17 de jun. de 2009

84) CUZCUZ FILOSÓFICO

A intelectualidade brasileira, por mais que sejamos otimistas, já perdeu a batalha pela redução do apedeutismo, isto é, do despreparo funcional e intelectual de tanta gente que teria a nobre tarefa de conduzir, com liderança exemplar, o destino de nosso país. Disso não tenho a menor dúvida...

Não bastasse o presidente com suas quase-lógicas que não respeitam a inteligência das pessoas minimamente esclarecidas, dilacera a cada uma de suas inúmeras performances discursivas o nosso já tão sofrido idioma pátrio, somos, ainda, forçados a conviver com mil outras afrontas intelectuais no dia-a-dia. Senão vejamos:

Em recente avaliação dos professores do primeiro grau em São Paulo, de 100 mil avaliados, 1.500 tiraram nota zero. Outros 40 mil tiraram notas inferiores à média. Deveriam ser imediatamente eliminados do sistema público de ensino, no entanto, por força de liminares obtidas da Justiça, continuam fingindo que ensinam e recebendo seus salários. Isto explica a horrorosa classificação que nossos estudantes obtêm nas avaliações internacionais. Quem paga essa brincadeira? Nós! Porque seremos forçados a levar nossos filhos para as caras escolas particulares ou nossos filhos não terão formação adequada e ficarão à margem dos bons empregos que exigem capacitação de melhor nível.

Dos candidatos a cerca de 5,5 mil prefeituras no último pleito de 2008, mais de 300 sofreram processos de impugnação por motivos vários, incluindo o de serem considerados funcionalmente analfabetos. Não dá para imaginar que num mundo de tantas informações e avançadas tecnologias alguém que careça da formação escolar mínima possa bem conduzir uma comunidade, seu orçamento e liderar aglomerados humanos. Se não ligamos para a política por que nos preocupar com isso? Maus administradores malversam os recursos públicos e deixam de construir boas escolas, boas estradas, bons hospitais. Entende?

A Rede Globo que domina o sistema televisivo do país há anos é capaz de pagar um salário (pasmem!) de R$5 milhões por mês ao mais pernóstico de todos os apresentadores que a TV brasileira já produziu. Faustão que é maldosamente irônico, culturalmente limitado, repetitivo, chato e que mais se adequaria ao seu passado de repórter de campo do futebol, trabalhará, segundo o contrato recentemente renovado, 3 horas por semana durante o domingo sagrado dos brasileiros falando besteiras sem limite e ainda faturando R$5 milhões a cada mês. Pode? Pode sim, infelizmente! Os anúncios aumentarão seus preços, os anunciantes repassarão esse custo para os preços dos produtos e serviços que vendem e nós, que os compramos, financiaremos as baboseiras do Faustão.

Nesse tenebroso contexto tudo pode acontecer e ser assimilado com a mais absoluta tranqüilidade pelo povão. Uma besteira, desde que dita por um uma figura de projeção midiática, logo passa a ter valor. Pobre de nossa gente e triste o futuro de nossas próximas gerações!

No colóquio político filosófico recentemente ocorrido na casa de Marta, ex-Suplicy, tanto ela como nossa possível futura presidente, Dilma Rousseff, as eruditas Adriana Galisteu e Ana Maria Braga parecem deslumbradas com a profundidade das idéias sociopolíticas da genial Luciana Gimenez, como se vê na foto que ilustra este texto.

Ah! Notícias posteriores nos dão conta de que Luciana Gimenez conseguia, naquele momento registrado para a posteridade, prender com tamanha destreza a atenção de tão ilustres próceres da vanguarda feminina brasileira para externar que o “cuzcuz estava muito gostoso”.

Oh tempora! Oh mores! (Oh tempos! Oh costumes!)


Edson Pinto
Junho’09

10 de jun. de 2009

83) SÓ COM MAGIA NEGRA


Ainda hoje, muita gente por esse mundo afora acredita poder realizar seus desejos, causar males a seus inimigos ou até mesmo conseguir um amor racionalmente impossível pelo uso da magia, da feitiçaria.

