29 de jan. de 2009

65) SEU EDSON E DONA EVA

 

Minha mulher, Jane, e eu somos assíduos freqüentadores de alguns restaurantes aqui na nossa vizinhança. Estamos na órbita de uma das maiores cidades do mundo, São Paulo, reconhecida por todos os brasileiros e até mesmo por estrangeiros, como uma cidade gastronômica por excelência. Os paulistanos – e aí nos incluímos - são apaixonados pela boa mesa, especialmente agora, em anos mais recentes, quando uma boa comida pode ser acompanhada de um bom vinho e por preço razoável.

Não raro, até mesmo aqui no nosso cantinho, temos que enfrentar filas (e disso entendemos muito bem), para conseguir uma mesa no restaurante de nossa preferência, principalmente se for numa noite de sexta ou sábado; tanto faz o céu emoldurando uma bela lua cheia; o vento leste nos trazendo uma brisa mansa; chuva em proporções amazônicas caindo sobre nossas cabeças, ou, ainda, pousando sobre nossos ombros a garoa que Alvarenga e Ranchinho imortalizaram na canção “Êh São Paulo, São Paulo da garoa, São Paulo terra boa”...

Existem teorias as mais estapafúrdias que sustentam que essa paixão do paulistano por restaurantes seja, talvez, um substituto à falta de praias no seu quintal ou de outras diversões ao ar-livre como as têm em abundância as cidades litorâneas. O que segue é que, esse freqüentar permanente aos templos da boa mesa, gerou uma maneira própria de ser do paulistano e acrescentou-lhe uma nova faceta em seu prisma cultural. Esse hábito, forçosamente, nos torna amigos quase fraternais de recepcionistas, de maîtres e de garçons que nos atendem prazerosamente. Deles, concluí há muito, dependem a nossa sensação quanto ao fato de aquela noite ter valido, ou não, a pena.

É exatamente sobre esse trivial aspecto que quero abordar nesta minha crônica: Qual freqüentador assíduo de restaurante, como nós, não tenha adquirido certa intimidade com esses profissionais, com o quais falamos não só sobre o conteúdo do cardápio, mas até mesmo sobre corriqueirices do dia-a-dia? __ E aí Aristeu, a casa está cheia hoje, que bom, não é? __ É muito bom seu Edson, o povo tá voltando da praia, as férias estão terminando e o faturamento aumenta. O patrão fica feliz e nós também. Vai dar até pra comprar a bicicleta do meu filho que faz aniversário no mês que vem. __ Parabéns para ele...

Esse é o tipo de conversa que nos coloca a quilômetros das preocupações da vida, dos aborrecimentos do trânsito, da insegurança reinante na cidade grande, das discussões no trabalho e de tantas outras picuinhas que nos vão lenta e progressivamente enrugando a face e sepultando a alegria de um sorriso espontâneo. __ Volte sempre seu Edson e Dona Jane. Foi um prazer tê-los aqui. E aquela noite continua serena porque Baco, o filho de Júpiter, apaixonara-se - para nosso melhor desfrute - pela cultura da vinha.

Tão gratificante quanto o jantar em si é a gentil acolhida que recebemos nas casas que freqüentamos com assiduidade: Freqüentamos há anos outro restaurante que além do bom cardápio, nos cobre com gentilezas difíceis de serem encontradas nos dias de hoje:

