19 de jul. de 2012

209) UM E NOVENTA E NOVE


Juro que eu fui um dos milhões de brasileiros que esperou com grande ansiedade as revelações bombásticas que Rosane Brandão Malta faria sobre o seu ex-marido, o ex-presidente Fernando Collor de Mello. O Fantástico prometera durante toda a semana passada a abertura do baú de segredos da ex-primeira dama. Frustrante! Para mim, pelo menos, tudo não passou de uma lavagem de roupa suja sem nenhuma contribuição de valia. Penso até que muita gente que odiava visceralmente o ”impichado” caçador de marajás deve agora vê-lo com olhos menos críticos. Ou seria outro o objetivo?

Bem, seja como for, o homem tinha lá suas esquisitices, notadamente as ligadas ao seu apego a ritos religiosos extravagantes. Mas, como no Brasil temos constitucionalmente assegurada a liberdade religiosa, pouco me importa se o deprimido presidente da época tenha ficado três ou mais dias no porão da casa da Dinda meditando e pedindo às forças ocultas que os males que lhe açoitavam se revertessem aos seus causadores. Há gente que fica em retiros espirituais de outras religiões por tempo até mais longo e – ao que parece – isso nunca foi e nem será condenável. Portanto, essa revelação trazida pela ex-primeira dama é irrelevante, isto é, não contribui em nada para a melhoria da vida nacional.

Tinha Collor lá seus segredos e conchavos com o Paulo César Farias, o famoso PC? Ora, isso tinha mesmo... Usou sobras de campanha para reformar a casa da Dinda e ainda comprou uma peruinha chinfrim do modelo Elba da Fiat? Também não temos dúvidas de que sim... Essa promiscuidade entre interesses pessoais e políticos é, como sabemos, o câncer que acomete a vida nacional desde sempre. O desrespeito às leis, às regras, à ética, à moral e a hipocrisia é marca registrada da sociedade brasileira:

O individuo joga lixo pela janela de seu carro e depois reclama que a cidade está suja. Atravessa a rua com o semáforo fechado e depois reclama que os motoristas não respeitam os pedestres. Abre o saco de biscoito do supermercado, para consumo, sem pagar, e depois reclama que os preços estão elevados. Compra o gabarito de um concurso público para ser aprovado, entra ilicitamente no serviço público e depois reclama que o salário é baixo. Na política, extorque empresários, compensa-lhes com contratos lesivos ao erário e depois se posta como guardião da ética e da moralidade.

O que chama a nossa atenção é o fato de o sistema político brasileiro insistir em não aprender com as experiências pretéritas. O que aprendemos com o impeachment de Collor? Nada! Nada mesmo. Se houve, na época, falta de ética e perpetração de vários crimes, o que não dizer dos fatos mais recentes?

Collor reformou a casa da Dinda com os achaques do seu tesoureiro de campanha, mas depois o PT montou o esquema mais sórdido de todos os tempos que foi o Mensalão, utilizando-se das empresas públicas para desvio de dinheiro. Mais recentemente, o escândalo Cachoeira que já começa a nos revelar que bilhões de reais em contratos foram dados para a empresa Delta e que boa parte disso voltou para os corruptos em cargo de mando no País.

As dezenas de escândalos posteriores a Collor, só em desvio do dinheiro público, comprariam todas as Elbas produzidas pela Fiat no mundo. Enquanto isso, quanto das tantas vidas perdidas nas estradas mal conservadas do País, das horas desperdiçadas no trânsito caótico das nossas cidades, do desconforto dos nossos entulhados aeroportos, das escolas mal equipadas e dos professores mal remunerados não poderíamos ter sido reduzidos com o uso correto dos recursos desviados?

Qual a grande lição que poderíamos tirar das revelações de Rosane, ex-Collor, e que nos seria útil como exemplos de que algo mudou para melhor desde que o impeachment acontecera? Na aviação, considera-se que a investigação de cada acidente, por mais inexpressivo que possa parecer, é fundamental para que se aprenda como evitar a sua repetição. Na política, especialmente na nossa, parece que nunca se aprende com o passado. A regra é avançar cada vez mais no erário. É, como conseqüência, taxar cada vez mais o cidadão para ter os recursos que sustentam a malfeitoria.

Rosana, como diz, acredita em Jesuscidência. Seja lá o que isso significa, fica-nos, primeiro, a dúvida se ela só quer rever a pensão de R$18 mil mensais, pois tem uma amiga cujo “ex”, que nem presidente foi, recebe pensão de R$40 mil, ou se quer dar uma mãozinha para recuperar parte do prestígio perdido por quem ela considera ser seu “Ex My Love”? Certeza, contudo, é a constatação de que se o amor de Rosane e Collor for colocado na vitrine dificilmente valerá um e noventa e nove...