Desde o mundo grego, adentrando o Império Romano, cruzando toda a Idade Média e ainda presentes nos nossos dias, feitiços e fórmulas mágicas que desafiam a racionalidade são recursos utilizados com o intuito de se atingir algum propósito. Mesmo quando meios concretos podem levar ao sucesso, tem gente que prefere o caminho do sobrenatural.

Por isso, mesmo sabedor que era da impossibilidade, no mundo real, quis eu ficar invisível e assim poder permanecer quietinho nas salas do Planalto para me inteirar do que aquelas cabeças criativas andavam matutando com vistas à viabilização do terceiro mandato de Lula. Não só para o júbilo dele próprio, Lula, é claro, mas para que continuassem acomodando por mais 4 anos, no mínimo, toda a turma que já houvera moldado seus beiços às formas peculiares das tetas da mãe pátria.

Nem me passou pela cabeça usar os recursos do delegado Protógenes de grampear todo o mundo. Isso daria muito trabalho e além do mais, concluí, a turma está arisca e anda fugindo de telefone como o diabo foge da cruz. Alternativamente, fui buscar em velhos livros das ciências ocultas dos magos de antanho uma fórmula que me tornasse invisível. Procedi, então, conforme lá ensinado: “misture um olho de macaco, uma flor de peônia em azeite de violeta e amasse da direita para a esquerda. Faça uma unção na testa com a tal mistura e pronto, ficará invisível”.

Minha mulher nem me viu sair de casa, senão teria pedido para trazer pão na volta; Ninguém me viu entrar no "Aerolula" que encontrei reluzente e festivo em Congonhas. Lá dentro, sorvi champanha da melhor qualidade e caviar fresco sem que ninguém percebesse. Também, o suprimento era farto como nunca antes na história deste país.

Em Brasília nem precisei pegar um taxi. Invisível que era, entrei no carro de Michael Temer que naquela instante ajustava proa no sentido do Palácio para importantes negociações com a cúpula do governo sobre o 3º mandato. Já começava a me sentir bem informado acompanhando – sempre invisível, é claro – algumas conversas de Temer com seus assessores. Vi papéis que registravam números inteiros seguidos da letra M, maiúscula, que logo entendi referir-se a mega ou milhões. Assim, 40M significava 40 milhões. Nomes vários; siglas de diversos partidos políticos; CNPJ’s de empresas estatais e nomes de muitas construtoras. Algumas conhecidas. Outras com nomes apenas seguidos das letras “ASC” que mais adiante entendi como sendo “a ser criada”. Isto é, a construtora ainda nem existia, mas já fazia parte da lista de contribuintes.

Quase cometi a audácia de sair do carro carregando a pasta do Temer. Contive-me a tempo, pois o sobrenatural fato de uma pasta flutuar sozinha certamente mexeria com os miolos do nobre deputado, e aí, tudo o mais poderia acontecer. Entrei com ele na mesma sala. Quanta gente importante estava lá, confabulando, calculando, trocando papeizinhos em que constavam números de contas bancárias, apelidos de doleiros, nomes de paraísos fiscais e listas de afilhados seguidos dos cargos que pleiteavam em importantes estatais!

Após gentis negociações entre as partes, e não poderia ser diferente, pois quem pagava a conta de todas as concessões não estava lá, ou seja o povo, o chefão de todos bate o martelo – modo simpático de dizer – pois, na verdade, bate os quatro dedos de sua mão esquerda sobre a mesa, dizendo: Combinado, então, companheiros! Ao saírem, não se esqueçam de dizer que estávamos discutindo como o ministro Jobim terá que convencer os franceses da nossa astúcia em usar uma sonda da Petrobrás para encontrar a caixa preta do AF447, tal qual eu já prometi. Ora, quem acha petróleo a 6000 metros de profundidade, no pré-sal, não vai encontrar uma caixa preta a 4000 bem no meio do sal? Insistam nisso! Certo, companheiros?

