9 de out. de 2026

392) A PRATA DA CASA

 

Há algum tempo, ouvi uma história curiosa sobre uma grande empresa que enfrentava determinado problema havia anos. Reuniões foram feitas, relatórios preparados, sugestões apresentadas. Um funcionário antigo chegou a propor uma solução bastante simples, dessas que têm o inconveniente de parecer simples demais para serem levadas a sério. A ideia foi ouvida, agradecida e devidamente arquivada naquele lugar misterioso para onde costumam ir as boas ideias quando não vêm acompanhadas de um cartão de visitas importante.

Até que contrataram um consultor.

Veio do exterior, hospedou-se num bom hotel, apresentou-se de terno impecável e abriu diante dos diretores uma apresentação cheia de gráficos, setas e palavras em inglês. Depois de algumas horas, recomendou, com pequenas variações, exatamente aquilo que o funcionário havia sugerido meses antes. Desta vez, todos acharam brilhante. Não sei se a história aconteceu exatamente assim. Provavelmente aconteceu muitas vezes.

Foi então que me lembrei de duas antigas expressões populares que parecem falar da mesma fraqueza humana. Uma diz que não sabemos valorizar a prata da casa. A outra garante que santo de casa não faz milagre. Sempre achei curioso o destino desses santos domésticos. Talvez façam milagres, sim. O problema é que os moradores da casa os conhecem de chinelos.

A proximidade possui essa estranha capacidade de diminuir o extraordinário. Conhecemos demais aqueles que estão perto. Sabemos de suas virtudes, naturalmente, mas conhecemos também seus defeitos, hesitações, distrações e pequenas misérias. Vimos a professora respeitada quando ainda era uma estudante insegura. Conhecemos o médico famoso desde o tempo em que jogava bola na rua. O empresário bem-sucedido continua sendo, para os amigos de infância, aquele rapaz que não sabia exatamente o que faria da vida. A memória tem dificuldade de promover as pessoas. Enquanto elas crescem, amadurecem e se transformam, nós frequentemente continuamos a enxergá-las pela fotografia antiga que guardamos delas.

Com quem vem de fora acontece o contrário. Não conhecemos seus bastidores. Recebemos apenas o currículo, as realizações, os títulos, os livros publicados, os prêmios conquistados. O desconhecido chega pronto. Não conhecemos suas dúvidas, seus fracassos ou das manhãs em que acorda sem a menor vontade de ser extraordinário. A intimidade mostra os bastidores. A distância mostra o palco. Talvez por isso tantas pessoas precisem primeiro ser reconhecidas longe para depois serem admiradas perto. Uma artista deixa sua pequena cidade, conquista público em outros lugares e, algum tempo depois, retorna como personalidade ilustre. A mesma mulher que antes atravessava a praça sem provocar maiores comoções agora recebe homenagens. Não mudou necessariamente o talento. Mudou a distância de onde passamos a observá-la.

Há nisso alguma coisa de muito antiga. A própria tradição bíblica registrou a ideia de que nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. Não é difícil compreender. Para acreditar num profeta talvez seja conveniente não o ter visto criança, não conhecer seus irmãos e não saber quem era seu pai. A familiaridade humaniza demais aqueles que, para admirarmos plenamente, talvez preferíssemos imaginar um pouco acima da humanidade.

O fenômeno não ocorre apenas com pessoas. Cidades frequentemente valorizam mais aquilo que chega de fora do que aquilo que nasceu dentro delas. Empresas contratam especialistas para descobrir conhecimentos que seus próprios funcionários já possuíam. Instituições convidam alguém de longe para dizer, com maior solenidade, aquilo que alguém ali dentro vinha repetindo havia anos. Às vezes uma ideia só se torna inteligente depois de viajar quilômetros. Em outras ocasiões, precisa ganhar um título, uma moldura ou um sotaque.

É possível que exista nisso também certo fascínio pelo desconhecido. Aquilo que está distante conserva o privilégio do mistério. Podemos imaginar grandeza onde não conhecemos os detalhes. Já aquilo que está próximo sofre com o excesso de informação. Sabemos demais. Talvez por isso o restaurante de outra cidade pareça melhor, o professor estrangeiro mais sábio, o especialista de fora mais competente e o artista que nunca encontramos pessoalmente mais fascinante. Não necessariamente porque sejam melhores. Apenas porque ainda não os vimos de chinelos.

Evidentemente, reconhecer a prata da casa não significa distribuir elogios por obrigação nem transformar proximidade em certificado de competência. Há prata que não é prata, assim como há santos que provavelmente fariam melhor se abandonassem a carreira dos milagres. Valorizar não significa bajular. Significa apenas não permitir que a familiaridade se transforme em cegueira.

Quem sabe  devêssemos, de vez em quando, experimentar olhar para aquilo que está perto com os mesmos olhos curiosos com que observamos aquilo que vem de longe? Examinar novamente as pessoas, as ideias e os talentos que o hábito tornou invisíveis. Porque o costume é uma espécie de poeira. Não destrói as coisas, apenas vai se depositando sobre elas até esconder seu brilho. Pode ser esse, afinal, o problema da famosa prata da casa. Ela continua sendo prata. Nós é que, de tanto vê-la sobre a mesa, esquecemos de fazê-la brilhar.

 

Edson Pinto

Outubro, 2026

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom! É isso mesmo