2 de out. de 2026

391) A CONCLUSÃO JÁ ESTAVA LÁ

 

Durante uma conversa entre amigos, ouvi alguém afirmar com absoluta segurança que determinada pessoa do mundo político não era confiável. Perguntei por quê.

— Ora, todo mundo sabe.

Confesso que sempre fico intrigado quando encontro esse personagem chamado “todo mundo”. Nunca fui apresentado a ele, não sei onde mora, desconheço sua profissão, mas é impressionante a quantidade de informações que possui. Todo mundo sabe, todo mundo comenta, todo mundo viu. E, quando todo mundo entra numa conversa, geralmente a verdade já começa a procurar a porta de saída. Insisti um pouco.

— Está bem, mas o que essa pessoa fez?

Meu interlocutor hesitou. Não sabia exatamente. Tinha ouvido falar. Alguém lhe contara. Talvez tivesse lido alguma coisa nas redes sociais. De qualquer maneira, estava convencido. Foi então que me lembrei do velho Aristóteles e de seu silogismo.

A palavra parece complicada, dessas que costumam afastar o leitor antes mesmo que ele descubra que já pratica aquilo todos os dias. Silogismo nada mais é do que uma forma de raciocínio na qual duas premissas conduzem a uma conclusão. O exemplo clássico atravessou os séculos.

Todos os homens são mortais. / Sócrates é homem. / Logo, Sócrates é mortal.

Simples, elegante e quase impossível de contestar. Se as duas premissas são verdadeiras e o raciocínio está corretamente construído, a conclusão necessariamente também será. O problema começa quando conservamos a elegância do raciocínio e abandonamos o cuidado com as premissas.

Imaginemos alguém dizendo que todos os habitantes de determinada cidade são mentirosos. João nasceu nessa cidade. Logo, João é mentiroso. A construção pode até parecer impecável. João, entretanto, talvez seja um sujeito incapaz de contar uma mentira até para escapar de uma multa. O defeito não está necessariamente no caminho percorrido pelo raciocínio. Está no lugar de onde ele partiu. E talvez esteja aí uma das pequenas tragédias intelectuais do nosso tempo. Tornamo-nos extraordinariamente rápidos para concluir e cada vez menos pacientes para examinar as premissas.

Nas redes sociais, isso acontece a todo instante. Uma frase é retirada de contexto, uma fotografia aparece sem explicação, alguém reproduz uma informação cuja origem desconhece e, poucos minutos depois, uma multidão já construiu certezas, distribuiu culpas e pronunciou sentenças. A conclusão chega antes da investigação.

Na política, o fenômeno ganha proporções ainda maiores. Primeiro escolhemos quem são os bons e quem são os maus. Depois organizamos os fatos para que caibam nessa classificação. Se alguém pertence ao grupo de que gostamos, procuramos razões para compreender seus erros. Se pertence ao grupo adversário, seus acertos passam a exigir alguma explicação suspeita. O silogismo então sofre uma curiosa transformação. Tudo o que vem do meu lado é bom. Esta proposta veio do meu lado. Logo, esta proposta é boa. Ou, naturalmente, o inverso. Tudo o que vem do outro lado é ruim. Esta ideia veio do outro lado. Logo, esta ideia é ruim.

Aristóteles provavelmente pediria a palavra. Não necessariamente para discutir a conclusão, mas para fazer uma pergunta muito mais incômoda.

---- Quem provou a primeira premissa?

Talvez seja justamente essa a pergunta que esteja faltando em muitas de nossas conversas. Antes de concluir que alguém é culpado, perguntar de onde veio a acusação. Antes de compartilhar uma notícia, verificar quem a publicou. Antes de transformar uma impressão em certeza, descobrir se aquilo que tomamos como ponto de partida é realmente verdadeiro. Parece pouco. Não é.

Grande parte de nossos preconceitos também pode ser entendida dessa maneira. Primeiro criamos uma generalização sobre um povo, uma profissão, uma geração, uma classe social ou qualquer outro grupo. Depois encontramos uma pessoa pertencente àquele conjunto e transferimos para ela tudo aquilo que havíamos decidido antecipadamente. A pessoa ainda nem abriu a boca e nossa conclusão já está pronta. Talvez o problema não seja a falta de inteligência. Pessoas muito inteligentes também constroem raciocínios brilhantes sobre premissas frágeis. Às vezes, aliás, quanto maior a inteligência, maior a habilidade para defender aquilo em que já se decidiu acreditar.

Pensar bem exige algo menos vistoso e provavelmente mais difícil. Exige a disposição de desconfiar do próprio ponto de partida. Voltei então à conversa com meu amigo.

— Você disse que aquela pessoa não é confiável porque todo mundo sabe. Quem é esse todo mundo?

Ele riu.

—   Agora você complicou.

Talvez eu tivesse mesmo complicado. Aristóteles tem esse inconveniente. Depois que aprendemos a olhar para as premissas, algumas de nossas certezas começam a dar trabalho. E talvez seja exatamente para isso que serve a lógica. Não para nos ensinar a vencer discussões, mas para impedir que cheguemos corretamente a conclusões erradas.

 

Edson Pinto

Outubro, 2026

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