15 de fev. de 2016

303) SIMPLESMENTE, SÓ MAIS UM CARNAVAL





Pedro parecia exausto. Viera de um ano muito difícil. A família crescera, as contas saltaram para patamar mais elevado, a inflação corroia seu escasso salário e tudo o que via e ouvia de amigos tinha a ver com os temas, desemprego, falhas no atendimento da saúde pública, corrupção envolvendo governistas e estatais, e essas tantas outras mazelas que não só tornam mais difícil a vida presente do cidadão comum como parece roubar-lhe as esperanças de um dia viver em um país socialmente mais justo e economicamente mais progressista.

Pedro até mesmo se inteirava, pela TV e pelo que o povo comentava no boca a boca, sobre as descobertas de que figurões de terno e gravata assaltavam a Petrobrás, recebiam propinas e mandavam de forma ilícita dinheiro para o exterior, compravam e ocultam propriedades e coisas do gênero. E o pior: Sempre se declaravam inocentes ou que nada sabiam... Alguns iam presos, é verdade, mas ao que tudo indicava havia mais, muito mais de podridão a ser descoberta no País. O clima definitivamente não combinava com carnaval. Parecia-lhe, em que pesasse seus quase 50 anos de vida, nunca ter visto nada tão desanimador.

Com um pano de fundo desses, será que Pedro iria – como fazia há anos – entregar-se incondicionalmente aos comandos de Momo?

Ele era daqueles foliões que emendavam da sexta-feira à noite até o raiar da quarta-feira de cinzas, bebendo com os amigos, fantasiado, ora de mulher, ora de bebe chorão, ora de pierrô, ora de qualquer coisa que contribuísse para que desligasse, pelo tempo do carnaval, de sua verdadeira identidade de trabalhador honesto e responsável. Nunca deixou de pagar impostos, nunca roubara nada de material nem mesmo imaterial como os sonhos de sua esposa e filhos por uma vida melhor. Acreditava no amanhã. Era otimista, positivo, brincalhão...

Martinha, sua esposa há quase 20 anos, também gostava de acompanhá-lo naquela pausa anual. Se ele vestia de mulher, ela ia de homem. Ele de bebe chorão, ela de enfermeira. Ele de pierrô, obviamente, ela de colombina. Entendiam-se até no carnaval. Por isso, e apesar disso, não havia outra decisão a tomar, mesmo porque, dominava-lhes a certeza de que “não há mal que sempre dure”. Um dia esse estado desfavorável das coisas haveria de passar...

“Vamos pra rua minha nega!” - ordenou ele a despeito de tudo o que o afligia. E foram. E fizeram o carnaval de suas vidas. Cantaram as marchinhas de sempre, o “mamãe eu quero mamar”, “o Pierrô apaixonado”, a “cabeleira do Zezé” e tudo o que a espontaneidade do povo trazia a mente e jogava no ar.

 Há no carnaval, pensou ele, uma forma muito especial de dizer não ao que nos incomoda e dizer sim ao que gostamos. E podemos fazer isso de coração aberto, sem que nada nos impeça de ser sinceros.

 __ O carnaval, - falou Pedro para Martinha enquanto extasiado de tanta farra voltavam para casa na quarta-feira de cinzas - é como deveria ser sempre as nossas vidas: livres de preconceitos, livres para pensar e falar o que quiséssemos, sem compromissos, sem contas a pagar, sem doenças, sem, sem, sem...

Foi quando cruzaram por um derradeiro folião que, como eles, voltava também para casa. A figura, fantasiada de presidiário cantava, e Pedro e Martinha ainda tiveram fôlego para acompanhá-lo no refrão:

“Ai meu Deus / Me dei mal / Bateu a minha porta / O japonês da Federal...”

Afinal, carnaval é também esperança. Aquele refrão parecia adequado para fazer a ligação entre o fim da orgia de Momo e a retomada da realidade. Quem sabe – pensaram e questionaram em uníssono - no ano que vem eles tenham a alegria de encerrar a festa de Momo com o inocente pierrô apaixonado pela sua colombina de sempre?

Edson Pinto

Fevereiro’2016

23 de dez. de 2015

302) RASTELANDO O BRASIL PARA UM FELIZ 2016

Nossos corpos são nossos jardins, nossas vontades são nossos jardineiros. (William Shakespeare)
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Meus amigos mais próximos sabem que cultivo, há anos, o hábito de caminhadas regulares. Enquanto caminho, penso na vida, vejo jardins alheios, perscruto novos pássaros que me cruzam a senda, e me ligo em um "podcast", recurso moderno em favor da velha sabedoria de que neurônios precisam manter-se ativos. Assim, uno o útil ao agradável...

