12 de nov. de 2011

186) DILMA, EU TE AMO!


Quando ao final de 2010 Lula se despediu dos seus oito anos de governo, fiquei triste. Não que morresse de amores pelo líder sindical - inteligente, é verdade - que soube como ninguém surfar a onda de prosperidade que Papai do Céu concedeu ao Brasil justo no período em que ele, Lula, se encontrava instalado no poder. Bom para o destino do País, melhor ainda para a democracia que comprovou de forma inequívoca o seu preceito maior de igualdade e oportunidade para todos. A minha tristeza foi mais pelo fato de termos perdido uma das mais ricas fontes da qual se servem os cronistas do cotidiano. Lula oferecia vários episódios hilários, alguns esdrúxulos, diversos carentes de base ética e até mesmo outros totalmente desprovidos de bom senso, prato cheio para a crônica política.

Sem Lula e agora como uma presidente séria, compenetrada, um tanto avessa aos espalhafatos midiáticos que bem o caracterizava pensei: doravante, somente análises sisudas e por isso com poucas chances de propiciar diversão, objetivo maior de quem escreve descompromissadamente, como eu. Subestimei - confesso - a capacidade do ex-presidente de deixar o seu DNA no governo. Não o deixou na pessoa de Dilma, a nova presidente, mas sim e com grande intensidade em expressiva parcela do ministério que legou à sua sucessora. Com um ministro caindo a cada 45 dias, por motivos os mais invulgares, minha tristeza acabou!

A herança maldita de Lula para Dilma concentra-se no seu ministério. Seis dos herdados já limparam as gavetas. Um deles, Nelson Jobim, ministro da Defesa, saiu pelo motivo que toda a Nação já conhecia: seu agigantado ego, maior do que o seu próprio físico. Os demais, cinco até agora, saíram pelo motivo que mais representa a imagem do modo petista de se fazer política, ou seja, avançando impiedosamente na burra do erário para satisfazer planos dos partidos políticos da base de apoio e - porque ninguém é de ferro - também os próprios bolsos.

Alfredo Nascimento (Transportes), Antonio Palocci (Casa Civil), Wagner Rossi (Agricultura), Pedro Novais (Turismo), Orlando Silva (Esportes) e agora na marca do pênalti o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Este, falastrão, de gestos arroubados a ponto de um dia dizer que “só a bala sairia do ministério” e no outro aviltar a mais nobre de todas as declarações que um ser humano deveria fazer. A de que se ama alguém. Neste caso, seja lá o que o ministro quis dizer, ficam dúvidas enormes quanto à credibilidade do que fala.

Tanto apego ao cargo de ministro que, como sabido, tem remuneração muitíssimo inferior à de um Executivo de nível equivalente na iniciativa privada, fica-se a impressão de que existem outras causas a justificar tamanha vontade de permanecer no cargo. Especula-se que pode ser o desejo de se cumprir o nobre objetivo de servir a sociedade; poderia ser ainda a inata busca humana pelo poder; a ganância desmesurada pelo vil metal que o gigantesco estado brasileiro acumula vorazmente ao praticar uma das maiores cargas tributárias do mundo, ou quem sabe, pelo menos no caso de Carlos Lupi, o seu verdadeiro amor pela presidente. Afinal, como nos ensinou Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Edson Pinto

Novembro’2001

5 de nov. de 2011

185) Homo sapiens
















Cem mil anos, despida de qualquer outra ambição,
Nossa espécie, neste mundo em luta ferrenha
Contra pestes e guerras na pedra a história desenha
Valente, até que, em 1800, atinge seu primeiro bilhão

Pouco mais de um século, em 1930, sem grande alarido
É dobrado. Em 1974, quatro bilhões e no mesmo contexto
O planeta recebe em 1987 o quinto e em 1999 o seu sexto
Bilhão de almas com claros sinais de já se fazer exaurido.

Chegando em 31 de outubro deste 2011 ao sétimo bilhão
Ficamos perplexos quanto ao que nos espera o futuro
Já com ameaças às vidas do céu da terra e do mar

Em 2024 quando o oitavo vier, será que teremos ou não
Tornado nosso pobre planeta sustentável e maduro,
Para uma vida digna a toda essa gente poder entregar?


