28 de mai. de 2015

295) SERÁ QUE TEM JEITO?


Olhem bem para a foto que ilustra esta crônica! Fui eu mesmo que a fiz no último dia 18 de maio quando de mais uma de minhas raras e nostálgicas perambuladas pelas ruas de Belo Horizonte, uma das mais progressistas e bem planejadas cidades do País. Quando vou até lá para visitar parentes não há como deixar de ir ao centro, tomar um cafezinho na Praça Sete, um “pit stop” na Savassi, uma visita ao Restaurante do Porto ou mesmo dar um pulinho no indefectível Mercado Municipal próximo à conhecida Praça Raul Soares. O mosaico português está em toda a parte, como nesta pobre calçada. Já explico!

Sim, eu disse “planejada”! Belo Horizonte é mais velha, mas nasceu como Brasília e algumas poucas outras cidades brasileiras. Fruto de um bom projeto político que demandou para a sua consecução a inteligência, a competência e o bom gosto de próceres da engenharia, da arquitetura, do paisagismo e até mesmo de profissionais da bem conhecida e muito apreciada calcetaria portuguesa.  Desta arte, o exemplo magno no País são as calçadas de Copacabana que já viraram símbolo da cidade do Rio de Janeiro.

O Engº Aarão Reis, vencedor com o melhor projeto para a nova capital mineira, a erigiu em cerca de quatro anos partindo de uma visão futurista e forte influência do positivismo da época. Construída para substituir a topograficamente acidentada Ouro Preto e também para suportar o crescimento que a recém-nascida República haveria, portanto, de proporcionar mais espaço e mais conforto para uma população que já vinha crescendo de modo acelerado. Sua inauguração foi no dia 12 de dezembro de 1897. Hoje BH já é uma senhora de 117 anos, 2,5 milhões de habitantes na sua área urbana e 5,8 milhões em sua região metropolitana. Atingiu um IDH 0.810, classificado como “muito alto” até mesmo para os padrões internacionais. Mas tem problemas...

Ainda sobre o projeto da cidade Aarão Reis argumentou a seu favor:

Foi organizada, a planta geral da futura cidade dispondo-se na parte central, no local do atual arraial, a área urbana de 8.815.382 m² dividida em quarteirões de 120 m x 120 m e ruas largas e bem orientadas que se cruzam em ângulos retos e por algumas avenidas que as cortam em ângulos de 45º. Às ruas, fiz dar a largura de 20 metros, necessária para a conveniente arborização, a livre circulação dos veículos, o tráfego dos carros e trabalhos da colocação e reparações das canalizações subterrâneas. Às avenidas, fixei a largura de 35 metros, suficiente para dar-lhes a beleza e o conforto que deverão, no futuro, proporcionar à população (…)”.

Assim nasceu BH, orgulho dos mineiros, mas que como qualquer outra cidade deste País constitui-se num cadinho de culturas formada por gente vinda de todos os quadrantes. Uns cultos, outros ignorantes. Cultos trabalhadores, organizados, mas também cultos ociosos, displicentes, desinteressados. Ignorantes bravos que arregaçaram as mangas para o trabalho e o fazem o melhor que podem. Muitos ignorantes desleixados, despreparados, incompetentes.  À frente da sociedade, políticos cultos, políticos incultos. Uns zelosos, honestos, outros calhordas, preguiçosos, irresponsáveis e despudorados. Nesse cadinho real o bom e o ruim, o bem e o mal se misturam, se fundem, e formam uma massa estranha, difícil de ser compreendida e explicada.

A calçada da foto é consequência da parte dessa massa gelatinosa que, por descuido do lado bom da sociedade, ainda prospera impune. O calceteiro caprichoso dos primórdios fez o desenho harmônico com os mosaicos e criou o efeito de ondas que se expandem ao infinito. Passam-se os anos, o que, em geral, nos sugeriria mais aperfeiçoamento técnico e mais gosto estético e nos vem os “profissionais” da vez. Provavelmente para embutir uma fiação sob a calçada eles se mostram incapazes de recolocar os históricos mosaicos em linha com o desenho original. Simples assim: pretas com pretas, brancas com brancas. O único desafio para apenas dois ou três neurônios seria o de respeitar o desenho original. Aposto quanto quiserem que uma criança de apenas três anos saberia como fazê-lo melhor.

No mesmo cadinho sou tentado a jogar algumas perguntas para tornar a massa cultural mais palpável: Por que dar um serviço a quem não tem o menor preparo para tal? Quem contrata o serviço não deveria fiscalizar e exigir qualidade antes de pagar por ele? Por que muitos acham que o problema não é deles e sim dos outros e se omitem enquanto a sociedade engole calada sem se mexer, protestar, reclamar e exigir respeito? Por que temos esta postura de achar que as pequenas coisas não são importantes e que por isso podem ser relevadas? Quando vamos ter consciência de que o bem público é feito e mantido com o dinheiro dos impostos que pagamos e que, portanto temos o direito de exigir qualidade no seu gasto?

Quando nos perguntamos por que nunca ganhamos um prêmio Nobel enquanto há países que os tem às dezenas fica-nos um travo na garganta, um desconforto insuportável de ver que em nosso País cada vez mais a impressão que nos fica é que temos involuído. A Política era atividade nobre e honrada, hoje é abominável. Os profissionais eram competentes, hoje são uns porcalhões. A calçada era bem cuidada e elegante, hoje é um lixo.

Será que tem jeito?

Edson Pinto
Maio’2015

PS: Clique aqui: Calceteria Portuguesa



13 de mai. de 2015

294) COLORINDO A VIDA


É da natureza feminina a prodigalidade verbal. Nós homens, exceções à parte, somos mais comedidos. Escutamos mais, falamos menos. As mulheres foram dotadas de qualidades únicas exatamente para propiciar a criação dos filhos da maneira mais competente. Suspeito que a fala abundante tem muito a ver com isso... Os homens não manejam com a maestria devida os instrumentos da educação filial. As mulheres, sim, e devemos dar graças a Deus, pois isso nos libera tempo para curtir o futebol, mexer no carro inúmeras vezes e - por que não - também ficar escrevendo patacoadas?

A base cientifica da constatação de que a mulher fala mais do que o homem encontra-se espalhada por estudos de várias universidades americanas e europeias. Como este meu texto não é um tratado formal, sequer de um ensaio literário, o que requereria de mim mais embasamento eu me sirvo apenas do registro que a psiquiatra americana, Louann Brizendine, fez em seu livro “O Cérebro Feminino”. Nele, ela menciona - e não se assuste, por favor - que estudos comprovam que as mulheres falam em média 20.000 palavras por dia, enquanto os homens falam míseras 7.000.

Verdade cientifica ou não, o fato da vida é que poucos discordariam da evidência de que a mulher fala mais do que o homem. Pronto! Quem tem mulher e filhas em casa sabe muito bem do que estou falando. Eu só tenho mulher e filhos homens, mas tenho uma neta e o meu universo familiar mais amplo incorpora donzelas aos montes. Como homem, às vezes, me surpreendo questionando se o volume de ideias e pensamentos está diretamente relacionado ao de falas produzidas. Fosse isso verdade, seria forçado a admitir que nossas esposas são verdadeiras "Einstein’s" de saia, e nós, pelo pouco falarmos, constituiríamos um exército de néscios insensatos. Minha suspeita relevante sobre isto é que as mulheres externam em falas tudo, ou quase tudo, o que pensam, enquanto os homens selecionam, ponderam, postergam e até descartam muito do que lhes vem à mente. Seriam, então, as mulheres mais sinceras por não censurar a liberação do que pensam? Espero ainda uma resposta da ciência...