A essa altura, confesso, já tinha me arrependido de ser invisível, ouvindo tudo aquilo sem poder ao menos, também, garantir um pequenino naco que fosse daquela ampla e ilimitada distribuição de gentilezas pelo apoio ao 3º mandado.

A turma toda troca os risinhos marotos por caras de homens sérios e sai pelos corredores do Palácio circunspectos. Declaram aos microfones da imprensa suas tristezas pelas mortes do trágico acidente aéreo, mas afirmam, quase em lágrimas, que o governo está fazendo o possível para que, em breve, Nelson Jobim entregue a caixa preta do Airbus desaparecido, bem como a transcrição das mensagens dos pilotos captadas pelos sistemas de escutas da ABIN e da Polícia Federal.

Sem mais o que descobrir, enfio a mão no bolso e leio as instruções para voltar a ser visível, isto após ter caminhado do pôr-do-sol até o amanhecer quando, então, a fórmula mágica seria pronunciada:

“Marmariaotb marmaipbengue, faça-me visível para os homens ao meio-dia de hoje, já, já, pronto, pronto”
Agora que sei que o 3º mandato já está encomendado, só me resta aplicar outro dos ensinamentos de magia para tentar matar essa pretensão. É o que ela me orienta: “pegue uma placa de chumbo e escreva nela com um estilete de bronze a expressão “3º mandato”, unja tudo com sangue de morcego; abra o ventre de um sapo e coloque-a dentro; costure com fio de anúbis e uma agulha de bronze. Enterre-o numa vala aberta no Paranoá junto com pelos da ponta do rabo de uma vaca negra. Ao leste desse lugar, perto do amanhecer, pronuncie estas palavras”:

“Senhores anjos, da mesma forma que esse sapo se abre e seca, assim também o 3º mandato os conjura a vós, os que estão acima do fogo...”

Edson Pinto
Junho’09

4 de jun. de 2009

82) O ATENEU DOS MALANDROS

A personalidade controvertida do escritor Raul Pompéia, considerado um dos principais nomes do Realismo literário brasileiro, levou a sua própria vida a extremos inusitados:

Primeiro, devido a uma rixa intelectual com Olavo Bilac, desafia-o a um duelo armado. Isso decorre no bojo da escalada de ofensas pessoais entre ambos quando o grande poeta torna publico o fato de que Raul Pompéia tinha como hábito se “masturbar às altas horas da noite, numa cama fresca e à meia-luz da lamparina mortiça, enquanto recordava amoroso e sensual, todas as beldades que vira durante o dia”.

Que maldade!

O duelo só não se consumou porque o árbitro da luta em eficiente mediação consegue que ambos os desafetos desistam, na hora H, de tamanha insanidade. Trocam um aperto de mãos e dão o episódio por encerrado.

Não muito tempo depois, aos 32 anos, no Natal de 1895, o irrequieto escritor suicida-se, deixando uma obra literária importante com tonalidades que o aproximava do estilo impressionista. É de Raul Pompéia a obra “O Ateneu” que todo amante da língua portuguesa deveria ler. A propósito, ateneu é o local público onde na Grécia antiga lia-se obras literárias. Pode significar também academia ou local de ensino. No caso deste romance, refere-se ao nome do colégio que o personagem freqüenta no Rio de Janeiro de fins do século XIX.

Quero pegar desse episódio apenas a face irrequieta e defensiva do escritor para relacioná-la com figuras muito comuns nos dias de hoje. Aliás, personalidades com sensibilidade extremada como as de Raul Pompéia inundam o nosso cotidiano. Masturbam-se ou não, isso não me interessa. Interessa, sim, constatar que bravateiros ferozes continuam desafiando com absoluta desenvoltura a todos aqueles que lhes apontam comportamentos escusos.