Contudo, Ivo, o caseiro de quase duas décadas, saiu de férias. Ordenei, então, a mim mesmo: Vou cuidar pessoalmente do jardim! Substituo as minhas caminhadas pela jardinagem. Exercício garantido para o corpo e para a alma! Dito e feito:

No primeiro dia, confesso, doeram-me um pouco as costas e suei bastante. No segundo, lamúrias vieram dos músculos das pernas agora mais usados na faina de agachar para coletar folhas e arrancar as ervas daninhas. No terceiro e seguintes, comecei a sentir um prazer inenarrável: À medida que via o resultado do meu trabalho e os músculos cessaram seus queixumes tudo me pareceu perfeito. Ver o gramado limpo, viçoso, as flores resplandecentes me deu orgulho, ânimo e vontade de continuar. Acho que vou me tornar um jardineiro...

A cabeça a mil me leva a memória de Justin Quayle, o personagem de John Le Carré do livro O Jardineiro Fiel, em que o diplomata britânico era apaixonado pela jardinagem. Lembrei-me igualmente de Pu Yi, o último imperador da China, que ao abdicar-se do trono tornou-se jardineiro. De Camões, que, em Os Lusíadas, dedica impressionantes versos às advertências que fizera o velho do restelo. Mas lembrei-me também do meu amigo Raul Canovas que não só concebeu o jardim de minha casa como me deu, há anos, lições de jardinagem que, infelizmente e por tanto tempo deixei de pôr em prática. Como terapia ocupacional – salvo melhor juízo – poucas coisas se mostram mais eficientes do que a jardinagem. Imaginei as turmas do Mensalão, do Petrolão e de tantos outros "ãos" rastelando e refletindo...

Enquanto jardino, impossível também não ver semelhança com a vida do país em que vivemos: Não se consegue um jardim, ou mesmo um país bonito se não lhes tiramos as ervas daninhas que malversam o alimento e o espaço das plantas e pessoas de bem; se não lhe podamos os galhos secos, inúteis que roubam a seiva vital da Nação e impedem que os ramos novos brotem e cresçam; se não lhe aguamos na medida certa para que as folhas cresçam verdes e as flores surjam multicoloridas honrando a natureza bela e pródiga que Deus deu a nós brasileiros. Há também o rastelar permanente do gramado que nos dá a exata ideia do que foi este ano de 2015 que ora se esvai e o que serão os próximos para o nosso querido Brasil.

Precisamos ter em mente que o rastelo metafórico deve estar sempre às mãos de cada um de nós. É com ele que afastaremos as folhas secas, os galhos decaídos e revolveremos aquilo que impede que o "Brasil-Jardim" fique bonito. Um país bonito é, portanto, um país permanentemente bem cuidado. Vamos fazer de 2016 o ano da virada! Bom Natal e um 2016 rigorosamente rastelado!

 Edson Pinto

Dezembro’2015 

14 de set. de 2015

301) QUESTÃO DE VALOR


“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele tem pelos seus próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter.” (Adam Smith).



Quem como eu já não se pôs em algum momento da vida a refletir sobre o valor que as pessoas, em geral, dão aos objetivos da vida social? Seria maravilhoso se partisse da pureza d’alma de cada um - se é que todas as almas são puras - a força motriz que promoveria, pelo apreço ao ideal do bem comum, a renúncia ao egoísmo.

As pessoas de todas as ideologias, classes sociais ou mesmo religiões não só entenderiam, mas efetivamente se portariam com denodo e elevado espírito público, deixando em segundo plano os seus interesses pessoais. Algo como o que fazem as abelhas, as formigas, as vespas e mesmo os cupins que priorizam a vida comunitária em detrimento de objetivos individuais. Seria espetacular, mas, infelizmente, a vida nos tem mostrado tratar-se isso da mais autêntica utopia.

Foi o que o um professor do ensino médio constatou e contou-me quando de uma agradável e recente palestra pessoal em que nos pusemos a filosofar sobre a impossibilidade de se tornar concreto o sonho do comunismo que tanta gente ingênua ainda aspira. Deu-me ele, com o conhecimento de quem procura com afinco educar cerca de 40 jovens de uma mesma classe de aula, um exemplo que reputo digno de ser compartilhado com os meus amigos.  Deliciei-me com a sua narrativa. Prestem bem a atenção!

