Minha
mãe tem 97 anos e mora no mesmo prédio que eu. Apartamentos diferentes, poucos
andares de distância e uma proximidade que me permite visitá-la duas, às vezes
três vezes por dia. Não é preciso atravessar a cidade, enfrentar trânsito ou
consultar a previsão do tempo. Basta pegar o elevador.
Talvez
por isso nossas despedidas devessem ser simples, mas não são. Depois de algum
tempo de conversa, levanto-me e anuncio que vou embora. Minha mãe se despede,
eu caminho em direção à porta e, quando tudo indica que o encontro terminou,
vem a pergunta:
—
Você não está esquecendo nada?
Respondo
que não. Dou mais dois passos.
—
Pegou o celular?
Peguei.
Aproximo-me da porta.
—
E a chave?
Está
comigo. Abro a porta.
—
Você lembrou daquele negócio que tinha que fazer?
Lembrei.
Às vezes tenho a impressão de que, se o corredor entre o apartamento dela e o
elevador tivesse cem metros, minha mãe encontraria assunto suficiente para me
acompanhar durante todo o percurso.
Durante
muito tempo achei que fosse apenas um hábito. Uma dessas pequenas manias que
adquirimos com os anos e que acabam se incorporando à personalidade como os
móveis antigos à casa. Recentemente, porém, comecei a desconfiar de que aquelas
perguntas talvez tenham menos relação com memória do que com afeto.
A
psicologia não parece ter reservado um nome específico para essa curiosa
necessidade de fazer mais uma pergunta quando alguém já está indo embora. Há,
entretanto, mecanismos que ajudam a compreendê-la. A despedida produz uma
espécie de urgência. Enquanto estamos sentados conversando, há tempo. Quando
alguém se levanta, o cérebro parece abrir rapidamente suas gavetas à procura do
que ficou por dizer. “Será que esqueci alguma coisa?” Curiosamente, quem está
indo embora talvez não tenha esquecido nada. Quem ficou é que começa a
procurar.
Existe
na psicologia um fenômeno conhecido como efeito Zeigarnik, segundo o qual
tendemos a conservar mentalmente aquilo que percebemos como incompleto. Talvez
as despedidas tenham um pouco disso. Quando o outro anuncia a partida, fazemos
uma espécie de inventário instantâneo da conversa. Alguma coisa ficou faltando?
Alguma recomendação não foi feita? Algum cuidado deixou de ser manifestado? No
caso de minha mãe, porém, suspeito que exista algo mais antigo e mais poderoso
do que qualquer mecanismo psicológico. A maternidade.
Minha
mãe tem 97 anos. Eu, evidentemente, já ultrapassei há muito a idade em que um
filho precisa ser lembrado de levar a chave, pegar o celular ou cumprir algum
compromisso. Isso, entretanto, parece ser uma informação conhecida por mim, não
necessariamente pela maternidade, porque talvez os filhos envelheçam, mas não
envelheçam inteiramente dentro dos olhos de suas mães.
Há
funções das quais nos aposentamos. Deixamos empregos, entregamos cargos, encerramos responsabilidades. Ninguém, porém,
entrega um requerimento de aposentadoria da condição de mãe. Não existe
cerimônia em que alguém diga: “Pronto, seu filho cresceu, daqui para a frente
não é mais necessário preocupar-se”. A preocupação continua. Muda de roupa,
apenas.
Quando
o filho é pequeno, a mãe pergunta se levou o agasalho. Depois pergunta se
estudou para a prova. Mais tarde, se está dirigindo com cuidado. Décadas
passam, cabelos embranquecem, papéis se invertem em tantos aspectos da vida,
mas ainda pode restar uma pergunta junto à porta:
—
Não está esquecendo nada?
Talvez
seja a maneira mais discreta de dizer:
—
Cuide-se.
E
talvez “cuide-se” seja apenas uma das muitas traduções possíveis de “eu gosto
de você”. Comecei então a observar que esse pequeno ritual não pertence
exclusivamente às mães. Ele aparece entre casais. Um dos dois anuncia que vai
sair e o outro imediatamente se lembra de três recomendações. Surge entre
irmãos, amigos antigos e pessoas que construíram uma longa convivência. Às
vezes acontece até nas relações profissionais, quando a proximidade ultrapassou
as fronteiras do trabalho e incorporou alguma forma de afeição.
Nem
sempre a pergunta feita à porta deseja propriamente uma informação. Às vezes
deseja prolongar a presença. Talvez exista em toda despedida, mesmo nas mais
banais, uma pequena resistência à separação. Não precisa ser tristeza, muito
menos medo. Pode ser apenas aquela dificuldade humana de colocar um ponto final
quando a companhia nos é agradável. Por isso inventamos vírgulas. “Espere,
lembrei de uma coisa.” A frase é uma vírgula. “Você levou a chave?” Outra
vírgula. “Não esqueça de fazer aquilo.” Mais uma. E assim vamos adiando o ponto
final por alguns segundos.
Há
despedidas muito maiores, naturalmente. Algumas duram meses. Outras são
definitivas. Diante delas, descobrimos dolorosamente quantas coisas deixamos de
perguntar, de dizer, de repetir. Talvez por isso eu tenha aprendido a olhar com
mais indulgência para essas pequenas despedidas cotidianas.
Edson Pinto
Outubro, 2026

Um comentário:
Muito lindo!!
Parabéns!!
Forte abraço do Chico Morais!!
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