Edson Pinto

31/10/2011

29 de out. de 2011

184) ERA FELIZ E NÃO SABIA

“Dei uma sumida”, como dizemos lá em Minas. Emendei a semana do feriado de Nossa Senhora Aparecida para ir às Alterosas, sem computador, sem Internet, e, na seguinte, dediquei-me intensamente à tarefa de colocar em dia vários temas importantes que a mim tocam em decorrência da vida comunitária a qual faço parte. Por essa razão, duas semanas sem publicar nada de novo no meu blog. Sei que isso não fez falta a ninguém, mas incomoda-me, pessoalmente, passar um tempo longo sem registrar parte do turbilhão de lucubrações que me ocupam as noites e mesmo os dias...

É exatamente sobre isto que quero falar hoje: No meu último texto publicado, fiz referência ao grande gênio da informática que havia falecido justo naqueles dias, Steve Jobs. Sua mente privilegiada e inovadora fez brotar soluções que facilitaram em muito o nosso relacionamento com o mundo moderno. Não fosse, por exemplo, a maneira amigável que ele adotou via as interfaces gráficas entre o humano e a máquina, o computador, mesmo com o avanço do hardware ainda estaríamos na dependência daqueles “nerds” que dominavam as linguagens FORTRAN e COBOL para conseguirmos um mero relatório, uma planilha ou mesmo produzir um texto como este. Hoje, graças a gênios como o de Steve Jobs, podemos clicar no mouse sobre um ícone e ir direto para uma tarefa, produzir a planilha, o texto, editar fotos e um mundo de outras peripécias. Soube como poucos utilizar de forma brilhante tecnologias disponíveis em sua época.

Fiquei com Steve Jobs na cabeça enquanto percorria as estradas de Minas. Entre uma montanha e outra eu me lembrava de tudo, inclusive do meu aparelho celular ligado ao acendedor de cigarros do carro. Permitindo-me uma digressão: Já que fumar tornou-se pecado, não compreendia também porque aquele dispositivo no qual podem ser ligadas várias coisas não ganhasse um novo nome. “Liga Tudo”, talvez. Mas, isso não vem ao caso. O que interessa é que Steve Jobs me perturbava a mente. Só depois de refletir sobre as razões, me dei conta do porquê. O meu celular, como o da maioria das pessoas modernas, agora vem com o tal do recurso que nós brasileiros, sem ufanismo lingüístico, fazemos questão de manter no Inglês original, “touch screen”. Tocou na tela, tudo começa a acontecer.

Estava ali, portanto, a razão daquele fantasma percorrendo minha mente. A ligação entre o maldito do ”touch screen” e a lembrança de Steve Jobs. Foi ele que, mesmo sem o ter inventado, colocou essa inovação nos celulares e com isso bagunçou a até então boa relação que eu mantinha com a maravilhosa maquininha portátil que faz de tudo, inclusive nos serve como telefone. Estou meio passado, reconheço, mas me recuso a meter aquela maquininha dentro de uma capinha e dependurá-la no cinto da calça como se fosse o coldre de revólver só para que sua tela sensível ao toque fique protegida de ações involuntárias.

Desde que peguei esse celular “touch screen” comecei a desenvolver alguma neurose. De cada dez ações que tento fazer pelo menos metade sai errada. Pego o aparelho com o mesmo cuidado que um paleontólogo pega um fóssil raro devido a sua fragilidade. Sem querer, meu dedo roça um daqueles ícones e lá vem algo que eu não queria. O telefone toca e quando atendo um amigo diz “Edson você ligou para mim? Tenho aqui no meu celular registro de três ligações que você me fez há minutos” Já sei, digo: “Foi esse meu celular que disparou ligações por conta própria, desculpe-me”.

De um amigo ouvi que a conta da operadora do celular veio estratosférica. Razão: uma conexão involuntária de sua maquininha também com ”touch screen” conectou vários sites e baixou vultosos gigabytes de inutilidades. Pagou por que tinha de pagar, mas praguejou como nunca fizera antes.