A governadora do Rio Grande do Sul, estado de rica história e de enorme peso no cenário nacional, Yeda Crusius, ao ser confrontada com uma séria e bem documentada acusação de que lançara mão de doações de campanha para benefício pessoal, resolve contra-atacar na mais típica forma de duelo: Desafio a provarem o que estão falando! Processarei quem me acusa! Nunca fiz nada de errado e coisas do gênero...

Marcelo Cavalcante, seu ex-assessor que misteriosamente morreu nas águas do Paranoá, em Brasília, e que seria o pivô das acusações, é, por razões óbvias, carta fora do baralho. Os interesses partidários locais conduzem à manutenção da governadora até o final de seu mandato independente da apuração da verdade sobre o caso. Usou dinheiro da campanha? Comprou uma casa com tal dinheiro? Isto tudo não tem a menor importância para aqueles que só pensam em defender o seu próprio interesse. Esse caso nos cheira a Celso Daniel e a outros que o tapete da pátria amada ultimamente tem escondido com tanta freqüência e naturalidade.

O duelo de Raul Pompéia não chegou a acontecer, embora a figura irrequieta do polêmico escritor o tenha levado ao extremo ato de tirar a própria vida. Mas, convenhamos, isso ocorreu nos tempos em que masturbar-se à meia-luz de uma “veilleuse” mortiça era coisa muito séria...

Edson Pinto
Junho’ 2009

28 de mai. de 2009

81) FLOR DE ESTAMPA

Segundo a Numismática, área do conhecimento humano que se ocupa do estudo das cédulas, moedas e medalhas, o termo “flor de estampa” é aplicado para designar uma cédula completamente preservada. O papel da qual é feita apresenta-se absolutamente limpo, não descorado e firme. Além disso, não exibe vestígios de dobras ou outras evidências de manuseio impróprio. Em suma, uma preciosidade para colecionistas.

Assim era Verinha quando apareceu pela primeira vez desfilando graciosa em frente ao boteco do Chico naquele final de tarde de uma sexta-feira de verão. Uma nova garota de Ipanema agora na cor canela. O vozerio perturbador que normalmente ressoava do boteco - como por encanto - cai momentaneamente a decibéis compatíveis com o exigido em corredores hospitalares.

Olhares múltiplos, sedentos, curiosos e avermelhados de desejos convergem para aquela deusa, novinha, totalmente preservada, sem vestígios de dobras ou manuseio impróprio, verdadeira flor de estampa.

Obrigado meu Deus! Exclamaram vários em uníssono. Que Deus era brasileiro todos nós já sabíamos, mas que Ele agora também decidira mandar-nos um presente como esse, aí já é demais... Humildemente, confessa Valtão, nada fizemos por merecer, mas, já que os céus nos foram tão generosos não nos resta alternativa a não ser aceitá-lo de bom grado.

Verinha triscou o salto de sandália de tiras vermelhas ao mesmo tempo em que lançou para o boteco seu olhar de feitiço, enlouquecedor, mas vago, de propósito. Contornou a palmeira da calçada, testemunha silenciosa daquele instante mágico, e flutuou com passos graciosos atravessando a rua ao mesmo tempo em que corações batiam mais fortes e assovios mil irrompiam do boteco quebrando o silêncio efêmero que ela mesma provocara.

__ Você viu Valtão? __ Claro que vi Nenê! __ E como não haveria de notar tamanha formosura? Estou arrepiado, apaixonado. Preciso saber quem é ela; de onde veio; o que faz aqui e até mesmo se posso ter uma chance. Vou atrás! Disse Valtão, enquanto iniciava o trote que o colocaria próximo da deusa. Coragem e iniciativa eram características marcantes da personalidade de Valtão. O boteco inteiro postou-se ansioso a espera do resultado.

