22 de abr. de 2009

76) TODO-O-MUNDO E NINGUÉM



Nem adianta insistir! Não consigo explicar, nem faz sentido tentar entender a real motivação de tudo ter acontecido da forma que, com o maior prazer, mais adiante, relatarei aos meus diletos amigos. Neste momento, confesso, com a pureza de minha alma, o sincero desejo de tão somente narrar, da forma mais fiel possível, o desfecho desse fato marcante:

Pois bem! Saibam, para começo de nosso entendimento, que das páginas envelhecidas de um livro do acervo da biblioteca do Congresso Nacional, em Brasília, descolam-se do capítulo dedicado à peça teatral “Auto da Lusitânia”, do famoso escritor português Gil Vicente, dois personagens enigmáticas de nomes “Todo-o-Mundo” e “Ninguém”.

Ao se verem, de súbito, em um ambiente que não mantinha um mínimo de relação com aquele prevalecente na virada dos séculos XV para o XVI, quando foram criados, mesmo assim decidem adentrar àquela nova vida e, desprendidos, caminham pelos repletos corredores da casa em direção ao plenário. Lá chegam ao exato momento em que o seu presidente, José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, mais conhecido como José Sarney, ex-presidente do país, abre a sessão livre para o debate entre nobres tribunos.

Conforme padrões da excelsa casa legislativa, tudo é rigorosamente registrado, tal qual num depoimento policial, imagino, com o propósito de que temas importantes tenham suas implementações asseguradas, ou, simplesmente, para serem perpetuados nos anais da Instituição. Todo-o-Mundo, já devidamente adaptado ao novo ambiente do século XXI toma a palavra e dá início ao debate:

__ Pensem o que quiserem, mas o que mais auguro é ver o Congresso Nacional, este Senado em particular, trabalhando com desvelo e de forma austera pelo progresso do Brasil. Em imediato aparte, Ninguém, declara que concorda com a posição de Sua Excelência, proclamando querer trabalhar de modo rigoroso e honesto.

__ Escrevam aí, dita o presidente Sarney para os estenógrafos da mesa: Todo-o-Mundo quer o Congresso trabalhando com desvelo e de forma austera pelo progresso do Brasil e Ninguém quer trabalhar de modo rigoroso e honesto.

__ De novo Excelências, retoma Todo-o-Mundo, quero um aparato estatal enxuto e eficiente para fazer com que as coisas funcionem bem e ao menor custo. Novo e entusiasta aparte de Ninguém para dizer que, em linha com os pensamentos do eminente colega Senador, o que mais quer é, espontaneamente, abrir mão de seus privilégios.

__ Estenógrafos, por favor, ordena o presidente Sarney, registrem que Todo-o-Mundo quer um Estado mais enxuto e eficiente e Ninguém quer, espontaneamente, abrir mão dos seus privilégios.

__ O que mais gostaria de ver neste país, exclama efusivo Todo-o-Mundo, é a punição dos corruptos e o fim do assalto ao erário. Ninguém, com a afinidade de mais de cinco séculos com seu companheiro de palco, aparteia-o com entusiasmo para publicamente dizer - até mesmo como prova de sua pureza moral - que abre mão de seu sigilo bancário.

Já ligeiramente incomodado, Sarney ordena aos estenógrafos anotarem que Todo-o-Mundo quer a punição dos corruptos e o fim do assalto ao erário e Ninguém quer abrir mão de seu sigilo bancário.

__ Senhores, retoma Todo-o-Mundo já em arrebatado êxtase oratório, esta casa precisa se moralizar aumentando a produtividade de sua ação legislativa, reduzindo os indecentes privilégios de funcionários e parlamentares, como a farra das cotas de passagens aéreas, tudo contribuindo para que o Congresso brasileiro seja o mais caro do mundo. Ninguém, sobrepondo-lhe os argumentos, mesmo sem o protocolar pedido de aparte, diz que é chegada a hora de se tomar a iniciativa para tal.

Com os fios do bigode já eriçados de incômodo, o presidente José Ribamar Ferreira de Araújo Costa solta seu derradeiro “marimbondo de fogo”: __ Finalizem aí, senhores estenógrafos! “Todo-o-Mundo quer moralizar e ao mesmo tempo tornar o Senado mais eficiente e Ninguém quer tomar a iniciativa para tal.”

Deveras agastado, o presidente Sarney dá conta ao tribuno do esgotamento de seu tempo no debate.

