21 de ago. de 2026

385) A VIDA EM ADVÉRBIOS

 O advérbio é a luz que não muda a paisagem, mas muda inteiramente a maneira de vê-la. Edson Pinto

Aprendi o que era um advérbio numa idade em que tinha coisas muito mais importantes com que me preocupar. Havia recreios, bolas, colegas, provas, férias e uma quantidade considerável de meninas que começavam a tornar a gramática portuguesa um assunto de importância bastante relativa.

A professora explicava que advérbio era a palavra que modificava o verbo, o adjetivo ou outro advérbio, acrescentando-lhe uma circunstância de tempo, modo, lugar, intensidade, afirmação, negação ou dúvida. Anotei tudo disciplinadamente. Talvez tenha até acertado a questão na prova. Depois disso, guardei o advérbio numa dessas gavetas mentais onde depositamos os conhecimentos escolares que julgamos não voltar a encontrar.

Enganei-me.

Hoje, depois de muitos anos de convivência com as palavras nos meus livros e no meu blog, e de uma convivência ainda mais longa com a vida, começo a suspeitar que aquela professora tentava me ensinar muito mais do que gramática. Eu é que era jovem demais para perceber. A juventude tem esse pequeno defeito. Aprende depressa aquilo que ainda não tem idade para compreender.

Sabemos o significado de “sempre” antes de termos vivido tempo suficiente para desconfiar dele. Dizemos “nunca” com uma segurança que somente os jovens possuem. Pronunciamos “amanhã” como se tivéssemos assinado contrato de propriedade sobre o futuro. E usamos “talvez” apenas quando estamos em dúvida, sem imaginar que, muitos anos depois, descobriremos que boa parte da existência cabe exatamente dentro dele.

O substantivo, reconheço, é importante. Dá nome ao mundo. Casa, rio, árvore, homem, mulher, saudade. Sem ele, andaríamos por aí apontando para as coisas.

O verbo é ainda mais atrevido. Faz o mundo funcionar. Nascer, correr, trabalhar, amar, partir, voltar. Sem verbos, a humanidade seria uma fotografia.

O adjetivo chega depois e começa a distribuir opiniões. A casa é bonita, o rio é tranquilo, a árvore é antiga, o homem é sábio, a mulher é encantadora. O adjetivo tem algo de crítico literário. Nada lhe basta existir. É preciso qualificá-lo.

Então aparece o advérbio. Discreto, quase modesto, aproxima-se do verbo e cochicha uma circunstância. Não basta amar. Pode-se amar profundamente. Não basta esperar. Pode-se esperar pacientemente. Não basta partir. Pode-se partir cedo. Não basta chegar. Pode-se chegar tarde.

E descobri, com certo atraso, que a vida talvez esteja menos nos verbos do que nos advérbios que os acompanham. Todos vivemos. A questão é como. Todos partiremos. A questão é quando. Todos estamos em algum lugar. A questão é onde. E todos desejamos alguma coisa. A questão, frequentemente, é quanto. A gramática chama isso de circunstância. A filosofia talvez chamasse de existência. Há advérbios que, vistos da maturidade, adquiriram para mim uma grandeza que os livros escolares jamais conseguiram revelar.

Quase, por exemplo. Que palavra perigosa. Quase fui. Quase disse. Quase consegui. Quase voltei. Quase amei. Há vidas inteiras escondidas dentro de um quase. Ele é uma espécie de varanda da realização. Chegamos até ali, vemos a paisagem, mas não entramos na casa.

Nunca é diferente. Nunca é um sujeito autoritário. Apaga a luz, fecha a porta e ainda leva a chave. Talvez por isso devêssemos pronunciá-lo com mais cautela. A vida possui certa predileção por desmentir quem diz nunca.

Sempre não é muito melhor. É romântico, exagerado e irresponsável. Faz promessas eternas com a facilidade de quem não será chamado a prestar contas depois de cinquenta anos.

Já o talvez me parece mais sábio. Quando jovem, eu o considerava hesitante. Hoje o considero prudente. Talvez conhece a fragilidade das certezas humanas. Sabe que o futuro não costuma consultar nossos planos antes de acontecer. Há alguma coisa de filósofo cético nesse pequeno advérbio.

Mas há um de que gosto especialmente.

Ainda. Ainda é uma palavra que a juventude desperdiça porque possui futuro demais para precisar dela. É somente depois que o calendário acumula páginas que começamos a compreender sua delicadeza. Ainda caminho. Ainda penso. Ainda me surpreendo. Ainda tenho curiosidade. Ainda espero. Ainda escrevo. O “ainda” não nega o tempo. Ao contrário, reconhece-o. Sabe que muita coisa passou, mas recusa-se educadamente a admitir que tudo tenha passado.