Inteiramente anuviado Valtão retorna ao boteco pouco tempo depois. __ E aí Valtão o que aconteceu? Não deu certo? Ela já tem dono? __ Nada disso gente. Falei com ela. Ela não tem dono. Gostou de mim e até quis ficar comigo. __ E por que isso já não aconteceu de imediato Valtão? __ Caras! Lembram-se do Astolfo, aquele pretinho bom de bola que morava na rua de baixo? Pois é, cresceu, fez plásticas várias, assumiu-se de vez e agora se chama Verinha.

Definitivamente não dá!

Edson Pinto
Maio’ 2009

22 de mai. de 2009

80) VIVANDEIRAS ALVOROÇADAS


“... São as vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar"
Atribui-se ao Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente do período militar, essa frase tão emblemática quanto vigorosa, tomado, evidentemente, as circunstâncias políticas da época.

Quando ele a pronunciou em histórico discurso ao Estado Maior do Exército, em agosto de 1964, quis metaforicamente chamar a atenção de seus pares para o fato de que vivandeiras, que o Aurélio nos define como sendo vendedoras de mantimentos que seguem a marcha das tropas para abordá-las nos bivaques, áreas de seu estacionamento, e aí tirar proveito das condições reinantes.

Felizmente, o regime militar já terminou há considerável tempo, mas as vivandeiras que, tal como as baratas que podem sobreviver até a hecatombes nucleares, ainda estão acompanhando o poder. Agora, não mais o militar, mas quaisquer outros que se estabeleçam, desde que deles se possam tirar proveitos egoísticos.

Lula fora, antes e no início de seu primeiro mandato, olimpicamente desdenhado pelas elites, termo, por sinal, que ele, Lula, adora mencionar, principalmente quando precedido da preposição “de” conjugado com o artigo no plural “as” naquela forma que agrada em cheio ao populacho: dazelites.

“Azelites”, portanto, são capazes de tudo até de apoiar um inconstitucional 3º mandado para Lula, a partir, simplesmente, do ainda prematuro desassossego provocado pela doença da candidata do planalto, Dilma Rousseff. A ministra, mal tendo começado o tratamento médico que, como tudo indica, será coroado de êxito, já, tristonha, vislumbra das janelas do Palácio a chegada das vivandeiras que articularão extravagâncias, de forma alvoroçada, com os granadeiros que se refestelam nos bivaques de Brasília.

Não vem ao caso discutir se Lula fez um bom governo ou não. O importante é que a tentação do continuísmo não venha a nos conduzir pelos mesmos maus caminhos trilhados pela nova safra de ditadorzinhos que surge com grande ímpeto na América Latina de nossos dias. Todos nós sabemos muito bem quem eles são...

A alternância de governo é benéfica sob todos os aspectos que se queira considerar. A máxima popular de que “em time que está ganhando não se deve mexer” não se aplica adequadamente à política. Nada pior para um país do que um longo período sob o comando de uma mesma turma.

A História está repleta de exemplos de que isso é verdade. Para não ser longo, mirem-nos nos exemplo de Cuba, no Franquismo, no Salazarismo, nas monarquias absolutistas de passado, no Peronismo e até mesmo no nosso militarismo de duas décadas. Começam bem, depois se degradam...

Até dois mandados de 4 anos cada, como temos, parece ser a fórmula ideal. Não devemos mexer nisso.

Edson Pinto
Maio’2009

15 de mai. de 2009

79) LABIRINTO DA ALMA


Miguel praguejou o sol que penetrava brilhante pela fresta da janela do quarto e aquecia seu rosto. Xingou qualquer um porque algo não estava no lugar de sempre. Depois, maldisse a vida porque o café não lhe apetecia. Até faísca, o cãozinho dócil e ansioso por carinho, é olimpicamente menosprezado.

E olha que o dia estava apenas começando. Dormiu mal? Problemas novos remoídos ao longo da noite tiraram-lhe o sono e agora o seu humor? Não! Esse era o natural de Miguel. Difícil criar condições que o tornasse mais sociável, alegre externamente e participativo. Amélia sabia tanto disso que já havia decidido nunca mais tentar alterar aquilo que era inerente e imutável em seu marido. Era uma questão de saber entendê-lo. E assim, simplificou a sua militância familiar...