Edson Pinto
Julho’2012

12 de jul. de 2012

208) REVELADOR É O SONHO


Há sonhos desagradáveis, outros assustadores, vários incoerentes e, até mesmo, alguns bem engraçados. O que há em comum a todos eles é a possibilidade de deles tirarmos ilações com situações reais. Conscientemente, nunca me preocupo em interpretar o significado dos meus sonhos como se estivesse à busca de revelações de desejos retidos e não aflorados por força do repressor superego que regula a nossa vida social. As interpretações que eventualmente me ocorrem vêm-me apenas de forma espontânea.

A minha abordagem é única e muito simples, pois não tem o caráter cientifico dado ao assunto por Freud e Jung, muito menos o sentido premonitório do qual muito bem se serve as varias religiões. Sempre imagino que, durante o sono, a nossa mente, ao repassar os fatos vivenciados em momentos recentes e com o intuito de registrá-los no nosso HD interno, dá-nos a oportunidade de fazer ligações criativas entre eles. O sonho seria, então, nada mais do que o emprego da nossa criatividade inata para misturar tais fatos numa curiosa e divertida maçaroca mental, às vezes, contudo, reveladora...

Vou lhes contar o sonho que tive depois desses últimos e marcantes episódios de lambança da política nacional:

O mundo havia progredido estupendamente tal qual se apresenta nos dias de hoje: Internet, telecomunicações magníficas, avanços da medicina, viagens espaciais, aviação supersônica e até mesmo o bóson de Higgis já fazia parte do nosso cotidiano. Apenas uma coisa não havia progredido. E não vem ao caso especular o porquê disso, porque, como já disse, sonho é sonho...

O homem, misteriosamente, não tinha inventado o automóvel. Nem o movido a motores de combustão, nem os elétricos ou quaisquer outras formas para se locomover mais celeremente pelas nossas vias públicas. Apenas as carroças, as charretes e as carruagens, todos de variados modelos e tamanhos, continuavam sendo o meio de transporte por excelência.

Não existia Indústria Automobilística, mas sim a importante Indústria de Carroçáveis e o próspero negócio da criação de animais para tração. O interessante é que essa Indústria progredia apesar desse simples detalhe, a falta de motorização. As carruagens mais luxuosas vinham dotadas de itens de fábrica, como GPS, modernos sistemas de som, acesso à Internet, ar-condicionado, suspensão a ar, e acreditem, até sistemas de blindagem para maior segurança daqueles que podiam pagar por modelos mais caros. As categorias de carroças e charretes mais ao alcance das classes menos favorecidas também incorporavam tecnologias inovadoras, embora marcassem nitidamente as diferenças sociais prevalecentes na sociedade.

São Paulo já tinha mais de sete milhões de carroças, charretes e carruagens circulando pelas mesmas vias de hoje. O constante aumento do IPVTA (impostos sobre propriedade de veículos por tração animal) atormentava cada vez mais a vida da classe média. O uso do celular, enquanto se açoitava os animais propulsores, virou uma fonte de arrecadação das mais importantes para a prefeitura. Os radares fotografavam animais que passavam de 20 km/h e os congestionamentos constantes paravam a cidade. Como as carruagens chegavam a ter até quatro cavalos e como mais gente ascendia às classes sociais de maior poder aquisitivo, já existiam mais animais para serem alimentados e poluir do que gente.

Uma nova modalidade de roubo virara praga nas grandes cidades brasileiras. Já não mais se roubava apenas a carroça, a charrete ou a carruagem. Virara moda trocar os cavalos. Desatrelava-se da carruagem alheia um legitimo e vistoso cavalo bretão colocando-se um pangaré em seu lugar. Em compensação não havia motos. Algo parecido, sim. Entregas rápidas eram feitas por cavaloboys com bauzinhos instalados nos traseiros de cavalos enlouquecidos que cortavam carroças, charretes e as carruagens sempre em desrespeito aos semáforos e com direito a chutes nos retrovisores das luxuosas carruagens que lhes impediam a passagem.

Tudo bem, não fosse o maior de todos os problemas ainda sem solução: a lambança das vias públicas. Mesmo com o Código de Trânsito aplicando pesadas multas para os proprietários de animais que se aliviavam no leito carroçável, não havia como impor essa disciplina aos inocentes quadrúpedes. Avenidas de grande movimento só podiam ser atravessadas, a pé, com o uso de pranchas que surfavam sobre os excrementos em estado de quase liquefação.