__ Desculpe-me Senhor presidente, arrefece Todo-o-Mundo já retomado de seu estilo renascentista de tom um tanto galego-português para dizer como últimas palavras que tal ocorrera por estar perdido no tempo. E Ninguém, solidário ao velho colega, pede ao presidente que, assim como ele, nem se importe com isso.

A presidência, em solene prosódia, agradece ao tribuno pelo desenrolar do debate e, ato contínuo, dirige-se aos estenógrafos com a magna ordem para que finalizem as anotações com o seguinte registro:

“Todo-o-Mundo perdeu o seu tempo e Ninguém nem se importa com isso”...

Edson Pinto
Abril’09

15 de abr. de 2009

75) ACERTO DE CONTAS...


Doutor, eu nasci aqui neste sertão brabo onde é o sol quem manda. Só não manda chuva... Chamo-me assim porque meu pai era Nilson e minha mãe Josefa. Daí, juntaram, o “Jo” de Josefa com o “ilson” de Nilson e deu Joílson. Sou Joílson, sim senhor. Nunca tive vergonha de dizer meu nome, o lugar onde nasci e as encrencas por causa de mulheres que me levaram a devolver pro inferno um monte de cabras safados. E olha que, na época que aqui morava, não consegui mandar todos; ainda ficaram alguns por estas bandas.

Depois de minhas aventuras nesta terra, passei a vida no Sul, fugindo, menos da seca, que nunca me fez medo, mas, mais por prevenção às vinganças pelos dez capetas que tinha reenviado ao remetente. No Sul me respeitaram tanto que ao invés de ser tentado a acabar com mais cabras tinhosos botei oficialmente 12 filhos no mundo. Até por uma questão de aritmética fiquei com a consciência tranqüila devido ao saldo positivo de 2. Era coisa de alma, de religião. Fiz promessa pra Santo Antônio de manter esse saldo. Nem mais nem menos, doutor. Como a idade já não me permitia ter mais filhos, também não podia matar mais ninguém. O saldo de 2 tinha que ser mantido. Sentia-me assim perdoado e livre do inferno, não por medo do ardor de seu fogo, pois nada podia ser mais quente do que o meu sertão. Apenas, me arrepiava, confesso, só de pensar em rever aqueles que eu já tinha mandado pra lá.

E por que voltei pro sertão, pra esse canto de mundo, pro sol inclemente dessa terra seca? Não foi por ter perdido a noção de medo dos meus inimigos. Já faz tanto tempo que despachei aqueles cabras que ninguém já se importava mais com isso. Mesmo assim, me previno, pois capeta deixa cria. Acho até que chegaram à conclusão de que eu tava certo. Não me importunavam mais. Também, não voltei por ter enricado e vindo, agora, mostrar que venci em terra alheia sem nunca ter freqüentado escolas e aprendido a ler livros e a escrever cartas.

Enfrentei, sim, a escola da vida e com ela aprendi que ler livros e escrever cartas é coisa de granfino, das elites. Sei fazer contas como ninguém. Ah! Isso eu sei e disso muito me orgulho. Sou rigoroso com os números, aprendi sozinho. Nunca me faltou trabalho e nunca recusei de pegar no batente. Fui e sou pau pra toda obra. Minha única irresponsabilidade, se assim posso dizer, é essa fraqueza quando o assunto é mulher. Ta no sangue. Fazer o quê?

Falei pros meus filhos que eu não estudei porque a vida me foi dura, mas eles - querendo ou não - tinham que estudar. Nunca quis ser granfino, já falei! Só queria trabalhar e juntar um pouco de dinheiro para bem criá-los e também pra encher a minha Tereza de perfumes e essas coisas que mulher adora mais do que ao seu próprio homem.

Foi só felicidade, doutor. Cada filho que chegava a gente dava um jeito, comprava uma beliche nova, fazia um puxadinho na casa e reforçava a dispensa. Fome, nunca passamos. Escola, todos tiveram. Quando começaram a entrar as noras e os genros aí a minha casa começou a parecer mais com a quermesse da igreja do que um lugar de sossego. Não gostava muito não, mas segurei a barra, pois isso dava muita alegria a Tereza. Ela, junto com aquele povão todo era só felicidade. E felicidade ninguém tem o direito de roubar dos outros. É coisa que brota dentro de cada um. Tereza merecia. Eu, de meu lado, tinha lá meus pecadilhos, mas sempre fui bom pra trabalhar e pra fazer contas.