Agora vem algo que, em função dessa superioridade verbal, as mulheres falam de nós de forma cada vez mais frequente e aberta: “Eles fingem que nos escutam, mas, na verdade, o que falamos entra-lhes por um ouvido e sai pelo outro. Homem nunca se lembra do que a mulher falou”. Ainda no campo científico, isso me traz à mente um estudo que li há alguns anos sobre a impossibilidade do cérebro captar mais de uma informação em simultâneo. A nossa memória de curto prazo - explicava o estudo - funciona com um tubo na forma de “Y”, no qual informações vindas de mais de uma fonte se afunilam na junção com a base do “Y” e somente uma delas é admitida para processamento. Assim, se a mulher fala ao mesmo tempo em que o repórter da TV fala sobre o gol do seu time somente uma das informações será acatada. No homem, imagem qual? Foi Donald Broadbent, psicólogo inglês e professor em Oxford, que disse: “Quando ouvimos duas vozes, selecionamos apenas uma, sem levar em conta se o que está sendo dito é correto, e ignoramos a outra voz”. Isto é cientifico!

Mas, milagrosamente, algo aconteceu no meu hábitat. A neta chegou e, ato contínuo, eu me preparei para começar a ajustar o meu “Y” interno às 40.000 palavras que, cientificamente, me dizem seriam produzidas pelas duas princesas de minha vida. Nunca conferi este número, nem pretendo fazê-lo, mas o acato, a princípio. Jornal da TV muito improvável, leitura concentrada, suspensa por ora. Adaptativo com deve ser o homem moderno e ajuizado já me contentava com o William Waack e a Christiane Pelajo no jornal da Globo que – felizmente neste caso – vem-nos cada vez mais próximo do horário em que o galo canta. A essa altura, certamente elas já terão caído nos braços de Morfeu.

Havia, contudo um misterioso silêncio. Ouvia-se o roçar do vento agitando a palmeira do quintal. Os bem-te-vis que nunca deixaram de cantarolar agora se faziam mais ouvidos, mais graciosos. Ecoou claro o som de um cão latindo à distância; de uma porta que se bateu na casa do vizinho. Ao longe, o ruído de uma máquina de cortar grama quebrava docemente o vazio de ruído. Comecei, confesso, a sentir a falta daquele burburinho até então por mim criticado. Ele já fazia parte da minha vida. Não estava preparado para uma mudança tão radical de hábito. Sai do meu esconderijo, o escritório de casa, e fui conferir a razão pelo qual Louann Brizendine, a psicóloga americana, falhava naquele momento. Estariam abalados os pilares mestres da Psicologia Cognitiva ou o que mais poderia ser?

A passos lentos, eu vou até a sala. O que vejo me surpreende, me emociona e ao mesmo tempo me faz esquecer tudo o que pensava saber sobre a diferença comportamental entre a mulher e o homem. Era o mundo se adaptando, se renovando, se reencontrando com a sua trajetória de paz. Elas tinham em mãos um livro de figuras esboçadas no qual, com a habilidade que também é privilégio das mulheres, munidas de dezenas de lápis de cores, coloriam figuras como se o mundo a seu redor tivesse deixado de existir.

Não falei nada para não lhes tirar a concentração, mas tomado de um fervor incomum, postei as mãos e as elevei aos céus agradecendo a Deus pela dádiva. Falei com Deus, e por não ser egoísta, não apenas em meu exclusivo nome, mas de todos nós, os homens de 7.000 palavras.

Creiam!

Edson Pinto

Maio’ 2015

7 de mai. de 2015

293) SUA MAJESTADE A MESA


Muito se fala da roda como sendo a grande e revolucionária invenção de todos os tempos. Foi a partir dela, dizem, que o homem teria avançado e alcançado o progresso dos dias de hoje. Falam-se ainda de invenções outras igualmente importantes: a prensa tipográfica que permitiu a difusão do livro e por extensão da cultura e do saber; a máquina a vapor que foi fundamental na revolução industrial do século XVIII; o papel; o avião; o computador e por ai afora...

Como qualquer pessoa de bom senso, eu também não deixaria de concordar com a importância das mencionadas invenções. A favor delas apenas gostaria de pontuar que uma invenção torna-se importante não necessariamente pela sua complexidade, pelo maior grau de pesquisas envolvidas no seu desenvolvimento ou ainda pela notória genialidade de quem a concebeu. Uma invenção é memorável quando permanece por muito tempo na vida das pessoas e das sociedades. Pode ser até uma invenção bem simples, mas - desde que tenha utilidade e longevidade - ela se torna realmente digna de ser rotulada como uma “grande invenção”.

Você já parou pra pensou sobre uma prosaica mesa?  Esse móvel simples, prático e útil que há milênios desempenha um papel relevante à humanidade?  Ela estava nos palácios dos Faraós do Egito; na Dinastia Shang da China antiga; na Grécia de Platão; na Roma do Imperador Tácito e do poeta Virgilio; nas reuniões secretas dos Templários e na conspiração dos Inconfidentes Mineiros. Ela está, hoje, em nossas casas, nos escritórios, nas lojas, nas oficinas, nos museus, nas escolas, nos bares e em mil outros lugares, especialmente em restaurantes.

 Não dá para imaginar uma casa que não tenha uma sequer, na maioria das vezes até para múltiplo uso. Serve para a refeição do dia a dia, para o estudo das crianças, para o chá das visitas, o corte do tecido da dona de casa costureira. Serve para suportar o arranjo de flores que dá vida e alegria ao lar; serve para receber as compras quando se chega do supermercado e, metaforicamente, até para a discussão da relação do casal e da família quando a ela se apela dizendo: “vamos colocar nossos problemas sobre a mesa”. E não esquecendo de que marcam as primeiras lições de Inglês dos nossos pequenos quando se afirma, mesmo que jocosamente, “the book is on the table”...

Nos escritórios não dá nem para imaginar como, sem uma mesa adequada, se produziria os relatórios, escreveriam os textos, calculariam os resultados e fariam reuniões de trabalho. Em uma loja, ela é imprescindível para demonstrar a mercadoria, fazer o pacote e servir ao cliente em potencial o cafezinho que estimula o fechamento do negócio. Nas oficinas é com ela que se consertam as peças, lixam-se a madeira, faz-se polir o metal, apertam-se os parafusos e soldam-se as peças quebradas para fazer reviver o velho aparelho doméstico. É ela que suporta esculturas nos museus, os livros da professora na escola, os cadernos que os alunos aprendem as primeiras e as mais avançadas letras, como também – em um bar – é nela que o boêmio afoga as mágoas do amor perdido...

Nos restaurantes, ela acomoda os casais, os grupos de amigos e as famílias que procuram um lugar tranquilo para uma das atividades mais prazerosas que o ser humano pode ter: uma boa refeição, um vinho na medida certa e acima de tudo um momento de convívio especial que o tira da rotina e o coloca em uma nuvem de paz. Soubessem todos os "restauranters" da importância de uma mesa para quem valoriza esses momentos, jamais colocariam algumas no corredor, próximas a lugares barulhentos, coladas à porta do banheiro ou em locais que sejam potencialmente capazes de anular toda a atmosfera que se exige de um lugar aprazível.

Aqui eu entro com o que o pessoal de casa atribui a mim como sendo uma das minhas chatices mais exageradas: sempre tomo a iniciativa da escolha da mesa que julgo ser das melhores do restaurante. Meu critério é muito simples: evito mesas em lugares de passagem onde circula muita gente; busco uma que esteja em uma área bem arejada, de pouco ruído e de preferência em um cantinho mais isolado que me permita falar sem incomodar ou ser incomodado. Fujo daquelas que ficam coladas no toalete, na boca da cozinha onde os garçons transitam com frenesi ou nas proximidades de outras mesas onde grupos barulhentos já se instalaram.