Um eloqüente ex-presidente em exercício continuava jurando que nunca na história deste País o povo fora tão feliz, tão moderno, tão rico. O mar de malfeitos que rolava nos bastidores da política não era nada em face ao mar de excrementos que o progresso social, infelizmente, tinha imposto como contrapartida. A descoberta cientifica do grande prócere de que a Terra, por não ser quadrada, nem retangular, nos levava a preocupar com a circulação mundial dos poluentes ganhava força, mas não resolvia o problema crucial do mar de titica que já se fundira ao mar de malfeitos. Ambos não subiam à atmosfera para serem compartilhados por outros povos quando só a Terra girasse. A situação estava, portanto, insustentável...

Foi aí que, nauseado, acordei. Não tardou até que, cheio de felicidade, me dei conta de que o veículo automotor já existe desde há muito e que os cavalos só nos são úteis no esporte e na recreação. O mar de excrementos que atormentava o meu sonho, felizmente não existia. Muito contente, agora, pois a nos flagelar resta-nos apenas o mar de malfeitos. Mas, com este, já começamos a nos acostumar... Paciência!

Edson Pinto
Julho’ 2012

28 de jun. de 2012

207) DISCUTINDO A RELAÇÃO

__ Ângela, amor da minha vida, você já pensou como tudo poderia ter sido diferente se tivéssemos optado por outro caminho que não este que acaba de nos levar a tamanha decepção?

__ Claro, Oscar, meu anjo! Nem é preciso pensar muito sobre isso. Cada caminho, com raras exceções, é óbvio, nos leva a destinos diferentes. A vida é um estar permanente em encruzilhadas. Temos sempre que optar para que lado seguir, se é que queremos ir em frente. O problema é que às vezes nos deixamos enganar por falsas moralidades, por paraísos imaginários, efêmeros. A lição a se tirar disto tudo é que pouco nos ajuda ficar choramingando sobre o leite derramado. É hora de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, como nos ensina a canção popular.

__ Torço, minha querida, para que você tenha razão. De minha parte só posso manifestar meu desejo de, no futuro, voltar a acreditar, mas não agora. A vida nos dá e nos tira oportunidades como se fosse num jogo de escolha de alternativas desconhecidas. Algo parecido com aquela brincadeira do programa de TV em que se oferece um prêmio oculto em troca do real e conhecido que já está em nossas mãos. O que nos leva a arriscar é sempre a possibilidade de que o desconhecido seja mais valioso do que aquilo que já possuímos. No nosso caso, erramos ao optar por aquilo que se encerrava na caixa de surpresa.

__ E o pior, meu arcanjo, é que temos a tendência de esquecer as lições com que a vida nos presenteia, sejam elas boas ou más. Eu jamais poderia ter me iludido sabendo que por conta desse meu sentimento egoísta provocaria no homem que verdadeiramente amo esta imerecida frustração. Sei que fui vaidosa, inconseqüente e ingênua. A minha única esperança, como já disse, é que amanhã possamos acertar.

__ Não poderia deixar de dizer também, luz da minha estrada, que eu igualmente tenho lá a minha parcela de culpa. Deveria ter prestado mais atenção aos sinais que as circunstâncias que nos rodeiam vinham emitindo. Fui também crédulo, egoísta, presunçoso e de uma arrogância detestável. Só agora me dou conta disso. O rompimento é, portanto, inevitável e necessário...

__ Rendo-me à sua decisão, meu querubim. De agora em diante, fica assim, estamos livres para escolher o caminho que quisermos. Tê-lo cativado para acreditar no PT e dar o seu voto ao filho de Dona Lindu foi, de fato, um tremendo equivoco. O caminho não era obviamente esse. O homem até que parecia ser uma boa pessoa, mas agora veja no que deu. Teriam seus neurônios sido afetados pela megavoltagem radioterápica do recente tratamento de saúde a que se submeteu?

__ Será o fim?

Edson Pinto
Junho’2012

21 de jun. de 2012

206) GROSSERIAS DO FAUSTÃO

Há tempos venho ensaiando escrever uma crônica sobre uma das figuras de maior visibilidade da televisão brasileira desde que Chacrinha se foi. Fausto Correia da Silva, mais conhecido como Faustão, detém o privilégio de apresentar seu programa na TV Globo, emissora de maior audiência do País, bem ao longo das nossas doces tardes de domingo. O Papa Gregório III na famosa reforma do calendário de 1582 consagrou o domingo como “Dies Dominica” (Dia do Senhor). É, portanto, esse dia, desde há muito, dedicado a reflexão espiritual e ao descanso, justificadamente nestes tempos modernos de tantos afazeres. Salvo condições especiais de cada um, é nele, em geral, que nos recolhemos ao aconchego do lar, até mesmo como concentração e preparação para a semana de trabalho que começa logo no dia seguinte.

