Durante
uma conversa entre amigos, ouvi alguém afirmar com absoluta segurança que
determinada pessoa do mundo político não era confiável. Perguntei por quê.
—
Ora, todo mundo sabe.
Confesso
que sempre fico intrigado quando encontro esse personagem chamado “todo mundo”.
Nunca fui apresentado a ele, não sei onde mora, desconheço sua profissão, mas é
impressionante a quantidade de informações que possui. Todo mundo sabe, todo
mundo comenta, todo mundo viu. E, quando todo mundo entra numa conversa,
geralmente a verdade já começa a procurar a porta de saída. Insisti um pouco.
—
Está bem, mas o que essa pessoa fez?
Meu
interlocutor hesitou. Não sabia exatamente. Tinha ouvido falar. Alguém lhe
contara. Talvez tivesse lido alguma coisa nas redes sociais. De qualquer
maneira, estava convencido. Foi então que me lembrei do velho Aristóteles e de
seu silogismo.
A
palavra parece complicada, dessas que costumam afastar o leitor antes mesmo que
ele descubra que já pratica aquilo todos os dias. Silogismo nada mais é do que
uma forma de raciocínio na qual duas premissas conduzem a uma conclusão. O
exemplo clássico atravessou os séculos.
Todos
os homens são mortais. / Sócrates é homem. / Logo, Sócrates é mortal.
Simples,
elegante e quase impossível de contestar. Se as duas premissas são verdadeiras
e o raciocínio está corretamente construído, a conclusão necessariamente também
será. O problema começa quando conservamos a elegância do raciocínio e
abandonamos o cuidado com as premissas.
Imaginemos
alguém dizendo que todos os habitantes de determinada cidade são mentirosos.
João nasceu nessa cidade. Logo, João é mentiroso. A construção pode até parecer
impecável. João, entretanto, talvez seja um sujeito incapaz de contar uma
mentira até para escapar de uma multa. O defeito não está necessariamente no
caminho percorrido pelo raciocínio. Está no lugar de onde ele partiu. E talvez
esteja aí uma das pequenas tragédias intelectuais do nosso tempo. Tornamo-nos
extraordinariamente rápidos para concluir e cada vez menos pacientes para
examinar as premissas.
Nas
redes sociais, isso acontece a todo instante. Uma frase é retirada de contexto,
uma fotografia aparece sem explicação, alguém reproduz uma informação cuja
origem desconhece e, poucos minutos depois, uma multidão já construiu certezas,
distribuiu culpas e pronunciou sentenças. A conclusão chega antes da
investigação.
Na
política, o fenômeno ganha proporções ainda maiores. Primeiro escolhemos quem
são os bons e quem são os maus. Depois organizamos os fatos para que caibam
nessa classificação. Se alguém pertence ao grupo de que gostamos, procuramos
razões para compreender seus erros. Se pertence ao grupo adversário, seus
acertos passam a exigir alguma explicação suspeita. O silogismo então sofre uma
curiosa transformação. Tudo o que vem do meu lado é bom. Esta proposta veio do
meu lado. Logo, esta proposta é boa. Ou, naturalmente, o inverso. Tudo o que
vem do outro lado é ruim. Esta ideia veio do outro lado. Logo, esta ideia é
ruim.
Aristóteles
provavelmente pediria a palavra. Não necessariamente para discutir a conclusão,
mas para fazer uma pergunta muito mais incômoda.
----
Quem provou a primeira premissa?
Talvez
seja justamente essa a pergunta que esteja faltando em muitas de nossas
conversas. Antes de concluir que alguém é culpado, perguntar de onde veio a
acusação. Antes de compartilhar uma notícia, verificar quem a publicou. Antes
de transformar uma impressão em certeza, descobrir se aquilo que tomamos como
ponto de partida é realmente verdadeiro. Parece pouco. Não é.
Grande
parte de nossos preconceitos também pode ser entendida dessa maneira. Primeiro
criamos uma generalização sobre um povo, uma profissão, uma geração, uma classe
social ou qualquer outro grupo. Depois encontramos uma pessoa pertencente
àquele conjunto e transferimos para ela tudo aquilo que havíamos decidido
antecipadamente. A pessoa ainda nem abriu a boca e nossa conclusão já está
pronta. Talvez o problema não seja a falta de inteligência. Pessoas muito
inteligentes também constroem raciocínios brilhantes sobre premissas frágeis.
Às vezes, aliás, quanto maior a inteligência, maior a habilidade para defender
aquilo em que já se decidiu acreditar.
Pensar
bem exige algo menos vistoso e provavelmente mais difícil. Exige a disposição
de desconfiar do próprio ponto de partida. Voltei então à conversa com meu
amigo.
—
Você disse que aquela pessoa não é confiável porque todo mundo sabe. Quem é
esse todo mundo?
Ele
riu.
—
Agora você complicou.
Talvez
eu tivesse mesmo complicado. Aristóteles tem esse inconveniente. Depois que
aprendemos a olhar para as premissas, algumas de nossas certezas começam a dar
trabalho. E talvez seja exatamente para isso que serve a lógica. Não para nos
ensinar a vencer discussões, mas para impedir que cheguemos corretamente a
conclusões erradas.
Edson Pinto
Outubro,
2026

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