Talvez seja por isso que hoje compreendo melhor aquela velha definição da professora. O advérbio modifica o verbo, o adjetivo e até outro advérbio. Passou a vida inteira modificando também a mim, sem que eu percebesse. Aos poucos, fui aprendendo que não basta viver. É preciso perceber como vivemos. Não basta saber onde chegamos. Convém lembrar de onde viemos. Não basta perguntar quanto tempo nos resta. Talvez seja mais importante perguntar com que intensidade habitaremos o tempo que temos.

Curioso. Precisei envelhecer para compreender uma aula de português da infância. Se encontrasse hoje aquela professora, talvez lhe dissesse que finalmente aprendi o advérbio. Ela provavelmente perguntaria se demorei tanto assim. Eu responderia:

— Demorei.

E, depois de pensar um pouco, acrescentaria o advérbio que explica quase toda a minha relação com a vida:

— Muito.

 

Edson Pinto

Agosto, 2026

14 de ago. de 2026

384) O MEU PRÓPRIO B-612

Quando li pela primeira vez O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry, eu era um menino sério, daqueles que tentam, ao contrário do personagem filosófico do livro, desenhar jiboias por dentro, mas acabam se contentando com elefantes por fora.

Publicado em 1943, em meio a um mundo em guerra, o livro atravessa o tempo como um sussurro cheio de ternura. Sob a aparência de um conto infantil, abriga em suas páginas uma das mais delicadas e profundas meditações sobre a vida, o amor, a amizade e o sentido da existência. Arrisco-me até mesmo a dizer que é só na maturidade que nos encontramos em plenitude para compreendê-lo.

Fiquei intrigado com aquele tal Planeta B-612, pequeno, solitário e cheio de significado. O que me espantou não foi o planeta em si, mas a revelação de que cada um de nós carrega o próprio B-612 dentro do peito. Só que, ao contrário do Pequeno Príncipe, que vivia com sua rosa e três vulcões, o meu planeta tinha outras coordenadas, e outras rosas também...

O meu B-612 fica entre a fictícia Vila dos Ventos e o bairro do Caiçara, em Belo Horizonte, onde passei minha infância e juventude. Esses dois lugares remetem a dois de meus livros, O Resgate do Tempo Perdido e Memórias do Caiçara. Estão, portanto, fora do alcance de telescópios modernos, embora qualquer menino com um pouco de saudade seja capaz de enxergá-lo. Não se encontra em mapas celestes, mas mora nos desvios da memória, onde a infância resolveu se esconder.

Na Terra, tenho nome, CPF, compromissos, sentimentos, dores, memórias, mas, no meu planeta fictício, sou apenas o menino que se lembra demais, como se a lembrança fosse um tipo de combustível cósmico. Lá, também, a fictícia Vila dos Ventos continua intocada. O sino da igreja ainda toca como se anunciasse o retorno dos que nunca voltam. E a praça? Ah, a praça ainda abriga encontros no banco perto do coreto e histórias que a memória conserva melhor que  o cheiro de pão de queijo saído do forno.

No Caiçara de minhas memórias, meu pai ainda caminha com as mãos nos bolsos e chapéu de feltro. Os ex-combatentes, que até recentemente ainda estavam por aqui, mas já partiram todos, contavam histórias que misturavam a Segunda Guerra com o nascimento do bairro, como se Monte Castelo e o Caiçara fossem vizinhos de muro. No planeta, Laurinha ainda penteia os cabelos na varanda. E juro que ela me olha. Não com os olhos da infância, mas com aqueles que dizem: “Era você o tempo todo, seu distraído!”

Tenho também três vulcões, embora o terceiro só entre em erupção quando ouço certas músicas ou sinto o cheiro de cadernos antigos. Tenho a minha própria rosa. Companheira fiel, sensível, com seus espinhos e exigências, como toda rosa que se preze. Dedico a ela rega constante de boas lembranças, adubo de palavras carinhosas e ausência de vento. Mesmo quando esqueço de cuidar, ela insiste em florir. Talvez seja amor, talvez seja teimosia vegetal,  ou talvez porque, antes de partir, tenha plantado sementes no nosso jardim.

A vida no B-612 não exige documentos. Apenas silêncio, tempo e um pouco de coragem para se comover. Lá, os pores de sol obedecem à emoção do dia: se a saudade é grande, eles se repetem até que eu me acalme. Já assisti a doze deles de uma só vez. E, em todos, ouvi o mesmo sussurro: “O essencial é invisível aos olhos.”