Isso é ser chato?

Penso que não! Mesmo porque, não sou de chegar tarde a restaurante e ter que ficar com a única mesa que todos que me antecederam já recusaram. Principalmente, se sou frequentador assíduo de determinado restaurante já até tenho a minha mesa de preferência e é para ela que eu me dirijo. Onde frequento pouco, ou estou indo pela primeira vez, é que me dou ao capricho dessa chamada chatice.

Será que eu estou errado ou prestando uma reverência a essa majestade soberana, indispensável e de efeito mítico que é a mesa?

Edson Pinto

Maio’2015 

1 de mai. de 2015

292) SÓ PARA GÊNIOS?


De diversos amigos do Facebook recebi o desafio que ilustra este texto.  Se você é participante da rede social deve tê-lo visto também, pois ele faz parte dessas publicações virais que vez por outra surgem na internet.  Li várias respostas na seção de “comentários”, sendo que a totalidade fazia algum sentido e se escudava em raciocínio aparentemente lógico e demonstrável.

 Uns afirmavam que o resultado seria 90, pois considerava a lógica de se multiplicar, em cada linha, o número da esquerda pelo numero da mesma posição que dá continuidade a sequencia numérica e que está, ou estaria, na linha seguinte. Assim, como na linha do número 5 (à esquerda) a sua multiplicação pelo número 6 da linha seguinte levou ao resultado 30, bastaria a multiplicação do 9 pelo seu lógico sequente que seria o 10. Neste caso o resultado seria, obviamente, 90. A hipótese aqui assumida é a de que os algarismos 7 e 8 foram propositadamente omitidos apenas para confundir o desafiado.

Outra resposta que também faz sentido é considerar que o resultado de uma linha corresponde ao resultado da linha anterior acrescido do dobro do número da primeira coluna da linha analisada. O 42, por exemplo, se explicaria pela soma do resultado de 30 da linha anterior somado ao dobro de 6, isto é, 12, da linha para a qual se faz o cálculo. Por essa lógica, o 90 como resultado da linha da interrogação se justificaria, pois o número 72, que se pressupõe estaria na linha anterior omitida, somados ao dobro de 9, isto é, 18, levariam ao mesmo 90.

O que pega neste exercício é saber o que há por trás da omissão dos números 7 e 8 na sequência. Seria exatamente esse o enigma a ser desvendado? O número 234569 (formador da sequência da primeira coluna) teria alguma propriedade especifica como, por exemplo, ser um número primo, um fatorial, um número perfeito, poligonal, ou mesmo um número de Fibonacci, de Bell ou Catalão? Não é nada disso. Há de se questionar, então, se trata de uma omissão capciosa ou se devemos respeitar a sequência tal qual apresentada?

Sem querer polemizar, pois meu objetivo neste texto é outro, como saberão no parágrafo seguinte, eu me arriscaria a dar a resposta que considera a sequência tal qual demonstrada, isto é, nada foi omitido sem que isso tivesse sido explicitado na formulação do desafio. Parto, portanto, do principio de que as informações só são essas. Assim, diria eu que o resultado seria 60.  Explico: Já que não há como garantir que o próximo número seria o 10 ou o 0 ou mesmo o 1, então eu só posso trabalhar com os números dados. Usei o resultado da linha anterior, 42, somando duas vezes o número 9 da linha pedida. Se for isso que o autor do teste esperava como resultado, ou se é o 90 ou outro número qualquer só ele pode explicar. Devolvo o desafio a ele...

Eu fico, contudo, com a lição que esse problema nos sugere, ou seja, a de que a verdade é uma das questões mais profundas e difíceis para nós os seres racionais. Não é por outra razão que filósofos desde priscas eras têm discutido o tema sem que uma conclusão satisfatória e definitiva se tenha alcançado. Fala-se em vários tipos de verdades, inclusive em verdades relativas, aquelas que se moldam a cada circunstância. O que para uma pessoa faz todo o sentido para outra pode nada significar.

Quando olhamos o quadro político em que vivemos somos – não raro – surpreendidos com a multiplicidade de verdades que são apresentadas para um mesmo fato, um mesmo comportamento. Temos inúmeras versões dos mesmos eventos, suas relativizações, suas temporalidades, a exegese das nossas leis, os costumes presentes e pretéritos e, acima de tudo, os aspectos morais. Pode ser legal, mas não ser moral. E até mesmo, em sendo moral, nem tanto...

Resolver os enigmas da vida não é um desafio só para os gênios como se instiga no desafio matemático acima. Pode e deve ser algo muito simples, pois, como nos ensinou o mestre Khalil Gibran:

“A simplicidade é o último degrau da sabedoria”.

Edson Pinto

Maio’ 2015

23 de abr. de 2015

291) NO PAÍS DAS PEDALADAS


O prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, concebeu e vem aos trancos e barrancos executando um ambicioso plano para prover a cidade com 400 quilômetros de ciclovias e “ciclofaixas” até o final de seu mandato. A diferença entre os dois termos é sutil e não vem ao caso de aqui perder preciosas linhas para o esclarecimento. Usarei apenas o terno ciclovia que além de mais sonoro é o que se encontra registrado no Aurélio. O importante é que, obviamente mirando-se em exemplos de cidades europeias, quer o prefeito petista fazer de Sampa uma terra de ciclistas e assim passar glorificado para a história. Neste mérito me recuso a entrar...

Como todo projeto polêmico este anda eivado de criticas pelo seu fraco planejamento e principalmente pela forma atabalhoada com que vem sendo executado. Os moradores e comerciantes das ruas afetadas não são previamente ouvidos e, não raro, faixas pintadas de vermelho sobrepõem-se a buracos e encontram postes e árvores e outros obstáculos intransponíveis pela frente. O importante para a Administração petista é tocar as obras, custe o que custar. Neste particular, a propósito, há até quem já apontou que vêm custando muitíssimo mais do que custa em outros países. Mas isso é outra questão. De outro lado, um grande contingente de ciclistas aprecia em muito a iniciativa e isso é positivo...

O ciclismo é uma atividade impecável. Eu mesmo já tive, no passado, a experiência de usufruir de saudáveis pedaladas quando por dois anos morei na Holanda. Posso dizer, portanto e por experiência pessoal, que esse simples e econômico meio de transporte aperfeiçoado pelos ingleses no final do século XIX continua sendo – dada as circunstâncias – o que há de melhor, pois alia meio de locomoção prático e econômico com a saudável atividade física e - em tempos de acirrada preocupação com o meio ambiente – um ato ecologicamente perfeito. Eu disse perfeito e não prefeito...

Há, contudo dois grandes obstáculos para o sucesso dessa iniciativa em muitas das cidades brasileiras: A primeira é que as vias urbanas já estão definidas e nessa circunstância é muito mais difícil achar espaço para as ciclovias do que tê-las já definidas quando do projeto urbanístico. Construir uma faixa para uso exclusivo de ciclistas rouba espaço do transporte público, dos automóveis, das áreas de paradas e até mesmo dos pedestres. O outro problemão refere-se à topografia. Na Holanda, o país referência para o ciclismo, é um território essencialmente plano. Os ciclistas têm condições confortáveis para pedalar e o clima de ameno a frio ajuda em muito. Em São Paulo, salvo em áreas bem especificas, temos muitas vias íngremes que dificultam em muito a prática confortável do ciclismo, especialmente quando sob temperaturas elevadas. As realidades, com se vê, são bem distintas, porém não de todo irreconciliáveis.

De qualquer forma, eu sou daqueles que consideram que a ideia é boa e que mesmo se pouco se avançar nesse projeto pelo menos ele já terá o mérito de despertar a consciência dos planejadores urbanos para que os novos projetos viários considerem o espaço adequado e seguro para os ciclistas. Cidades menores e mais planas certamente têm muito a ganhar, e muitas já ganham, com criação de ciclovias. Até mesmo por uma questão econômica, pois custa muito menos construir ciclovias do que construir grandes avenidas para suportar o crescente aumento da frota de automóveis.

