramos no livro de John M. Barry, A Grande Gripe, que analisa a fundo a injustamente chamada “Gripe Espanhola” que, na verdade, começou nos Estados Unidos e matou entre 1918 e 1919 mais de 50 milhões de pessoas mundo afora. No critério de mortes por milhão de terráqueos, o número, hoje, equivaleria a cerca de 400 milhões de vidas perdidas.

Esse livro foi publicado pela primeira vez em 2004, portanto 16 anos antes da pandemia que ora enfrentamos. Há no livro um pouco de tudo, desde programas de enfrentamento equivocados até negacionismo, avanços científicos, arrogância política, erros de análises, rápido desenvolvimento de vacinas, de soros, e tentativas infrutíferas de uso de medicamentos alternativos como o quinino, base da nossa hoje debatidíssima cloroquina.

Tem mais de 500 páginas que valem cada minuto de leitura. Além de jogar luz sobre o tema científico de fundo, ilumina também essa nevoenta estrada política que bifurca a todo momento ora para o lado certo, ora par o lado errado. Com tão pouca visibilidade, a chance de errar o caminho é enorme.


Edson Pinto

Agosto, 2020

20 de ago. de 2020

320) CORTADORES DE JACAS

 

“Neste mundo de misérias
Quem impera
É quem é mais folgazão
É quem sabe cortar jaca
Nos requebros
De suprema, perfeição, perfeição”

(Chiquinha da Silva, maxixe

Corta-Jaca de 1895)


Há certas expressões populares que nunca deveriam cair em desuso.  “Corta-jaca” é uma delas. Claro que a vida longeva já tinha registrado em minha mente quem foi Chiquinha da Silva, quem foi Machado Careca, seu parceiro de composição, e o que fizeram para que o brasileiríssimo ritmo maxixe, do final do século XIX, desempenhasse importante papel na buliçosa cultura popular do país recém republicanizado.

Não era apenas mais um ritmo fruto da nossa abundante veia musical que o populacho aprendeu a gostar. Gostava também do cateretê, do batuque e do samba, este, como sabido, expressão máxima da nossa alma lírica. O “corta-jaca” tinha uma conotação desdenhosa que o povo prezava em sua ironia político/coletiva. Corta-jaca também significava o que hoje consagramos como “puxa-saco”.

Sabe-se pela apresentação da encantadora cantora mineira, Lysia Condé, que a multiartista Nair de Tefé, também primeira dama da República, em 1914, em festa de despedida de mandato de seu marido Hermes da Fonseca convidou Catulo da Paixão Cearense para executar o maxixe Corta-jaca na presença de autoridades políticas de nomeada nacional.

Óbvio que deu rebu de elevadíssima repercussão... A imprensa reverberou o discurso do Senador Rui Barbosa, desafeto de Hermes da Fonseca, em que desqualificou, de forma atroz, o evento. Mas fê-lo como critica ao despudor que via no ritmo maxixe: “mais baixa, mais chula e mais grosseira de todas as danças selvagens...”

Mas será que o motivo do protesto foi realmente esse, o inocente ritmo brasileiro que é acompanhado de criativos passos de pés juntos imitando o facão com o qual se corta a fruta da jaqueira? Acho que não... Lendo-se a primeira estrofe da letra que vai na introdução deste texto encontra-se a resposta. A questão é política: com tanta miséria só os folgazões, os gaiatos, quem sabem cortar jaca, isto é, sabem puxar-sacos, é que se dão bem. Não era evidentemente o caso do grande Rui, mas sim o contexto político.

Como se sabe, nada mudou de lá para cá neste comportamento social, chamemos corta-jacas ou puxa-sacos as atitudes continuam sendo as mesmas. E não se corta-jaca por convicção moral, despretensiosamente... Corta-se jacas, ou puxa-se sacos para se sair bem. Na política, infelizmente é o que mais se vê...

Edson Pinto

Agosto’2020

Para se ver a apresentação de Lysia Condé, clique neste link: https://www.youtube.com/watch?v=4wfrA54BMZg


15 de ago. de 2020

319) O MODERNO É O QUE SE APRESENTA NO MOMENTO...

 

De uns tempos a esta data - mas só em frequência eventual, felizmente - sou tentado a autoquestionamentos quando leio clássicos da literatura. Fico me perguntando o que poderia ser diferente no comportamento dos personagens ou mesmo no desenrolar da história se tivessem, na época, os recursos tecnológicos de que dispomos hoje:

Tivesse a mocinha apaixonada um smartphone à sua disposição, ao invés de uma carta amorosa levada sorrateiramente por uma criada de confiança, ao amado, poderia ser substituída por uma mensagem de WhatsApp e mesmo assim mantida a carga de emoção da história original?