Os garçons apostam entre eles que o seu Edson e Dona Eva virão hoje, sexta-feira, e já nos reservam espontaneamente uma mesa, colocando sobre ela o vinho que gostamos. Mas, preste atenção, eu disse Dona Eva e minha mulher chama-se Jane. __ Bem-vindos seu Edson e Dona Eva, já reservamos a sua mesa, pois tínhamos certeza de que viriam. E dá-lhe gentilezas, não só do maître Francisco, mas de todos os garçons. Como temos o hábito de chegar mais cedo, a casa ainda não se encontra lotada o que lhes dá uma maior margem para as relações sociais. Seu Edson pra cá; Dona Eva pra lá e o tempo foi passando. Tentei alguns truques para ver se consertavam o equívoco, como o de falar o nome da Jane repetidas vezes quando os garçons acorriam a nossa mesa. Nada... Desta vez não vai falhar, pensamos: __ Francisco, quem vai pagar, hoje, a conta é a Jaannee, digo arrastando a pronúncia para que não fique nenhuma dúvida. Entrego-lhe o cartão, dizendo: __ Olha este é o cartão da Jaannee, tá bom, Francisco? __ Certo seu Edson, vou buscar a maquininha... __ Aqui, Dona Eva, pode digitar a sua senha!

__ Jane, hoje vou falar com o Francisco que seu nome não é Eva. __ Não faça isso, me diz ela, já me chamam assim há tanto tempo que tenho certeza, pela simplicidade deles, que ficarão envergonhados quando souberem que estão errados. Deixa pra lá... __ Até a próxima seu Edson e Dona Eva, muito obrigado pela visita.

Que maldita associação está na cabeça do Francisco? Questiono a mim mesmo: Se eu me chamasse Adão, faria algum sentido imaginar que minha mulher fosse a Eva. Será que precisarei dizer que me chamo Tarzan para que ele finalmente aceite minha mulher como Jane?

__ Vem cá Francisco, chamei-o num dia em que, com meu compadre Luiz Carlos, fomos almoçar no mesmo restaurante. __ Como se chama a sua esposa, Francisco? Marlene, seu Edson, por quê? __ O que aconteceria se o Amadeu, seu colega daqui do restaurante, por não ter entendido corretamente o nome dela começasse a dizer que você dorme com a Tereza? __ Aí eu tava frito, seu Edson. Os meus vizinhos "zoiudos" logo iam dar em cima da Marlene, porque iriam entender que eu tava deixando ela de lado. E o sr. sabe seu Edson, a Marlene não é de se jogar fora. Não quero nem pensar nisso, seu Edson. __ É isso aí Francisco! Sorrindo, passo o meu braço sobre o ombro de tão gentil figura e tomando todo o cuidado para que ele não ficasse constrangido, digo-lhe, ao mesmo tempo em que dou tapinhas fraternais em seu braço esquerdo: __ Então, de hoje em diante, Francisco, acho melhor você chamar a minha mulher pelo nome correto dela, que é Jane, e não Eva, você colabora comigo?

Agora, quando voltamos lá, observamos que os salamaleques aumentaram: Dona Jane, quer que eu traga a água, Dona Jane? Dona Jane, quer o cardápio, Dona Jane? Perdi o papel protagonista que tinha. Fico calado, pois até para saberem se eu gostei da comida perguntam na minha cara: __ Dona Jane, será que o seu Edson gostou do prato, Dona Jane?

Edson Pinto

1 de jan. de 2009

64) COMEÇAMOS 2009, E AGORA?

Juscelino Kubitschek de Oliveira, médico mineiro da cidade de Diamantina, abraçou a política com tal paixão, seriedade, simpatia, otimismo e bom humor até tornar-se o grande presidente a quem gerações de brasileiros prestarão por tempos imorredouros as merecidas loas. Carinhosamente, ganhou de Juca Chaves a alcunha de “Presidente Bossa Nova”, eternizada em famosa canção daquela época dourada. (canção disponível ao final deste texto)

O nosso presidente atual, Luiz Inácio Lula da Silva, como todos sabem, é um aberto admirador do grande Juscelino e não mede esforços para fazer-se parecido a ele. Quer, como o JK dos “50 em 5”, reproduzir - quem sabe – o seu próprio “80 em 8”. Isto é, 10 anos de progresso para cada ano de governo. E, se a maré lhe for favorável nos bastidores sórdidos de reformas em gestação no Congresso, agora em 2009, por que não encarar um Lula de “120 em 12”? Convenhamos, uma prodigalidade que já lhe desperta a mais modesta de suas frases populistas: “Nunca antes na história deste país...”

