11 de set. de 2026

388) O FIO DA EMBIRA

 

Como de costume, tomava café com minha mãe. Aos 97 anos, ela conserva uma relação com as palavras que talvez nós, mais novos, estejamos perdendo. Entre um gole e outro, costuma temperar a conversa com ditados. Alguns conheço desde menino. “Quem não tem cão caça com gato”, “De grão em grão a galinha enche o papo”, “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Nada que provocasse espanto. Até aquele café.

Falávamos de alguém que atravessava uma fase difícil quando minha mãe comentou, com a naturalidade de quem informa que vai chover:

— Fulano está a lamber embira.

Parei com a xícara a meio caminho.

-— Lamber o quê?

— Embira.

Confesso que já ouvi muita coisa nesta vida, inclusive algumas que teria preferido não ouvir, mas nunca soubera de alguém condenado a lamber embira. Minha primeira providência foi descobrir o que significava aquilo. Aprendi que embira é o nome dado à fibra retirada da casca de certas plantas e utilizada, entre outras coisas, para fazer cordas. E que “lamber embira” é expressão antiga para designar quem passa necessidade, está sem recursos, quase na miséria.

Minha mãe sabia disso sem consultar dicionário algum. Foi então que percebi que, sentado àquela mesa de café, eu não estava apenas conversando com ela. Estava diante de uma pequena biblioteca de tradição oral. Os ditados populares são livros que desistiram das páginas. Viajam de boca em boca, atravessam gerações, mudam de cidade, às vezes trocam uma palavra pelo caminho e continuam carregando aquilo que talvez seja uma das formas mais antigas de conhecimento humano, a experiência.

Não sabemos quem foi o primeiro homem a descobrir que “quem semeia ventos colhe tempestades”. Provavelmente aprendeu da pior maneira. Também desconhecemos quem concluiu que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Suspeito que tenha perdido os três. Alguém precisou descobrir que “as aparências enganam”, outro percebeu que “a pressa é inimiga da perfeição”, e certamente houve quem chegasse tarde demais para compreender que “cavalo encilhado não passa duas vezes”. Depois vieram os outros e transformaram essas pequenas tragédias particulares em patrimônio coletivo. Talvez seja essa a genialidade dos ditados. Eles nos permitem aprender com os tombos de pessoas que nunca conhecemos.

A filosofia costuma precisar de tratados. O povo, mais econômico, prefere uma frase. Séculos de reflexão sobre perseverança cabem em “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Uma aula inteira sobre prudência pode ser substituída por “é melhor prevenir do que remediar”. Para ensinar responsabilidade pelas próprias escolhas, basta lembrar que “quem semeia ventos colhe tempestades”. E, se quisermos advertir alguém contra julgamentos precipitados, “quem vê cara não vê coração” resolve o problema antes que o filósofo termine a introdução. Não significa, evidentemente, que os ditados estejam sempre certos. Aliás, o povo teve a prudência de criar um ditado para cada lado da questão.

“Quem espera sempre alcança”, recomenda um. “Deus ajuda quem cedo madruga”, responde outro.

“A união faz a força”, aconselha um.  “Antes só do que mal acompanhado”, adverte outro.

“Nunca é tarde para começar”, consola um. “Cavalo encilhado não passa duas vezes”, apressa outro.

Se alguém quiser organizar os ditados populares num sistema filosófico perfeitamente coerente, talvez acabe precisando de outro ditado, “cada cabeça, uma sentença”. Essa aparente contradição, porém, não diminui sua sabedoria. Ao contrário. Mostra que a vida raramente cabe numa regra única. Há momentos em que é preciso esperar e outros em que é preciso madrugar. Há ocasiões para insistir e ocasiões para desistir. Às vezes devemos guardar o pássaro que está na mão. Em outras, talvez seja justamente necessário soltá-lo.