“Incomodava-me - disse-me ele - as frequentes ausências de meus alunos. Um dia não compareciam cinco deles. Em outros, a classe não chegava sequer a 20 alunos. A continuidade do ensino que deve ser feita como o subir de uma escada, isto é, degrau a degrau, ficava muito comprometida. Além disso, - acrescentou, - nem metade dos alunos cumpriam as tarefas de casa. Perdia eu um tempo enorme para dar uma ajeitada no conhecimento daqueles jovens. Mesmo assim, era frustrante chegar ao final do ano letivo tendo passado a matéria de forma tão superficial. Como professor me sentia derrotado”.

Então lhe ocorreu uma ideia que, solenemente, explicou a seus alunos:

“Todos os dias farei uma pergunta a cada um de vocês sobre a matéria da aula anterior. Quem acertar levará ¼ de ponto para somar à prova do mês. Tenho dez pontos para distribuir diariamente. Se alguém não comparecer, ou comparecendo não conseguir responder satisfatoriamente a pergunta, o seu 1/4 de ponto será distribuindo proporcionalmente aos alunos que acertarem as suas respectivas perguntas”.

Dito e feito...

No primeiro mês por não terem entendido completamente a ideia do professor alguns alunos malandros consideraram que o 0,25 ponto percentual  seria pouco e, portanto continuaram ou faltando ou não estudando a matéria. Só vieram a entender o mal que lhes fazia a opção pela malandragem quando viram que os colegas assíduos e estudiosos chegaram com facilidade à nota máxima. Foram, como consequência, ficando cada vez mais para trás até que se deram conta de que para serem aprovados seria necessário se esforçar vencendo a preguiça de ir às aulas e estudando para fazer jus às notas que lhes passariam de ano.

Num determinado dia choveu muito e o professor imaginou que a frequência seria baixa e que, portanto aqueles poucos que sempre demonstraram maior empenho e interesse em se destacarem iriam abocanhar mais meios pontos dos faltosos. Para sua surpresa, a sala estava completa com todos os alunos. Propositadamente, perguntou a alguns daqueles que no inicio do ano eram os mais relapsos sobre a razão de estarem ali em que pesasse tanta chuva lá fora. A resposta que obteve: “Imaginei que outros não viriam e que valeria a pena habilitar-me aos pontos deles”. Todos pensando assim, a classe foi em frente e o ano letivo foi altamente proveitoso com alunos e professores felizes com o resultado que obtiveram.

Se há uma lição a se tirar desse episódio é a de que o ser humano precisa ser incitado, incentivado, despertado para que transforme o egoísmo que lhe é da essência em ações úteis para a sociedade como um todo. Prover de forma paternalista as necessidades dos outros sem exigir-lhes esforço para que melhorem, prejudica mais do que ajuda. O Comunismo fracassou e continuará a fracassar enquanto a sociedade através dos governos e mesmo do senso comum não entenderem que o importante é ensinar a pescar e não fornecer graciosamente e de forma continua o peixe.

Edson Pinto                                                                  

Agosto’ 2015

11 de ago. de 2015

300) DOBRANDO A META...

Para um determinado programa governamental, a presidente Dilma andou recentemente falando que não tinha estabelecido meta. Mas, sugeriu que, quando se atingisse a meta, então, deveriam dobrar a meta. Se alguém entendeu esse intricado raciocínio, que bom. Parabéns! Se não, vai aqui uma interpretação: Não ter meta é o mesmo que meta zero, não é? Então, se você atinge esse zero e depois dobra esse mesmo zero, logo a meta final continuará sendo zero, pois, segundo a Matemática, zero multiplicado por qualquer número será sempre zero, ou não é mais? É claro que ela não quis zombar nem enganar ninguém de forma consciente. O problema é que ela é confusa assim mesmo. Provas disso se espalham por toda a vida nacional. Mas isso é assunto de política e eu quero, hoje, é falar apenas dos textos do meu blog.