Voltei aqui pro sertão, seu delegado, porque não foi fácil suportar Ifigênia, a vizinha, entrando em minha casa com os três filhos dela para dizer que finalmente resolvera revelar a verdade: Euclides, seu marido, sem saber, nunca pudera ter filhos. Desse modo, aquele trio era de minha autoria. Ingrata! Passei anos pulando a cerca com a certeza de que Ifigênia se cuidava direitinho, feliz com o “chamego sem igual”, como ela dizia, só encontrado neste filho da dona Josefa e do sô Nilson. A casa caiu, seu delegado. Tereza, filhos, noras, genros e o inocente do Euclides desabaram sobre mim como um viaduto mal construído.

Não fui morar debaixo de um deles, não. Fui primeiro falar com Santo Antônio. Era questão de honra e de fé que a minha promessa continuasse valendo. Não sou cabra de quebrar promessa, muito menos de fugir da luta. Errei sim, admito. Aí, doutor, vi que ainda tinha jeito de continuar evitando o caminho do inferno. Só dependia de mim e de mais ninguém.

Foi quando então, doutor delegado, tomei essa decisão. Voltei pro meu sertão, sozinho, é claro. Aqui me reinstalei. Repassei tudo o que tinha me acontecido na vida e, como o senhor agora sabe, dei cabo de mais três daqueles velhos inimigos que ainda perambulavam neste fim de mundo. Pode não ser muito certo, se o senhor considera só um dos lados da questão. Mas, coloque-se no meu lugar e leve em conta a promessa que tenho com Santo Antônio de manter, nem mais nem menos, o saldo positivo de 2. Esses três novos filhos trazidos por Ifigênia me obrigaram a despachar mais três lá pro inferno e assim fazer o meu devido acerto de contas.

Não sei se Tereza me acatará de volta, nem mesmo se o senhor me deixará escapar dessa cadeia imunda. À parte o conforto de ter mantido, por ora, o compromisso espontaneamente assumido com Santo Antônio, confesso o desassossego que me provoca só de pensar na possibilidade real do surgimento de outras crias. Assim como Ifigênia que adorava meu chamego, uma dezena de outras também falavam o mesmo. E olha que sou bom de conta...

Edson Pinto
Abril’09

7 de abr. de 2009

74) MENINOS EU VI!

“Um velho Timbira coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: “Meninos, eu vi!””



 
Na obra-prima de Gonçalves Dias, o poema indianista I-Juca Pirama (aquele que deve morrer), o nobre e valente índio tupi ao cair prisioneiro da tribo timbira renuncia ao seu ímpeto de lutar até a morte para, pedindo clemência, solto, poder cuidar de seu velho pai, cego e doente.

Para sua surpresa, o pai ao recebê-lo de volta considera aquela atitude do filho um ato de covardia e indignado determina que ele retorne aos timbiras, sozinho, para lutar com coragem e valentia. E ele o faz com tamanha bravura que ao ser novamente aprisionado, os timbiras resolvem sacrificá-lo. Isto só não acontece porque o chefe timbira reconhece sua coragem compensando-lhe com a liberdade. A resposta fora dada e o pai recupera, enfim, o orgulho que tinha do filho tupi.

Essa história de bravura do índio tupi passa a ser contada com respeito pelo velho chefe timbira, à noite nas tabas de sua tribo. Quando algum jovem índio timbira duvidava daquela narrativa, ele sempre dizia: “Meninos eu vi”.

Meninos, eu também vi!... Vi, não um bravo índio tupi, sozinho, enfrentando toda uma tribo timbira, mas vi o Lulinha de uma bolsa de 600 reais do zoológico de São Paulo ir à luta e, sem nenhum tráfico de influência ou escuso interesse neoliberal, faturar 10 milhões da Telemar, meio estatal, para que a sua Gamecorp produzisse filminho de celular. Estes eu não vi, assim como também não vi o seu papai mandá-lo devolver regalo tão vil.

E vi também o Marcos Valério, em conluio com o amigo Delúbio, levantar milhões para os fundos do mensalão, os dólares da famosa cueca, as reservas do José Dirceu, bonachão, Genoíno, cabra macho, Roberto Jeferson, falastrão e de tantos outros políticos, desses, eu nem falo não. Até mesmo o PT de milhões encheu a mão. Mas, juro, meninos, punição pra cambada, ainda não vi.