Volto ao meu planeta quando posso. Às vezes, uma palavra me leva. Outras, um cheiro. Às vezes, basta uma tarde em que o mundo parece não fazer sentido. E então lá estou, sentado numa cadeira imaginária, contemplando o que só existe porque um dia existiu. Os adultos diriam que esse planeta é invenção. Que não existe. Que é escapismo, romantismo, delírio literário. Talvez…

Aprendi com a raposa, não com aquela que habita os arredores da Pampulha, pois sou atleticano de fé, que só conhecemos bem aquilo que nos cativa. Fui cativado. Pela Vila dos Ventos, pela rosa que me desafiava com seus espinhos, pelas ruas numeradas e calçadas de pedras irregulares do Caiçara, pelas mulheres que passaram pela minha vida, pelos silêncios do meu pai e pelas palavras que nunca disse, mas que ecoam em mim como se fossem um idioma secreto.

O meu B-612 é isso: um planetinha só meu, onde as dores são pequenas, os afetos têm nome e os pores de sol sabem esperar. É desse pequeno planeta que nascem muitas das crônicas que eu publico em meu blog. Cada texto é uma pedra, uma flor, uma estrela ou um pôr do sol do meu planetinha. Quem quiser pousar está convidado. Não precisa traje espacial.

Basta trazer o coração desarmado.

 Edson Pinto

Agosto, 2026



7 de ago. de 2026

383) A INTELIGÊNCIA E SUAS FERRAMENTAS

Há uma curiosa ilusão que parece acompanhar todas as grandes invenções da humanidade. Sempre que surge uma nova ferramenta, alguém anuncia o fim do mérito humano. Foi assim com a escrita, com a imprensa, com a máquina de calcular, com o computador e, agora, com a inteligência artificial. Como se o valor de uma obra estivesse na dificuldade do instrumento utilizado, e não na grandeza da ideia que lhe deu origem.

A história, entretanto, conta uma versão bem diferente: Nenhum grande criador trabalhou sozinho. Cada geração recebeu como herança o conhecimento acumulado pelas anteriores e, sobre esse alicerce, construiu novos horizontes. Newton reconheceu que enxergava mais longe porque estava sobre os ombros de gigantes. Einstein desenvolveu sua teoria apoiando-se na matemática, na física e nas descobertas de muitos outros pesquisadores. Cervantes escreveu utilizando uma língua que levou séculos para se formar. Beethoven compôs ao piano. Nenhum deles começou do zero. Nenhum precisou renunciar às ferramentas disponíveis para provar o próprio talento.

Talvez resida aí um dos maiores equívocos de nosso tempo. Confundimos, por vezes, o valor da inteligência com a simplicidade dos instrumentos de que ela dispõe. Esquecemos que a criatividade nunca nasceu do isolamento, mas do diálogo permanente entre a mente humana e os recursos que ela própria inventa.

A inteligência artificial é apenas o capítulo mais recente dessa longa história. Ela não cria sensibilidade onde ela não existe. Não produz discernimento em quem nunca o cultivou. Não substitui experiência, imaginação, caráter ou sabedoria. Essas continuam sendo conquistas exclusivamente humanas. O que ela faz é ampliar possibilidades.

Nas mãos de um pesquisador, pode acelerar descobertas. Nas de um professor, enriquecer o aprendizado. Nas de um escritor, ajudar a organizar ideias que já estavam em gestação. Nas de um artista, abrir novos caminhos para a criação. Mas nenhuma dessas realizações pertence à máquina. Continuam pertencendo ao ser humano que pergunta, escolhe, interpreta, aceita ou rejeita cada sugestão. Toda ferramenta amplia capacidades, mas nenhuma substitui a inteligência que lhe dá direção.

É verdade que a inteligência artificial também traz riscos. Como toda inovação poderosa, pode ser usada para manipular, desinformar, copiar, vigiar ou produzir dependência intelectual. Ignorar esses perigos seria ingenuidade. Mas condenar uma tecnologia apenas porque ela pode ser mal utilizada seria esquecer que quase todas as grandes invenções da história carregaram a mesma ambivalência. A imprensa difundiu conhecimento e propaganda. A química produziu medicamentos e venenos. A energia nuclear iluminou cidades e destruiu outras. O problema nunca esteve apenas nas ferramentas. Sempre esteve, sobretudo, nas mãos que as conduzem.