Tudo, nesse mundo em plena efervescência de crise global, é possível... O que não é possível é ignorarmos o fato concreto de que um país se faz com planos, boa política, honestidade e muito trabalho. Mas, uma dose de humor pode ser considerada como o chantilly que dá o acabamento atrativo para o bolo que nos reserva o ano novo. Fiquemos, portanto, alertas ao que irá acontecer pelo bem ou pelo mal ao nosso querido e eterno país do futuro.

Voltei de Minas após o Natal e lá, como sempre, encontrei coisas deliciosas que podem nos dar motivos para encarar os desafios, esses na forma de nuvens negras que o horizonte já começa a nos mostrar: Um feijão tropeiro com uma linguiça de porco (2009 já começa nos extirpando o trema desse inigualável acepipe); um frango ao molho pardo com tutu e couve mineira; uma pinga de entrada; no final um doce de leite com queijo para a enfrentarmos com ânimo o misterioso 2009 que teremos de atravessar.

E para prevenir nossas almas de eflúvios coléricos e malsãos, nada melhor do que um “causo” bem mineiro para demonstrar que a sabedoria popular não apenas pode explicar, ao seu modo é claro, os fenômenos sobrenaturais de seu imaginário como ainda encontrar uma maneira jocosa de preservar, ao Lula, lobisomem de noite de lua cheia, o nome do grande Juscelino Kubitschek.

Clique na seta ao pé da janela abaixo e ouça que delícia de “causo”. Assim, começamos o ano pelo menos desopilando nosso fígado com uma boa risada. Em seguida você poderá também se deliciar com a agridoce maledicência do grande Juca Chaves e estabelecer um paralelo entre os dois líderes históricos.

Que 2009 seja o suprassumo (agora temos que dobrar o “s” para suprimir o hífen) de nossas melhores conquistas. Fiquemos tranquilos (novamente o trema foi embora), pois penso que só com boas ideias (xi, o acento agudo também se evadiu) poderemos nos adaptar a esse mundo em constante reforma. Até a ortográfica...

"O CAUSO DO LAMBISOME"







Edson Pinto
janeiro'09

9 de dez. de 2008

63) MENSAGEM DE FIM DE ANO

Há uma feliz proximidade de datas: O Natal e o Ano Novo separados por apenas uma semaninha. Sorte nossa!

No Natal - festa máxima do cristianismo - comemoramos o nascimento de Jesus que, com sua mensagem de humildade e amor ao próximo, conquistou corações e mentes ao longo dos últimos 2000 anos.

Mal o aroma nostálgico do peru natalino ameaça abandonar a memória de nossos sentidos e chegamos ao Ano Novo. Este sim, momento em que, sendo cristãos ou não, comemoramos em uníssono um marco especialíssimo: Deixamos um ano e adentramos outro. Fazemos balanço das realizações e dos fracassos do ano terminado ao mesmo tempo em que renovamos promessas para o próximo.

Não importa a crise econômica, o rebaixamento do nosso clube para a segunda divisão, a chuva que em excesso desmancha morros e faz vítimas inocentes, a violência das ruas, o tráfego infernal das grandes cidades. O que importa é a esperança que depositamos em dias melhores. E isso é mais do que o suficiente...

Deixemos, portanto, que a canção de Charles Aznavour, “Hier Encore”, “Ainda Ontem”, tão bela e cheia de significados reforce em nossos corações as sábias lições de vida que ela contém, para nunca termos de nos arrepender das ações que praticamos quando ainda, há pouco, tinhamos nossos 20 anos...

Um feliz Natal para todos e um Ano Novo muito melhor do que este que já está por terminar.

Volto a atualizar o meu blog somente em janeiro próximo.