Não queria, mas vi. Vi os cartões corporativos tão fartamente distribuídos comprar tapiocas, pagar farras de ministra, sacar dinheiro vivo para fins que não se registra e tantas outras maçarocas. Justificam daqui, justificam dali, promessas de punições, novos controles e a coisa mais se complica. Passam-se os anos, e sabe o que agora eu juro que vi? Os gastos, então exorbitantes, crescem com mais frenesi. Juro, juro mil vezes, que isto eu também vi...

Operações espetaculosas da Polícia Federal com o beneplácito da nova ABIN, ex-CNI, grampeando telefones que nem folhas de papel; e tem o Protógenes, nefelibata ou psicopata, voando livre qual bem-te-vi; Cesare Battisti inocentado pelo ministro nada tenro, esse tal de Tarso Genro. Juro mesmo que eu vi. Vi muito mais, muito mais do que o que narrei aqui. Precisaria mil páginas para contar tudo o que vi e outras tantas para as respostas necessárias e valentes seguindo o molde das trazidas pelo nobre e bravo índio tupi.

Edson Pinto
Abril’2009

1 de abr. de 2009

73) BOAS NOVAS!


Depois dessa sucessão sem precedentes de escândalos políticos no país - e veja que não me refiro exclusivamente aos detectados com mais estardalhaço na era Lula, pois tal já vem acontecendo desde há muito - agora nos chegam essas boas notícias que, sinceramente, enchem-me de incontida alegria:

Leio aqui na primeira página do meu jornal diário que a Polícia Federal agiu com total competência, zelo extremado e correta discrição para apurar todas as falcatruas de gente muito próxima ou mesmo de dentro do poder. Não se deixou influenciar pela coloração partidária dos envolvidos, nem feriu os princípios constitucionais de respeito à liberdade, efetuando somente escutas telefônicas autorizadas de forma legal. Esse feito permitiu ao Ministério Público, corretamente, identificar os desmandos administrativos e indicar à Justiça, sem deixar qualquer possibilidade de questionamentos, os verdadeiros responsáveis pela gigantesca malversação que se praticava contra o erário. Melhor ainda, essa gente sem escrúpulos já está vendo o sol nascer quadrado e com isso se acostumando, pois terão que vê-lo desta forma por décadas.

E mais na primeira página, porém em coluna da direita: Embora ainda não concretizado, contudo já devidamente encaminhado, os poderes da República se deram conta de que precisavam administrar suas atividades como se fossem empresas, respeitando seus clientes (contribuintes) e imaginando-se num mercado competitivo onde reduzir custos é condição “sine qua non”. Tanto o Senado como a Câmara dos Deputados tiraram das respectivas folhas de pagamento milhares de nomes de “funcionários fantasmas” e com isso conseguiram cortes da ordem de 50% de seus custos. Diferentemente do ocorrido no passado, as recomendações de empresas de consultorias contratadas para diagnóstico e proposta de reestruturação administrativa dos órgãos públicos estão sendo acatadas “in totum”. Já se vislumbra até uma redução da carga tributária, sabidamente uma das maiores do mundo, como conseqüência da redução do custo do governo. Há de sobrar recursos para investimentos em infra-estrutura e em áreas importantes como saúde, educação, habitação e segurança. Deus seja louvado! Não me contive.

A agradável surpresa não se limitou ao que acima descrevi. Outra coluna bem ao pé da página menciona que, com a reforma política já aprovada, conseguiremos eliminar definitivamente a possibilidade de que maus políticos se perpetuem no poder. Doravante, somente pessoas de ilibada conduta e com comprovada vocação para a boa política poderão se candidatar a cargos eletivos. Imaginei-me já ouvindo discursos dos novos grandes líderes, todos ao estilo do probo Rui Barbosa ou de Cícero, o magistral tribuno do Senado romano: “Oh tempora, oh mores!”

No rodapé da página uma última nota que me deixou, de fato, cheio de orgulho de ser brasileiro, foi a informação de que o Bolsa Família havia sido transformado, com muito sucesso, no honrado programa chamado de Bolsa Trabalho. Este, dando não mais esmolas, mas pagando salários dignos para que os desassistidos se sentissem pessoas dignas e úteis à sociedade e assim pudessem auferir renda decente como recompensa a trabalhos que ajudam no crescimento do país.

Como a alma “deverasmente” ensaboada, quarada, lavada, torcida, enxaguada, alvejada, secada, passada e engomada, como diria o nosso saudoso Odorico Paraguaçu, virei a página.

Na página seguinte e em letras garrafais a expressão:

1º DE ABRIL, SEU TROUXA!