Como buscar sossego em Minas se Steve Jobs me persegue? Não joguei fora o meu aparelho porque o meu ódio não era devotado ao conjunto da obra, a propósito, maravilhoso, mas sim e tão somente a um de seus dispositivos, o inconveniente do “touch screen”, justo em um aparelho que, além de ser portátil, pretende ser manual e tateável, na maioria das vezes, por uma só mão. Fica bem na tela de um caixa eletrônico bancário, num "tablet" que se usa sentado, num monitor de computador em que o garçom anota o pedido do cliente, mas nunca em um "gadget" de palma de mão.

Já decidi: Tão logo a loja da Vivo em frente a qual às vezes passo estiver menos entupida de gente, provavelmente reclamando, entrarei para trocar o aparelho, o chip, o sistema, seja lá o que for preciso, qualquer coisa, para me livrar do “touch screen”. Se pudesse, voltava correndo para o meu antigo starTAC da Motorola, aquele aparelhinho que mesmo parecendo com um vaso sanitário não se prestava a acolher todas as imundices tecnológicas.

Edson Pinto

Outubro’2011

9 de out. de 2011

183) JUSTIN & STEVE



Faz exatos quarenta e três dias que parte expressiva da família ficou ao redor do computador esperando que chegasse a meia-noite. Naquela 0h do dia 26 de agosto o objetivo era nobre: conseguir comprar pela Internet, e o quanto antes, o ingresso para a apresentação do neossóptilo do momento, Justin Bieber, que aconteceria hoje, 8/10, aqui em São Paulo.

Obviamente, o esforço familiar era para tornar feliz a minha netinha de 10 anos que como a maioria da garotada de sua faixa de idade passou a devotar extraordinária paixão pelo imberbe cantor canadense. Poderia chamá-lo de fenômeno midiático, ídolo teeneger ou ainda adjetivá-lo de forma contemporaneamente mais juvenil.

Prefiro, no entanto, associá-lo ao mais notável sinal do viço, do verdor e da exuberância que denota o maravilhoso fenômeno da continuidade da vida, o renascer. As folhas que fenecem no outono da vida, como sabemos, dão lugar às novas da primavera. Daí, perdoe-me o substantivo pouco usual, mas a penugem que significa início de vida (do grego ptílon) da ave recém-nascida (também do grego, neossós) sugere-me associá-lo a esta marca da aurora da temporalidade.

A existência alongada tende a ser chata na medida em que as experiências acumuladas nos tornam prisioneiros do conhecimento adquirido. Já vimos tantas coisas acontecerem que, salvo raras exceções, as novidades são insuficientes para juvenescer nosso ânimo. Marchamos cabisbaixos pelas sendas que levam ao fim da jornada sem perceber que por detrás de nós o mundo se renova continuamente. Para os que se encontram no seu prelúdio, tudo é motivador, tudo faz sentido, tudo flameja.

A trajetória humana seria uma lástima sem os elementos revitalizantes que brotam mesmo que alheios a nossa vontade. É como se tudo se renovasse a cada instante de forma continua, infinita. O que passou, passou. O novo vem para tocar a vida para a frente, sempre...

Por ironia do destino, justo agora o mundo perde o talentoso Steve Jobs, criador do computador do uso fácil com o qual compramos o ingresso para o show de Justin Bieber. É dele esta reflexão: "... a morte é provavelmente a maior invenção da vida. É o agente de transformação da vida. Ela elimina os antigos e abre caminho para os novos"

E os novos que são? São os que se colocam cheios de vigor e alegria no começo de uma nova jornada. É a netinha de 10, o Justin Bieber adolescente, a flor que brota de onde há pouco uma folha seca se desprendera, a ave recém-nascida ainda coberta por tênue penugem. O porvir, a esperança...

Cansada fisicamente pelas 12 horas que hoje dedicou ao evento, mas feliz por ter tornado o seu sonho realidade, minha netinha acaba de chegar aqui em casa enquanto eu, ainda me servindo dos ícones das interfaces legadas por Steve Jobs, escrevia este texto.