Edson Pinto e família
Dezembro’2008
Clique na seta abaixo para rememorar a bela canção de Charles Aznavour:

62) MERO PIXEL (dez'08)

 __ Meu amigo, você sabe quantas estrelas existem na Via Láctea, o conjunto estelar dentro do qual se encontra esse ponto insignificante que é o nosso planeta Terra? São 200 bilhões de estrelas iguais ou maiores do que o nosso provedor de vida, o rei Sol. E veja que a Via Láctea é apenas uma das galáxias de um total estimado de 100 bilhões de outras. Multiplique - se conseguir - os dois números e concluirá que não há espaço suficiente nesse seu caderninho aí para registrar todos os zeros que virão depois do número 2. Então, tente se for capaz!

__ E digo mais: se olhar apenas para a Terra, verá que você nada mais é do que uma simples unidade de uma população que já beira aos 7 bilhões de terráqueos. Portanto, meu caro, você não é nada de especial. Diria eu, agora fazendo uso de uma linguagem mais high-tech, você não passa de um mero e banal pixel. No máximo, no máximo, algo como um daqueles minúsculos pontinhos que na tela do aparelho de TV da sua casa reproduz um pálido fragmento de luz.

__ Espero que já se tenha dado conta de quão insignificante você é diante da grandeza infinita do espaço sideral. E vem, neste momento, se colocar como um ser tão especial como se o universo postasse aos seus pés e, sobre tudo o que ele contém, pudesse reinar soberanamente para mudar sem escrúpulo nenhum a ordem correta das coisas em seu benefício próprio?

__ Se pudéssemos materializar a sua vaidade e transformá-la em uma estrela, aí sim, poderíamos vê-la como uma de especial grandeza, superior ao Sol e até mesmo a quaisquer outras das tantas que inundam o firmamento. Mas, como isso não é possível, resta a você, meu caro, apenas manter-se quieto e ordeiro no lugar que ocupa. Tire definitivamente dessa sua cabecinha presunçosa qualquer intenção de se colocar na minha frente para realizar prioritariamente o seu intento.

__ Mas, senhor, eu só precisava urgentemente...

__ Que falta de humildade, meu irmão. Passar na minha frente, nunca. O melhor que você faz agora é usar as folhas de seu caderninho e limpar-se ali por detrás daquela coluna, pois como um mero pixel que é, pode até brilhar, mas exalar esse cheiro horrível que já me incomoda, nunca...

__ Vá seu mero e fedorento pixel para detrás da coluna e limpe-se como puder! Chegou a minha vez e tenho que pentear os meus cabelos...

Edson Pinto
Dez'08

4 de dez. de 2008

61) CRENÇA E CONHECIMENTO


Pergunta 1: Quem é a única prima da sobrinha do pai do irmão de sua mãe?

Se você não conseguir responder rápido a essa pergunta, não tem problema. Poucas pessoas conseguiriam dar uma resposta imediata. A maioria, desde que pegue papel, lápis e tenha paciência e algum método investigativo chegará à conclusão correta de que a tal mulher só pode ser a sua própria mãe.

Outra pergunta: Por que os espelhos invertem nossa imagem da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, mas nunca de cima para baixo ou de baixo para cima?

Novamente, difícil de se obter uma resposta imediata. Talvez, com a ajuda da Ciência, você consiga alguma explicação mesmo que parcial para esse enigma que desde Platão, o grande filósofo grego, tem se colocado no rol das especulações metafísicas. Não quero ser leviano nem pretensioso a ponto de oferecer aqui e agora uma resposta para o enigma. Deixemo-lo, pois e pelo momento, para a investigação de mentes sofisticadas e bem iluminadas.

O que penso ser interessante considerar dos dois questionamentos é o fato de a vida nos colocar, em geral, situações prontas para as quais raramente nos sentimos motivados a questioná-las. Tomamos todas como verdades inquestionáveis e assim poupamos a necessidade de pormos em funcionamento os bilhões de neurônios com os quais a Natureza nos presenteou.