Não vou falar, repito, das metas da Dilma, mas sim das minhas próprias metas relacionadas com o meu esforço prazeroso de publicar com certa regularidade textos neste blog. Em outubro de 2008 atingi a minha meta de 50 textos publicados. Na época impus-me dobrar a meta e fui para o 100º texto que publiquei um ano depois no mês de outubro de 2009. Impus-me, então e novamente, dobrar a meta para 200 e isso aconteceu em abril de 2012. Na ocasião, claro, não fui leviano a ponto de prometer novo dobro da meta, pois entraria numa exponencial impossível de realização. Quem não se lembra de Malba Tahan em “O Homem Que Calculava” que conta essa deliciosa história:

Um Rei, para gratificar um sábio que lhe prestara bons serviços concede-lhe o direito da escolha de um presente. O sábio pede, então, que seja presenteado com grãos de trigo. Seguindo o desejo do sábio, mas surpreso com a singeleza de seu pedido, o Rei ordena que lhes trouxessem um tabuleiro de xadrez. O sábio então diz: coloquem 1 grão de trigo na primeira casa do tabuleiro, 2 na segunda, 4 na terceira, 8 na quarta e continuem dobrando a quantidade de grãos até concluir as 64 casas do tabuleiro. Será que o Rei foi capaz de atender ao pedido do sábio? Ao final do texto volto ao assunto.

Este meu texto de hoje é o de número 300, como pode ser visto no seu título. Este e os outros 299 encontram-se postado no blog e podem ser acessados facilmente. Pode ser pouco para quem vive profissionalmente de publicar seus pensamentos fazendo critica do cotidiano ou mesmo externando sua criatividade na forma de textos ficcionais. Mas pode ser muito para quem, como eu, já faz contagem regressiva e tem consciência da preciosidade de cada novo dia que ganha de presente quando levanta da cama ao amanhecer. É como regular o consumo das trufas que se esgotam da última caixa. Cada uma delas merece ser saboreada com prazer extremo. Para um homem maduro, cada novo dia vale mais do que vale para um jovem que tem uma infinidade de dias pela frente. Não se deve desperdiçá-los nem deles fazer uso impróprio. Escrever, por óbvio, não é usar irresponsavelmente o dia que se ganha de presente, mas a vida, convenhamos, tem muitas outras tarefas igualmente prazerosas.

Atingi 300 textos investindo ao redor de igual quantidade de meus preciosos dias. Agora que atingi a meta torno-me propenso a acatar o brilhante raciocínio de Dilma. Não colocarei meta adicional alguma. Se me virem eventualmente dobrando a meta é porque não produzi mais nada. O dobro de zero, como já dito, será sempre zero. A única coisa que gostaria de continuar tendo como meta seria o de sempre agradecer aos amigos que ao longo destes meus 8 anos de blog tiveram a paciência de ler os meus textos. Muitos se manifestaram e ainda se manifestam sobre o que escrevo. Obrigado a todos! Se não me virem escrevendo no blog, fiquem tranquilos! Estarei fazendo jardinagem, caminhando pelas ruas do bairro, cuidando da horta caseira, passeando com a família, almoçando ou jantando com amigos ou mesmo lendo blogs dos outros...

A propósito, o Rei, mesmo com toda a sua fortuna pessoal somada a do seu reino, não conseguiu presentear o sábio com os grãos de trigos que ele pediu de presente. Se tivessem conseguido dobrar os grãos nas 64 casas do tabuleiro de xadrez, seriam necessários exatos 18.446.744.073.709.551.615 grãos de trigo (18,4 quintilhões). É sabido que 1 m³ desse cereal contém aproximadamente 15 milhões de grãos. Extrapolando para o fantástico número de 20 algarismos acima mencionado isto ocuparia um espaço correspondente a 12.000 km³.  Considerando as dimensões do celeiro como sendo 4 metros de altura por 10 metros de largura, teríamos um comprimento de 300 milhões de quilômetros lineares, ou seja, o correspondente a uma estupenda viagem de ida e volta deste nosso maravilhoso planeta ao rei Sol.  

Edson Pinto

Agosto’2015

23 de jul. de 2015

299) FALÁCIA “TU QUOQUE” (VOCÊ TAMBÉM)


Em decorrência da apuração de suposto desvio de bilhões dos cofres de uma empresa pública, um dos envolvidos se encontra preso em uma cela da Polícia Federal em um lugar qualquer deste imenso País. Embora diminuta, a cela tem duas portas vigiadas por dois policiais protegidos por máscaras para não serem identificados. As portas, igualmente não identificadas, têm cada qual um destino. Uma leva à liberdade, a outra à morte moral e política.

É dada ao preso a oportunidade de escolha de uma das portas para dali sair. Obviamente ele quer escolher a porta que o leve à liberdade. O carcereiro permite-lhe fazer apenas uma pergunta a um dos dois policiais que vigiam as portas. É dito ainda que um dos policiais, sem que se identifique qual, fala sempre a verdade, enquanto o outro é um mentiroso contumaz.