Só me restou perguntar-lhe:

__ E aí, como foi o show “my baby, baby”?

__ Boa noite!



Edson Pinto

Outubro’2011

1 de out. de 2011

182) O TREM DE MINAS


Sonho um dia colocar todos os meus amigos em um romântico trem maria-fumaça e, sem pressa, levá-los a conhecer a minha Minas Gerais. Não me ufano sem causa, nem me sirvo de mania de grandeza, menos ainda me apego com arrebatado deslumbramento às mais encantadoras formas de beleza. Juro! O que me sacode a alma e me faz sonhar é a possibilidade de sentirmos, juntos e in loco, o quanto Ele esteve inspirado naquele mágico momento da semana primeva quando, generoso e desprendido, concebeu o mais lindo de todos os rincões da Terra.

Lá, Deus pôs montanhas com curvas magnificamente suaves e belas, só imitáveis pelas mãos abençoadas dos gênios das artes na nobre missão de eternizar a harmonia das linhas incertas. Pôs, a não mais bastar em generosidade, também um céu de anil único. Cuidou, no mais, e em respeito ao espírito de liberdade do povo da terra, de não aprisionar tal céu por entre as penhas. Fez dispô-lo solto no éter para que pudesse se espalhar generoso pelo teto amplo de toda a Pátria.

Determinou erguessem as igrejas mais belas e nelas as pinturas mais ricas. O barroco mais exuberante e o rococó de elegância mais requintada. Deu-lhes a arquitetura mais nobre e fez, ali, florescer o gênio de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que mesmo dispensado das digitais consagrou-se na arte das formas. Ao mestre Ataíde permitiu-lhe lançar suas tintas mágicas em perspectivas encantadoras nos tetos de mil igrejas. Deu-lhes minérios para forjar o aço e inspirar o poeta da pedra no meio do caminho, da Itabira, de tantos por cento de ferro nas almas. Não se lhe pôs o mar, é fato, porque aí já seria declarada demonstração de privilégio filial, mas aos Seus filhos, encarregados de zelar pela Sua obra magna, os fez jeitosos, matreiros, cordiais e resolutos.

Por isso, queria colocar todos os amigos no mesmo trem. E quando eles pensarem que a viagem terá terminado, eu lhes provarei estarem enganados, porque a verdadeira viagem é aquela que fica eterna na alma. Depois das belezas de Minas, de sua culinária ímpar, da deliciosa convivência com seu povo especial, da imersão na história da pátria, do ar de liberdade que lá se respira, que lugar mais no mundo alguém almejaria ainda conhecer?

Meu objetivo secreto para essa viagem - devo confessar-lhes agora - é o de nunca ter os meus amigos longe de mim, posto que justificadamente recusem o abandono do trem maria-fumaça que nos levará pelas entranhas de Minas. Alguém iluminado, mineiro ou não, presenteou-nos com a apresentação que lhes envio como anexo do meu e-mail. Embora ele proponha a mesma viagem num belo e moderno ônibus vermelho, apetece-me fazê-la num trem, essa “coisa” que faz parte do modo de ser mineiro.

Curtam-na! Se não gostarem, das duas uma: Perderam a noção das coisas que justificam viver ou - o mais provável - encontraram um bom pretexto para estarem longe de mim. De qualquer forma, não me importo. Continuo amigo de todos...

Edson Pinto
Outubro’2011

24 de set. de 2011

181) A BANDA QUE NÃO PASSOU

Por mais simples que sejam, há passagens em nossas vidas que tendem a ficar indelevelmente guardadas no relicário de nossa existência. Qualquer um deve ter reminiscências de algo que vivenciou quando ainda muito jovem, mas que perdura forte como se tivesse acontecido em tempos bem recentes. Por mecanismos que só a neurociência pode bem explicar, vamos automaticamente eliminando as memórias de menor importância como se fosse para criar espaço para os novos fatos que continuamente não paramos de vivenciar. Alguns, contudo, mesmo banais, permanecem como que gravados em bronze imarcescível e resistem ao tempo, ainda que longo. Por que será?