A verdadeira questão não é saber se devemos utilizar a inteligência artificial. A pergunta mais importante é outra. Estamos preparando pessoas capazes de utilizá-la com responsabilidade, espírito crítico e criatividade? As ferramentas mudam. O desafio humano permanece.

Cada época exige competências diferentes. Houve um tempo em que o mérito estava em memorizar informações. Depois, em encontrá-las rapidamente. Hoje, começa a estar na capacidade de formular boas perguntas, distinguir o verdadeiro do falso, estabelecer relações inesperadas e produzir ideias que nenhuma máquina é capaz de viver antes de escrever. A inteligência artificial pode organizar palavras, mas não vive nossas experiências. Não sofre nossas perdas. Não conhece nossos afetos. Não constrói nossa consciência. Ela amplia a voz. Não cria a alma.

Faz, então, sentido que não veja a inteligência artificial como uma ameaça à inteligência humana, mas como um espelho. Ela torna mais evidente aquilo que sempre esteve diante de nós. Ferramentas nunca produziram gênios. Apenas revelaram, com mais clareza, o que cada pessoa era capaz de fazer com elas.

A história raramente sorriu para aqueles que recusaram olhar pelo telescópio, abrir um livro recém-impresso ou ligar um computador. Em geral, ela avançou graças aos que tiveram coragem de experimentar, aprender e seguir adiante. Talvez esteja acontecendo exatamente a mesma coisa diante de nossos olhos.

 Edson Pinto

Agosto, 2026

31 de jul. de 2026

382) OLHOS LONGES

 

Eu, da minha janela, fito o Rio Verde que corre ali adiante. Não me perguntem por que sempre acabo diante dele, como se a água tivesse mais respostas que os homens. Talvez seja porque o rio, com sua pressa disfarçada de calma, me empresta a metáfora de meus próprios pensamentos: sempre a correr, mas fingindo que repousam. Foi assim que percebi os meus, e, ouso acreditar, também os seus: "olhos longes".

Não são olhos míopes, tampouco cegos. São olhos que enxergam, mas não se contentam em ver o que está posto. Enquanto a cabeça geme de memórias e o café esfria na xícara, eles se projetam para o ontem e para o amanhã, como se o presente fosse apenas uma escada entre dois andares mais interessantes.

De minha parte, confesso: tenho-os.  Os “olhos longes” são meus companheiros. Não raro, em vez de água, vejo os meninos que fomos, correndo descalços à beira do tempo. Outras vezes, olho o mesmo rio e, não sei como, já avisto meus netos correndo adiante de mim, navegando em barcos de papel, que serão absorvidos pela primeira chuva.

E assim vou, com os “olhos longes”: ora ancorados na infância, ora vagueando pelo futuro, e quase nunca assentados no agora, como seria mais prudente. A prudência, aliás, é coisa que se perde justamente nos “olhos longes”. Eles não obedecem a convenções, preferem vagar.

Machado de Assis, se aqui estivesse, riria de minha fraqueza. Diria que, se me faltam respostas no presente, invento-as no passado ou no futuro. E não estaria errado. Eu, sem lhe pedir licença, retruco: se é verdade que os “olhos longes” nos afastam da realidade, também é verdade que nos salvam dela.

Se o amigo me perguntar de onde tirei esses tais “olhos longes”, direi que não os inventei: apenas os encontrei em mim mesmo e, quem sabe, também nos outros. São herança da literatura e da vida. Drummond os usou para enxergar Itabira quando já estava longe de Itabira; Cecília, para ver a claridade que não era do dia, mas da eternidade; e Machado, sempre desconfiado, talvez preferisse chamá-los de olhos vagos, talvez temendo que neles se escondesse um segredo de amor ou de filosofia.

Penso afinal concluir, caros amigos, que “olhos longes” sejam como rios: às vezes, não se  sabe exatamente onde começam nem onde acabam. Apenas seguem, carregando consigo o passado, o futuro e esse presente que, de tão breve, já se despede no instante em que piscamos.

Edson Pinto

Julho, 2026

 

Nota do autor:

Olhos Longes, Olhos Lointains: Há palavras que viajam mais do que a gente. O longe, por exemplo, começou discreto, um simples advérbio latino, longe, significando “à distância”.  Servia para dizer que a coisa não estava aqui, mas acolá. Nada demais, até que os poetas resolveram dar-lhe uma segunda vida. De advérbio obediente, virou substantivo rebelde: “os longes”. Pronto, em vez de uma única distância, surgiram horizontes múltiplos, miragens infinitas. Não fomos só nós, lusófonos, que tivemos esse capricho. Do outro lado do Atlântico, os franceses já falavam em “les lointains”. Victor Hugo suspirava nos lointains bleus du rêve, Verlaine deixava que os lointains se desfizessem em música, e Baudelaire via perfumes e sons confundirem-se “de loin”. Tudo muito parisiense, nebuloso e elegante. E cá deste lado, Olavo Bilac correu “países longes”, Cecília Meireles pediu aos cavalos do vento que a levassem a “longes verdes”. Pessoa escutou também “os longes” chamando por ele. Não era plágio, mas ressonância. O simbolismo francês sussurrava em francês, e nós respondíamos em português. E eis que surge a expressão “olhos longes”. Não é mero deslize gramatical, mas um atestado poético: olhos que não estão aqui, mas espalhados em mil horizontes. Olhos que contemplam lembranças, saudades, esperanças, tudo ao mesmo tempo. Singular seria pouco; a alma precisa de plural.  Dirá o gramático: “Mas por que não ‘olhos longe’?”. Ao que responde o poeta: “Porque só os ‘olhos longes’ conseguem olhar o que não existe ainda, e ainda assim enxergar.” E talvez seja isso: quando dizemos “olhos longes”, estamos falando em português com um sotaque francês, ou em francês com a melancolia mineira. No fundo, estamos nomeando um estado de espírito: aquele em que o olhar atravessa fronteiras e se perde em horizontes que ninguém mais vê.

24 de jul. de 2026

381) O TEMPO QUE MORA EM NÓS

 

Tomando um café com um velho amigo, a conversa enveredou por um assunto que eu jamais imaginei encontrar fora de uma sala de aula de física. Ele me perguntou:

— Você sabe explicar esse tal de espaço-tempo de Einstein?

Sorri e respondi que não. Ou melhor, respondi que entendia apenas o suficiente para saber o quanto ainda não entendia. Ele riu. Eu também.

Voltando para casa, a pergunta continuou me acompanhando. Talvez porque alguns assuntos não terminem quando a conversa acaba. Pelo contrário. É justamente aí que começam. Resolvi procurar uma explicação. Descobri que, segundo Einstein, espaço e tempo não são duas coisas independentes. Formam uma única estrutura. Nada existe apenas em um lugar. Tudo existe também em determinado instante. O Universo não separa aquilo que nossa linguagem insiste em dividir. Confesso que a explicação científica ainda me escapa em muitos detalhes, mas, curiosamente, a metáfora me pareceu cristalina. Afinal, ninguém vive apenas no espaço. Vivemos, sobretudo, no tempo.

Duas pessoas podem estar sentadas no mesmo banco de uma praça. Aos olhos de quem passa, ocupam o mesmo espaço. No entanto, cada um traz consigo um universo invisível. Uma carrega a infância no bairro em que cresceu, o primeiro emprego, os sonhos de rapaz, os filhos que cresceram, a companheira que a vida levou cedo demais.  A outra guarda cidades, fracassos, vitórias discretas, amizades antigas e esperanças que nunca aceitaram a aposentadoria.

O banco é o mesmo. O espaço também. O tempo, jamais. Talvez seja por isso que compreender alguém seja tão difícil. Enxergamos apenas o lugar onde a pessoa está. Quase nunca percebemos o caminho que a trouxe até ali. Vemos o rosto. Não vemos as cicatrizes. Escutamos a resposta. Ignoramos as perguntas que a vida lhe fez. Julgamos um gesto. Desconhecemos a longa sequência de acontecimentos que lentamente desenhou aquele modo de ser.

Comecei então a suspeitar de que cada ser humano possui o seu próprio espaço-tempo. Somos arquivos ambulantes. Levamos conosco lugares onde já não moramos, pessoas que já partiram, alegrias que continuam iluminando a memória e tristezas que o calendário jamais conseguiu apagar. Nada disso ocupa espaço visível, mas ocupa todo o nosso tempo. Talvez seja esse o segredo da saudade. Ela não mede quilômetros. Mede anos. Uma fotografia antiga cabe na palma da mão, mas pode conter cinquenta anos de vida. Uma música dura poucos minutos, mas atravessa décadas em alguns acordes. Um perfume pode abrir uma porta que imaginávamos definitivamente fechada.

Foi então que me ocorreu que talvez o espaço e o tempo também expliquem certos encontros que a vida insiste em adiar. Há pessoas que desaparecem do nosso horizonte durante cinquenta anos. Mudam de cidade, de profissão, de sobrenome. O espelho lhes acrescenta rugas. Os cabelos embranquecem. A voz ganha outro ritmo. Tudo mudou no espaço. Nem tudo mudou no tempo. Porque existem presenças que, uma vez acolhidas pela alma, deixam de obedecer ao calendário. Permanecem silenciosas, como a luz de uma estrela que continua viajando pelo universo muito depois de a estrela já não estar onde a vemos.