Se o herói, no lugar de empreender aquela emocionante jornada por mares bravios e ter enfrentado sendas perigosas durante meses, pudesse pegar um moderno jato e aterrizar em poucas horas no seu destino, teria também o mesmo efeito narrativo que a história antiga nos oferece?

Se cenas de guerras com enormes exércitos se defrontando em campos de batalhas, arremessando lanças, flechas, combatentes a cavalo empunhando espadas reluzentes, fossem substituídas por batalhas de caças supersônicos, drones teleguiados e misseis transcontinentais, seriam mesmo assim tão ou mais emocionantes?

Grande bobagem...

Nunca encontro vestígios de que os personagens ou as narrativas demonstrassem desejo de ter aparatos mais modernos. E por quê? Simplesmente porque o ser humano está tão envolvido com a sua realidade objetiva que, em geral, não especula emocionalmente com um futuro improvável e/ou inimaginável.

Toda a narrativa se conforma com o moderno daquele momento. A emoção é inerente ao verossímil e este à realidade objetiva. A mocinha está condicionada ao recurso da carta escrita, da aventura de entrega, da espera pela resposta. A modernidade para ela está nisso e só nisso.

A emoção reside, portanto, nos fatos tais quais eles verdadeiramente são. A mesma história quando trazida às condições atuais pode não ter o mesmo sentido. O importante é entender que o leitor precisa adentrar-se ao espírito da história, assimilar as reais condições da narrativa e se comportar como se lá estivesse.

É assim que se lê com prazer...

Edson Pinto

Agosto’ 2020

8 de ago. de 2020

318) O QUE SÃO 100.000?

Primário, mas elucidativo:

Cada vez que um determinado número é acrescido de mais 9 vezes o seu próprio valor, coloca-se um zero à sua direita. Equivale à multiplicação do número original por 10. É o famoso sistema decimal (base 10).

Assim, o número 1 que abre a sequência indicada no título deste texto foi multiplicado por 10 sucessiva e acumuladamente 5 vezes. 1 virou 10; depois 100; em seguida 1.000; adiante 10.000 e finalmente - mas ainda não esgotado - chegou-se a 100.000.

O que essa enorme cifra, mesmo para padrões cósmicos e humanos significa? Podemos percebê-la através de 10 exemplos que nos são familiares. Assim, mantemos a fidelidade à base 10. Há também um pouco de humor para aliviar a crueza do objetivo crítico deste texto:

1)      O Brasil tem 5570 municípios. 94% deles, isto é, 5246, têm populações inferiores a 100.000 habitantes. Cidades menores são, em geral, melhores para se viver, não? Ninguém gostaria, portanto, que elas desaparecessem, imagino...

 2)      A 324ª cidade brasileira em tamanho (primeira da lista acima dos 94%), Mairiporã, desde o seu primórdio como povoado de Juqueri, há 4 séculos, vem acumulando gente até chegar aos 100.179 de hoje, segundo o IBGE. A propósito, Mairiporã faz limite com o município de Atibaia, local daquele famoso sítio. Também, local de esconderijo daquele não menos famoso secretário parlamentar. Quem não sabe?

3)      NO dia 8/7/2014 pouco mais de 50.000 pessoas, este escriba incluído, lotaram o Mineirão no amargo 7 X 1. Dois estádios iguais seriam necessários para se atingir o total de pouco mais de 100.000 pessoas. Mas sem outro vexame, é claro...

4)      Se colocarmos a cada 400 metros (mais ou menos dois quarteirões de extensão) 1 pessoa fazendo uma fila indiana, 100.000 delas seriam necessárias para dar uma volta completa na superfície do nosso planeta Terra. Não precisamos, na prática, fazer isso. Basta dividir 40.000 quilômetros que a Terra tem de diâmetro por 100.000. O resultado são meros 400 metros de distância entre uma e outra pessoa.

 5)      Dois quilos de arroz são compostos por 100.000 grãos. Como feijão é maior, seriam necessários 30 quilos dele para se ter 100.000 unidades dessa leguminosa rica em ferro. Confira se ainda estiver de quarentena! Tempo você tem...