A lição que nos fica desse projeto é que ele – infelizmente para o prefeito Haddad – é a associação que somos levados a fazer entre as pedaladas ciclísticas com as maluquices que o seu partido, o PT, vem demonstrando na condução da economia do País. Não sei quem imita quem, mas o fato é que Dilma, mesmo morando em Brasília, mostrou-se também fã de pedaladas, só que de natureza fiscais e não ecológicas. Já se desconfiava, mas agora o Tribunal de Contas da União demonstrou a prática da criminosa pedalada com as contas públicas em flagrante desrespeito à lei de Responsabilidade Fiscal.

Para mostrar que as contas andavam bem, o governo (Tesouro Nacional) deixava de transferir aos bancos os valores para pagamento de obrigações como, por exemplo, o Bolsa Família. Passava a ideia de que fazia superávit fiscal o que significa boa administração e deixava, o que é proibido e, portanto criminoso, que os Bancos oficiais como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil fizessem os pagamentos numa forma oculta de empréstimo. No mês seguinte pagava-se o devido e fazia-se nova jogada. A isso, o mundo dos negócios convencionou chamar de pedalada. É como, ao andar de bicicleta, não poder interromper as pedalas sob pena de se levar um tombo.

Agora estamos neste imbróglio: Brasília pedalando, São Paulo de Haddad pedalando e o povo pagando a conta. Ou quem sabe, o povo, já massacrado com a carga tributária e com a inflação corroendo suas rendas, também já não aprendeu a pedalar a sua sobrevivência?

Afinal, parodiando Fernando Pessoa: viver não é preciso, pedalar é preciso...

Edson Pinto

Abril’2015 

16 de abr. de 2015

290) QUASE UMA SANTA



Decidimos e vivemos muito mais em função de fatores psicológicos do que de circunstâncias objetivas. Quem gosta, acompanha e entende um pouco de futebol, essa paixão popular, sabe bem do que estou falando: O elenco é de alto nível, os salários dos jogadores estão sendo pagos rigorosamente em dia, a torcida é fiel, vibrante e apoiadora, mas o time, misteriosamente, insiste em não vencer, até mesmo desafios considerados fáceis.

Observem que, em geral, não se atribui o fracasso do time a um ou a poucos de seus jogadores, mesmo quando eles não andam na melhor de suas formas físicas e técnicas.  A responsabilidade é na maioria das vezes atribuída ao técnico. Como forma de se contornar esse problemão, o técnico invariavelmente é trocado. Tanto faz o quão convincente e admirável seja o seu currículo profissional.

Como visto, o que prevaleceram não foram exatamente os fatores objetivos da realidade, mas sim os psicológicos. Quando algo precisa mudar, nossas mentes se condicionam a achar que as coisas só podem tomar outro rumo se removido o líder. Fica difícil para a mente humana acreditar que quem está errando no que faz tenha condições de admitir isso e assim assumir uma mudança substancial em suas ações.

Ações, como sabemos, decorrem dos pensamentos e das condições intuitivas e das crenças arraigadas que temos.  Isto é psicológico e, portanto, elemento determinador de grande parte de nossos atos. O técnico que tenha consciência disso e sabedor de que a sua permanência pode mais prejudicar do que ajudar o time, não raro toma a iniciativa de acertar com a direção do clube a sua saída. Nessas circunstâncias sair com espontaneidade adquire até um caráter de grandeza espiritual.

Transportada essa situação para a política o que vimos hoje é uma presidente que anda errando muito na condução de seu time. Mesmo que apontem fatores objetivos que viessem a sustentar a sua permanência, o psicológico da questão já se sobressai a tudo o mais. Até mesmo aqueles mais crédulos que alimentavam a esperança de uma reviravolta na forma como a nossa presidente vem conduzido o país já se renderam às evidencias de que é necessário trocar o técnico do time. Infelizmente, a encrenca em que nos metemos requer, agora, muito mais desprendimento e espírito cívico elevado do que se possa imaginar.

Quando o humor das massas entra em desequilíbrio como tem ocorrido presentemente tornam-se pouquíssimas as esperanças de que o mal possa ser corrigido com a técnica que foi responsável por ele. Assim como um clube que não pode prolongar em excesso a sua trajetória de insucesso, um país também não pode seguir sangrando por mais quatro anos só porque tem que sustentar a decisão infeliz de ter reconduzido a líder que não vai nada bem. Mais do que uma questão de honra e de defesa de interesses políticos o que se faz de maior relevância é a necessidade de que não deixemos o país ficar pior a cada dia.

Penso que o processo de impeachment mesmo sendo legal é uma “via crucis” que submete a toda a nação a um sofrimento de grandes proporções. Penso mais ainda que tudo isso seria evitado para o bem de todos se a presidente, fortalecida de sua civilidade e patriotismo, apresentasse a sua renúncia. Mostraria, no mínimo, a nobreza de espírito que caracteriza os grandes líderes. Passaria para a história como a presidente que abriu mão de suas vaidades e não a imagem da teimosa que conduziu o País ao descalabro.

Como Pedro Stédile, líder dos MST, recentemente definiu Dilma Rousseff como praticamente uma “santa”, bem faria a ela se acatasse de pronto essa designação e tal qual Santa Maria Madalena, na foto que ilustra este texto, também renunciasse de suas posses e passasse para a história santificada e não amaldiçoada. Deixaria de ser “quase” para ser uma verdadeira santa...

Edson Pinto

Abril’2015 

12 de mar. de 2015

289) DE NOVO OS BICHOS

Meu amigo José Roberto dos Santos me repassou um texto/desabafo que - de forma pretensamente didática - eu tentei resumir e acomodar na tabela abaixo. Não são necessariamente pontos de vista pessoais, quer seja do meu amigo, quer sejam meus, mas sim a síntese de uma reflexão sobre o que paira no ar. Não se deve, portanto, subestimar a sua fácil aplicação ao momento que ora vivemos. Reagrupei os temas, acrescentei algumas firulas, mas respeitei integralmente o seu espírito original.

Sua leitura, creio, pode levar a cada um de nós à necessária conscientização de que vivemos, infelizmente, em um país cada vez mais apartado das convicções e dos valores que nos impulsionavam os ideais até um passado não tão distante. 

Leiam com cuidado os pontos e em seguida - se tiverem paciência - leiam também o texto que escrevi em outubro de 2010 na antevéspera da primeira eleição da presidente Dilma e cujo link forneço em seguida.