Às vezes, por um desses caprichos que a vida guarda sem explicar, essas órbitas voltam a se aproximar. Não para repetir o passado. O passado é um país que não concede vistos de retorno. Mas para revelar que alguns afetos não envelhecem da mesma maneira que os corpos. Apenas encontram uma forma diferente de existir. Talvez seja essa a mais discreta vitória do tempo sobre o esquecimento.

Nesse instante compreendi que Einstein talvez tivesse descoberto muito mais do que uma lei da física. Sem o saber, ofereceu também uma bela metáfora para a existência humana. Os escritores vêm tentando dizer isso há séculos. Ninguém é apenas o corpo que ocupa um lugar. Somos também as lembranças que ocupam a alma. As escolhas que ainda ecoam. As perdas que nos ensinaram delicadeza. Os encontros que continuam produzindo sentido muito depois de terem acontecido. Envelhecer é exatamente isso. Não apenas acrescentar anos ao calendário, mas permitir que o tempo vá desenhando, silenciosamente, a geometria invisível da nossa existência.

Desde então, quando encontro alguém, procuro lembrar que diante de mim nunca está apenas uma pessoa. Está uma infância inteira. Uma juventude. Algumas derrotas. Muitos sonhos. Vários recomeços. E, quem sabe, alguns afetos que jamais deixaram de ocupar o seu lugar no espaço-tempo. É esse o mistério do espaço-tempo. O Universo aproxima os corpos. A vida decide o momento e a memória transforma algumas despedidas em permanências. Talvez seja esse o verdadeiro espaço-tempo da alma. Há pessoas que se despedem da nossa vida, mas jamais conseguem partir da nossa existência.

 

Edson Pinto

Julho, 2026

17 de jul. de 2026

380) A COPA AO CONTRÁRIO

 

Em um desses dias, acompanhando  pela televisão jogos e a tabela da Copa do Mundo de Futebol, dei-me conta de uma curiosidade que sempre esteve diante dos meus olhos, mas que eu nunca havia realmente percebido.

A competição começa reunindo dezenas de países. Cada povo chega carregando sonhos, bandeiras, cantos e esperanças. Durante algumas semanas, o planeta inteiro parece respirar no mesmo ritmo. Crianças pintam o rosto, famílias se reúnem diante da televisão, desconhecidos conversam como velhos amigos. O futebol realiza um pequeno milagre. Por alguns instantes, milhões de pessoas esquecem diferenças políticas, econômicas e religiosas para compartilhar uma única paixão.

Mas a matemática da Copa é implacável. Primeiro são muitos. Na atual Copa, quarenta e oito. Depois restam menos. Em seguida, menos ainda. A cada fase, uma parte da alegria faz as malas e volta para casa. Ao final, sobra apenas um campeão.

Foi então que imaginei uma Copa diferente. Não uma nova modalidade de futebol, mas um campeonato da própria humanidade. Nessa Copa, ninguém seria eliminado. Ela começaria com apenas duas nações. Depois chegariam mais duas. Em seguida, oito. Dezesseis. Trinta e duas. Quarenta e oito. Cento e noventa e três. Cada participante teria como missão trazer outro para dentro da competição. O objetivo deixaria de ser excluir adversários e passaria a ser ampliar parceiros. 

As vitórias não seriam medidas pelo número de derrotas provocadas, mas pela quantidade de amizades construídas. O arbítrio seria a consciência. O placar seria medido pelo número de vidas melhoradas. Os gols seriam acordos de paz. As assistências seriam gestos de solidariedade. Os troféus seriam escolas abertas, hospitais funcionando, ciência compartilhada, comércio justo, tecnologia dividida com responsabilidade, alimentos chegando onde falta pão e esperança alcançando onde falta futuro. Em vez de levantar barreiras, as equipes aprenderiam a construir pontes. As grandes jogadas seriam aquelas em que um país descobrisse que prosperar junto é mais inteligente do que prosperar sozinho.

Enquanto imaginava essa Copa impossível, pensei que talvez nós, seres humanos, tenhamos aprendido cedo demais a admirar torneios eliminatórios. Gostamos de separar vencedores e vencidos. Os melhores e os piores. Os ricos e os pobres. Os fortes e os fracos. Como se a história fosse uma sucessão interminável de partidas nas quais alguém só pode sorrir depois que outro chora.