Estivesse você no lugar do preso, que pergunta você faria a um dos guardas?

Volto à resposta ao final do texto.

Antes:

Adaptei esse clássico e já bem conhecido problema de lógica para mostrar que vivemos um momento ímpar da vida nacional. Como nunca antes visto, recorrer aos ensinamentos da Filosofia se tornou tão necessário quanto o ar que respiramos, o alimento que ingerimos e a água que bebemos. Na Grécia antiga – não nessa Grécia estropiada de hoje – filósofos como Aristóteles já haviam detectado a importância de se estudar os processos intelectuais que levam ao conhecimento correto de tudo o que nos rodeia. Só assim seremos capazes de entender quais argumentos são verdadeiros e quais são falaciosos, mentirosos...

Vivemos em um mundo de falácias quando argumentações com aparência de verdades são produzidas para os propósitos de engano. Tanto na esfera da lógica como na esfera da retórica as falácias pululam de forma permanente como recurso para livrar a cara daqueles que agem política e moralmente de maneira condenável. Não raro, argumentos que vêm embrulhados em lindo papel de verdades incontestes não trazem mais do que um conteúdo falso. Entre dezenas de tipos já classificadas de falácias, quero pinçar e comentar sobre uma delas:

A falácia “Tu quoque”, ou “você também”: É o argumento daquele partido político - por exemplo - que já não tendo encontrado justificativa convincente para as suas pedalas fiscais não encontra outra saída senão a de admitir os seus erros, mas justificá-los com o fato de que outros também o cometeram. Assim, imaginam que ao se igualarem a outros pecadores que por quaisquer razões não foram punidos também deveriam merecer o mesmo tratamento. Lembrem-se daquele personagem do saudoso Chico Anysio, Tavares, um hipócrita assumido, bêbado, que sempre saia com a máxima de: “Sou, mas quem não é?”.

O governo que esta aí e com o volume de problemas que conseguiu acumular, por mais boa vontade que tenhamos para com ele, já deve ter esgotado todo o arsenal de falácias possíveis e imaginárias na tentativa, hoje, vã de transformar mentiras em verdades. Se acontecer uma reviravolta do quadro atual mantendo-se os mesmos personagens será não só um milagre, mas a contestação histórico/milenar de que a lógica e a coerência deveriam sempre reinar sobre os atos da vida. A Filosofia e a sua afilhada, a Lógica, seriam colocadas de cabeça para baixo...

A propósito, a única pergunta que levaria o preso para o caminho da liberdade seria pergunta a qualquer um dos guardas: Qual porta o outro guarda indicará como sendo a da liberdade?

Explico:

Primeiro, se a pergunta cair para o guarda mentiroso, ele certamente dirá que o outro guarda (por exclusão o que fala a verdade) apontará determinada porta como a porta da liberdade. Estaria, como sempre, mentindo, distorcendo, a verdade do outro.

Segundo, se a pergunta cair para o guarda que só fala a verdade e sendo este sabedor que o outro guarda sempre mente, este também apontará para a mesma porta como sendo a porta que levará à liberdade.

Conclusão: Como ambos indicariam a porta da morte como sendo a que pressupostamente levaria à liberdade, bastaria então seguir para a outra porta, ela sim a porta da liberdade.

O preso não viu, pois os guardas encontravam-se mascarados. Soube, contudo e apenas depois de já se encontrar em liberdade, que o guarda mentiroso tinha em seu peito a tatuagem de uma estrela vermelha.

Edson Pinto

Julho’2015

3 de jul. de 2015

298) O CUSTO DA BURRICE

Qualquer pessoa minimamente observadora, especialmente aquelas que já visitaram outros países ou que já adotam o salutar hábito de pesquisar preços na internet, sabe muito bem que tudo aqui na nossa terrinha, com raríssimas exceções, custa mais do que alhures. E não é só a questão do valor relativo entre moedas, pois o nosso cada vez mais pobre Real vem sofrendo desvalorização considerável nos últimos meses e mesmo assim nossos preços continuam exorbitantes.

Os economistas referem-se a isso como sendo o “Custo Brasil”. Ele é formado, entre outros fatores, pela nossa elevada carga tributária; pela precariedade da nossa infraestrutura que nos impõe custos elevados de transporte, armazenamento e logística em geral; pelo protecionismo tarifário de certos segmentos de bens e serviços; pelas elevadas taxas de juros; pela corrupção; pela excessiva burocracia que herdamos do período colonial e, acrescento, por minha própria conta; pelo despreparo de nossos profissionais e pela nossa arraigada falta de educação, ambos estes fatores geradores do que popularmente conhecemos como “burrice”.