É no domingo que a família tende a se reunir. Na tradição italiana, para a famosa macarronada da “mamma”. Com os parentes e amigos para o churrasquinho descontraído, o futebol, jogado ou mesmo assistido pela TV. Para os católicos, a ida à missa, a visita aos parentes e amigos e - como ninguém é de ferro - para entregar-se, ao final das tarde e início da noite, ao relax merecido em frente à TV. A televisão tem lá suas muitas vantagens e desvantagens. Uma delas que pode servir tanto ao bem como ao mal, dependendo da intensidade, momento ou conveniências pessoais, é a de poupar o uso de nossos neurônios. Sabemos que assistir TV não requer o esforço intelectual de uma boa leitura, por exemplo, mas, como o cérebro exige pausas para descanso, apresenta-se assim como uma alternativa muitíssimo adequada.

Nos dias de hoje, são dezenas de canais disponíveis até mesmo na TV aberta. Há, portanto, alternativas em abundância para quem não gosta de determinados programas. O controle remoto libertou-nos do incômodo “senta levanta” dos primórdios da TV e - não raro - mais de um televisor em casa nos dá a alternativa de satisfazer, em simultâneo, interesses pessoais dos vários membros da família. Em que pese isto, é curiosa a tendência das famílias se reunirem em frente ao mesmo aparelho de TV. Deve ser, imagino, para o exercício da nobre e necessária socialização dos seus membros.

Pensava que a birra que tenho para com o apresentador Faustão fosse uma chatice exclusivamente minha. Por que não troco de canal ou vou para outro aparelho enquanto minha família fica assistindo o Domingo do Faustão? Antes, é preciso esclarecer que tenho respondido a mim mesmo com outra pergunta: “Se não assisto ao programa como poderei criticá-lo?” Não quero ser como uma querida tia que detesta arroz sem nunca ter provado um grão sequer. Quando digo que não gosto de algo, procuro fazê-lo com base na experiência negativa que tive com aquilo. Depois, assisto, às vezes, o programa, porque ele tem atrações interessantes, reportagens bem produzidas e até mesmo novidades e emoções. O que continua sendo criticável, e muito me incomoda, é a postura do seu apresentador.

Antes de iniciar esta crônica fui ao Google e fiz pesquisa com o título que escolhi para ela, isto é, “grosserias do Faustão”. Encontrei exatos 50.300 resultados que tratam do mesmo tema, o que me dá a certeza de que a questão não é exclusivamente pessoal. Muitos brasileiros compartilham comigo da mesma critica. Faustão pode ser uma boa pessoa, aparentemente um homem generoso com seus amigos mais próximos, porém demonstra um primitivismo e certa arrogância típica de quem se julga superior aos semelhantes. É desrespeitoso, falastrão, usa palavras chulas chegando às raias da malcriadez.

O incrível é que o chamado padrão global da grande emissora é completamente ignorado quando Faustão intervém, sempre de forma jocosa e cínica, atropelando os comentários dos seus entrevistados. Dificilmente um entrevistado consegue concluir o seu pensamento sem que o apresentador interceda com uma observação despropositada. As piadinhas de duplo sentido, principalmente relacionadas a sexo, são de uma vulgaridade incompatível com o perfil de famílias que assistem ao programa. As desrespeitosas brincadeiras que faz com seus colegas da área técnica, colaboradores profissionais dedicados e sérios, por exemplo, já estão tão manjadas que perderam, desde há muito, todo o sentido de diversão que ele imagina ter.

Aí que saudades de Chacrinha! Pelo menos o velho guerreiro não só fazia suas palhaçadas como se caracterizava para tal.

Vocês querem bacalhau?

Edson Pinto
Junho’2012

14 de jun. de 2012

205) QUEM PAGA A CONTA?

O assunto não é novo, mas sempre que vem à tona ficamos com aquela sensação de que nos defrontamos com ele pela primeira vez, tamanho o seu absurdo. Aprendemos que a forma social de viver é a mais adequada para a nossa espécie. Não fosse isso, seriamos apenas uma espécie dispersa, talvez em extinção, e não teríamos dominado a Terra e o pedaço de Universo que se acerca de nós. A vida comunitária, tal qual a exercemos, exige solidariedade, renúncias e organização. Ao Estado toca a parte principal desta tarefa que é o de agregar, sob um mesmo território e mesmas leis, todos os cidadãos. Fazemos isso contribuindo com o nosso trabalho, com os impostos que pagamos e outras renúncias voluntárias ou coercitivas para que a máquina estatal exista e cumpra o seu papel de gerir a coisa comum. Quando temos consciência disso, exercemos com responsabilidade o nosso direito de votar e/ou ser votado.