Edson Pinto
1º/abril/2009

26 de mar. de 2009

72) IN MEDIO VIRTUS


Adeílson, vindo de um rincão qualquer do país chegou à cidade litorânea com o firme propósito de vencer na vida. Homem de poucos estudos, no entanto esforçado e atento observador das oportunidades que surgiam ao seu redor, decide que ficaria rico vendendo cerveja na praia.

Com os poucos recursos que tinha, comprou a sua primeira caixa de cerveja e no primeiro final de semana de seu plano vendeu todas com bom lucro. No final de semana seguinte comprou 2 caixas e também obteve o mesmo êxito. Semanas sucessivas até que Adeílson já estava vendendo 50 caixas de cerveja por final de semana e as reservas financeiras aumentando. Já morava “melhorzinho” e o filho freqüentava a escola, sonho que Adeílson não pôde dar a si mesmo, mas, orgulhosamente, transferira para aquele que era sangue de seu sangue.

Numa determinada semana Adeilsinho diz: __ Pai, estudei a previsão do tempo e vi que nos próximos finais de semanas choverá muito e em conseqüência a praia ficará vazia. Adeílson que tinha absoluto respeito pelo progresso escolar do filho aceita a sua orientação e encomenda somente 2 caixas de cervejas para aquele final de semana. Dito e feito. Choveu torrencialmente e as vendas foram um fracasso. Adeílson volta com 1 caixa cheia para a casa. O filho tinha razão, e o pior, o mesmo aconteceria nas próximas semanas.

O distribuidor local da cerveja, um homem com longa passagem pelos bancos escolares e com a cabeça cheia de teorias mercadologias e empresariais, afoitamente conclui que a crise econômica mundial tinha chegado forte ao seu negócio, pois os vendedores de cerveja na praia estavam reduzindo drasticamente as compras. Cancela todos os seus pedidos já colocados com o fabricante e projeta trabalhar com um estoque bem menor dali pra frente. Além disso, demite vários empregados, corta o cafezinho, suspende as horas-extras e vende alguns caminhões entre outras medidas que o seu PAC (Plano de Acompanhamento da Crise) lhe impôs.

__ Agora pai, diz Adeilsinho, as previsões do tempo indicam seguidos finais de semana com muito calor. As praias ficarão lotadas. Adeílson vê a grande oportunidade para retomar o próspero negócio e vai ao distribuidor para comprar logo umas 200 caixas de cervejas. Outros vendedores também vislumbram as boas perspectivas e acorrem com o mesmo objetivo. Conclusão: O distribuidor não tinha estoque para atendê-los. Ficaram, todos, sem o necessário suprimento para as vendas, e assim a cadeia comercial da cerveja, naquela localidade, perdeu o momento de fazer um bom dinheiro. Isso tudo, sem contar, que os turistas passaram a considerar não mais voltar àquela praia em que nem a sagrada loirinha gelada conseguiam comprar.

História simplesinha, mas que contém uma profunda lição sobre como funciona a economia e em conseqüência o que torna uma nação mais ou menos próspera e, portanto, mais ou menos feliz. Converta essa história do Adeílson para todos e quaisquer outros setores da economia e verá que tudo gira em torno da expectativa mantida sobre como será o futuro e das decisões que se tomam tendo em vista como melhor enfrentá-lo.

A Indústria automobilística brasileira que vinha de sucessivos recordes de crescimento se assusta com o tamanho da crise mundial e, em dezembro último, decide que seria necessário trabalhar com estoques menores. Mas, ao invés de ir reduzindo paulatinamente os níveis de produção e tomando, com mais freqüência e acurada atenção, o pulso da economia, logo opta por férias coletivas ampliadas, demissões, suspensão de encomendas a fornecedores e faz com que a produção caia em cerca de 40%. Estava instalado o pânico no mercado.

Passa janeiro, fevereiro e entramos março. Medidas tomadas pelo governo como a redução do IPI, a superação dos temores iniciais logo levam consumidores para as concessionárias em busca do desejado carro novo. Sabe o que está acontecendo agora? Faltam carros nos estoques das distribuidoras para diversos modelos e, de novo, formam-se filas para aguardar o recebimento do carro. Daqui a pouco, e se perdurar essa insensatez, podemos esperar por ágio e outras espertezas típicas de ambientes econômicos desorganizados.

