20 de set. de 2012

216) O PROBLEMA DO JÔ


Sem querer praticar um trocadilho infame, refiro-me, via o título desta crônica, ao nosso famoso e muito querido comediante, escritor, artista plástico, dramaturgo, diretor teatral, músico, ator e apresentador de televisão, José Eugênio Soares, o Jô Soares. O trocadilho se impõe por essa sua última habilidade, a de apresentador de TV, que chega aos nossos lares em horário incerto, exceto de que é sempre bem depois da meia-noite, ou seja, “O Programa do Jô”.

Quem nunca ficou até mais tarde prejudicando o seu sagrado e necessário sono reparador para acompanhar a entrevista previamente divulgada de uma figura notória ou de uma pessoa especialista em um determinado tema de seu interesse?

Eu, vez por outra, dou-me a essa irresponsabilidade de ir para a cama lá pelas 2 da manhã, porque a entrevista fartamente anunciada parecia-me compensadora. O próprio Jô já é, em si, uma figura muitíssimo agradável. Não sei se é porque todos os gordinhos, em geral, são simpáticos, ou se é pela história que ele construiu ao longo de tantos anos de TV e que nos estimula a admirá-lo e a assisti-lo. Certamente, ninguém deve apegar-se ao querido artista por apreciar a sua performance chinfrim no mini bongô que normalmente faz para dar brilho a sua entrada no programa. Trata-se de um artista, e isso, por si só, já é mais do que suficiente para perdoar-lhe a desnecessária exibição da sua pobre faceta como músico.

Não há, entretanto, como deixar de reconhecer que a sua simpatia e a sua veia humorística dão às suas entrevistas uma característica toda especial. É sempre uma entrevista leve, intimista, recheada de pitadas de humor que não só podem aliviar a eventual aridez do tema tratado como ainda tornar o momento mais relaxante. Contudo, o que ultimamente venho percebendo é que toda a “mise-en-scène” do Jô, em geral, põe a perder o conteúdo que poderíamos extrair da entrevista. Poderíamos supor uma de duas hipóteses: O entrevistador Jô Soares nunca está devidamente preparado para fazer a entrevista, o que demonstraria uma fraca produção a suportá-lo, ou deve-se a tendência do artista ao improviso fazendo-o passar sobre a pauta para priorizar seus gracejos, sua indiscutível especialidade.

Tudo bem! Ele é um humorista acima de quaisquer outras atividades. Porém, do ponto de vista de quem espera uma contribuição cultural, científica e histórica a ser extraída da entrevista, isso soa como a mais pura perda de tempo. Perde-se assim o precioso sono e vai-se para a cama com a sensação de que o sacrifício da vigília não compensou. Todos aqueles gracejos superficiais que ficavam muito bem quando ele atuava na “Família Trapo” ou no “Viva o Gordo” ou ainda em suas engraçadas performances no teatro se esvai pelo desperdiço da oportunidade de ter feito uma entrevista consistente.

Sugiro que façam uma experiência para verificarem se o meu ponto de vista procede. Peguem uma entrevista qualquer de cujo tema você tenha algum domínio. Tenho certeza de que ao final da entrevista você estará decepcionado com a contribuição que foi legada aos ouvintes do seu auditório ou a nós, os telespectadores.

Cito um caso: Em 15/8/2012, Jô Soares levou ao seu programa a bióloga e taxonomista Marie Bartz para falar sobre os seus estudos dos animais anelídeos e sua importância para a vida no planeta. Esperei pela entrevista, pois gosto do tema. O que assisti? Gracejos vários sobre a beleza da moça e muita ênfase da representação fálica dos exemplares de minhocas que a competente bióloga encontrava e vinha classificando cientificamente. Sobre a importância das minhocas para a fertilização do solo; sobre as pesquisas de Charles Darwin que dedicou um tratado fundamental sobre o tema e de como seria possível reduzir o lixo orgânico que polui as cidades via a atividade da minhocultura, nada ou muito pouco. Só muitos gracejos do humorista.

O problema do Jô, finalmente, pode ser atribuído tão somente a enorme quantidade de atividades às quais ele se lança. Não tem como ser bom em tudo. Pode-se ser razoável em muitas habilidades ao mesmo tempo, mas dificilmente consegue-se ser profundo em todas elas. Ou entendemos que o Jô Soares deva ser visto desta forma, ou ficaremos, ver por outra, decepcionados com o seu desempenho.

Com a performance no seu mini bongô, como já disse, é uma vergonha. As entrevistas, essas, ficam a critério da análise de cada um. Afinal, elas são boas ou não também muito em função do que esperamos delas e da percepção de cada um...

Edson Pinto
Setembro’2012

13 de set. de 2012

215) A FALÁCIA DA UTILIDADE DOS JUROS ALTOS

O Estadão do último domingo, 9/9/12, nos brindou com um artigo altamente revelador do debate que se trava, há anos, sobre o uso da taxa básica de juros como instrumento maior do controle da inflação. (clique aqui para acesso ao artigo “Rumo a 5%”, do mestre em finanças públicas, Amir Khair)

Quem não acompanha com regularidade temas como esse talvez nunca tenha percebido que a gestão da taxa de juros é a razão maior da existência de um banco central como o nosso. Embora a matéria pareça, a princípio, árida e ao mesmo tempo envolta em muita tecnicidade, ela é de uma simplicidade franciscana. Explico a seguir:

Com base na famosa “Lei da Procura e da Oferta”, sabe-se que, do ponto de vista da “Procura”, quanto mais alto o preço de qualquer bem ou serviço (vide eixo do preço “P” no gráfico acima) menor é a sua procura (eixo de quantidade “Q” no mesmo gráfico). O inverso é igualmente verdadeiro: Quanto mais baixo o preço, maior será a procura. Do ponto de vista da “Oferta” ocorre exatamente o contrário (vide os mesmos efeitos de preços e quantidades ofertadas refletidos pela curva da Oferta sobre os eixos “P” e “Q”). O ponto “E” demonstra o equilíbrio entre as duas forças.