Sendo mais confortável aceitar que no espelho meu braço direito vira o esquerdo e vice versa porque sempre foi assim, por que, então, deveria eu especular a fundo sobre a razão disso, jogando fora, desse modo, o meu precioso tempo? Sabendo, como sei, que sua mãe é prima de Maria por que deveria eu passar pela intrincada análise da relação de irmão, pai comum, tio e filha do tio?

Mas, e a vida como um todo? Não é muito diferente: Por comodismo, obediência servil, falta de motivação para agir, fraqueza moral e outras razões, temos a tendência a nos encaixar no que filosoficamente chamamos de zona de conforto, onde nada pode nos incomodar. Ficamos ali quietinhos, torcendo para que ninguém nos veja e assim vamos assistindo, incólumes, o marasmo do passar do tempo. Tal qual a figura do aluno obediente que se esconde nas fileiras do meio e nunca se atreve nem para bagunçar, nem para questionar, muito menos para apresentar as suas idéias, se é que as tem. Termina o curso, pega seu diploma e se torna um número na série da infinita mediocridade.

Em boa medida o que deveríamos cultivar seria certo grau de ceticismo em relação à realidade que percebemos, especialmente quanto às crenças que consolidamos ao longo de nossa experiência terrena. Não é sem razão que os grandes filósofos sempre argumentaram em favor da distinção clara entre conhecimento verdadeiro e crença.

Por exemplo: O cidadão americano pode pensar que Barack Obama representa a esperança na política de seu país apenas por causa do inusitado histórico de ser - pelo que já foi dito - a novidade na política de seu país. A crença de que Obama trará progresso pode ser, de fato, verdadeira. Mas, o fato de ser "a novidade" não é a irrefutável evidência de sua condição de arauto da esperança e promotor do progresso. Neste exemplo é improvável que sua crença seja conhecimento, mesmo considerando que ela seja verdadeira. O que confirmará a esperança depositada no fenômeno Obama será a forma e efetividade como ele ajudará os EUA, e a reboque o resto do mundo, a adentrar-se a uma nova fase de progresso econômico e social que, como infelizmente tudo indica na atual situação, parecer estar rapidamente se esgotando.

A minha crença nessa possibilidade é verdadeira, afirmo. Só não posso afirmar se ela se sustenta em base sólida de conhecimento real. Resta-me esperar...

Edson Pinto
Dezembro’08

28 de nov. de 2008

60 ) SAGRAMATHA OU CHOMOLUNGMA

Por muito tempo, no passado, foi tomada como certeza a existência de uma estrela a qual se dava o nome de Hesperus, ou Estrela da Tarde. Tomava-se também, por povos de outra longitude, como certa, a existência de outra, Phosphorus, ou Estrela da Manhã. Com o passar do tempo, aquilo que pareciam ser dois astros distintos na verdade era um só, o planeta que hoje conhecemos como Vênus.

Quase que pela mesma lógica, o pico Everest, mais alta montanha do mundo na cordilheira do Himalaia, é considerado pelos nepaleses como Sagramatha (rosto do céu), mas para os tibetanos, que a vêem do norte, como Chomolungma (mãe do universo). Como as propriedades físicas são as mesmas, é perda de tempo discutir se são duas ou uma única montanha. É a mesma coisa e pronto...

Desde que o filósofo alemão Leibniz propugnou que objetos idênticos deveriam compartilhar as mesmas propriedades, fica difícil imaginar como a simultaneidade de visões díspares aplicadas a um mesmo tema poderia subsistir a um rigoroso teste de sua validação. Aplica-se à identificação de uma estrela, de uma montanha e até mesmo para a visão objetiva das variadas facetas do mundo em que vivemos.

Nessa linha de raciocínio, a crise mundial que toma a forma do grande leviatã bíblico, devorador imaginário dos navegadores de antigamente, não poderia, ao mesmo tempo, apresentar-se como um tsunami de proporções catastróficas para alguns e uma “marolinha” para outros como nos quis fantasiar o presidente Lula. Dissimula o presidente ou, como disse FHC, brinca de Polyana ao esconder dos brasileiros a dimensão real da crise.