Qualquer um poderia listar exemplos que não se esgotam de casos em que o custo Brasil, com base nos diversos fatores que citei, fica bem evidente. Hoje, contudo, quero falar apenas desse último bloco que denominei “burrice”:

Este substantivo pode ser encontrado em qualquer dicionário sempre com a definição de que se refere à falta de inteligência, parvoíce, idiotice e outros termos não menos depreciativos. A característica comum da burrice é que ela, em geral, impede uma pessoa de agir racionalmente e de forma produtiva. Sintetizo meu pensamento com a menção ao que disse o economista e historiador italiano Carlo Cipolla: “Uma pessoa burra é aquela que causa algum dano à outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo – ou até mesmo se prejudicando”

Claro que existe burrice decorrente da formação escolar falha, insuficiente, inadequada. Mas, há burrice oriunda do egoísmo, da preguiça ou da visão destorcida de mundo que uma pessoa tenha desenvolvido ao longo de sua existência. E olha que Roberto Campos já tinha alertado que a “burrice não respeita fronteiras ideológicas”... O problema é quando burrice se junta a outros interesses, outros fatores e engorda o Custo Brasil...

Experiência desta semana que comprova a existência irrefutável da burrice:

Estando este modesto escriba no balcão de uma farmácia, observa que um senhor bem mais idoso do que ele, agravado pelo fato de demonstrar certa dificuldade de caminhar, chega esbaforido com uma receita na mão e a entrega ao balconista que cuida da chamada Farmácia Popular, esse justo programa social pelo qual o governo devolve uma ínfima parte dos impostos que pagamos na forma de entrega “grátis” de certos medicamentos notadamente os ligados ao combate da hipertensão arterial.

O velhinho diz: “Voltei ao médico e agora ele colocou o carimbo e a assinatura também no anverso da receita”. O quê?  - Interferi dirigindo-me diretamente ao balconista. “É que são três medicamentos – tenta me explicar - os de números 1 e 2 estão no anverso da receita e o de número 3 está no verso onde se encontra o carimbo e a assinatura do médico. Tive que pedir que ele, (o velhinho coxo, lembrem-se!) que voltasse ao seu médico para que ele repetisse o carimbo e assinatura no anverso da receita, se não, como saberia que ele está pedindo os 3 remédios? Além disso – completou com a singeleza de um asno manso - quando eu tirar uma cópia da receita, na primeira parte, não terá o carimbo e assinatura do médico”...

Se isso não é algum truque comercial para levar a uma transação mais lucrativa, ou se não é uma espécie doentia de sadismos que lhe dá prazer em ver um velhinho com dificuldade de locomoção ter que voltar ao médico, enfrentar novas filas só para pegar um carimbo que já estava no devido lugar, isto é no final do receituário, ou qualquer outro enigma que um ser humano normal não consegue captar, então concluo:

Só pode ser burrice...

Para tirar essa dúvida, aproveito uma visita posterior à outra farmácia onde conheço de longa data balconistas bem mais preparados e questiono sobre o fato que acabo de narrar. O que ele me explica é de estarrecer a um marciano, mas não a um brasileiro calejado como eu: Nada disso é necessário, me asseverou. Não temos essa exigência aqui na nossa Farmácia Popular. Pelo contrário, até facilitamos ao máximo o atendimento ao programa, pois o governo nos reembolsa pelo valor de tabela do medicamento enquanto aos clientes avulsos concedemos até 30% de desconto.

Bingo!

A farmácia popular é lucrativa. O patrão que não deve ser nem bobo nem burro certamente quer vender por ela. O funcionário que cria dificuldades para que isso aconteça é porque não gosta do patrão, nem do próprio emprego ou é realmente mais um detentor da burrice que assola e aumenta o Custo Brasil.

Pobre País!

Edson Pinto

Julho’ 2015

25 de jun. de 2015

297) EFEITO BORBOLETA, OU O PORQUÊ DE VIVERMOS UM CAOS ECONÔMICO?