Mas Miguel compensava seu gênio arredio e permanentemente abrutalhado com o trabalho duro no próspero negócio que ele mesmo tinha construído. Era o que se chamava de um verdadeiro "pé-de-boi". Materialmente, não faltava nada em sua casa. Aos filhos provia-lhes, sem não antes aplicar reprimendas rigorosas, com o mais moderno vídeo game, o computador possante com acesso à Internet, tênis da moda e tudo o mais que os envaidecia possuir. As freqüentes brutalidades com Amélia eram recompensadas com jóias e vestidos novos. Tinha orgulho de dizer que trabalhava muito, sempre pensando nos filhos e na sua esposa.

Amélia nunca deixara de reconhecer a tenacidade laboral de seu marido e fartava-se ao elogiá-lo. Mas, no fundo de seu coração, sentia muita falta de um pouco de alegria em sua casa. Nem se importava, pensava intimamente, com menos bens materiais, desde que também pudessem, todos, rir com mais freqüência e ter de seu marido um pouco mais de atenção e carinho. Esse modelo, contudo, não se encaixava no perfil do tosco Miguel, e assim continuou inalterado.

Um dia, Miguel, ao cabo de impetuosa faina e de tanto se amargurar com tudo, com todos e por motivos incompreensíveis, viu-se privado de boa saúde. O humor que já era ruim piorou. Amélia ainda tentou repetir a velha pregação: “A falta da felicidade interna, Miguel, atrai doença e nos rouba o vigor”. Mesmo dizendo concordar, Miguel não conseguia ser diferente. Estava nele, estava no labirinto da alma confusa que o destino lhe dera, aquele enigma até agora e para todo o sempre, indecifrável.

Amélia quedou-se triste e conformada, perguntando a si mesma: Quem sabe não é assim que ele se sente feliz?

Edson Pinto
Maio’2009

8 de mai. de 2009

78) O ENIGMA DE CAPITU




Em Dom Casmurro, famoso romance daquele que é considerado um dos maiores escritores em língua portuguesa, o brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis, Bentinho, narrador-protagonista da história, prende de tal forma a atenção do leitor que, ao final, nem nos importamos muito em entender se ele fora ou não traído pela sua amada Capitu. O prazer propiciado pela trama e ímpar estética literária do irrepreensível escritor já nos recompensa plenamente a leitura.

Só mesmo um mestre na arte das palavras como Machado de Assis para tornar tão interessante - neste caso na forma da valiosa ficção romanceada - um dos aspectos mais notáveis da mente humana: O “enigma”, esse enunciado obscuro, quase sempre de propósito e cheio de ambigüidades, misterioso e indistinto que aguça nossa vontade de desvelamento. Somos movidos pela curiosidade. O prazer de decifrar uma charada, entender e rir de uma piada, descobrir um segredo, enfim, desnudar um enigma, tem sido ao longo dos tempos o motor da raça humana.

E tem, verdadeiramente, muito sentido que as coisas sejam assim. Mal começamos a nos dar por gente e já nos suscita o desejo de compreender o incompreensível. Os mistérios da criação, da infinitude do universo, da razão da vida, do pós-vida terrena e tudo o mais que vai nos instigando a cada dia que passa. Somente os néscios não mostram interesse pelo esclarecimento do desconhecido. Por outro lado, aqueles que se aguçam no observar da vida querem, cada vez mais, a aproximação ao cerne do enigma, extraindo-lhe a verdade.

Tudo dito desta forma pode até parecer que aceito como normal a xeretagem dos bisbilhoteiros de fé, essa nova praga da vida nacional. E o pior é quando tudo isso visa a apenas a obtenção da notoriedade fugaz propiciada pela exposição midiática. Sou assim forçado a dar razão a Andy Warhol, o reinventor da “pop art”, ao identificar o desejo de todos pelos míseros 15 minutos de fama. Ao contrário, compadeço-me daqueles que não medem esforços para cumprir a rigor tal vaticínio.