E, por que tsunami e marolinha devem ser a mesma coisa como o são Hesperus e Phosphorus ou Sagramatha e Chomolungma?

É porque ambas as metáforas, tsunami e marolinha, compartilham de forma “sui generis” as mesmas propriedades. Então, devem obrigatoriamente ser a mesma coisa e nunca coisas diferentes. Com o entrelaçamento das atividades humanas, quer no comércio, na cultura, na política e em tantas outras facetas impostas pela globalização de tudo, não é possível imaginar que o mesmo fenômeno leve a conseqüências diferentes dependendo do alvo. Ao cabo da confirmação da crise isso será, infelizmente, um tsunami para todos ou, se formos felizes, uma “marolinha” também para todos, mas nunca uma coisa para uns e outra para outros.

Dá até para entender que o presidente Lula queira amenizar o sofrimento dos brasileiros usando a velha estratégia de comunicação gradual do problema na base do “o gatinho subiu no telhado”. O que não pode, pois isso nos faria mais mal do que bem, é ficarmos fazendo castelinho de areia na praia imaginando como única ameaça uma “marolinha” e aí sermos surpreendidos por um tenebroso tsunami.

No fundo, tanto faz que o nome do Everest seja Sagramatha ou Chomolungma, desde que seja o mesmo. O que nos deveria interessar é a manutenção da consciência de que nossos sentidos não sejam iludidos por distorcidas versões de falsos oráculos.

Edson Pinto
Novembro’08

24 de nov. de 2008

59) O TEMA DA VITÓRIA E ALGUMAS LIÇÕES BÁSICAS (nov'08)

 O resultado do exame de imunofenotipagem trouxe a conclusão: “O clone da célula anômala foi extirpado”. Isto pode não dizer nada para quem – graças ao bom Deus – desfruta de saúde e que por isso deve, ou pelo menos deveria, gozar com intensa alegria a plenitude do maior dos dons que aos humanos deram os céus: a vida.

Mas, para nós, a tradução pedestre dessa frase cientifica revelada no exame soa como o “Tema da Vitória”, aquele mesmo que embalava cada conquista do nosso Ayrton Senna, o inesquecível herói das pistas, e assim nos colocava embebidos de contentamento no ponto mais alto do pódio da existência terrena.

Há seis meses, fomos surpreendidos com diferente resultado do mesmo exame que, infelizmente, conjugado com outros de idêntico rigor científico, indicavam à Jane, minha esposa, estar acometida por um severo mal em seu organismo. Se não atacado de imediato e com os melhores recursos da farmacologia moderna, corria-se o risco de vê-la com a saúde agravada até limites e conseqüências que só o Supremo poderia determinar quais seriam e de que forma.

Vencemos! O resultado mencionado nas primeiras linhas deste texto tem o valor de um certificado de sua plena e boa saúde.

Talvez, não por acaso, a palmeira de nosso jardim floriu nesses últimos dias com inusitada exuberância como se fosse para saudar a vitória da Jane no que se apresentou para nós como um dos períodos mais tensos já enfrentados na vida a dois. Mesmo que apenas poucos amigos saibam disso, enfrentar uma doença é – quer queira ou não – um ato de valentia e superação que deve ser enfrentado com persistência dia-a-dia e com serenidade.

Sem que tenhamos a intenção de propor um modelo, pois cada caso é um caso, cada pessoa e suas circunstâncias determinam condutas e visões diferentes quanto ao desafio que tem pela frente, ousamos transformar nossa experiência em um guia com algumas lições básicas para aqueles que, como foi o nosso caso, vierem a enfrentar desafios assemelhados:

Primeira: Nunca se apavore com a dimensão que o problema a princípio pareça ter, nem subestime a sua própria capacidade de superá-lo. Há de se confiar em que os recursos da medicina atingiram alto grau de eficácia e, portanto, que vale muito a pena neles confiar. A esperança, necessariamente, pavimenta qualquer desejo forte para a vitória. O ser humano sem esperança assemelha-se a um barco sem o mar; a um pássaro sem asas; a uma atmosfera sem oxigênio. Esperança é, portanto, pré-requisito para o bom embate.