No entanto, a própria vida parece ensinar outra coisa. Quando uma vacina é descoberta, o verdadeiro vencedor não é apenas o laboratório que a criou. É a humanidade. Quando uma tecnologia reduz o sofrimento, quando uma guerra é evitada, quando uma criança aprende a ler, quando duas nações trocam conhecimento em vez de ameaças, todos atravessam juntos a linha de chegada. Há conquistas que não diminuem quando são repartidas. Ao contrário. Crescem. Talvez seja essa a mais curiosa diferença entre os bens materiais e as alegrias humanas. Um pedaço de pão dividido fica menor. A esperança dividida fica maior.

Foi então que compreendi que a Copa do Mundo, do jeito que ela existe, talvez seja apenas um belo retrato do esporte. Mas a Copa da vida precisa obedecer a outra lógica. Nela, o campeão não é quem permanece sozinho segurando a taça. É quem consegue fazer caber mais gente na comemoração.

Talvez Deus não sonhe com um mundo onde um povo vença todos os outros. Talvez sonhe com um mundo onde cada vitória seja capaz de produzir novas vitórias, até que a alegria deixe de pertencer a um único país e passe a ser patrimônio da humanidade. Nesse campeonato, finalmente, ninguém precisaria ser eliminado. E, pela primeira vez na história, todos levantariam a mesma taça. Afinal, uma alegria que pertence apenas a um povo continua sendo pequena para um planeta inteiro.

Quando desliguei a televisão, a tabela da Copa continuava exatamente igual. Quarenta e oito. Trinta e duas. Dezesseis. Oito. Quatro. Dois. Uma. Mas, desde aquele instante, confesso que nunca mais consegui olhar para ela da mesma maneira.

 

Edson Pinto

Julho, 2026

10 de jul. de 2026

379) AMOR É TUDO DE QUE VOCÊ PRECISA

 

Recentemente, enquanto organizava alguns papéis antigos sobre a mesa, encontrei uma anotação esquecida. Não me lembro mais por que a escrevi, nem quando. Havia apenas uma frase em inglês rabiscada no alto da folha: “All You Need Is Love” (Amor é tudo de que você precisa).

Sorri...

Impossível para alguém da minha geração não ouvir mentalmente os acordes dos Beatles logo em seguida. Durante décadas, a frase atravessou rádios, festas, namoros, separações e reencontros, repetindo a ideia simples e poderosa de que o amor seria tudo de que precisamos.

Poucos dias depois, conversando com uma inteligência artificial (IA), deparei-me com outra frase, também em inglês, mas vinda de um lugar bem diferente. Era o título de um artigo científico que revolucionou a tecnologia moderna: “Attention Is All You Need (Atenção é tudo de que você precisa). Trata-se de um dos artigos científicos mais influentes da história recente da computação e da inteligência artificial. Foi publicado em 2017 por pesquisadores da Google Research. O artigo apresentou uma nova forma de ensinar máquinas a compreender a linguagem humana. Em vez de analisar as palavras uma a uma, os sistemas passaram a identificar relações entre elas e a concentrar sua atenção no que realmente importa.

Confesso que achei a coincidência curiosa. Os Beatles apostavam no amor. Os cientistas apostavam na atenção. Os primeiros falavam ao coração. Os segundos, aos algoritmos. Curiosamente, ambos pareciam procurar a mesma coisa: aquilo que dá sentido às relações. Entre um refrão e um algoritmo, existe uma distância enorme. Ou talvez não exista tanta assim. Pedi, então, à própria IA, que me explicasse a ideia central daquele estudo. Descobri que a grande inovação consistia em ensinar as máquinas a prestar atenção. Não a tudo ao mesmo tempo, mas ao que realmente importa. A identificar relações, conexões e significados escondidos entre palavras aparentemente dispersas.

Enquanto ouvia a explicação, tive a estranha sensação de que já conhecia aquela história. Não por causa dos computadores. Por causa, sim, da vida que vivi e dos textos que escrevi, aprendi, como consequência, que um texto costuma nascer de um detalhe quase invisível. Uma frase ouvida num café. Uma mancha num muro. Um carrapicho agarrado à roupa de um menino. Uma fotografia esquecida numa gaveta.

O escritor, principalmente o cronista raiz, recolhe esse pequeno fragmento da realidade e o deposita no início da narrativa, como quem planta uma semente. Depois segue seu caminho. Fala de memórias, de perdas, de alegrias, de política, de filosofia, de amores e despedidas. O leitor talvez nem perceba que aquela pequena semente continua ali, silenciosa, aguardando o momento de florescer. Então chega o final. E o detalhe reaparece. Já não é o mesmo. A mancha ganhou significado. A fotografia ganhou história. O carrapicho ganhou metáfora. O objeto permanece. Quem mudou foi o leitor.