Eu tinha lá meus 7, 8 anos de idade quando fui liberado para ir, pela primeira vez, sozinho, cortar o cabelo no salão do bairro. Tudo era tão perto e sem preocupações com segurança que os pais se sentiam motivados a liberar o quanto antes seus filhos para as coisas corriqueiras da vida. No meu caso, bastava dobrar a primeira esquina e lá estava o salão do barbeiro. Entre valente e acanhado, estava eu ali para um dos meus primeiros atos de independência. O corte minimalista era o chamado Príncipe Danilo preservando um topetinho meio no estilo Cascão. Nada da franja transversal ao estilo Justin Bieber atual nem mesmo das esvoaçantes madeixas posteriormente eternizadas pelos Beatles. Era para mim um ato da maior importância. Determinei o corte que correspondia à minha própria vontade e ainda tinha o dinheiro para pagar. Agora, era só curtir o sucesso da empreitada.

Coincidindo com o inicio do corte, o som de uma banda marcial, com sua encantadora composição em metais e percussão tomou conta do ambiente. Dobrados e marchas militares se revezavam para o encanto do pirralho que cortava sozinho o cabelo pela primeira vez. Estava eu, ali, sentadinho enquanto o som forte dos metais e dos bumbos ecoava deliciosamente. Pura magia.

Na cabeça do menino que se julgava astuto porque fora cortar sozinho o cabelo, tratava-se de uma banda real com músicos a caráter, perfilados ordeiramente em marcha prestes a passar em frente ao salão. Tinha, então, absoluta certeza de que era sim uma banda de verdade. Ai veio-me o segundo atrevimento daquela tarde de independência. Afinal, precisava ir rapidamente até a rua para saborear o maravilhoso espetáculo. Era, de fato, muita coisa boa para uma só tarde naqueles idos do final dos anos 50...

Eu não entendia bem o porquê de se chamar o profissional que cortava os meus cabelos de barbeiro, uma vez que nem barba eu tinha. Limitei-me apenas a dizer-lhe que apressasse o trabalho, dispensando-lhe o arremate do pé do cabelo normalmente feito com a navalha. Paguei e comecei a sair rapidamente da barbearia quando me dei conta de que, instalado no alto, em uma cantoneira arredondada logo na entrada do salão, um rádio capelinha despejava os dobrados e as marchas marciais que naquele breve momento de exercício de soberania eu havia escutado.

Meio que frustrado com a descoberta de que a banda real não existia e nem iria passar, voltei para casa mantendo o ar orgulhoso de quem conseguiu se incumbir de uma tarefa importante que foi o corte, sozinho, do cabelo. Meu pai deu uma examinada no corte e exclamou: “É, ainda não está na hora de cuidar disso por você mesmo! Nem o pé do cabelo foi acertado com navalha. Mês que vem volto com você!”

Edson Pinto
Setembro’2011

17 de set. de 2011

180) REVOLUÇÃO DOS BICHOS


O delicioso romance de George Orwell, Revolução dos Bichos, deu-me a dica para o título da crônica desta semana. Há de se reparar, contudo, que o grande escritor britânico esbanja criatividade e boa literatura no seu clássico sobre as mazelas da política dos tempos em que vivia, enquanto o meu modesto texto tem enfoque pedestre sobre essas coisas simples que permeiam o nosso dia a dia. Explico melhor:

O casal de jacus saiu da mata e aboletou-se na palmeira recheada de coquinhos que temos na lateral de casa. Tem sido freqüente a visita dessa ave galiforme, de plumagem escura e papada avermelhada para buscar aqui o alimento que tanto aprecia. Impossível não vê-la, principalmente quando chega aos bandos. Chama-nos a atenção o porte avantajado e o absoluto frenesi que causa às demais aves que também se julgam no direito às mesmas iguarias e por isso querem ter domínio daquele pequeno território.

O corre-corre da vida tem me privado da prática do salutar hábito de observar essas criaturas que Deus colocou no mundo como a nos dizer que Sua sabedoria é ilimitada, surpreendente e perfeita. Os pássaros fazem parte dessa majestosa engrenagem e têm, por óbvio, muito a nos ensinar ao mesmo tempo em que nos encantam. Sim, a realidade é que eles também se revoltam, brigam entre si, exploram uns aos outros, tudo pelo supremo propósito de se manterem vivos ao máximo que puderem.