Segunda: Embora a realidade do sistema de saúde no país ainda deixe muito a desejar - por incrível que pareça – mostra que temos recursos e um arcabouço legal a garantir o acesso de todos os brasileiros aos melhores procedimentos médicos necessários para o sucesso de um tratamento. Além disso, o necessário e incontornável franco embate com a doença tem o dom de nos iluminar caminhos antes impensados e de nos levar a soluções a priori tomadas como impossíveis.

Terceira: Se o seu Plano de Saúde apresenta dificuldades para a cobertura de grandes procedimentos médicos, lembrem-se de que é na porta da Justiça que se deve bater. A urgência e os altíssimos custos de tratamentos modernos com muita certeza facilitam a obtenção de uma liminar em que o Juiz determina a quem de responsabilidade o imediato cumprimento de suas obrigações. Se ficar quieto nada acontece. Agir com base legal supera as inúmeras barreiras que a burocracia – em geral – demonstra no trato dos direitos da cidadania.

Quarta: Você se surpreenderá como os amigos verdadeiros serão solidários e farão por você mais do que poderia vagamente imaginar. Muito além de apoio material, surgirão, como que por encanto, a maior das manifestações de amizade que se pode conceber: A solidariedade. Cada amigo, em função de sua disponibilidade e sensibilidades, o apoiará ora com visitas, ora com telefonemas e mesmo orações. É como se essas forças superiores nos mostrassem o poder da fé que não se explica pelos meios clássicos da razão, mas que existe como força metafísica. Outros, contudo, passarão bem ao largo como se ainda estivessem na Idade Média e que a Peste Negra que assolou meio mundo fosse o mal de que você padece. Quer momento mais interessante para separar o joio do trigo?

Quinta: Passada a tempestade e agora já em mar calmo é hora de refazer o estilo de navegação que vinha adotando em sua vida. Menos estresse; mais foco nas coisas essenciais; menos importância para as coisas miúdas que fazem do dia-a-dia um torvelinho sem fim; mais valor às amizades verdadeiras; mais amor a Deus e à natureza por Ele personificada; mais alegria com cada dia, cada noite e com cada pessoa que nos rodeia...

E se um dia, por essas coisas incompreensíveis do destino, Ele te colocar à prova, lembre-se de que a palmeira de sua vida pode voltar a florir como floresce, agora, a do nosso jardim...


Edson Pinto
24/11/08

20 de nov. de 2008

58) PERESTROIKA DIVINAL (nov'08)

A coisa estava ficando cada vez mais complicada e até Deus que não gosta de se intrometer na maneira como usamos o livre-arbítrio - presente que nos deu no crítico momento em que titio e titia comeram o fruto proibido no Paraíso - julgou ser a hora de tomar alguma providência.

__ Sabe Pedro, você como secretário geral para os assuntos de desavenças terrestres dê uma olhadinha com mais cuidado naquele território que tanto beneficiamos com benesses naturais e veja o que pode ser feito...

__ O Senhor fala do Brasil?

__ Meu caro secretário, asseverou o Supremo, intriga-me a displicência da sua pergunta e por isso respondo com outra. __ Acaso poderia ser outro país?