O que temos visto no Brasil de hoje, parece-me facilmente enquadrado nessa louca sanha em busca da notoriedade. À parte o ultrapassado viés ideológico dessa nova turma ocupante de funções constitucionais da maior importância, como a Justiça, o Ministério Público, a Polícia Federal e tantos outros órgãos de responsabilidades, ficam-nos a impressão de que, mais importante do que a nobre missão do cargo, encontra-se o desfrute da oportunidade de concretização dos 15 minutos de fama. Obtido isso, ótimo, agora cabe a quem teve a vida bisbilhotada a tarefa de provar que não mereceu o veneno da insidiosa flecha. Do sagrado direito de defesa fazem detalhes de somenos importância e, com isso, da honra, não mais virtude, senão um pormenor, uma minudência.

Há, sim, algo de podre aqui, tal qual no reino da Dinamarca. Não precisamos apossar do Hamlet de Shakespeare para ver muita semelhança com a nossa realidade. Algo de muito errado está grassando também nesta terra de Machado de Assis e isso poderia ser considerado, de fato, um enigma. Senão, respondam:

1) Por que um delegado destrambelhado como o Protógenes que ora diz uma coisa ora outra; um promotor com cara de adolescente mal saído da faculdade; uma juíza que decide hoje já sabendo que amanhã seu ato será reformado pela instância superior, tudo, tudo sob os holofotes da mídia, podem, impunemente, assumir posturas de justiceiros, quando o julgamento legal ainda está por acontecer?

2) Por que as investigações não seguem com seriedade e cautela convocando pessoas suspeitas para depoimentos preliminares sem a necessidade de convocação da imprensa?

3) Por que não atuam preventivamente nos órgãos de fiscalização, preferindo deixar as coisas acontecerem para, em seguida e com o apoio da TV, fazerem prisões espetaculosas com duração, em geral, curtíssimas?

É claro que todos nós queremos um país mais limpo e transparente. Não queremos ver empresários gananciosos burlando o fisco. Não queremos que a enorme carga tributária que já nos sufoca de algum tempo sirva para pagar propinas, sustentar na folha de pagamento do Congresso, funcionários fantasmas, nem vermos mais dólares em cuecas, muito menos castelos medievais construídos com recursos escusos. Gostaríamos, contudo, que os responsáveis pelas investigações, em nome da boa justiça, evitassem tirar proveito pessoal e inconseqüente como hoje andam fazendo.

Se Capitu traiu ou não Bentinho é um enigma que aceitamos manter insolúvel, porque nasceu da mente de um ficcionista impecável para o propósito tão somente de nos deleitar a imaginação. Mas, não podemos conviver com esse novo enigma que reveste a realidade da vida nacional. Essas atitudes evocam-nos lembranças históricas de estados policialescos coveiros da democracia. E isso, nunca mais...

Edson Pinto
Maio’09

1 de mai. de 2009

77) ALMA DE COWBOY


Em Dom Casmurro, famoso romance daquele que é considerado um dos maiores escritores em língua portuguesa, o brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis, Bentinho, narrador-protagonista da história, prende de tal forma a atenção do leitor que, ao final, nem nos importamos muito em entender se ele fora ou não traído pela sua amada Capitu. O prazer propiciado pela trama e ímpar estética literária do irrepreensível escritor já nos recompensa plenamente a leitura.

Só mesmo um mestre na arte das palavras como Machado de Assis para tornar tão interessante - neste caso na forma da valiosa ficção romanceada - um dos aspectos mais notáveis da mente humana: O “enigma”, esse enunciado obscuro, quase sempre de propósito e cheio de ambigüidades, misterioso e indistinto que aguça nossa vontade de desvelamento. Somos movidos pela curiosidade. O prazer de decifrar uma charada, entender e rir de uma piada, descobrir um segredo, enfim, desnudar um enigma, tem sido ao longo dos tempos o motor da raça humana.