 6)      O maior conflito bélico que o Brasil já participou como protagonista foi a Guerra do Paraguai no século XIX. Durou 6 anos e ceifou 50 mil vidas brasileiras. Precisaríamos de 2 guerras iguais para se atingir o número de 100.000. Não considere, contudo, a necessidade de uma nova guerra com o país vizinho só para resgatar o Ronaldinho Gaúcho. Em algum momento, creiam, ele dará um drible mágico na justiça paraguaia...

 7)      Em agosto de 1945 a bomba atômica de Hiroshima, a mais cruel das armas que o “gênio humano” concebeu, matou no primeiro momento cerca de 100.000 pessoas. Junto com Nagasaki foi argumento decisivo para a rendição tardia do império do Japão na Segunda Guerra Mundial. Hoje, vinga-se do Ocidente impondo-nos peixe cru que deve ser levado à boca com o hashi, aquele par de pauzinhos inoperável...

 8)      100.000 anos atrás, o Homo sapiens (nossa espécie) ainda estava dando seus primeiros passos na África Oriental. A revolução cognitiva ainda não tinha acontecido. O caminho que a humanidade tomou não tem volta. Guardemos, portanto, a memória de nossa antepassada primordial, a Chipanzé Australopiteca que nos deu origem. Não adianta voltar às origens. O Corona vírus também sobe em árvores.

 9)      Se alguém resolver poupar R$10,00 por dia para comprar um carro médio brasileiro, serão necessários 27 anos de disciplina e sacrifício. Este cálculo não leva em conta a perda inflacionária que é certa, mas leva em conta a remuneração que historicamente tende a zero. Melhor tentar a sorte no consórcio...

 10)   Se você sobreviveu no Brasil entre março até o presente momento, 5 meses apenas, saiba que 100.000 também é o número de mortos, neste curto espaço de tempo, devido a nossa incompetência em enfrentar, em pleno século XXI, a pandemia da Covid-19.

 Blague à parte, e levando tudo à sério, agora vem o pior:

O número de mortos pela Covid-19 não para de crescer aqui na Pátria Amada. Só quem viver saberá do real tamanho de nossa desventura. Afinal, todos nós morrermos um dia, não? É triste, mas fica a pergunta:

Onde e por que erramos de novo? Já antecipo parte da resposta dizendo que o sistema decimal não tem nada a ver com isso...

 Edson Pinto

Agosto’ 2020


28 de jul. de 2020

317) 10 PROVIDÊNCIAS QUE URGEM...


Depois de tantos meses de quarentena (e ainda em vigor), tornam-se imperativas visitas ao:

1) Cabeleireiro: Não me cai bem este look Jesus Cristo. Já tenho bem mais que 33 anos...

2) Dentista: Afinal, esses canais já não seguram mais nervos rebeldes...

3) Oculista: Graus de menos, reparos de mais. Minha média móvel de sentar em óculos permanece elevada...

4) Podólogo: Garras só pra gaviões. Além disso, o problema do item seguinte vetou a antiga habilidade de alcançar os pés...

5) Endocrinologista: Espero não encontrar o Jô Soares na minha frente. Tenho pressa...

6) Sebo: Procurar títulos antigos. Os novos já os devorei todos. Não gosto de reler livros...

7) Auto-peças: Carros parados descarregam baterias. Aprendi na prática...

8) Alfaiate: Quem sabe roupas podem ser alargadas. Queria muito evitar tamanhos XL..
.
9) Auto-escola: Será que reaprendo a dirigir? Sem óculos, então... Sei não...

10) Posto de Saúde: Inscrever-me para ser dos primeiros a receber, quando disponível, a vacina da Covid-19.

Sem chance de enfrentar outra quarentena...

Edson Pinto
11/7/2020

316) CONSTRANGIMENTO MÁXIMO...


Meu pai - com a aeronáutica - fez parte da FEB que lutou na Itália na Segunda Guerra Mundial. Parte importante de minha vida morei em um bairro só de ex-combatentes. Reinava ali um espírito de respeito e reverência à nobre função dos defensores da Pátria.

Acostumei-me a olhar com admiração e respeito a quem galgasse a carreira militar, considerando, inclusive, a sólida formação educacional que recebem nas excelentes academias militares do País.

Essa admiração foi posta em xeque quando, agora, estarrecidos, tivemos acesso ao vídeo da histórica reunião ministerial do dia 22 de abril, coincidentemente no dia em que comemorávamos os 520 anos de nossa existência como país. Fato este, a propósito, tão omitido quanto omitido em profundidade também foi o tema do momento, a pandemia que não para de ceifar vidas de brasileiros.