Prudência é a palavra de ordem. Vale para tudo na vida, inclusive para as decisões de natureza econômica. “In medio virtus”, como Aristóteles, em Ética a Nicomâno, ensinou a seu filho, devemos sempre recordar que a virtude está no meio termo, na temperança, no equilíbrio e nunca nos extremos.

O dia em que os fundamentos da economia se mostrarem confiáveis, as autoridades reguladoras forem responsáveis, o empresariado privado e público e todos os demais agentes econômicos passarem a agir com a devida cautela, evitando os sobressaltos e as decisões extremas, as coisas poderão caminhar melhores e assim viveremos com mais calma e menos estresse.

Ou será que essas precipitações que desorganizam a vida do cidadão interessam a alguém?


Edson Pinto
Março’ 2009

16 de mar. de 2009

71) CÓPULA EXCOMUNGADA

Primeiro, Greespan com a sua prosódia indefectível
Pôs sobre a mesa o mais cru de todos os temores:
A exuberância irracional das mentes de amadores
A mostrar quimeras na forma de realidade possível.

Depois, o Lehman Brothers deu-nos avisos sinistros:
Quando espertos e incautos se unem em correntes,
Haverá sempre Madoffs, patetas e frouxos ministros,
A fazer do mundo festim orgíaco de inconseqüentes.

A América e o G7, de soberba e de inatacável pujança,
Vê sua gente sem emprego, sem teto, já mendigando.
Faltava resposta a essa débâcle de ordem tão leviana,

Até que ao cabo de mea-culpa, teorias e até pajelança
Wall Street, no bico do corvo, tudo o mais explicando,
Anuncia o responsável como a tal da Cópula Gaussiana:


Edson Pinto
Março’09

12 de mar. de 2009

70) REALIDADE OU PESADELO

Como as empresas vinham demitindo seus empregados aos milhares, milhões, estes correram aos bancos e - por absoluta necessidade - sacaram suas poupanças e zeraram suas contas correntes. Poupadores que tinham dinheiro aplicado, ao vislumbrar mais encrencas pela frente, se apressaram a sacar seus investimentos e dar-lhes destinos outros que, inocentes, imaginavam mais seguros. Por isso, os bancos ficaram sem lastro e assim começaram a aumentar as tarifas, suspender os financiamentos, provocar, marotamente, o trancamento das portas giratórias para clientes com cara de que iriam sacar, demitir e – como num dominó – cerrarem, um após outro, as suas portas.

Os supermercados e o varejo em geral deixaram de dar crédito, pois a inadimplência atingira níveis insuportáveis. Os desempregados, novamente aos milhões, deixaram de comer em restaurantes, de ir a cinemas, comprar roupas e calçados e até mesmo deixaram de adquirir o básico para a sua alimentação. Dessa forma, os restaurantes fecharam; também os cinemas, os açougues, as padarias. Vídeo locadoras, discotecas, salões de belezas e outras atividades não essenciais, essas, nem se fala...

A Indústria, o setor mineral extrativista, a Pesca e segmentos vários da economia desandaram a suspender investimento e, “demitir”, passou a ser a principal regra do jogo. E o pior, nenhum patrão tinha recursos financeiros para honrar as indenizações. As empresas aéreas, por pouco tempo, ficaram ainda transportando somente os deputados, os ministros e aquela gente graúda de Brasília, pois lá - diferentemente do resto do mundo - a crise ainda não havia se instalado inteiramente. Não que a arrecadação astronômica de impostos não tivesse caído. Caíra, sim, e de forma absurda. Porém, o governo seguia emitindo moeda e o fez abundantemente para que, pelo menos no Planalto Central, o clima de festa se mantivesse incólume.

Mas, quando os agricultores pararam de produzir por falta de financiamento e principalmente por falta de consumidores, aí o caldo entornou de vez. Ninguém tinha dinheiro para pagar a conta de luz, nem a da água, nem o condomínio do apartamento, nem a escola dos filhos, nem a passagem de ônibus, nem os alimentos dos supermercados, nada. Também, nem precisa, pois as empresas de eletricidade faliram, as de saneamento básico deixaram de tratar a água, as escolas fecharam, os ônibus pararam de circular por falta de combustível e os supermercados cerraram suas portas porque não tinham mais recursos para repor estoques e, o pouco que tinham, vinha sendo saqueado por hordas de famintos.