O QUE FIZ E SOU...
... E O PREÇO QUE PAGO POR ISSO.
Meus pais foram responsáveis e rigorosos comigo me propiciando escola e educação. Assim, estudei e pude adentrar ao mundo do conhecimento.
Agora sou rotulado de pertencer a uma minoria privilegiada. Omitem por conveniência  o mérito dos meus pais e os meus próprios.
Com  esforço e sacrifício do meu tempo de lazer trabalhei de dia e às noites frequentei a Universidade e me diplomei
Hoje, me consideram burguês. Não raro, um privilegiado membro da elite. Se eu bato panela em protesto à calamitosa situação do País me assacam um “Elite Gourmet”
Trabalhei arduamente por 35 anos na mesma empresa e consegui formar meu patrimônio, pequeno, mas sólido.
Sou visto com um membro da elite, um esnobe que não tem pena dos despossuídos. Esquecem-se dos exorbitantes impostos que pago que se bem aplicados fariam adequada justiça social.
Não votei no PT, no PCdoB e em outras dessas siglas exóticas.
Hoje me chamam de fascista, de neoliberal, de direita caviar.
Sou hétero e cristão, mas respeito e defendo o direito dos outros quanto às suas próprias preferências.
Mas quando expresso essa minha condição me rotulam homofóbico e infiel.
Não sou sindicalizado, por opção.
Isto me torna um traidor da causa operária e um subserviente aliado do patrão.
Tenho minhas próprias convicções e opiniões. Não aceito quaisquer  versões que o governo, mentindo, diz como se verdades fossem.
Por isso, tacham-me de golpista. Quando reclamo dos altos impostos que pago, me rotulam de sonegador. Se eu critico os roubos na Petrobrás, atacam o meu patriotismo.
Sou adepto incondicional da meritocracia.
Rotulam-me de antissocial, de egoísta, de insensível, de elitista.
Sou muito grato aos meus pais que me educaram com disciplina e me ensinaram a respeitar os outros.
Hoje, quando defendo maior rigor na criação dos filhos me consideram um carrasco a impedir-lhes o pleno desabrochar.
Respeito a vontade popular e confio na instituição das forças armadas para garantir a segurança constitucional do País.
Quando falo isto me chamam de oposição golpista de ser um saudosista do regime militar.

Como já disse, em 1/10/2009 eu escrevi e publiquei neste mesmo blog, o texto de nº 138 intitulado, “Eleição dos Bichos” (clique neste link para ter acesso a ele: http://blog-do-edson-pinto.blogspot.com.br/2010/10/138-eleicao-dos-bichos.html)

Sugiro a leitura, porque o tema desta crônica de hoje tem muito a ver com o que lá expressei. A situação é outra, mas os bichos são os mesmos...

No texto, para resumir, fiz referencia ao importante e ainda atual clássico de George Orwell, “A Revolução dos Bichos”. Lá, ele satiriza a experiência socialista empreendida pelos bichos da Granja Solar liderada pelo porco Napoleão. Havia ainda, assessores manipuladores da mesma espécie, ovelhas alienadas, burros esforçados e galinhas dispersas. Os valores inicialmente estabelecidos para nortear as ações dos comandantes foram perdendo consistência, esquecidos, modificados e adaptados aos seus interesses pessoais.

Alguma semelhança?

Edson Pinto
Março’2015

5 de mar. de 2015

288) COISAS CHATAS


Todas as situações que nos aborrecem de forma persistente têm o poder de nos gerar aversão a elas, de tal modo que, depois de cristalizadas em nossas mentes, tendemos a rotulá-las de “Coisas Chatas”. Assim, passamos a abominá-las, a evitá-las. Se ignorá-las for de todo impossível, só nos resta enfrentá-las a contragosto.

Há pessoas que consideramos chatas. Umas até ganham um reforço pela intensidade com que praticam a chatice. São jocosamente qualificadas de “chatos de galocha”. Não quero, contudo, aqui e agora, falar de pessoas. O motivo é que isso é muito pessoal e fruto do mais explícito subjetivismo. Quem a outrem parece chato, pode parecer-se formidável a um terceiro. Isso é da natureza humana, felizmente... O que quero neste texto é apenas falar de coisas, de situações que considero chatas. Minha crítica é nesse aspecto absolutamente impessoal.

Construí uma lista de 10 coisas que considero chatas. Existem muitas mais, mas fiquemos com estas dez. Vejam se concordam com a minha lista e o quanto ela se identifica com as próprias, se é que também as tenham. Por mais que tenhamos o otimismo de Pangloss e o domínio do jogo do contente de Pollyanna, considero impossível viver sem esses e outros aborrecimentos. Quem sabe se, até mesmo, eles têm a função vital de nos levar a valorizar as coisas boas que muitas vezes, injustamente, negligenciamos?

Minha lista:

1) Apuração de resultado de escola de samba ao final de cada carnaval:
Demora quase o tempo do próprio carnaval. Infinitos jurados que, por princípio (ou seria medo de represália?), só dão nota 10. Aquelas Escolas que em algum dos intermináveis quesitos tiram 9,9 já podem ir se preparando para a derrota. À considerar a qualidade das notas, o Carnaval brasileiro seria uma obra tão perfeita quanto a do Criador. Nesse caso, o preferível seria termos os carnavalescos à frente do governo e os políticos nas escolas de samba.

2) Atendimento em uma loja da Vivo:
Falo da Vivo, pois é a minha operadora, mas pode ser de outra empresa concorrente. Fica-se sentado (quando tem cadeira disponível) com uma senha na mão. Passa uma eternidade até que chega a sua vez de ser atendido. Depois, não raro, ao invés de ter a fatura reduzida (razão maior de sua ida até lá), percebe-se que a fatura seguinte vem com valor ainda maior.

3) Big Brother Brasil:
Se me virem assistindo a um dos BBB´s podem chamar o SAMU, pois devo estar nas últimas. Claro que isso não comove a Venus Platinada, pois o importante é a verba dos patrocinadores. O formato do programa permanece insepulto e vaga como um zumbi a nos atormentar. Nada soa mais falso... Enquanto tiver gente que vota com base em promessas mentirosas dos políticos também teremos audiência para o BBB. Aguardem que o BBB 120 chegará em breve...

4) Declaração do Imposto de Renda:
Sofrimento que vem sempre depois da Quaresma. Acho que é uma forma de sermos punidos pelos pecados cometidos nas festas de final de ano e no carnaval. Deve ser complemento das penitências da Semana Santa. O curioso é que, quanto mais o Leão retém na fonte, mais impostos temos que pagar ao fechar a Declaração.

5) Crianças soltas em restaurantes:
Resolveu descontrair-se em um restaurante? Boa companhia? Bom vinho? Boa comida? Lá vem aquele bando de encantadores capetinhas gritando e correndo em velocidade compatível à da Fórmula 1. Nada contra crianças, eu as adoro, mas contra os pais que acham estar alegrando o restaurante ao deixarem os filhinhos se comportem como se estivessem no pátio de suas escolas ou no playground do prédio em que moram.

6) Reunião de condomínio:
Como mostra uma propaganda da TV, só é frequentado maciçamente quando do sorteio das garagens. No mais, é aquele tédio: Os exaltados de sempre; os donos da verdade; os transgressores contumazes do estatuto e dos regulamentos e que nunca colaboram, mas querem ser tratado como reis. Salve essas majestades!

7) Ligação de telemarketing ativo:
Não interessa se você está num velório, no banheiro, com visitas, dirigindo, em audiência com o Papa ou mesmo na maior intimidade com sua cara metade. Lá vem uma oferta de uma assinatura de revista, uma doação a uma instituição de caridade, uma linha telefônica ou mesmo um jazigo perpétuo no cemitério recém-lançado. Dá pra morrer de raiva...

8) Recurso contra multa dos órgãos de trânsito:
Rei dos engodos. Perde-se um tempão juntando dados e coletando provas; faz-se a defesa dentro do prazo e manda pra lá. Receberemos sempre um solene “Indeferido”. Ninguém lê os seus argumentos, mesmo porque são milhões de defesas e apenas alguns gatos pingados para dar conta da papelada. Conclusão: É sempre perda de tempo. Melhor deixar de dirigir e ir se acostumando com o transporte coletivo público.

9) SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor:
Liga-se e uma máquina atende. Seguem falsos votos de boas vindas e promessas de que a sua ligação é muito importante. Após, musiqueta e menus de zero a nove que exigem boa memória para guardar aquele número que corresponde ao seu interesse. Mas não é só: submenus se sucederão até que – passados uns 40 minutos – a máquina informa que alguém irá atender. Sucederão outros tantos minutos até que isto de fato aconteça, ou, não raro, a ligação caia. Aí é só, pacientemente, começar tudo de novo.

