16 de out. de 2026

393) A ÚLTIMA PERGUNTA

Minha mãe tem 97 anos e mora no mesmo prédio que eu. Apartamentos diferentes, poucos andares de distância e uma proximidade que me permite visitá-la duas, às vezes três vezes por dia. Não é preciso atravessar a cidade, enfrentar trânsito ou consultar a previsão do tempo. Basta pegar o elevador.

Talvez por isso nossas despedidas devessem ser simples, mas não são. Depois de algum tempo de conversa, levanto-me e anuncio que vou embora. Minha mãe se despede, eu caminho em direção à porta e, quando tudo indica que o encontro terminou, vem a pergunta:

— Você não está esquecendo nada?

Respondo que não. Dou mais dois passos.

— Pegou o celular?

Peguei. Aproximo-me da porta.

— E a chave?

Está comigo. Abro a porta.

— Você lembrou daquele negócio que tinha que fazer?

Lembrei. Às vezes tenho a impressão de que, se o corredor entre o apartamento dela e o elevador tivesse cem metros, minha mãe encontraria assunto suficiente para me acompanhar durante todo o percurso.

Durante muito tempo achei que fosse apenas um hábito. Uma dessas pequenas manias que adquirimos com os anos e que acabam se incorporando à personalidade como os móveis antigos à casa. Recentemente, porém, comecei a desconfiar de que aquelas perguntas talvez tenham menos relação com memória do que com afeto.

A psicologia não parece ter reservado um nome específico para essa curiosa necessidade de fazer mais uma pergunta quando alguém já está indo embora. Há, entretanto, mecanismos que ajudam a compreendê-la. A despedida produz uma espécie de urgência. Enquanto estamos sentados conversando, há tempo. Quando alguém se levanta, o cérebro parece abrir rapidamente suas gavetas à procura do que ficou por dizer. “Será que esqueci alguma coisa?” Curiosamente, quem está indo embora talvez não tenha esquecido nada. Quem ficou é que começa a procurar.

Existe na psicologia um fenômeno conhecido como efeito Zeigarnik, segundo o qual tendemos a conservar mentalmente aquilo que percebemos como incompleto. Talvez as despedidas tenham um pouco disso. Quando o outro anuncia a partida, fazemos uma espécie de inventário instantâneo da conversa. Alguma coisa ficou faltando? Alguma recomendação não foi feita? Algum cuidado deixou de ser manifestado? No caso de minha mãe, porém, suspeito que exista algo mais antigo e mais poderoso do que qualquer mecanismo psicológico. A maternidade.

Minha mãe tem 97 anos. Eu, evidentemente, já ultrapassei há muito a idade em que um filho precisa ser lembrado de levar a chave, pegar o celular ou cumprir algum compromisso. Isso, entretanto, parece ser uma informação conhecida por mim, não necessariamente pela maternidade, porque talvez os filhos envelheçam, mas não envelheçam inteiramente dentro dos olhos de suas mães.

Há funções das quais nos aposentamos. Deixamos empregos, entregamos cargos, encerramos responsabilidades. Ninguém, porém, entrega um requerimento de aposentadoria da condição de mãe. Não existe cerimônia em que alguém diga: “Pronto, seu filho cresceu, daqui para a frente não é mais necessário preocupar-se”. A preocupação continua. Muda de roupa, apenas.

Quando o filho é pequeno, a mãe pergunta se levou o agasalho. Depois pergunta se estudou para a prova. Mais tarde, se está dirigindo com cuidado. Décadas passam, cabelos embranquecem, papéis se invertem em tantos aspectos da vida, mas ainda pode restar uma pergunta junto à porta:

— Não está esquecendo nada?

Talvez seja a maneira mais discreta de dizer:

— Cuide-se.

E talvez “cuide-se” seja apenas uma das muitas traduções possíveis de “eu gosto de você”. Comecei então a observar que esse pequeno ritual não pertence exclusivamente às mães. Ele aparece entre casais. Um dos dois anuncia que vai sair e o outro imediatamente se lembra de três recomendações. Surge entre irmãos, amigos antigos e pessoas que construíram uma longa convivência. Às vezes acontece até nas relações profissionais, quando a proximidade ultrapassou as fronteiras do trabalho e incorporou alguma forma de afeição.

Nem sempre a pergunta feita à porta deseja propriamente uma informação. Às vezes deseja prolongar a presença. Talvez exista em toda despedida, mesmo nas mais banais, uma pequena resistência à separação. Não precisa ser tristeza, muito menos medo. Pode ser apenas aquela dificuldade humana de colocar um ponto final quando a companhia nos é agradável. Por isso inventamos vírgulas. “Espere, lembrei de uma coisa.” A frase é uma vírgula. “Você levou a chave?” Outra vírgula. “Não esqueça de fazer aquilo.” Mais uma. E assim vamos adiando o ponto final por alguns segundos.

Há despedidas muito maiores, naturalmente. Algumas duram meses. Outras são definitivas. Diante delas, descobrimos dolorosamente quantas coisas deixamos de perguntar, de dizer, de repetir. Talvez por isso eu tenha aprendido a olhar com mais indulgência para essas pequenas despedidas cotidianas.

 

Edson Pinto

Outubro, 2026 

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito lindo!!
Parabéns!!
Forte abraço do Chico Morais!!