Foi quando Brasília se deu conta de que alguma coisa poderia estar indo para o lado errado. Mas, aí a crise chegou lá, também. Dona Marisa perde a criadagem e ela mesma começa a limpar (claro que mais ou menos, pois tinha perdido a prática) as vidraças do Alvorada. Deputados não conseguiam mais embarcar em aviões de carreira, custeado pelo erário, pois as empresas aéreas já tinham recolhido suas aeronaves. Embora fossem muitos os políticos e funcionários públicos que zanzavam de Brasília para o Brasil, não o era em quantidade suficiente para sustentar todas as empresas. O sistema aéreo, tal qual o transporte público terrestre, fluvial, marítimo e lacustre tinha falido.

Lula, então, grita para Dilma que o PAC já deveria ter resolvido todos os problemas da economia brasileira. Esta, “lisinha” pelo último botox aplicado, esclarece ao presidente que já de há muito o PAC tinha interrompido todas as obras. Faltou dinheiro, e o pior, as obras tinham perdido totalmente a razão de ser. Não tinha mais demanda para as ferrovias, nem carros para circular nas novas estradas, nem consumidores para a energia elétrica a ser produzida pelas usinas, nem motores suficientes para o etanol e o petróleo a serem colocados no mercado.

__ Mas, e o povo, o que está fazendo? Gritou, irritadiço, o presidente. __ Quem não morreu de fome, presidente, pontuou Dilma, está agora comendo a grama do próprio jardim, se tem a sorte de ter alguma. As pessoas estão consumindo as árvores de nossas florestas e de nossas ruas. Voltaram, os que puderam é claro, para a zona rural e tentam tirar da terra o possível para comer. __ Nossa vibrante economia, presidente, escafedeu-se! O PIB virou um "pibinho" e quer saber de uma coisa, gritou exasperada a mãe do PAC: __ Fui! E saiu apressada sem nem mesmo se lembrar de retocar a maquiagem, pois, convenhamos, isso também já não fazia mais sentido. 2010 tinha sido riscado de seu calendário.

Lula salta da cama, não só por ter-se despertado daquele tenebroso pesadelo, mas pelo fato de que um vento gelado (coisa rara em Brasília) entrava pela janela quebrada e sem manutenção, por falta de verba, despertando-lhe os mecanismos mais primitivos de defesa. Pura adrenalina...

Vaidoso como sempre, exclama para os bobs de dona Marisa, pois esta se encontrava totalmente entregue aos cuidados de Orfeu, o seu discurso mântrico por excelência: __ “Nunca na história deste país um presidente sofreu tanto em um só pesadelo, mas acordou feliz por saber que as coisas estão realmente ruins, mas que podem piorar ainda muito mais. Isto - concluiu em êxtase - me dá tempo de voltar para Garanhuns, são e salvo”.

__ Levanta Marisa! Arruma a tralha que aquele pau-de-arara que me trouxe para o Sudeste, em 1952, vai voltar para Garanhuns e não podemos perdê-lo.

Edson Pinto
Março’2009

2 de mar. de 2009

69) MISTÉRIOS DA MENTE

Não sei se, com exceção dos mistérios insondáveis do Universo, existe algo mais incompreensível do que a mente humana. Tão complexa e tão atrevida em querer governar o mundo, não consegue – como sobejamente provado - bem dirigir nem ao próprio corpo que a abriga, nem a si mesma.

Vivemos a ilusão eterna de que em algum momento nossas mentes se harmonizarão como o fazem os metais, as cordas, as madeiras, a percussão e os teclados de uma magnífica orquestra sinfônica. Mais do que uma ilusão, um sonho, uma quimera, um devaneio... Não deve ser por outra razão que nossos lobos rugosos se dobram e se desdobram em infinitos vai-vens para ocultar truques, artimanhas e matreirices que nos personalizam o comportamento. Por mais previsível que uma mente possa se mostrar, maior é o potencial de nos surpreender em algum e inesperado momento.

Até hoje, ninguém conseguiu bem entender o que se passou nas mentes dos Nardonis naquela fatídica noite em que a pequena Isabella foi lançada do prédio onde moravam. Quais processos comandaram mentes parricidas como as da angelical Suzane von Richthofen e a do bem comportado Gil Rugai? Não nos esqueçamos que até Nero matou Agripina, sua mãe. Paranóia? Seja lá o que for e o que a Psiquiatria possa nos trazer de explicações, jamais nos sentiremos confortáveis com os mistérios da mente humana. Só nos resta ficar ciscando aqui e ali a busca de alguma lógica que ao menos nos dê uma pista do porque as coisas são como são.