10) Cadeia obrigatória de TV:
Pode ser um ministro ou mesmo o presidente em exercício. As mensagens são tão inúteis quanto demonstram única e exclusivamente o interesse da autoridade em se posicionar politicamente. Promete-se “Pátria Educadora” com a mesma cara de pau com que fala da Petrobrás como orgulho do povo brasileiro. A propósito, neste próximo domingo tem presidente na TV. Quem sabe desta vez não me aborrecerei?

Edson Pinto

Março’ 2015 

26 de fev. de 2015

287) CONTROLE DE PESO


Quando ficamos com sobrepeso - desde que isso não seja causado por uma doença, coisa que nos deve levar ao médico -, sabemos que a solução é uma boa dieta. A máquina, neste caso o nosso corpo, está sendo abastecida com mais insumos do que precisa para cumprir seus objetivos. O que excede vai para as células adiposas numa espécie de depósito inútil. O corpo, assim mais pesado, começa a exigir mais insumos para ser sustentado e um círculo vicioso se instala no organismo: mais gordo, mais alimento, mais gordo...  As consequências disso, nem é preciso falar, pois são as piores possíveis.

Em uma empresa, em uma organização qualquer ou mesmo no governo o fenômeno igualmente se repete. As estruturas vão sendo alimentadas quase que por inércia e inchando tal qual acontece com o corpo humano que se alimenta descontroladamente. A cada ano novos funcionários são orçados e admitidos para atender às novas necessidades. As necessidades novas, ou mesmo antigas, podem desaparecer por razões várias, mas a estrutura, se não tiver controle, se ajeita para acomodar aquele sobrepeso. Está aqui a semelhança entre o corpo humano e as estruturas organizacionais.

Tal qual o gordinho que percebe que algo vai mal com a sua vida e toma as providencias corretivas necessárias, as empresas também – com raras exceções, é claro –, são, até mesmo por uma questão de sobrevivência, levadas à adoção de dietas. De como isso é feito falarei mais adiante.

As organizações privadas que dependem de fluxo financeiro escasso também são forçadas a isso. Não se pode dizer o mesmo das estruturas da máquina estatal, por três razões básicas: (1) Os cargos públicos de comando têm, em geral, caráter transitório. Isto significa que a preocupação pelo aumento da eficiência da máquina torna-se menos importante que outros propósitos do gestor. Neste caso este tema nunca é prioritário. (2) O chamado instituto da estabilidade que torna quase impossível a demissão de pessoal e (3) O poder desmesurado do governo de tributar e de endividar-se para suprir de forma quase infinita a sua necessidade de recursos para sustentação de sua obesidade.

Por experiência profissional vou discorrer, brevemente, sobre uma das formas pela qual uma empresa que percebe os malefícios de seu sobrepeso age: Existem consultorias especializadas em análise de custos das organizações que podem ajudar nesta tarefa, porém não vem ao caso citar aqui a metodologia que adotam. Em geral, trata-se de um processo bem simples:

(1) Todos os funcionários devem listar, com a ajuda de um consultor, as tarefas que fazem; o tempo que gastam com elas; a frequência; os custos envolvidos e para quem o produto de seu trabalho se destina (exemplo: relatório semanal tal enviado ao setor qual...). Pede-se ainda a identificação das tarefas quanto à sua importância segundo sua própria avaliação. 

(2) Depois de tudo levantado, entrevista-se as pessoas que são beneficiárias dos produtos dos serviços indicados pelos outros. Aqui, novamente, se pede para identificar os tais produtos pela sua importância que têm em seu próprio trabalho.

(3) Finalmente, a análise identifica de forma clara o que tem pouco ou nenhum valor e aí se efetua os cortes de despesas e pessoal correspondentes à reorganização que disso decorre. Toma-se assim uma decisão consciente e praticamente isenta de erros. A empresa corta seus excessos de gordura e fica enxuta para enfrentar com maior eficiência as condições do mercado em que atua.

As perguntas que não querem calar são muito simples:

(1) Por que os governos não fazem o mesmo em suas inúmeras repartições, secretarias, departamentos, ministérios e outros órgãos sob a sua responsabilidade, ao invés de somente determinar o aumento de impostos e de sua divida?

(2) Quando teremos um governo sério e corajoso o bastante para criar condições de cortar a própria gordura e com isso tornar a máquina pública menos custosa?

(3) Será que os governos têm consciência de que se nada for feito neste sentido atingiremos em breve a uma situação insustentável que pode nos levar de novo ao FMI como a Grécia agora depende da ajuda da Comunidade Europeia?

Imaginem quanto trabalho inútil e funções redundantes não existem dentro da máquina pública. Quanta gente fingindo que trabalha e sendo mantida pela mal aplicada instituição da estabilidade ou porque tem sustentação política. Somos todos nós, os contribuintes, que pagamos a conta dessa ineficiência.

Até quando suportaremos essa irresponsabilidade?

Edson Pinto

Março’2015 

17 de fev. de 2015

286) O CARNAVAL E A LEI DE MURPHY


Pode parecer estranho, mas o Carnaval e a Lei de Murphy têm muito em comum.

__ Dá pra explicar?

__ Claro que sim!

__ Primeiro, as definições básicas:

Carnaval: Se você é daqueles que aguardam com ansiedade a chegada do Rei Momo; põe uma fantasia ousada e sai por aí um tanto chumbado, cantando, “Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”, então você sabe muito bem do que se trata. Neste caso, fica dispensado de ler o restante deste parágrafo. Se, contudo, não for esta a sua situação, considere que o Carnaval é, de fato, um gigantesco acontecimento popular, anual, heterogêneo quanto à diversidade de seus costumes, culturas e religiões e que se caracteriza pela suspensão temporária de toda forma repressiva de censura pela quebra das convenções sociais e especialmente dos apelos eróticos. Tem muito de escracho. Falei!

Lei de Murphy: Coisa de americano; é claro! O engenheiro militar se chamava Eddy Murphy, quando, no final dos anos 40, em decorrência de erros em experimentos científicos com pilotos da Força Aérea sacou a máxima de que “tudo o que pode dar errado, dará”. De tão simples, concisa e objetiva não tardou até que essa frase virasse lei e se desdobrasse em inúmeras aplicações práticas. Hoje, não há um só lugar no mundo em que a lei de Murphy - para o bem ou para o mal - seja ainda desconhecida. Há até – imaginem – um paradoxo nisso envolvido: Trata-se da teoria do Gato Flutuante. Sabemos duas coisas: Pela lei de Murphy “o pão cai sempre com o lado da manteiga para baixo”. Na prática - pela agilidade que tem - o gato sempre cai de pé, não é mesmo? O que, então, aconteceria se amarrássemos - como mostra na ilustração deste texto - um pão com manteiga nas costas do gato? Assunto para outro texto, ok?

Na minha análise, carnaval e lei de Murphy se identificam precisamente naquele ponto em que as pessoas se sentem completamente à vontade para fazer o que querem, libertas que se sentem - mesmo que momentaneamente - de suas amarras convencionais. Nenhum homem que seja normal coloca nádegas postiças, de borracha, em referência ao bumbum da Paola Oliveira e saí por aí sem cometer transgressões. E, transgressão, como sabemos, pode levar a erros, dependendo, é claro, do ponto de vista de cada um. No final deste texto você pode inferir a própria conclusão...

Se você, contudo, é do tipo que prefere aproveitar o período momesco para ficar na tranquilidade do seu lar, refletindo sobre a vida ou mesmo executando aquelas tarefas que havia postergado desde há muito, saiba que nem assim você se livra da lei de Murphy. No que me toca, fiquei este ano neste grupo. Enquanto a televisão transbordava de nudez explícita, entre espiadelas necessárias, pois ninguém é de ferro, e não tendo muito mais o que fazer, liberei minha mente para vasculhar em seus recônditos lições de vida que a lei maior de Murphy já poderia ter codificado.