Todas as noites, exceto aos domingos, dentro do Jornal Nacional da Globo, William Bonner e sua parceira Renata Vasconcellos chamam ao telão a charmosa Maju, Maria Júlia Coutinho, para falar sobre o tempo. Com extrema simpatia e desenvoltura a bela moça reproduz de forma fácil e inteligível aquilo que os meteorologistas, em jargão cientifico e ao longo do dia, transmitiram a ela como fruto de suas complexas e ininterruptas investigações das condições climáticas do País. Saber o que o tempo nos reserva para os dias seguintes é tema do maior interesse para quem produz na agricultura, na indústria ou na construção civil. Importante também para quem vai sair de férias ou mesmo para quem tem que decidir se no dia próximo  sai de blusa, se leva o guarda-chuva ou vai de motocicleta, de ônibus ou carro...

Todos nós sabemos do alto grau de precisão das previsões para o dia seguinte ou mesmo para uns poucos dias mais à frente. Mas, já perceberam que nunca temos uma previsão confiável para períodos mais longos, como algumas semanas ou mesmo alguns meses, por exemplo? Sim, é verdade! E olha que é realmente muito difícil, diria até mesmo improvável, que isto seja alcançado mesmo quando levamos em conta o avanço dos computadores, as coletas de dados cada vez mais sofisticadas, os "big data" dessa área cientifica, bem como tudo o mais que os cientistas em geral, matemáticos e meteorologistas em especifico, podem hoje contar.  Portanto, previsão boa para o curto prazo, tudo bem... Para o longo prazo, nem pensar...

Embora historicamente já houvesse sinais de que algumas áreas do conhecimento humano são tão complexas que tornava impossível seguir os modelos objetivos da Física, esta uma ciência exata, só foi por volta de 1950 que o meteorologista e também matemático americano Edward Lorenz concebeu a sua chamada “Teoria do Caos”. Suas análises indicaram que minúsculas mudanças na atmosfera tinham o poder de gerar fortes alterações nas condições do tempo no porvir. Daí deriva a formulação alegórica de que um simples bater de asas de uma borboleta no Brasil pode levar a um ciclone no sul dos Estados Unidos, por exemplo.

Trazida essa ideia para o campo da Economia, temos que os formuladores das políticas em geral presumem que as pessoas agem racionalmente e que tudo segue o modelo físico de causa e efeito. Assim, dada uma ação espera-se por tal ou qual efeito. Os modelos teóricos da Economia, fortemente baseados nas leis de movimento da Física Newtoniana, indicam que a cada ação correspondem resultados previsíveis. Fosse isso verdade absoluta, poderíamos dizer que a Economia teria alto grau de previsibilidade.  Como, contudo, cada pessoa pode agir de forma infimamente diferente das outras, essas pequenas variações podem levar a resultados bastante diferentes dos previstos. Isso nos permite concluir que a Economia, tal qual a Meteorologia, é um campo do conhecimento bem caótico, mesmo quando consideramos que as pessoas em geral apresentam comportamentos assemelhados.

Vejam o que estamos vivendo neste momento no país: A maioria dos eleitores acreditou nas palavras da candidata que garantia, com juras até, que a economia caminhava muito bem. Bastaram pouquíssimos meses do segundo mandato para essa maioria que reconduzira a presidente viesse a descobrir que tal não era verdade. A economia, como se vê agora, está um caos, e o pior, infelizmente, ainda nos dá sinais de recrudescimento. Será mais desemprego; inflação acirrada; aumento do endividamento das pessoas e das empresas, bem como suas consequências sociais nefastas como o aumento da insegurança pública e outras mazelas.

Somente devido à imposição das circunstâncias, um ministro com perfil conservador foi colocado para ver se consegue dar um jeito no caos. Vem dizendo, já há meses, que todo o arrocho é necessário para por as finanças em ordem. Mas, curiosamente, esse arrocho parece só ser aplicado sobre o cidadão contribuinte que terá de pagar mais impostos; sobre o chefe de família e a dona de casa que terão elevadas as suas contas de luz, de água, escola e plano de saúde entre outras; sobre as empresas que pagarão mais impostos, também. Quase nenhuma pressão sobre os custos enormes da máquina estatal. Os 39 ministérios continuam os mesmos e os ajustes e benesses do funcionalismo público parecem intocáveis.

Como os indivíduos, cada qual com suas próprias circunstâncias, olham com desconfiança o que vem acontecendo, suas ações nunca serão uniformes a tal ponto para oferecer certa previsibilidade aos resultados da desesperada política econômica que o governo vem adotando. O temor maior, e plenamente explicado pela Teoria do Caos, é que essas borboletas que andam batendo asas na Praça dos Três Poderes, Esplanada dos Ministérios e adjacências possam provocar, mais à frente, uma tempestade de grandes proporções em todo o país. Nesse momento, não haverá guarda-chuva, bote de salvamento ou mesmo uma arca de Noé que pelo menos nos garanta uma forma de começar tudo de novo.

