Outro
dia deparei-me com uma dessas notícias que costumam atravessar as redes sociais
em velocidade recorde. Em geral, elas passam diante dos nossos olhos como
nuvens de verão. Vemos, curtimos, comentamos e seguimos adiante. Esta, porém,
resolveu ficar.
Contava
a história de um brasileirinho de dez anos que entrou numa loja de informática
e pediu licença para usar um tablet que tinha em exposição. O atendente
consentiu. Sentado diante do aparelho, o garoto não abriu jogos, não procurou
vídeos engraçados, não navegou por curiosidades passageiras. Tirou do bolso uma
caneta, pegou o caderno escolar e começou a estudar, anotando detalhes.
A
professora havia passado um trabalho de geografia. Em sua casa não havia
computador, nem tablet, nem internet disponível. Havia apenas uma tarefa a
cumprir e uma vontade obstinada de aprender. Confesso que a cena me fez pensar:
Vivemos
num tempo muito curioso. Nunca houve tanta informação ao alcance das mãos.
Carregamos bibliotecas inteiras no bolso. Conversamos com máquinas
inteligentes. Assistimos a aulas produzidas pelos melhores professores do
mundo. Em que pese isso, sabemos que, milhões de pessoas que possuem acesso às ferramentas, demostram pouca
disposição para utilizá-las. Aquele menino vivia a situação inversa.
Faltavam-lhe os recursos, mas sobrava-lhe o desejo.
Talvez
seja essa a diferença que nem sempre aparece nas estatísticas. A pobreza
costuma ser medida pela ausência de bens materiais. Conta-se a renda, contam-se
os metros quadrados da casa, contam-se os objetos disponíveis. Mais difícil,
contudo, é medir a riqueza dos sonhos. O garoto não pediu brinquedos. Não pediu
dinheiro. Não pediu favores. Pediu alguns minutos diante de uma tela para fazer
a lição de casa. Enquanto muitos enxergam nos estudos uma obrigação, ele
enxergava uma oportunidade.
A
vida é, de fato, injusta. Alguns nascem cercados de conforto. Outros começam a
corrida muitos quilômetros atrás da linha de partida. Não escolheram a família,
o bairro, a escola ou as circunstâncias em que chegaram ao mundo.
Mas
há algo que torna certas histórias inesquecíveis. De vez em quando surge alguém
que, mesmo carregando o peso das dificuldades, recusa-se a abandonar os
próprios sonhos. E então acontece o milagre mais simples de todos: Alguém
observa. Foi o que ocorreu naquela loja. Os funcionários perceberam o esforço
do menino. O proprietário soube da história e decidiu ajudá-lo. Um gesto
pequeno para quem oferece. Gigante para quem recebe.
Muita
gente acredita que o mundo muda apenas por grandes revoluções. Eu desconfio que
ele também muda por pequenas gentilezas. Uma porta aberta. Um livro emprestado.
Um professor que incentiva. Um desconhecido que estende a mão. Aquele garoto
entrou na loja só para fazer um trabalho de geografia. Sem perceber, acabou
ensinando uma lição muito mais importante, ou seja, aquela lição que não estava
no caderno.
Edson Pinto
Junho,
2026

Um comentário:
Muito bom!
Forte abraço do Chico Morais
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