É o que agora reporto sobre o meu particular carnaval:

A) CONFIGURANDO O NOVO SMARTPHONE: “Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual” Assim reza o caput do artigo 3 da lei de Murphy. E há parágrafos outros que também caem com perfeição: “Tudo leva mais tempo do que o tempo que você tem disponível”; “Quando um trabalho é mal feito, qualquer tentativa de melhorá-lo piora”; Desta forma, nada mais de prático me restou senão pedir ajuda à minha neta de 13 anos. Funcionou...

B) CONSERTANDO O ASPIRADOR DE PÓ: ”As peças que exigem maior manutenção ficarão no local mais inacessível do aparelho” Como uma das peças me caiu das mãos e eu tentei agarrá-la logo me veio outra alínea do parágrafo anterior da mesma lei: “Qualquer esforço para se agarrar um objeto em queda provocará mais destruição do que se deixássemos o objeto cair naturalmente”. Estrepei-me, é óbvio. Aí vieram à memória dois outros artigos: “Inteligência tem limite, burrice não”; “Quando algo cai no chão sempre rola para o canto mais inacessível do aposento. A caminho do canto, o objeto sempre acerta primeiro o seu dedão” Decidi, por fim, comprar um aspirador novo...

C) AMIGOS FICARAM DE TELEFONAR: Deixei ao lado do telefone, caneta e papel. Há sempre o que se anotar em função da conversa... Bem que Murphy colocou em sua lei no artigo 15: ”Quando te ligam, se você tem caneta, não tem papel. Se tem papel não tem caneta. Quando tem ambos, ninguém liga”. Foi o que aconteceu... Por isso, resolvi tomar banho, sem antes sofrer outra penalidade “murfiana”: “Mesmo o objeto mais inanimado tem movimento suficiente para ficar na sua frente e provocar uma canelada” E como dói! E tem mais: “Todo corpo mergulhado numa banheira faz tocar o telefone” Foi o que aconteceu, de novo...

D) RECONFIGURANDO O DESKTOP: Entrou vírus na máquina. Não pode ser um grande problema, exceto se prevalecer o artigo 54 da lei de Murphy, aquele que diz “O vírus que o seu computador pegou só ataca os arquivos que não tem backup” Xiii... Bingo! Tenho que chamar o técnico. Agora virá aquele garoto ainda adolescente de óculos fundo de garrafa que dará milhares de toques em poucos segundos e depois me cobrará R$100,00. Bem feito! Quem me mandou abrir qualquer arquivo? O perigoso é o inciso 3º do artigo 56 da mesma lei que reza: “Seja qual for o defeito do seu computador ele vai desaparecer na frente de um técnico retornando assim que ele se retirar”. O único jeito é pagar em cheque e sustá-lo - se ainda houver tempo - caso o problema persista...

E) ATUALIZANDO SOBRE POLÍTICA: Jornais, revistas, internet, redes sociais me inundam de notícias sobre como andam as coisas no mundo e mais especificamente no “patropi”. Claro, Murphy previu isso também; “A luz no fim do túnel é um trem vindo em sentido contrário” Poucas esperanças! Ficamos com a estabilidade do Plano Real por muito tempo. Aí dona Dilma resolveu abrir mão dela. Murphy cravou no artigo 13 “Se você tem alguma coisa há muito tempo, pode jogar fora. Se você jogar fora alguma coisa que tem há muito tempo, vai precisar dela logo, logo” É o que está acontecendo. Voltamos ao começo. Socorro! O tripé econômico do Plano Real sucumbiu (regime de câmbio flutuante; superávits primários das contas públicas simbolizando a responsabilidade fiscal e sistema de metas para a inflação). “Quando político fala em corrupção, os verbos são sempre no passado”, perceberam? Está também na lei de Murphy. Só se fala em Petrolão, depois vem BNDES, et caterva... Quem segura este rojão?

Como “as variáveis variam menos que as constantes”, também previsto na lei de Murphy, penso, por fim, que aquele que colocou o par de nádegas da Paola Oliveira e saiu de casa se deu melhor. Ao cair na folia espero só que não tenha deixado ocorrer o que prevê o artigo 57 da lei em questão: “Se ela está te dando mole, é feia. Se é bonita, está acompanhada. Se está sozinha, você está acompanhado”.

Afinal, tudo é carnaval e tudo pode... Se você aceitou a reencarnação e mesmo assim acha que a vida é uma droga não se esqueça de que “Nada é tão ruim que não possa piorar” Passado o Carnaval - espera-se – o Brasil há de começar a funcionar e de dar certo.

Xô com a lei de Murphy, porque do Carnaval não abrimos mão!

Edson Pinto

Fevereiro’2015

24 de jan. de 2015

285) DONA DILMA E A CURVA DE LAFFER


Dona Dilma jura que é economista. Tenho lá minhas dúvidas, pois se realmente o fosse, ou se tivesse feito a sua graduação com o afinco adequado, teria se defrontado em algum momento com a chamada “Curva de Laffer”, esta que ilustra este meu texto. A propósito, a curva ganhou este nome em decorrência do trabalho investigativo do economista americano Arthur Laffer que correlacionou carga tributária com a arrecadação dos governos.

É muito simples de ser entendida, até mesmo por quem não se liga muito em economia. Vejamos:

O eixo do X (Tax Rates) demonstra a carga tributária praticada pelo governo. Vai de 0% a 100% de mordida, na forma de impostos, sobre tudo o que se produz em um país. O eixo do Y (Revenue) demonstra o quanto o governo arrecada quando aplicados os diferentes níveis de taxas de impostos, também chamada de carga tributária.

Ora, taxa zero, obviamente, leva a receita zero. O mesmo ocorreria se a taxa se atrevesse a ser de 100% de tudo o que uma sociedade produz, porque ninguém é louco o suficiente para entregar ao governo, na forma de impostos, tudo o que gera de riqueza ficando sem nada. Afinal, o tempo da escravidão clássica já passou, não é?

Há, entretanto, níveis intermediários e até mesmo um nível de tributação que otimiza essa relação (Equilibrium Point).  É claro que existem controvérsias quanto a isso, mas especula-se empiricamente que um bom nível seria ao redor de 25%, tomando a carga tributária dos Estados Unidos como paradigma. O nosso problema é que aqui no Brasil já estamos próximos de 40% e caminhando para um patamar ainda mais elevado. E o que o governo nos dá de retorno? O saudoso Chico Anísio na figura do professor Raimundo nos responderia aproximando o polegar do indicador dizendo-nos “E o retorno, oh!!!”

Sem mais tecnicismo, fica aqui a constatação de que a Dona Dilma faltou a importantes aulas na Faculdade de Economia, infelizmente para todos nós, exatamente àquelas em que se ensinava sobre a Curva de Laffer. A nossa carga tributária, como sabido até pelas pedras das ruas, já é considerada uma das maiores do mundo. Agora com essa nova paulada na cabeça dos contribuintes (aumento do IOF, volta da Cide, aumento do PIS/Cofins e com o reajuste da tabela do Imposto de Renda abaixo da inflação), caminhamos celeremente para o pior dos efeitos demonstrado pela curva de Laffer: Mais impostos, menos arrecadação. É só acompanhar o reflexo da curva de Laffer sobre o valor da receita à medida que ela avança com tributação mais pesada.

Sabe por que isto acontece?

Os cidadãos e as empresas já não suportam mais pagar tantos impostos e aí se sentem moralmente livres para sonegar, ou para fechar suas empresas, ou para atuar na informalidade fugindo da voracidade do leão ou, quando podem, para migrar, ou – e isto é o pior – quedarem-se apáticos, impotentes, entregando os pontos ou ficando na expectativa e dependência das bolsas sociais que, enquanto existirem, possa lhes mitigar a fome e a miséria.