Estaria eu sendo muito pessimista?

Edson Pinto

Junho’2015 

11 de jun. de 2015

296) QUAL É O SEU TEMPERAMENTO?

(Fonte: The Psychology Book, Globo, 2012, vários colaboradores)

Gosto sempre de organizar meus pensamentos pela cronologia. Assim, imagino, as ideias encontram consistência e fica mais fácil fazer-se entendido. Considerem, portanto, esta sequencia de fatos históricos:

495 – 435 a.C. : Empédocles, filósofo grego, argumentou que as características dos até então considerados quatro elementos básicos da natureza (terra, ar, fogo e água) estavam na origem de todas as substâncias conhecidas. E quais eram essas características? Terra (fria e seca); ar (quente e úmido); fogo (quente e seco); água (fria e úmida).

460 – 370 a.C. : Hipócrates, também grego e considerado o pai da medicina, foi na cola de Empédocles e desenhou o seu modelo médico servindo-se das características dos mesmos  quatro elementos básicos. Propôs que elas se manifestavam no corpo humano na forma de fluídos corporais a que chamou de humores.

129 – 201 a.D. : Galeno, médico e filósofo romano, aplicou a teoria de Hipócrates que era basicamente corporal também para a personalidade. Ele não tinha dúvidas da correspondência direta entre a quantidade de humores que havia em cada pessoa com o seu temperamento.

Daí a teoria de Galeno:

As pessoas, dependendo da prevalência de determinado humor, podem ser classificadas em quatro tipos de temperamentos, cada qual com as suas próprias características: Vejam também a figura que ilustra este texto!

Sanguíneas, por terem muito sangue, são em geral, alegres, otimistas, confiantes, mas podem ser também egoístas;

Fleumáticas, apresentam excesso de fleuma, frieza e normalmente são quietas, tranquilas, racionais e coerentes, mas também podem ser lentas, tímidas e desinteressadas.

Coléricas, acumulam muita bílis amarela oriunda do fígado e por isso são impetuosas, enérgicas, apaixonadas, mas em contrapartida podem ser irritadiças.

Melancólicas, apresentam excesso da bile negra vinda do baço e se destacam pelas suas tendências poéticas e artísticas, mas isto lhes custa suportar as companhias nada agradáveis da tristeza e do medo.

Para Galeno, é da harmonia desses quatro humores que se obtém uma vida feliz. O fato de que um deles se sobressaia não preocupa, apenas determina a sua característica, ou seja, o temperamento da pessoa. Quando, contudo, isso se apresenta de forma excessiva é que reside o busilis, o xis da questão. Aqui de volta ao eterno “virtus in medium est”. A virtude está no meio, no equilíbrio, ou, nem tanto ao céu nem tanto à terra...

Não sou credenciado nem é minha intenção tratar das terapias que se desenvolveram para a busca do equilíbrio desses humores. O que sei é que na busca da paz e para que tenhamos uma vida mais saudável, o equilíbrio desses humores é condição “sine qua non”, mesmo porque – pelo que já se sabe – a teoria de Galeno mostrou-se posteriormente desprovida de base científica e portanto caiu em desuso.

Mas, mesmo fora de moda, temos que reconhecer que a teoria de Galeno continua sendo muito interessante para explicar os temperamentos que as pessoas em geral apresentam. Quem não conhece, ou mesmo se identifica como sendo, um colérico, um fleumático, um sanguíneo ou um melancólico? Estes temperamentos estão por toda parte, nas pessoas conhecidas, nas desconhecidas ou em nós mesmos.

Isso é bom, ruim ou não tem importância para o convívio social a que nos submetemos?

É sempre uma batalha inglória a tentativa de dar a um colérico, por exemplo, um pouco de fleuma ou transformar um melancólico em um tipo alegre e confiante como se encontra nos sanguíneos. O caminho mais correto para esse reequilíbrio - penso - deveria ser o autoconhecimento, pois é só com ele que podemos mudar nossa essência. Portanto, nos autoanalisemos. Temos o dom da inteligência e a prerrogativa do livre-arbítrio. Equilibrar nossos humores é algo que diz respeito a cada um e a mais ninguém.

Edson Pinto

Junho’2015