Tendo isso, de súbito, em mente, tornei-me mero expectador da inusitada cena quando os sabiás, primeiro, depois os pardais e os tico-ticos, começaram a empreender vôos rasantes e ameaçadores sobre os grandalhões jacus. Verdadeiro raid aéreo no estilo blitzkrieg da Luftwaffe de horripilante memória.

O nome científico da bela criatura é mais sugestivo do que o apelido popular que ganhou por estas bandas. “Penélope jacucaca” é a majestosa ave que habita a nossa Mata Atlântica cada vez mais dizimada. Se está a chegar ao nosso território, penso, isso só pode ser sinal de que as coisas andam pretas lá pelos lados da mata. Disso, poderia eu falar em outra ocasião. O que conta agora observar é que mesmo com exuberância e nobre linhagem a ave tem lá suas dificuldades para adentrar esse pequeno espaço já previamente dominado por outras espécies.

Além dos agressores mencionados acima, constato com agradável surpresa que meu quintal vem atraindo rolinhas cinza, pombas asa branca, assanhaços azuis, várias espécies de beija-flores, corruíras e pica-paus. Há, ainda, o laborioso joão-de-barro que se alterca, com justa razão e grande freqüência, com os sabiás e com os bem te vis.

As andorinhas já começaram a chegar e devem ficar por aqui até por abril do ano que vem enquanto tiver calor, é claro. Fazem, como se sabe, o próprio verão, mas se expõem em demasia aos bicos e garras fortes das aves de rapina que deram também para freqüentar o mesmo lugar. Assim, vez por outra, baixa da minha vizinha Mata Atlântica, felizmente preservada neste pedacinho de Brasil, gaviões-miúdos para abocanhar uma delas ou outra presa qualquer para o almoço do dia. Não raro é uma águia branca de olhar ameaçador a plainar sobre árvores na espreita de alguma proteína animal que sempre encontra.

Chupins malandros andam se apossando dos ninhos dos tico-ticos para lá botarem os seus ovos. Ivo, o fiscal da natureza daqui de casa, me afirma categoricamente que uma tico-tico amorosa chocou inocentemente mais um chupim e jura que ainda cobriu-lhe de cuidados maternos até que o mal-nascido bateu asas para seguir a carreira da mãe biológica.

Ah, como estão todos agitados montando ninhos, roubando ninhos, atacando jacus, emboscando uns aos outros! Os bem te vis andam invocados e chegam às vias de fato com os sabiás e com os arquitetos joões-de-barro. Tico-ticos disputam o néctar das plantas com agitados beija-flores. De vez em quando um óbito e aí aparecem urubus que se encarregam da limpeza. Este eu não vi, mas Ivo jura que até um carcará e uma saracura já marcaram presença neste meio onde pulsa mais vidas do que se imagina. À media que fomos substituindo as árvores exótica existentes no local como o Pinus elliottii, por árvores nativas, a passarada entendeu apropriadamente o novo espaço como extensão do seu habitat natural. Que bom!

Há harmonia em meio a essa verdadeira revolução dos bichos? Penso que sim! A natureza entende que a luta pela vida é a luta que vale a pena. Se até os animais, poupados que foram pelo Criador das coisas comezinhas, vivem em permanente luta pela vida, fico a pensar se a ilusão de que chegará o dia em que os seres humanos viverão em paz não passa de um contrassenso, uma rebelião impossível de ser vencida contra a natureza? Dá prá pensar!

A propósito, os briguentos quero-queros que também agitavam este território já há muito deixaram de vir. Ivo me afirma que os saruês andaram comendo os seus ovos e assim eles perderam a batalha...

Edson Pinto
Setembro’ 2011

9 de set. de 2011

179) PODAS NECESSÁRIAS

Não precisa ser um competente jardineiro para saber que após a poda dos galhos secos, dos excessivos ou dos contaminados pelas pragas, as árvores ressurgem fortes e viçosas para o encanto de todos e júbilo do Criador.