O estado moderno, especialmente os democráticos, deu-nos mais liberdade e conforto, mas também passou a nos exigir mais esforço em prol do bem comum. Os impostos que pagamos, por exemplo, são cada vez maiores. A princípio, porque a vida moderna requer serviços mais complexos e mais dispendiosos. Há, por fim, a questão da redistribuição de renda para promover a necessária harmonia social.

É aqui que uma questão importante da realidade econômica se afigura como de difícil compreensão, notadamente pela parcela alienada do povo: Mesmo que razões políticas recomendem ações de forma diferente, ainda assim a racionalidade econômica pode e deve ser aplicada. Partindo-se do principio de que os recursos, independente de sua natureza, são, em geral, escassos e que, como tal, devem ser usados com parcimônia, compete aos gestores desses recursos a busca incessante da otimização do seu uso de tal modo a maximizar o resultado esperado.

Há uma lei universal que determina a busca do melhor resultado pelo menor dispêndio possível. A maior felicidade pelo menor sofrimento, o maior ganho pelo menor esforço, os melhores produtos e serviços pelos menores custos. No campo estrito da vida econômica, nada mais fazem os seus agentes do que perseguir o melhor resultado com o menor custo possível. Uma fábrica, qualquer que seja o seu produto, não usaria pelo mesmo custo e investimento um motor menos eficiente do que outro. Ao mesmo preço, compramos a roupa que se apresenta como sendo a melhor para nós, o espetáculo teatral que nos dê mais divertimento e ainda matricularíamos nossos filhos na escola que oferece o melhor ensino. Os economistas sintetizam esse mecanismo como o principio do “Custo x Benefício”.

Embora essa racionalidade devesse prevalecer sobre todas as ações humanas, temos que admitir que os aspectos egoístas que a governam tendem a fazer o contraponto numa constante tentativa de se conseguir brechas para que o benefício de uma parte se sobreponha à da outra. O vendedor esperto e desonesto sempre tentará empurrar o produto ou serviço de menor custo pelo maior preço possível. Se não formos assertivos e se não houver alternativas, há grande chance de cairmos na esparrela. Neste caso, o vendedor indigno desequilibra, obviamente a seu favor, uma relação que deveria ser boa para as duas partes, e não foi. Mas, isso ocorre no âmbito das relações privadas, fora do governo.

Agora imagine a relação entre o “ente sem face”, o Estado, assim entendido a sua multiplicidade de agentes, ministérios, secretarias e setores de serviços que tradicionalmente têm sido alocados aos poderes constituídos da República. Veja quão desequilibrada é a relação entre o provedor e o tomador desses serviços! Primeiro, não há aqui o concurso da salutar concorrência. Atuar monopolisticamente em qualquer ramo de negócio é o sonho de todo esperto e o Estado é tipicamente monopolista. Segundo, a arrogância do Estado, as falhas de controle que se tem sobre ele, o espírito de corpo prevalecente em suas corporações e a falta de visibilidade e divulgação adequada de seus atos torna a relação cidadão/estado uma covardia em favor deste último.

No recente episódio dos salários dos funcionários da Câmara Municipal de São Paulo e que foram publicados por força da novíssima lei de acesso à informação, ficamos sabendo que o supervisor da sua garagem ganha quase R$20 mil/mês; suas enfermeiras R$26 mil/mês. Salários parecidos ganham ainda técnicos administrativos de curso secundário daquela egrégia casa legislativa. Fica, assim, dolorosamente demonstrado, mais uma vez, que o principio da otimização dos resultados não é ali, nem em outras atividades públicas, minimamente respeitado. A consequência disso é que o ente governamental precisa de mais e mais impostos para sustentar essa máquina perdulária e de retorno social duvidoso.

Agora pense se - dadas as proteções legais que essa turma tem - conseguiremos, algum dia, corrigir essas aberrações? Numa empresa privada far-se-ia uma reorganização e os disparates seriam eliminados para garantir, assim, a competitividade e a sua sobrevivência em um mercado com concorrentes mais eficientes. Na máquina pública isto não acontece e, infelizmente, só tende a piorar.

Por isso, a única resposta à pergunta feita como título desta crônica é: “Somos nós...” E o pior é que o País perde competitividade, condenando-nos à eterna condição de País do futuro e nunca do presente...

Edson Pinto
Junho’ 2012

6 de jun. de 2012

204) QUEM TEM MEDO DO MENSALÃO?