Nesse dias, fomos surpreendidos com a história burlesca, não fosse de fato trágica, da garota Paula Oliveira, 26 anos, protagonista de uma verdadeira ópera-bufa tupiniquim. Alegou ter sido atacada por “skin-heads”, na Suíça, onde mora, e que em conseqüência perdera os gêmeos que guardava no ventre. E para arrepio desta nossa sofrida nação que já alimenta desde os tempos de colônia, certo complexo de inferioridade, apresentou-se com o corpo cheio de rabiscos e inscrições que partiriam o coração de qualquer ser humano minimamente sensível. Preconceito? Xenofobia? Manifestações precipitadas de autoridades que buscam mais os votos da saloiada do que a busca serena da verdade passaram a dominar nossas mentes já confusas.

Logo que o assunto veio a publico, pensei: Isso está me cheirando muito estranho para as conclusões tão brevemente colhidas. Um tio da menina logo aparece na TV e solta o que para mim constitui-se no gonzo, ou seja, a dobradiça a sustentar e ao redor da qual gira o raciocínio que desenvolvi para o caso: O parente, tio, se me lembro bem, lamenta que a sobrinha, uma “executiva tão bem sucedida no exterior”, tivesse sofrido tão bárbara agressão. O lamento é correto e condoeria a qualquer um de nós. Chama-me, contudo, a atenção é a qualificação de “executiva bem sucedida” que pré-rotula para a garota algo que ela certamente teria dificuldade em confirmar na vida real.

Uma menina de 26 anos, tendo se bacharelado há poucos anos, nem OAB possuía, solteira, talvez por opção pessoal e não por imposição da empresa em que trabalha fora enviada para uma formação profissional em outra unidade no exterior. Admirável, é claro, a disposição dessa garota para viver alhures a procura de um ideal. Mas, convenhamos, há uma grande distância entre viver em um país de clima frio, pouco sol, outra língua, outra cultura, sem os pais e parentes por perto, sem amigos e dizer que isto significa ser “bem-sucedida”. No fundo, no fundo, a menina Paula sofria de solidão; devia questionar a si mesma sobre a validade da aventura que vinha experimentando; sentindo saudades de sua boa terra; amargurando conflitos internos apenas para que o titio e todos os que a viam do lado de cá, a tivessem na conta de uma “executiva bem-sucedida”, um gênio do Direito Marítimo brilhando na terra de cultura tão elevada.

Mera vaidade! A felicidade não está no brilho do cargo que alguém exerce, mas no prazer que se sente em viver bem a própria vida.

O folclórico jogador Viola, ainda marcando gols e se divertindo por aí, desistiu de uma carreira que poderia ser brilhante na Espanha porque – na sinceridade que lhe é marca registrada – disse não conseguir viver num país onde não se comia feijão. O que entendia por felicidade era muito mais simples (comer feijão) do que ser bem sucedido na carreira em outro país. Voltou feliz! Será que precisamos ser simplórios para sermos felizes, ou podemos racionalmente, inteligentemente e soberanamente procurarmos a felicidade ao nosso modo e não ao modo que os outros julgam como adequado?

Sempre fui muito crítico com a atitude de pais que querem fazer dos filhos astros nisso e naquilo talvez mais por vaidade pessoal do que pelo orgulho sincero de verem os filhos bem-sucedidos. Quantos jovens ao frustrarem as megalomaníacas expectativas dos pais não deformam seus comportamentos e passam a se sentir como inúteis fracassados? A vida é uma luta permanente e quem dela participa pode tanto ganhar como perder. Perder na vida, tal qual nos esportes, não deveria ser encarado como fracasso, mas sim como experiência adquirida. A bela canção de Gilberto Gil “Aquele Abraço” passa-nos a lição de que a vida é de cada um e não dos outros: “Meu caminho pelo mundo/Eu mesmo traço/A Bahia já me deu/Régua e compasso/Quem sabe de mim sou eu/Aquele Abraço!

A nossa confusa Paula de Oliveira certamente sairá dessa. Não sei com quantas cicatrizes nem em quanto tempo. Lições aprendeu e lições terá passado para seus alambicados parentes que andam confundindo carreira bem-sucedida com vida bem-sucedida. Mais importante do que dizer que a bacharel em Direito Paula Oliveira tem um cargo importante, numa empresa grande e num país de primeiro mundo é saber se a menina está feliz.

E – se não sabem – seria bom que soubessem que a felicidade pode estar em coisas tão simples como no feijão do artilheiro Viola.


Edson Pinto
Março’ 2009