Estamos cheios de galhos inúteis que nos impedem o aperfeiçoamento contínuo dos inatos ou adquiridos fundamentos psicológicos, mentais e espirituais que suportam o nosso caminhar pela vida. Poder-se-ia dizer que somos como árvores sem jardineiros e que compete, em grande parte e a cada um de nós, a jardinagem da própria vida. Isto se faz através da autoconsciência facultada pelo dom divino do livre-arbítrio.

Se tivermos paciência para uma pequena reflexão, conseguiremos facilmente listar algumas dezenas de deficiências que, infelizmente, identificamos mais nos outros do que em nós mesmos. Quem, contudo, consegue percebê-las dentro de si naturalmente apresenta a maior probabilidade de sucesso no seu combate substituindo-as pelos seus antídotos de virtudes:

À vaidade deveríamos opor com a prática da modéstia. O egoísmo haveria de ser confrontado com o desprendimento. A intolerância pugnada com a prática exaustiva da tolerância. À petulância combater-se-ia com a cordura. A indolência com a autodeterminação. A timidez com a resolução. A soberba com a humildade, a presunção com a modéstia, o intrometimento com a circunspecção, a aspereza com a afabilidade, a brusquidão com a suavidade, o rancor com a bondade e a veemência com a serenidade.

E para não cometer o erro da prática de outra deficiência, a verborragia, a ser combatida com a concisão, cito apenas mais uma de tantas outras que comporiam esta lista, a hipocrisia, cujo antídoto é a veracidade. É sobre esta deficiência que me toca o ânimo para brevemente discorrer nesta crônica hebdomática:

A hipocrisia define o caráter de quem se conduz na vida com o mau propósito de esconder a sua verdadeira face. Seus atos têm aparência falsa, pois atua de maneira diversa ao que sente e pensa, não é sincero. Normalmente envolve os de boa-fé enganando-os para lograr com seus intentos escusos. O hipócrita convicto fica tão controlado por esta deficiência que dificilmente saberia agir de outra forma e acredita piamente que está correto em suas atitudes embusteiras. Se há algo que lhes aplaca a maldade é o fato de serem sinceramente insinceros. Alguns são hipócritas por conveniência momentânea e podem, mais adiante, abandonar a sua prática. Outros são convictos e não percebem o mal que fazem aos outros. Com sinceridade acreditam agir de forma correta...

Exemplos de hipocrisias explícitas são encontrados a todo o momento e em todos os lugares. Há hipocrisias nos relacionamentos amorosos, nas relações de negócios, nos vínculos sociais, nas adesões religiosas e em tudo o que se possa imaginar. O mundo seria obviamente melhor sem elas, porém ilusório contar com o seu fim. Mas, se há um campo da vida social em que a hipocrisia se faz muitíssimo presente, ninguém erraria se dissesse ser a política.

Valha-nos Deus o quanto de hipocrisia forma os galhos inúteis da árvore da política! A deputada que, filmada embolsando o dinheiro escuso que a fez vencedora na eleição, não tem o seu mandato cassado pelos seus pares hipócritas. Por quê? No voto secreto demonstraram o quanto eles próprios se encontram envolvidos em embustes semelhantes e que por conveniência seria melhor evitar essa via de combate à hipocrisia que, com certeza, os colheria mais à frente.

Os mesmos políticos que fingem nunca terem visto isto ou aquilo de errado apenas para enganar seus eleitores com a falsa imagem de honestos. A Situação que já foi Oposição agora defende exatamente o que antes combatia. Quem amaldiçoou o Plano Real e dele fez a razão de seu sucesso em oito anos de governo e mesmo assim descarada e hipocritamente rotulou o legado do antecessor como “herança maldita”, o fez de forma hipócrita simplesmente porque sabe que a massa ignara acredita na sua soberba. Esta, a propósito, é outra deficiência das mais horrorosas que domina certos espíritos do mal.

É ilusório - convenhamos - imaginar o ser humano livre de todos os galhos malsãos que carrega pela vida, mas, no caso de uma poda, mesmo que parcial, ao menos, teríamos árvores mais viçosas no jardim de nossas vidas.


Edson Pinto

Setembro’ 2011