Feriados estendidos com finais de semanas, ou o inverso, já fazem parte do nosso brasileiríssimo modo de ser e de gozar a vida. Só muito raramente e por eventuais descuidos do generoso São Pedro, temos essa benesse prejudicada com condições climáticas adversas. Tudo indica, infelizmente, que o Corpus Christi deste ano junto com o final de semana que lhe sucede se enquadra nesta indesejável exceção, pois, pelo menos aqui no sudeste, teremos chuva em prodigalidade e algum frio.

Em isto de fato acontecendo, nada melhor do que curtir a própria cidade em que moramos e não sair arriscando a vida pelas estradas superlotadas e mal cuidadas de um país que sofre do eterno paradoxo econômico de não crescer mais celeremente porque não tem infraestrutura adequada e de não ter ainda infraestrutura adequada porque não consegue crescer mais celeremente. Durma-se com um barulho desses!

Tenho uma boa sugestão para quem vai ficar em casa. Se tiver luz e a Internet funcionar bem, acesse este link (clique sobre ele):


e saboreie o relatório do ministro do STF, Joaquim Barbosa, relator do processo do Mensalão, a ser, em breve (espera-se), julgado pela suprema corte do País. São 122 páginas escritas de forma concisa utilizando-se de linguagem compreensível a todos nós mortais, isto é, pouco juridiquês, e que traça um quadro cristalino do episódio mais vexatório que a política brasileira produziu em tempos recentes. Mesmo sendo 122 páginas - garanto, pois li todo o relatório - dá para se fazer uma leitura rápida e dela extrair apenas os temas mais importantes e que nos interessam.

Resumo para aqueles que não tiverem condições de fazer a leitura:

O PT tinha, e obviamente ainda tem, um plano de governo para um prazo muito longo, ao menos pelo tempo em que Lula, José Dirceu e outros da turma estiverem vivos. Era, em 2003, necessário não só garantir a governabilidade do Lula recém-empossado, “comprando” apoio de parlamentares apoiadores, bem como pagar dívidas pretéritas ao mesmo tempo em que se procurava fazer caixa para as futuras que disso decorreriam.

O núcleo de comando das peraltices era liderado por José Dirceu com a participação estreita de Delúbio Soares, José Genoíno e Silvio Pereira. Valeram-se do núcleo de agências lideradas pelo ex-carequinha Marcos Valério. Este era o responsável pela engenharia financeira que criava empréstimos falsos, gerava verbas de propagandas nunca feitas, abocanhava comissões de mídias não devolvidas aos anunciantes governamentais e outras mágicas, tudo organizado para entregar dinheiro vivo a um mundo de malfeitores e “vendihões” traidores do voto popular.

O termo Mensalão, nunca reconhecido por Lula que até hoje jura nada saber, na verdade quer se referir às mesadas distribuídas fartamente e ao arrepio das leis lesando o erário público, saqueando empresas estatais, corrompendo políticos, dirigentes de empresas públicas e privadas, partidos políticos aliados e tudo o que a desfaçatez humana é capaz de produzir quando submetida ao mais vil de seus propósitos que é o da manutenção duradoura no poder. Isto, como a História nos ensina, costuma ter êxito por algum tempo, mas nunca para sempre. A lógica imediata e mesquinha de quem o pratica é que, se ao menos durar o tempo em que seus atores atuais estejam vivos, já está de bom tamanho. Aos que ficarem, a batata quente...

Se tudo ocorrer como o povo brasileiro deseja e merece, o julgamento do Mensalão haverá de se constituir em uma grande contribuição à nossa cultura ao sinalizar que fatos dessa sordidez não voltem mais a acontecer. Atrevo-me a classificar esse processo para algo além das necessárias implicações jurídicas quando os malfeitos devem ser punidos. Imagino alguma coisa parecida com os propósitos da Comissão da Verdade, recém-implantada, e que tem como objetivo maior extrair dos fatos históricos lições que aprimorem o presente e o futuro da nação. Afinal, os homens passam, mas a nação com nossos descendentes perduram.

Agora, objetivamente falando: Leia o relatório acima mencionado e descubra quem, na verdade, tem medo do julgamento do Mensalão.

Edson Pinto
Junho’ 2012

31 de mai. de 2012

203) DEMOROU!

Charge de Paixão - Gazeta do Povo (PR).