De resto ainda assistem, passivamente, a degradação do País.

Até quando brasileiros?


Edson Pinto
Janeiro'2015

19 de dez. de 2014

284) BOAS FESTAS

Como faço há anos, eu sempre dedico o texto que publico no meu blog, antecedendo ao Natal, para falar de amenidades.

Abro mão, portanto, das crônicas, às vezes mordazes que faço sobre as mazelas que nos rodeiam, ou poupo os meus amigos de lerem as veleidades que eventualmente me meto a publicar na forma de contos, mesmo os leves.

O importante para mim, nessa época do ano, é poder me dirigir a todos para externar os meus votos de que tenham um Feliz Natal e, no ano novo que se aproxima, as suas esperanças sejam convertidas em realidade.

É muito gratificante – olhando pelo plano da existência humana – nos darmos conta, justo quando fechamos mais um ciclo, de que ainda estamos fazendo parte dessa festa monumental que é a vida. Impossível não sermos tomados pela plenitude de nossas consciências de que ela, a vida, é transitória e, o quanto, para cada um de nós, se tomada isoladamente, é microscópica quando considerada a infinitude do tempo.

Assim, termos a certeza de que ainda estamos vivos, representa-nos mais do que uma grande sorte, senão uma grande benção. Vivemos, pois, um momento ímpar...

Se não fosse a percepção que às vezes nos assalta o espírito de que as circunstâncias que nos rodeiam, de quaisquer naturezas que sejam, sinalizam possíveis duros e, não raro, amargos desafios para o ano seguinte, ficaríamos tão acomodados que a vida perderia o seu real sentido.

Saber disso é reconhecer que nascemos para a luta e não para o conforto inconsequente. Ansiamos - pela nossa própria natureza - com a possibilidade da renovação. O “próximo ano” renova-nos sempre a oportunidade de um novo ciclo em nossas próprias vidas.

Então, que tenham todos, um Feliz Natal e um Ano Novo magnífico!

Volto a publicar no meu blog somente depois do Carnaval.

Edson Pinto 

Dezembro’2014 

12 de dez. de 2014

283) NÃO VAI FAZER FALTA?


½  galeto americano = R$29,00    ½ galeto brasileiro = R$49,00


Em recente viagem aos Estados Unidos e encontrando-me então com o senso critico mais aguçado, fiz observações pessoais várias sobre diferenças existentes entre a forma como se dá o pensamento e a ação na cultura de negócios dos americanos e na nossa brasileira. O que chama a atenção é o fato de sermos ambos capitalistas e, por isso, imaginava haver de se esperar muita semelhança e poucas especificidades que as tornassem em certos aspectos muitíssimo diferentes. Quero nesta crônica citar um exemplo trivial que faz parte do dia a dia que qualquer cidadão demandante de serviços de restaurantes:

Qual brasileiro que em viagem aos Estados Unidos não se surpreende com a grande quantidade de alimentos que é servida em qualquer prato que se peça em um restaurante? A comida é farta a ponto de ser exagerada. A bebida normalmente é servida no sistema de “free refill” aquele em que se pode, pelo mesmo preço, renovar o seu copão de Coca Cola ou outras bebidas quantas vezes quiser e suportar. Gastronomicamente falando, não deixa de ser uma aberração, porém a análise aqui é de cunho mercadológico e não sobre hábitos alimentares. Tudo é generosamente servido e com o propósito explicito de encantar o freguês. Este é o ponto...

No Brasil, e para não ficar numa generalização inconsequente, pois há exceções, cito o caso de uma cadeia de restaurantes cuja especialidade é servir “galetos”, mas eu poderia citar dezenas de outros que conheço e que procedem da mesma maneira. Sou teimoso e esquecido, por isso, vez por outra, vou até esse restaurante e, confesso, sempre saio de lá com o mesmo desprazer. Pede-se um meio galeto que custa quase o dobro de pratos similares em restaurantes americanos e recebe dois minúsculos pedaços do frangote, pressupostamente oriundos de um galetinho muito mal nutrido. Não que comer menos do que o estomago pede não seja até recomendável, mas a quantidade é desrespeitosa de tão pequena. E olha que estamos no país onde a avicultura é considerada uma das maiores do mundo. 
  
Por que, então, os restaurantes americanos servem em abundância e a preços menores do que a maioria dos restaurantes aqui do Brasil? Fiz algumas investigações empíricas, sem o recomendável respeito ao método cientifico, é claro, mas suficiente o bastante para alcançar uma hipótese plausível e estarrecedora quanto à falta de visão de negócios de nossos empresários do ramo de alimentação:

Perguntem a qualquer dono de restaurante que saiba bem administrar o seu negócio, quanto em percentual a matéria prima, isto é, os alimentos propriamente ditos, representam do custo total de seu negócio. Eu fiz essa pergunta e descobri que esta parcela do custo, também chamada de variável, pois oscila diretamente com a quantidade de refeições vendidas, quando muito, fica sempre abaixo de 20% dos custos totais do restaurante. Os custos com aluguel, pessoal, energia, taxas e outros que tem caráter de fixos, isto é, independem do volume de refeições servidas, representa os demais 80%. Guardem bem estes números!

Como pensa o americano: “Se aumento em 25% a quantidade de alimentos nos pratos dos clientes proporcionando-lhes uma quantidade generosa e encantadora eles não só ficam satisfeitos como se sentem estimulados a voltar. Esse 25% a mais no custo da matéria prima acresce no máximo 5% dos meus custos, mas, com isso, atraio muito mais clientes e ao contrário de meu custo total relativo ao faturamento aumentar, ele diminui, pois tenho mais margem sobre os custos fixos que são a maior parte do custo total da operação”. Bingo! Os restaurantes americanos ficam lotados, os preços são menores e a clientela volta com assiduidade.

Como pensa o brasileiro em geral e, em especifico, esses do restaurante do galeto mirrado que às vezes frequento: “Tenho que reduzir meus custos, então coloco menos comida nos pratos dos clientes. Além disso, servindo pouco eles podem pedir mais pratos e assim eu faturo mais”. Infelizmente não se dão conta que a consequência disso é exatamente oposta ao obtido pelo americano. O cliente não fica satisfeito e não volta, ou volta com menos assiduidade ou por esquecimento como tem sido o meu caso; o restaurante tem menos faturamento e consequentemente redução de sua margem, pois os custos fixos permanecem inalterados; para compensar a redução da margem aumenta o valor dos pratos e o circulo vicioso de aumento de preço, redução de negócios se instala até que tenham que fechar as portas e amargando prejuízos vultosos.

É claro que temos empresários brasileiros que já percebem isto e se dão muito bem com seus restaurantes cheios e lucros apetitosos, mas falta à grande maioria essa dose de capitalismo que os americanos dominam com maestria. Penso que ainda pagamos um preço elevado pela falta de cultura de livre mercado no Brasil. Nossa república sempre primou pelo excesso de intervenção na atividade privada o que leva à criação de um empresariado arisco, voltado para o lucro imediato e cheio de espertezas. Ou nunca se dão conta, ou esquecem a sagrada lei maior da economia: Aquela que correlaciona para a maioria dos produtos e serviços o preço com o nível da oferta e da demanda. Menores os preços, maiores as vendas. Maiores os preços, menores as vendas.

Para não ser indelicado com o garçom que nada tem a ver com a falta de visão estratégica do seu patrão, uso sempre de uma inocente e delicada ironia quando ele me traz essas porções desrespeitosamente diminutas. Pergunto: Será que não vai fazer falta?

Edson Pinto
Dezembro’2014