Senti verdadeiro constrangimento alheio pelos generais que ali se postavam desconcertados, submissos a um presidente de modos e costumes reprováveis.

Nenhuma liturgia ao elevado cargo que exerce; discussão sem pauta; passiva consensualidade com arroubos irresponsáveis de alguns ministros e uso abundante de termos que envergonhariam Gregório de Matos e Manuel Maria du Bocage em seus melhores poemas fesceninos...

Fico pensando, constrangido ao máximo, é claro, sobre o que levaria militares tão nobres a esse opróbrio? Alinhamento a uma ideologia incompreensível ou os encantos de uma sinecura, mesmo que temporária, mas providencial, já que a vida não está fácil para ninguém?

Edson Pinto
24/5/2020

315) UMA COMPARAÇÃO CONVENIENTE...


SITUAÇÃO 1
Um móvel delicado precisa ser desmontado.
Suas partes são unidas por pregos (malária).
Um martelo (cloroquina), ferramenta adequada, está disponível. Tarefa bem sucedida sem danificar o móvel.

SITUAÇÃO 2
Outro móvel igualmente delicado deve, também, ser desmontado. Suas partes, porém, estão unidas por parafusos (covid-19). A única ferramenta disponível é o mesmo martelo (cloroquina). Tarefa não executada, ou se tentada, o móvel restaria danificado.

CONCLUSÃO:
Ou se providencia uma chave de fendas (remédio correto ainda não disponível), ou o móvel da situação 2 não será desmontado, ou, se tentado, restará irremediavelmente perdido...

A quem, portanto, cabe a decisão? Ao dono do móvel ou ao marceneiro?

Edson Pinto
21/5/2020

314) AS DUAS FACES DO ORGULHO


Do lado positivo, os dicionários definem orgulho como um sentimento de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra... Mas, do lado negativo, também o definem como um sentimento egoísta que denota arrogância e soberba.

O lado positivo pode e deve até se manifestar em aspectos específicos do comportamento de Bolsonaro. Por esta e outras razões, conseguiu angariar votos suficientes para se tornar presidente. Mas isso não vem, agora, ao caso.

O ponto em questão é a postura que mostra perante a pandemia da covid-19. Nisto, ele tem mostrado só o lado negativo de seu orgulho: arrogância, ao perder contato com a realidade e insistir na sobrevalorização da própria (in)competência; soberba, ao recusar-se a admitir o erro, ou seja, não ter humildade para "dar o braço a torcer"...

Como jamais reconhecerá que errou ao igualar a doença a uma simples "gripezinha", segue criando conflitos políticos como cortina de fumaça para ocultar o problema principal. Enquanto isso, torce - em vão e agoniado - para que tudo passe rápido e ele desperte do pesadelo que o atormenta.

Passada a crise (e vai passar, se Deus quiser!), o que ficará de seu orgulho: o valor e a honra de um lado, ou a arrogância e a soberba do outro?

Edson Pinto
01/5/2020

313) EU PERDOO...


De coração, perdoo aqueles que em atitudes negacionistas se recusaram a aceitar as evidências, hoje inquestionáveis, de que a covid-19 é muitíssimo mais séria do que uma simples "gripezinha"...

Já passamos, no Brasil, de 5 mil mortos, mais de 70 mil oficialmente infectados, sem considerar que, com testagem em abrangência adequada, os números seriam assustadoramente maiores.

Agora o que se vê? O caos em hospitais pela falta de leitos de uti’s; o horror de cemitérios superlotados, vide Manaus; as consequências nefastas para a economia, especialmente para os mais vulneráveis socialmente. E hoje, tristemente, o recorde de mais de 400 mortes contabilizadas em único dia...

Perdoo-os porque sei que, no fundo de suas almas puras, o negacionismo refletia mais o desejo sincero por um mundo melhor para todos. Queriam passar a tranquilidade de espírito que nos faz vencer a adversidade e seguir com as nossas vidas como se nada estivesse acontecendo...

Também os perdoo porque acreditaram na autoridade constituída, crentes de que ela representava a verdade, a esperança, a razão...

Finalmente, perdoo-os por saber que agora compreendem a evidência de que querer-se otimista, mais do que uma saudável e positiva postura ante a vida, não nos autoriza ao abandono da realidade, dos fatos, da lógica e da ciência.

O mundo, lamentavelmente, não é sempre o que se quer dele, mas o que dele nos é possível obter.

Calma! Vai passar! Mas, se puder, fique em casa!

Edson Pinto
28/4/2020