Um dos mais interessantes fenômenos de qualquer idioma é a gíria. O Aurélio a define como sendo uma “linguagem que, nascida num determinado grupo social, termina estendendo-se, por sua expressividade, à linguagem familiar de todas as camadas sociais” (o grifo é meu)

Algumas gírias pegam muito bem por um curto período de tempo, mas depois desaparecem ou ficam apenas na memória dos saudosistas, como eu. Assim, além das gírias atuais que todos nós sabemos, ainda guardo na memória outras bem caretas, mas expressivas como: 1) “Amigo da onça” para se referir a um amigo não confiável. 2) “Boca na botija” usada quando alguém é flagrado fazendo algo errado ou escondido. 3) “Cantar de galo” para designar o prepotente, aquele que conta vantagens e/ou quer mandar em tudo e em todos.

Há outras ainda bem interessantes como: 4) “Em maus lençóis” quer dizer que alguém entra em uma enrascada. 5) “Farinha do mesmo saco” designa muito bem os que pertencem à mesma laia, à mesma corja. 6) “Golpe baixo” conota atitude de ética duvidosa. 7) “Homi” tomado assim isoladamente indica que a presença da polícia, os dos homens da polícia. 8) “Ideia de jerico” é idéia tola, má, burra. 9) “Jurar de pés juntos” refere-se ao ato de alguém afirmar ser verdade aquilo que se diz, mesmo que não o seja. 10) “Livrar a barra” dá a conotação de excluir alguém, especialmente os amigos, de uma situação difícil. 11) “Mandar um migué” é trapacear alguém, fazendo uso da mentira. 12) “Nem te ligo” expressa desprezo para com outra pessoa ou até mesmo com a opinião pública. 13) “O fim da picada” refere-se a situações que de tão despropositadas nunca deveriam ter ocorrido. 14) ”Por baixo dos panos” significa fazer furtivamente algo escuso com o propósito de enganar a outrem.

Não nos esqueçamos de outras, ainda, tais como: 15) “Quebrar essa” para indicar a retirada de alguém de uma situação muito ruim. 16) “Rolo” que é tomado no sentido de trocar uma coisa ou uma situação por outra. Tem cheiro de chantagem. 17) “Se virar” refere-se à situação em que alguém, não tendo nada de útil a ser feito, procura algo para com o que se ocupar. 18) “Tapar o sol com a peneira” é a tentativa de se ocultar, porém sem sucesso, algo que é muito evidente. 19) “Useiro e vezeiro” tem a ver com o hábito incorrigível de insistir em fazer coisas erradas. 20) “Vistas grossas” remete a idéia de fingir que não se viu os malfeitos, especialmente quando praticados por amigos. 21) “Xereta” é intrometido, aquele que se mete onde não é chamado. 22) “Zebra” refere-se a um resultado inesperado. Toma-se como certo um determinado resultado e no final vem um outro bem diferente.

Se os meus pacientes leitores tiveram o cuidado de observar, terão notado que mencionei, em ordem alfabética, vários exemplos de gírias brasileiras que contemplam todas as 26 letras do nosso alfabeto, exceto as três, “k”, “w” e “y”, de origem estrangeiras, e que só recentemente foram incorporadas pela última reforma ortográfica.

__ Por que fiz está listagem de gírias?

__ Apenas para desafiar se os meus amigos conseguem encontrar “umazinha” delas que seja que não se aplique às recentes estripulias do ex-presidente Lula e de sua patota do PT nesse episódio do julgamento do Mensalão e no da CPMI do Cachoeira. Sem querer ser cansativo, tomemos, por blocos, as situações que se nos apresentam neste momento para fazermos o enquadramento ao alfabeto completo (de A a Z) de gírias que o consciente popular brasileiro conseguiu produzir em cinco séculos de trato com o idioma pátrio:

A) Você confiaria na sinceridade do Lula, do José Dirceu e de outros membros da patota? Aplicam-se as gírias de nºs 1, 5, 6, 8, 9, 11, 14, 18 e 20.

B) Acha que Lula comanda um esquema para apagar da memória do povo todos os malfeitos de sua turma e com a qual mantém laços de profundo respeito e cumplicidade? Aplicam-se as gírias de nºs 4, 10, 15 e16.

C) Em qual situação você acha que Lula encontra-se no momento? Aplicam-se as gírias de nºs 2, 3, 7, 12, 17, 19 e 21.

D) Como você acha que tudo isto vai acabar? Aplicam-se as gírias de nºs 13 e 22

A menos que não se queira ver, penso, não haver dúvidas de que o PT acaba de atingir o grau máximo de esperteza no trato da política no País. Contemplou todo o abecedário de mau comportamento que nos serve de exemplo para demonstrar a criatividade lingüística popular.