Talvez seja por isso que as boas histórias nos acompanhem por tanto tempo. Elas nos ensinam que compreender não é apenas acumular informações. É descobrir relações. Os cientistas da inteligência artificial concluíram que uma máquina entende melhor uma linguagem quando aprende a prestar atenção às conexões entre as palavras. Os escritores, suspeito eu, vêm praticando algo semelhante há séculos. E talvez a vida inteira seja um exercício dessa mesma arte.

Nem sempre os acontecimentos mais importantes chegam anunciados por trombetas. Muitas vezes aparecem disfarçados de detalhe. Um encontro casual. Uma conversa breve. Uma lembrança antiga. Um gesto quase imperceptível. Só mais tarde percebemos que era ali que a história estava começando.

Os Beatles talvez tivessem razão ao dizer que o amor é tudo de que precisamos. Os pesquisadores talvez tenham razão ao dizer que a atenção é tudo de que precisamos. Pensando melhor, talvez uma coisa dependa da outra. Porque amar alguém é, antes de tudo, prestar atenção. E compreender a vida talvez seja apenas isso: reconhecer, entre milhares de ruídos, aquilo que merece permanecer conosco até o último parágrafo

 

Edson Pinto

Julho, 2026

3 de jul. de 2026

378) A BOLA E A ALMA

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"O futebol é uma construção psicossocial."

A frase me ocorreu enquanto assistia ao Brasil enfrentando o Japão pela Copa do Mundo que ora mobiliza a atenção planeta afora. À primeira vista, parece exagero. Afinal, trata-se apenas de vinte e dois jogadores correndo atrás de uma bola. Mas basta olhar um pouco além das quatro linhas para perceber que, há muito tempo, o futebol deixou de ser apenas um esporte.

Durante algumas semanas, o planeta parece reorganizar seus próprios sentimentos. Países inteiros suspendem, ainda que por instantes, as preocupações cotidianas para compartilhar uma expectativa comum. Milhões de pessoas, que jamais se encontrarão pessoalmente, experimentam a mesma ansiedade antes do apito inicial, o mesmo grito de gol, a mesma frustração diante da derrota ou a mesma alegria quase infantil da vitória.

É curioso observar que isso acontece em culturas muito diferentes. Povos expansivos e povos reservados, nações latinas e asiáticas, democracias consolidadas e países marcados por conflitos. Durante a Copa, todos parecem falar uma linguagem comum. A bola torna-se um idioma universal.

No Brasil, talvez esse fenômeno seja ainda mais visível. O brasileiro, já conhecido por sua espontaneidade, parece reencontrar uma versão mais luminosa de si mesmo. Multiplicam-se as bandeiras nas janelas, as conversas nas esquinas, os abraços entre desconhecidos e a esperança de que, por noventa minutos, tudo possa terminar bem.

Mas esse sentimento não é exclusivamente brasileiro. Basta olhar para as ruas de Buenos Aires, Tóquio, Rabat, Londres, Oslo, Seul ou Cidade do México. Em cada canto do planeta, o futebol desperta algo que vai muito além da competição. Ele fortalece o sentimento de pertencimento. Recorda às pessoas que fazem parte de uma história, de uma cultura e de uma comunidade.

Talvez seja esse o verdadeiro espetáculo. Não apenas o drible genial ou o gol improvável, mas a capacidade que o esporte possui de produzir uma emoção coletiva. Por alguns dias, milhões de indivíduos deixam de ser apenas indivíduos. Tornam-se uma torcida, uma nação, um povo.

Os sociólogos talvez expliquem esse fenômeno pelas identidades coletivas. Os psicólogos falarão do contágio emocional. Os economistas medirão os bilhões movimentados. Todos terão alguma razão.

Mas quem já assistiu a uma Copa sabe que há algo difícil de medir. Existe uma alegria compartilhada que atravessa fronteiras, idiomas, religiões e diferenças políticas. Como se, durante alguns instantes, a humanidade aceitasse brincar junta.

Talvez por isso o futebol seja muito mais do que um jogo. Ele é um dos raros momentos em que o mundo inteiro parece lembrar que, antes de sermos adversários, somos companheiros da mesma aventura humana.  Deus criou muitos idiomas para que os povos aprendessem a conversar, e o homem, depois de minimamente civilizado, inventou o futebol, sem necessidade de palavras, para que aprendessem a comemorar juntos.

 

Edson Pinto

Julho, 2026