22 de mai. de 2026

372) QUATRO ANOS DEPOIS

 

No próximo dia 27 de maio, fará quatro anos. Quatro anos não é muito tempo para quem mede a vida em calendários, mas é uma eternidade para quem a mede em ausências.

Jane partiu em 27 de maio de 2022. Partiu assim, como quem fecha uma porta com delicadeza, sem ruído, sem aviso, sem despedidas longas. Um infarto. Rápido. Limpo. Quase elegante, se me permitem o termo impróprio. Não deu trabalho. Não exigiu cuidados prolongados. Não nos preparou. E, curiosamente, deixou intacta a última imagem: uma mulher ainda viva em todos os sentidos, saudável, alegre, pronta para um jantar, para uma conversa, para mais um capítulo daquilo que vínhamos escrevendo há décadas, porque não foram poucos anos.

Eu a conheci na infância, quando ainda não sabíamos dar nome às coisas. Namoramos na adolescência, quando achávamos que o amor era uma invenção nossa. Casamos na juventude, quando já sabíamos que ele, o amor, existia antes de nós. E permanecemos juntos por 45 anos de casamento, que, somados ao antes, dão uns 60 anos de convivência.

Sessenta anos... Há casamentos que duram menos que um torneio de verão. O nosso foi um modo de existir. E então, de um dia para o outro, esse modo desaparece. A viuvez, sobretudo quando chega depois de uma vida longa a dois, não é apenas uma perda. É uma reorganização forçada do mundo. Não se perde só a pessoa, perde-se a rotina, o reflexo, a testemunha cotidiana da própria existência. Você continua falando, mas falta o interlocutor habitual. Continua vivendo, mas sem aquele olhar que confirmava que a vida estava, de fato, acontecendo.

Os dois primeiros anos foram os mais difíceis. Não por acaso. São os anos em que a ausência ainda tem cheiro, ainda ocupa lugar na mesa, ainda responde, ou parece responder, quando a memória insiste em não aceitar o fato consumado. É o tempo em que a casa ainda não entendeu que ficou maior, e o coração, menor. Depois disso, aos poucos, as coisas começam a se rearrumar. Não voltam ao que eram, isso seria pedir demais da existência, mas encontram um novo equilíbrio, mais silencioso, mais sóbrio.

E foi nesse silêncio que algo inesperado aconteceu: Jane, ao partir, deixou-me um presente. Sim, um presente, ainda que envolto na embalagem áspera da dor. Deixou-me o tempo. Tempo de solidão, é verdade, mas também tempo de reencontro. Tempo de revisitar antigas paixões que a vida, na sua pressa, havia colocado em segundo plano. Tempo de escrever. Foi nesses quatro anos que muitos dos livros que estavam apenas na minha cabeça encontraram papel. Foi nesse intervalo que a literatura, minha velha companheira, voltou a sentar-se comigo à mesa. E aqui reside um dos paradoxos mais humanos: a ausência que dói também pode ser a ausência que abre espaço. Não escolhemos isso, mas, uma vez dado, podemos, com algum esforço e alguma humildade, transformar.

Hoje, olhando para trás, sinto que o pior já passou. Não que a saudade tenha diminuído. A saudade não é um objeto que se desgaste com o uso. Ela apenas muda de forma. Deixa de ser um grito e passa a ser um murmúrio constante, quase uma música de fundo. Porém, a dor aguda, aquela que interrompe o pensamento, essa, sim, vai cedendo.

Neste ponto do desabafo, eu confesso algo que talvez soe estranho: foi melhor que Jane tenha partido antes de mim. Não por falta de amor. Ao contrário. Justamente por amor. Eu temia que, se fosse eu o primeiro, ela carregaria esse peso que me açoitou e ainda, mesmo já moderado, se faz presente. Não sei se teria a estrutura, ou a disposição, para atravessar esse período como eu atravessei. Coube-me essa tarefa. E, dentro do possível, procurei cumpri-la.

Cada um de nós tem a sua cruz invisível. Essa foi a minha. Jane deixou três filhos, seis netos e uma memória que não pesa, mas sustenta. Era forte, carinhosa, presente. Daquelas pessoas que organizam o mundo ao redor sem fazer alarde. E talvez seja isso que mais permaneça: não os grandes gestos, mas a constância.

No fim das contas, a vida é isso mesmo. Um movimento contínuo de construção e dissolução. Uma espécie de entropia existencial: nascemos, crescemos, amamos, envelhecemos e, inevitavelmente, cedemos lugar. Há quem lute contra isso. Há quem negue. Há quem se revolte. Eu, hoje, prefiro compreender. A vida vale a pena, e digo isso sem retórica, quando se aceita o ciclo que a governa. Quando se entende que o fim não é uma falha do processo, mas parte dele. E que, no meio disso tudo, o que realmente fica não é o tempo que tivemos, mas a forma como o vivemos.

Se me perguntarem o que restou de Jane, eu diria: não foi pouco. Ficaram os filhos, os netos, as lembranças  e uma certa maneira de olhar a vida, que, de algum modo, continua em mim. E isso, convenhamos, já é uma forma discreta, mas eficaz, de permanência.

 

Edson Pinto

Maio. 2026

4 comentários:

MUOIO disse...

Que lindo Edson! Tive a honra de conhecer a Jane no jantar que ofereceram ao Moião. Uma mulher linda por dentro e por fora, meiga, gentil, prestimosa, aliás vocês são assim. E saiba eue de onde ela estiver, tambem carrega esses mesmos sentimentos, a dor da separação é mútua. Parabéns pela pessoa que é, sempre o admirei, e continue sendo assim, agora pai e avô prestimoso que é. E tenha certeza, que ela sempre estara com você, você sabe disso! Um abraço apertado!

Blog do Edson Pinto disse...

Obrigado, amigo Zé!
Sinto que a Jane também se emocionou com suas gentis palavras.
Edson

Anônimo disse...

Que lindo texto! Consigo perfeitamente te ver e sentir como descreveu! Imagino não ser nada fácil a separação depois de tanto tempo juntos e ajustados! Saudades demais da Jane! Bjs.

Anônimo disse...

Emocionante demais! Agradeço a Deus e a vocês por ter permitido eu conviver com esta pessoa de muita luz e força!
Muitas vezes recebi o carinho e amizade que a Jane ao longo da vida nos presentiou. Isto está marcado para sempre!
Forte abraço do Chico Morais!