
Em maio de 2022, em São Paulo,
Jane, minha cara-metade por décadas, foi para o céu. Depois de quase uma vida
inteira juntos, descobri que uma casa pode continuar exatamente no mesmo lugar
e, ainda assim, deixar de ser a mesma casa.
Pouco tempo depois, mudei-me para
Três Corações, sul de Minas Gerais, terra de Pelé. Não foi propriamente uma decisão dessas que se tomam com papel,
lápis e uma coluna de prós e contras. Há momentos em que a vida decide primeiro
e nós apenas assinamos embaixo. Minha mãe Iracilda e minha irmã Celma estavam
lá. Eu precisava delas, talvez mais do que soubesse naquele momento.
Agora, quase cinco anos depois,
estou de volta a São Paulo.
Cinco anos. Um lustro.
Gosto da palavra. Descobri que,
na Roma antiga, o “lustrum” estava associado a uma cerimônia de
purificação realizada depois do censo, que ocorria aproximadamente a cada cinco
anos. Com o tempo, a cerimônia emprestou seu nome ao próprio período. Não deixa
de haver alguma coincidência poética nisso. O meu lustro também foi, à sua
maneira, um tempo de depuração.
Cheguei a Três Corações
carregando uma ausência. Quem perde a companheira depois de tantos anos não
perde apenas uma pessoa. Perde também uma testemunha. Alguém que conhecia as
histórias antes que elas fossem contadas, que sabia onde começavam nossos
exageros e terminavam nossas verdades. Perde-se a pessoa com quem dividíamos as
pequenas coisas, justamente aquelas que, depois, descobrimos serem as maiores.
A viuvez tem uma crueldade
particular. Não é apenas ficar sozinho. É não ter mais aquela pessoa
permanente. Amigos são indispensáveis. Filhos são preciosos. A família nos
sustenta. As conversas ajudam. Os encontros iluminam os dias. Há, porém, uma
diferença entre ter pessoas que nos amam e ter alguém com quem se divide a
vida. A companheira não participa apenas dos acontecimentos importantes.
Participa do que não merece sequer ser chamado de acontecimentos. O café, uma
notícia no jornal, uma reclamação sobre o tempo, um comentário inútil, uma
lembrança que aparece sem ser convidada. Talvez o casamento seja feito menos
das grandes ocasiões do que dessas insignificâncias compartilhadas.
Em Três Corações, ao pé das
montanhas de Minas e inspirado do bucolismo das margens serenas do rio Verde
tive tempo para descobrir isso.
Também tive tempo para escrever.
Alguns livros já estavam
começados. Outros existiam apenas naquele curioso arquivo que os escritores
carregam dentro da cabeça, onde convivem capítulos incompletos, personagens sem
destino, títulos à procura de livros e livros inteiros esperando coragem.
Durante esse lustro, fui abrindo
essas gavetas. Escrevi os livros que estavam esperando por mim. Continuei
mantendo meu blog e publicando minhas crônicas, meus contos e ensaios. As
palavras, que nunca substituíram Jane, fizeram outra coisa talvez igualmente
importante. Fizeram-me companhia.
Escrever tornou-se uma maneira de
conversar com o mundo e, em algumas ocasiões, comigo mesmo. Muitas vezes
comecei uma crônica pensando que sabia o que queria dizer e terminei
descobrindo que queria dizer outra coisa. É uma das vantagens da escrita. A gente põe uma ideia no papel para examiná-la e
acaba sendo examinado por ela.
O isolamento, portanto, não foi
vazio.
Houve solidão, naturalmente.
Houve dias compridos e noites ainda maiores. Houve lembranças que chegaram sem
bater à porta. Houve momentos em que compreendi que o silêncio também faz
barulho.
Ao mesmo tempo, houve reflexão.
Pensei muito sobre a vida, sobre
o tempo, sobre aquilo que acumulamos e aquilo que perdemos. Pensei sobre o
amor, sobre a amizade, sobre a velhice, sobre a memória. Algumas dessas
reflexões acabaram em livros. Outras viraram crônicas. Muitas ficaram apenas
comigo. Talvez tenha aprendido, sobretudo, que a vida não nos pergunta se
estamos preparados para começar outra vez. Ela simplesmente muda o cenário.
Minha mãe e minha irmã foram
fundamentais nessa travessia. Quando cheguei a Três Corações, não precisava de
grandes discursos. Precisava de presença. E presença é uma forma silenciosa de
amor. Elas estavam ali. Outras pessoas também estiveram. Familiares, amigos,
filhos, netos, leitores, pessoas próximas e algumas nem tanto. Cada qual,
talvez sem perceber, colocou uma pequena pedra na ponte que me permitiu
atravessar aqueles anos. Há ajudas que chegam sob a forma de abraço. Outras vêm
numa conversa, numa visita, num telefonema, numa mensagem. Às vezes, basta
alguém perguntar como estamos e ter paciência para ouvir a resposta. A todos
eles eu devo gratidão.
A vida, entretanto, tem o
estranho costume de fechar círculos sem nos consultar. Minha irmã Celma partiu para
juntar-se à Jane. E aquela cidade que
havia me recebido como refúgio passou também a guardar mais uma ausência. O
lugar para onde fui procurando amparo tornou-se, ele próprio, parte da memória
de quem me amparou. Talvez tenha chegado a hora de partir. Voltei a São Paulo.
Não sou, evidentemente, o mesmo
homem que saiu daqui em 2022. Ninguém atravessa um lustro desses e chega
intacto ao outro lado. Algumas coisas se quebram. Outras se fortalecem. Algumas
certezas desaparecem e, curiosamente, não fazem falta.
Trago comigo os livros que
escrevi, as crônicas que publiquei, as reflexões que fiz e, sobretudo, as
pessoas que fizeram parte dessa travessia. Trago Jane na memória. Trago minha
irmã Celma na saudade. Trago minha mãe no coração. Trago meus filhos, meus
netos, meus amigos e todos aqueles que me ajudaram a compreender que, mesmo
quando a vida nos deixa sozinhos, não precisamos necessariamente atravessá-la
em solidão.
São Paulo agora não é exatamente
um retorno. É um recomeço. Volto à cidade onde terminou uma etapa da minha vida
para começar outra. Há certa ironia nisso, dessas que a vida aprecia mais do
que nós. O cenário é conhecido, mas o personagem mudou.
Não sei quanto tempo durará este
novo capítulo. Também não sei quantos lustros ainda me serão concedidos. A essa
altura, aprendi que fazer contas com o futuro é uma contabilidade de resultados
bastante duvidosos. Espero que sejam muitos. Se não puderem ser muitos, que
sejam bons. E se a vida me permitir escolher alguma coisa, que nos próximos
lustros eu continue fazendo aquilo que este último me ensinou a fazer.
Escrever, pensar, amar os que ficaram, recordar com ternura os que partiram e
não confundir saudade com desistência.
Porque talvez seja esta a maior
lição que trouxe comigo de Três Corações. Há pessoas que partem. Há cidades que
deixamos. Há ciclos que terminam. A vida, porém, enquanto estiver conosco,
continua pedindo que seja vivida.
Edson Pinto
Outubro, 2026

Um comentário:
Sem palavras.
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