__ Desculpe-me Senhor, é prá já, e saiu agitando mais do que o normal a sua longa veste imaculadamente branca. Enquanto mudava apressadamente de nuvem, Pedro deixou escapar em alto e bom som certo lamento. __ Cansei! Agora só me resta aplicar o “job rotation” naquela turma! Vou implantar meu projeto Perestroika em 5 pontos! Dito e feito:
  • O Delegado Protógenes passa a comandar a seleção brasileira que vinha de mal a pior nas mãos de Dunga.
  • Dunga assume a FUNAI onde a gestão da política indigenista caminhava para fazer com que toda a população voltasse a usar tanga se não quisesse ser humilhada com o facão da índia Tuíra.
  • Marcos Valério é deslocado para o Ministério da Justiça em substituição ao ex-comunista Tarso Genro que estava prestes a viajar para o Vaticano com o seu pleito de canonização de toda a turma da PALMARES, da COLINA e dos antigos militantes da Política Operária (POLOP) onde inclusive floresceu Dilma Vana Rousseff Linhares, a atual mãe do PAC.
  • Lula deixa a Presidência da República e assume a gestão das obras do metrô de São Paulo onde os buracos não paravam de desabar, e
  • Daniel Dantas é escalado para o lugar de Silveirinha na novela “A Favorita” em decorrência da dubiedade de ações deste, ora a favor de Flora ora a favor de Donatela.
Antes de repousar na tranqüilidade de sua nuvem, Pedro ainda se conecta telepaticamente com o Supremo e Lhe dá informações gerenciais sobre o programa recém-implantado, prometendo "feedback" em momento apropriado.

__ Senhor, já são passados 30 dias desde que Lhe comuniquei o programa de “job rotation”, a minha Perestroika, implantado no Brasil. Por isso venho humildemente reportar o fracasso de minha tarefa.

__ Claro que sei de tudo meu bom Pedro. Afinal, minha onisciência está perfeitamente calibrada com os acontecimentos da Terra e alhures. De qualquer forma, apreciaria ouvir de sua própria voz o que aconteceu. Fique a vontade!

__ Senhor:
  • Protógenes na seleção desandou-se a grampear conversas dos adversários com o intuito de prever suas táticas e deu tudo errado. Como não resistia a um holofote, deu bom dia a cavalo e não fez outra coisa senão deixar o Brasil, pela primeira vez na história, fora de uma Copa do Mundo.
  • Dunga, na FUNAI, quis aplicar a sua conhecida “simpatia” e acabou como uma peneira de tanto que foi espetado pelo facão da índia Tuíra.
  • Marcos Valério, na pasta da Justiça, resolveu cobrar “pedágio” de todos os terroristas prestes a serem canonizados e agora agraciados com polpudas aposentadorias. Ao insistir na comissão de 80%, acabou sendo obrigado pelos extorquidos a viver com Delúbio em sua fazenda goiana.
  • Lula, nas obras do metrô, foi infeliz ao discursar efusivamente para um buraco nas proximidades do Rio Pinheiros. Mal acabara de pronunciar a sua frase mágica “Nunca antes na história deste p...” toneladas de terra se encarregaram de lançá-lo de uma vez por todas para os anais da História.
  • Daniel Dantas, com o poder econômico que tem, subornou João Emanuel Carneiro, o autor da novela, e conseguiu desmentir tudo o que vinha sendo mostrado pela Venus Prateada. Flora, não era a fria assassina. Ela estava apenas sonhando. Foi Donatela, de fato, quem matou toda aquela gente, inclusive Silveirinha, isto é, o próprio Daniel Dantas.
__ É o que sempre digo meu caro Pedro. Não há, ainda, como mudar essa situação. Foi assim antes mesmo de Pedro Álvares Cabral se aportar por lá. É assim agora e assim será "ad eternum"...

__ Mas, Senhor, se não tem jeito, por que então ficarmos com essas vãs tentativas?

__ Aí é que reside a verdade meu dileto Pedro! __ Lembra-se que quando te chamei para essa missão referi-me ao Brasil como aquele país em que colocamos benesses mil? Justo, como sou - e você bem sabe disso - ao te pedir tal ação, isso foi com o intuito de sacudir um pouco a poeira brasileira e nunca para melhorar nada, pois não há como abrir mão do meu divino senso de justiça para com todo o povo da Terra.

__ A felicidade média há de ser mantida e, infelizmente amado Pedro, a Natureza do Brasil continua exuberante.

Edson Pinto
Novembro’2008