Agora! Se você notou a falta da gíria correspondente a letra “d”, saiba que isso ocorreu não por falha metodológica deste indignado escriba. Ela encontra-se no título deste texto com o simples propósito de mostrar, de forma contundente e expressiva, que já era sobejamente esperado pelas pessoas de bom senso que, mais cedo ou mais tarde, toda a verdade viria à tona. Quando se diz “demorou” quer-se dizer que era óbvio que a verdadeira face da politicagem que se apoderou do Planalto e suas vizinhanças na última década, seria, em algum momento, completamente revelada.

Demorou!

Edson Pinto

Maio’ 2012



24 de mai. de 2012

202) CHUTE NO TRASEIRO

De toda essa história relacionada com o atraso das obras da Copa do Mundo de 2014 e que levou o secretário geral da FIFA, Monsieur Valcke, a sugerir um solene e estimulante chute no nosso traseiro, eu, como certamente muitos outros brasileiros conscientes, não me senti ofendido com a grosseria, pois ela pode ter lá suas razões e comportar, segundo o ponto de vista de cada um, várias interpretações. Notadamente, é de se ressaltar que as evidências já arraigadas em nossa cultura demonstram que as coisas por estas bandas só acontecem com rapidez quando nossa retaguarda anatômica se vê acicatada por um 44, bico largo, como dizia meu saudoso avô.

Não é fácil fazer com que as coisas aconteçam aqui na Terra Brasilis no mesmo ritmo em que acontecem alhures. O governo anuncia um plano para construção de tantos milhões de casas para a população carente. Passam-se os anos e o que se consegue mal atinge a uma ínfima parte daquilo que se planejou. As promessas são, então, renovadas. O famoso PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) não consegue alçar voo mais alto porque os entraves burocráticos, a leniência dos responsáveis pelas obras, e até mesmo a corrupção e o despreparo gerencial de nossos lideres prevalecem sobre a urgência e as boas intenções dos planejadores.

Desde Dom Pedro II, no século XIX, a tal transposição do Rio São Francisco para irrigar o semi-árido nordestino não chega ao fim. No equivalente de tempo transcorrido desde que Dom Pedro anunciou o tal projeto, os egípcios, com os parcos recursos tecnológicos de 3000 anos atrás, já teriam construídos, por baixo, umas três pirâmides, como as de Quéops, Quéfren e Miquerinos.

A Transamazônica, aquela estrada que ligaria os rincões da Amazônia ao sul do País, lembram-se? Fizeram umas poucas e porcas picadas na selva e hoje a Natureza já cuidou de reincorporá-la ao seu patrimônio. Os produtos eletrônicos produzidos na artificial Zona Franca de Manaus só chegam aqui, rápido, se for de avião. O custo Brasil, é óbvio, vai para as alturas e a integração do gigantesco território só fica na ficção. O mais sério é que - no ritmo em que andam as obras de infraestrutura no País - não tardará a nem mesmo termos mais condições de movimentar cargas nos nossos superlotados e defasados aeroportos. Será que voltaremos à época das tropas de burro atravessando os sertões brasileiros para levar e trazer mercadorias? Seria um atraso, mas - convenhamos - ainda assim, bem romântico...

Parece que tudo, contado desta forma, leva-nos a concluir que as coisas encontram-se muito erradas, não é? O que justificaria a exuberância econômica do nosso País não seria apenas o presente que o Criador, em momento de extrema generosidade e grandeza, nos deu? “Criança, não verás nenhum país como este/ Olha que céu, que mar, que rios, que florestas/ A Natureza aqui perpetuamente em festa/ É um seio de mãe a transbordar carinhos...” Olavo Bilac, como se vê, já tinha sacado com o mais absoluto lirismo esse - digamos - golpe de sorte de quem viria, pelas graças de Deus, ter acesso à luz neste abençoado território centro-oriental da América do Sul, que é o nosso amado Brasil.

Pero Vaz de Caminha na sua famosa carta de 1º de maio de 1500 já tinha reportado a Dom Manuel que, por aqui: “... a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!”

Seriam essas benesses as razões de nosso comodismo face aos desafios de uma vida dura que em tese não temos? Se Deus nos foi tão generoso por que iríamos nos neurotizar na busca de um comportamento austero desnecessário? Quem vive melhor: os dedicados asiáticos que exigem padrões de disciplina rigorosa aos filhos para superarem suas vicissitudes ou nós brasileiros que podemos levar a vida mais na flauta? Considerando que a passagem terrena é maravilhosa, breve e única, por que não fazê-la com um pouco menos de responsabilidades?

Eis aqui, meus amigos, a reflexão que vale a pena ser feita. Depende do que cada um pensa da vida. Um chute no traseiro pode, portanto, ser considerado um alerta, um desafio, uma grosseria ou quem sabe até mesmo uma manifestação de ciúme.

Edson Pinto
Maio’ 2012