E tem, verdadeiramente, muito sentido que as coisas sejam assim. Mal começamos a nos dar por gente e já nos suscita o desejo de compreender o incompreensível. Os mistérios da criação, da infinitude do universo, da razão da vida, do pós-vida terrena e tudo o mais que vai nos instigando a cada dia que passa. Somente os néscios não mostram interesse pelo esclarecimento do desconhecido. Por outro lado, aqueles que se aguçam no observar da vida querem, cada vez mais, a aproximação ao cerne do enigma, extraindo-lhe a verdade.

Tudo dito desta forma pode até parecer que aceito como normal a xeretagem dos bisbilhoteiros de fé, essa nova praga da vida nacional. E o pior é quando tudo isso visa a apenas a obtenção da notoriedade fugaz propiciada pela exposição midiática. Sou assim forçado a dar razão a Andy Warhol, o reinventor da “pop art”, ao identificar o desejo de todos pelos míseros 15 minutos de fama. Ao contrário, compadeço-me daqueles que não medem esforços para cumprir a rigor tal vaticínio.

O que temos visto no Brasil de hoje, parece-me facilmente enquadrado nessa louca sanha em busca da notoriedade. À parte o ultrapassado viés ideológico dessa nova turma ocupante de funções constitucionais da maior importância, como a Justiça, o Ministério Público, a Polícia Federal e tantos outros órgãos de responsabilidades, ficam-nos a impressão de que, mais importante do que a nobre missão do cargo, encontra-se o desfrute da oportunidade de concretização dos 15 minutos de fama. Obtido isso, ótimo, agora cabe a quem teve a vida bisbilhotada a tarefa de provar que não mereceu o veneno da insidiosa flecha. Do sagrado direito de defesa fazem detalhes de somenos importância e, com isso, da honra, não mais virtude, senão um pormenor, uma minudência.

Há, sim, algo de podre aqui, tal qual no reino da Dinamarca. Não precisamos apossar do Hamlet de Shakespeare para ver muita semelhança com a nossa realidade. Algo de muito errado está grassando também nesta terra de Machado de Assis e isso poderia ser considerado, de fato, um enigma. Senão, respondam:

1) Por que um delegado destrambelhado como o Protógenes que ora diz uma coisa ora outra; um promotor com cara de adolescente mal saído da faculdade; uma juíza que decide hoje já sabendo que amanhã seu ato será reformado pela instância superior, tudo, tudo sob os holofotes da mídia, podem, impunemente, assumir posturas de justiceiros, quando o julgamento legal ainda está por acontecer?

2) Por que as investigações não seguem com seriedade e cautela convocando pessoas suspeitas para depoimentos preliminares sem a necessidade de convocação da imprensa?

3) Por que não atuam preventivamente nos órgãos de fiscalização, preferindo deixar as coisas acontecerem para, em seguida e com o apoio da TV, fazerem prisões espetaculosas com duração, em geral, curtíssimas?

É claro que todos nós queremos um país mais limpo e transparente. Não queremos ver empresários gananciosos burlando o fisco. Não queremos que a enorme carga tributária que já nos sufoca de algum tempo sirva para pagar propinas, sustentar na folha de pagamento do Congresso, funcionários fantasmas, nem vermos mais dólares em cuecas, muito menos castelos medievais construídos com recursos escusos. Gostaríamos, contudo, que os responsáveis pelas investigações, em nome da boa justiça, evitassem tirar proveito pessoal e inconseqüente como hoje andam fazendo.

Se Capitu traiu ou não Bentinho é um enigma que aceitamos manter insolúvel, porque nasceu da mente de um ficcionista impecável para o propósito tão somente de nos deleitar a imaginação. Mas, não podemos conviver com esse novo enigma que reveste a realidade da vida nacional. Essas atitudes evocam-nos lembranças históricas de estados policialescos coveiros da democracia. E isso, nunca mais...

Edson Pinto
Maio’09