12 de jun. de 2026

375) A LIÇÃO QUE NÃO ESTAVA NO CADERNO

 

Outro dia deparei-me com uma dessas notícias que costumam atravessar as redes sociais em velocidade recorde. Em geral, elas passam diante dos nossos olhos como nuvens de verão. Vemos, curtimos, comentamos e seguimos adiante. Esta, porém, resolveu ficar.

Contava a história de um brasileirinho de dez anos que entrou numa loja de informática e pediu licença para usar um tablet que tinha em exposição. O atendente consentiu. Sentado diante do aparelho, o garoto não abriu jogos, não procurou vídeos engraçados, não navegou por curiosidades passageiras. Tirou do bolso uma caneta, pegou o caderno escolar e começou a estudar, anotando detalhes.

A professora havia passado um trabalho de geografia. Em sua casa não havia computador, nem tablet, nem internet disponível. Havia apenas uma tarefa a cumprir e uma vontade obstinada de aprender. Confesso que a cena me fez pensar:

Vivemos num tempo muito curioso. Nunca houve tanta informação ao alcance das mãos. Carregamos bibliotecas inteiras no bolso. Conversamos com máquinas inteligentes. Assistimos a aulas produzidas pelos melhores professores do mundo. Em que pese isso, sabemos que, milhões de pessoas que  possuem acesso às ferramentas, demostram pouca disposição para utilizá-las. Aquele menino vivia a situação inversa. Faltavam-lhe os recursos, mas sobrava-lhe o desejo.

Talvez seja essa a diferença que nem sempre aparece nas estatísticas. A pobreza costuma ser medida pela ausência de bens materiais. Conta-se a renda, contam-se os metros quadrados da casa, contam-se os objetos disponíveis. Mais difícil, contudo, é medir a riqueza dos sonhos. O garoto não pediu brinquedos. Não pediu dinheiro. Não pediu favores. Pediu alguns minutos diante de uma tela para fazer a lição de casa. Enquanto muitos enxergam nos estudos uma obrigação, ele enxergava uma oportunidade.

A vida é, de fato, injusta. Alguns nascem cercados de conforto. Outros começam a corrida muitos quilômetros atrás da linha de partida. Não escolheram a família, o bairro, a escola ou as circunstâncias em que chegaram ao mundo.

Mas há algo que torna certas histórias inesquecíveis. De vez em quando surge alguém que, mesmo carregando o peso das dificuldades, recusa-se a abandonar os próprios sonhos. E então acontece o milagre mais simples de todos: Alguém observa. Foi o que ocorreu naquela loja. Os funcionários perceberam o esforço do menino. O proprietário soube da história e decidiu ajudá-lo. Um gesto pequeno para quem oferece. Gigante para quem recebe.

Muita gente acredita que o mundo muda apenas por grandes revoluções. Eu desconfio que ele também muda por pequenas gentilezas. Uma porta aberta. Um livro emprestado. Um professor que incentiva. Um desconhecido que estende a mão. Aquele garoto entrou na loja só para fazer um trabalho de geografia. Sem perceber, acabou ensinando uma lição muito mais importante, ou seja, aquela lição que não estava no caderno.

 

Edson Pinto

Junho, 2026

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom!
Forte abraço do Chico Morais