25 de set. de 2026

390) OS PROFISSIONAIS DOS BASTIDORES

 

Já faz algum tempo, enquanto tomava um café na padaria de sempre, percebi que a mesa ao lado conversava num volume sonoro incompatível com qualquer pretensão de discrição. Não tive escolha. Em poucos minutos, passei a saber que um casamento caminhava para o fim, que um gerente seria demitido, que um sobrinho desperdiçara a herança da família e que uma respeitável senhora do bairro escondia mais segredos do que aparentava. Levantei-me sem conhecer o nome de nenhuma daquelas pessoas. Ainda assim, saí dali carregando um curioso arquivo de vidas alheias. Tudo gratuitamente, sem precisar assinar jornal algum.

Foi então que me ocorreu uma velha constatação. Muito antes da internet, dos grupos de WhatsApp, das redes sociais e dos canais de notícias em tempo real, a humanidade já cultivava um talento extraordinário para observar, interpretar, completar lacunas e espalhar versões dos fatos. Mudaram apenas os meios. A natureza humana continua praticamente a mesma. Os grandes escritores compreenderam isso muito antes dos sociólogos e dos algoritmos. Basta percorrer a literatura para encontrar uma galeria quase inesgotável de especialistas em corredores, bastidores e segredos.

Machado de Assis parecia nutrir especial simpatia por esses personagens. José Dias, em Dom Casmurro, talvez seja um dos mais elegantes cultivadores da insinuação. Raramente afirmava. Preferia sugerir. Plantava uma dúvida aqui, uma observação ali, um comentário aparentemente inocente. O restante ficava por conta da imaginação dos ouvintes.

Não muito diferente fazia o Conselheiro Acácio, criado por Eça de Queiroz. Cobria os lugares-comuns com um verniz de respeitabilidade e transformava trivialidades em profundas sentenças morais. Em torno dele, as convenções sociais valiam tanto quanto os próprios acontecimentos.

Shakespeare levou essa arte ao extremo ao criar Iago. Talvez nenhum personagem da literatura tenha compreendido tão bem que uma dúvida cuidadosamente colocada pode ser muito mais destrutiva do que uma mentira escancarada. Bastava insinuar. A imaginação das vítimas concluía o trabalho.

Também entre nós não faltaram observadores atentos das vidas alheias. Em O Cortiço, Aluísio Azevedo povoou o ambiente de personagens que pareciam conhecer a rotina dos vizinhos melhor do que a própria. Nas pequenas comunidades, informação sempre foi uma moeda valiosa.

Enquanto pensava nisso, ocorreu-me que talvez sejamos injustos quando chamamos tudo isso simplesmente de fofoca. A fofoca quase nunca se apresenta com esse nome. Ela costuma vestir roupas muito mais respeitáveis. Às vezes chama-se preocupação. Outras vezes recebe o nome de dever de informar. Em certas ocasiões prefere apresentar-se como transparência, bastidor, fonte bem-informada, informação exclusiva, vazamento ou simples curiosidade. Troca de roupa para não ser reconhecida. Talvez por isso continue gozando de excelente saúde.

Há, contudo, um ambiente em que a fofoca parece adquirir uma gravidade ainda maior: a política. Sobretudo em períodos eleitorais, rumores, insinuações, meias verdades e suspeitas cuidadosamente semeadas tornam-se instrumentos de disputa pelo poder. Muitas vezes, não se busca demonstrar a culpa de um adversário, mas apenas lançar sobre ele a sombra da dúvida. E a dúvida, uma vez instalada, costuma sobreviver até aos fatos e até aos desmentidos. Uma acusação infundada pode ser desmentida; a desconfiança que ela produz, nem sempre. É uma estratégia antiga e profundamente desonesta, porque procura conquistar votos não pela força das próprias ideias, mas pelo enfraquecimento da reputação alheia. Quem transforma a maledicência em ferramenta política talvez vença uma eleição, mas contribui para uma derrota muito maior: a da confiança que sustenta a própria vida pública.

Os jornais anunciam informações de bastidores. Os comentaristas revelam fontes reservadas. Os influenciadores dizem possuir notícias exclusivas. Nas empresas circulam rumores. Na política surgem vazamentos. Nas famílias aparecem parentes que sabem exatamente o que aconteceu, mesmo quando ninguém sabe ao certo o que realmente aconteceu, inclusive quem contou.

Vivemos cercados por especialistas em montar quebra-cabeças cujas peças jamais estiveram completas. O curioso é que quase todos condenamos a fofoca quando ela nasce na boca dos outros. Quando nasce na nossa, costuma receber nomes bem mais elegantes. Chamamo-la de análise. Comentário. Contextualização. Interpretação. Ou simplesmente conversa.

Enquanto seguia para o meu destino, pensei que talvez as velhas paredes realmente continuem tendo ouvidos. A diferença é que hoje os ouvidos também aprenderam a falar. E falam depressa. Muito depressa. Desde então, sempre que ouço alguém iniciar uma frase com as conhecidas palavras "não gosto de falar da vida dos outros, mas...", acomodo-me discretamente na cadeira. Aprendi que as maiores tempestades da reputação quase sempre começam exatamente depois desse pequeno "mas". Descobri, enfim, que a verdade costuma caminhar a pé, enquanto a fofoca prefere viajar de automóvel. Quando a primeira chega ao destino, a segunda já encontrou novos passageiros.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

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