O verdadeiro conhecimento não está apenas em decorar o ditado. Está em saber quando ele serve. Talvez por isso essas frases tenham sobrevivido durante tanto tempo. Elas não nasceram em gabinetes, universidades ou academias. Foram sendo polidas pela experiência cotidiana, na roça, nas cozinhas, nas vendas, nas oficinas, nas ruas, nas conversas de família. Cada geração recebeu algumas, acrescentou outras e entregou o conjunto à seguinte.

Hoje fazemos isso menos. Temos buscadores, redes sociais, vídeos, inteligência artificial e uma quantidade de informação que nossos antepassados jamais poderiam imaginar. Podemos descobrir em segundos a distância entre a Terra e Saturno e, ainda assim, talvez demoremos uma vida inteira para compreender que “nem tudo que reluz é ouro”. A tecnologia aumentou extraordinariamente nossa capacidade de encontrar respostas. Não necessariamente nossa capacidade de fazer boas perguntas.

Os ditados pertencem a outro ritmo. São filhos de um tempo em que a experiência precisava ser guardada na memória porque não havia onde pesquisá-la. Para sobreviver, o conselho tinha de ser curto, sonoro e fácil de repetir. Talvez por isso tantos tenham chegado até nós. Outros, entretanto, começam a desaparecer.

E foi novamente para minha mãe que olhei. Aos 97 anos, ela guarda expressões que ouviu de pessoas que, por sua vez, as ouviram de outras pessoas. Algumas talvez tenham atravessado um século antes de chegar àquela mesa de café. Não sei quem ensinou a minha mãe que alguém em dificuldades estava “a lamber embira”. Talvez ela própria já não se lembre. E isso pouco importa. A tradição oral não costuma fornecer recibo. Ela apenas entrega.

Foi impossível não me lembrar de Luís da Câmara Cascudo, que dedicou boa parte da vida a recolher justamente essas coisas aparentemente pequenas que o povo diz, repete e transmite. Cascudo compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos livros, nos monumentos ou nos grandes acontecimentos históricos. Mora também nas histórias contadas à mesa, nas superstições, nas cantigas, nas expressões e nos ditados que passam de uma geração para outra sem que ninguém saiba ao certo quem os inventou. Talvez por isso tenha levado tão a sério aquilo que muitos consideravam apenas conversa de gente antiga. Sabia que, quando uma expressão popular desaparece, não perdemos somente algumas palavras. Perdemos também um jeito de compreender o mundo.

De repente compreendi que preservar esses ditados não é apenas conservar curiosidades linguísticas. É preservar uma determinada maneira de observar a vida. Dentro deles estão o medo da pobreza, a importância do trabalho, a prudência diante do risco, a esperança, a desconfiança, o amor, a amizade, a paciência e até uma certa resignação diante daquilo que não podemos mudar. Há neles ingenuidade, preconceitos de outras épocas e conselhos que o tempo tornou discutíveis. Convém não transformar a sabedoria popular em escritura sagrada. O povo também erra. Ainda assim, impressiona perceber quanta experiência humana cabe em tão poucas palavras. Talvez pudéssemos ser um pouco mais felizes se prestássemos atenção a algumas delas. Não porque nossos antepassados soubessem todas as respostas, mas porque já haviam cometido muitos dos erros que continuamos cometendo com extraordinária originalidade.

Terminei o café pensando nisso.

Minha mãe provavelmente nem percebeu a pequena revolução filosófica que provocara. Para ela, alguém estava simplesmente a lamber embira. Para mim, aquela embira tinha se transformado num fio. Um fio muito antigo, vindo de pessoas que não conheci, passando pela memória de minha mãe e chegando até mim. Talvez tradição seja exatamente isso. Segurar o fio antes que ele se rompa.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

2 comentários:

Edson Taurizano disse...

Querido Edson. Muita sabedoria em seu texto. Um abraço.

Anônimo disse...

Maravilhosa reflexão amigo Edson.