Como a inflação (aumento de preços) ocorre quando a procura é maior do que a oferta, a forma enraizada e erroneamente considerada como a única na política econômica tupiniquim para reequilibrá-las, tem sido a elevação das taxas de juros. Não é totalmente falso o efeito de que o preço mais elevado do dinheiro, no primeiro momento, leva à redução da demanda e com isso o controle da inflação. O que tem sido uma falácia é a argumentação de que não existem outros instrumentos ou outras oportunidades que se aplicadas corretamente poderiam dispensar o uso exclusivo da política de elevação da taxa de juros.

Redução do custo Brasil; redução da burocracia governamental que impõe custos elevados para as empresas e para os cidadãos; utilização das oportunidades momentâneas ofertadas pelo mercado mundial; estímulo ao empreendedorismo popular; aumento da eficiência dos governos e combate à corrupção. Essas são apenas algumas das boas alternativas disponíveis.

Se entendermos que o dinheiro que tomamos emprestado para financiar a compra de um produto ou serviço, incluindo os juros nele embutidos, como sendo também uma mercadoria qualquer, logo percebemos que em país de juros elevados, como no nosso, não existe melhor negócio do que vender dinheiro.

Funciona assim: Se mercadorias ou serviços são mais procurados do que ofertados, os produtores ou prestadores de serviços aproveitam para aumentar seus preços o quanto possível e com isso fazerem bons lucros. Para evitar que isto aconteça em detrimento dos consumidores, o Banco Central do Brasil, através da taxa SELIC, aumenta os juros que vão se refletir nos preços de tudo o que compramos. Aqui entra o sistema financeiro e apossa-se do benefício extra que os vendedores de mercadorias e serviços esperavam embolsar em função do desequilíbrio que lhes era favorável na balança oferta/procura.

Existem outras razões que melhor expliquem os enormes ganhos dos bancos brasileiros? Será que ganham muito por que são muito eficientes? Por que emprestam muito dinheiro a taxas honestas ou quaisquer outros motivos saudáveis? Claro que a razão primordial é a mamata propiciada pelas elevadas taxas de juros. Na verdade, os bancos nem precisam muito emprestar dinheiro às empresas e aos consumidores finais. Basta colocar as suas sobras de caixa em títulos púbicos que são os mais seguros e que remuneram com a, até recentemente, mais alta taxa de juros do mundo.

O governo se compromete a pagar aos investidores em títulos públicos, juros altíssimos. E de onde sai o dinheiro para pagar essa fortuna de juros? Dos impostos que pagamos, é claro. É por isso também que temos uma das maiores cargas tributárias do mundo. E o pior: o dinheiro que é destinado aos juros dos títulos do governo faz falta para a manutenção das nossas horrorosas estradas, ao nosso precário sistema de saúde, ao deficiente sistema educacional do País, entre outros.

O circulo virtuoso seria, então: Juros menores; menos pagamento aos investidores de títulos públicos forçando-os a investirem na economia real; mais recursos que ficariam disponíveis para investimentos em infraestrutura; menor custo Brasil; maior estímulo para que produtores e prestadores de serviços aumentassem a oferta; mais consumo; mais progresso...

E por que demorou tanto tempo para que as autoridades entendessem que só o sistema financeiro estava se beneficiando da política de juros altos?

Edson Pinto
Setembro’ 2012

30 de ago. de 2012

214) VOX POPULI, VOX DEI


Todas as vezes que ouço a expressão “Juiz não pode se pautar por opinião pública”, como recentemente repetida, à exaustão, pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, em referência a absolvição que concedeu ao deputado João Paulo Cunha na ação penal do Mensalão, tenho meu lado filosófico despertado de seu natural estado de torpor.

O bom juiz, conjeturo, tem toda a razão em apegar-se ao conjunto probatório contido nos autos. É assim que se diz referindo-se a todas as provas documentais, testemunhais bem como às suas respectivas contraprovas e outros indícios que suportam a decisão soberana que a ele compete tomar. Não é por outro fundamento que a magistratura deve ser composta por homens doutos e imparciais. Não sou jurisconsulto, mas tenho discernimento suficiente para entender que o bom veredito prescinde de evidências robustas, caso contrário, haverá sempre o risco de se cometer uma injustiça. Entendo ainda que uma condenação injusta faça mais mal a sociedade que a absolvição decorrente das faltas de provas e convicção sólida do julgador.

O verbo pautar tomado em sua forma pronominal, tal qual contido na frase acima citada, significa “guiar-se” e “orientar-se”. Está, assim, no grande Aurélio. Não tem, portanto, a força do verbo “obrigar”. "Pautar-se", não me parece ser um absurdo, nem mesmo uma interferência indevida na nobre função do magistrado. Seria apenas uma orientação a ser confirmada com base na sua ética, no seu bom senso e no seu domínio da ciência jurídica.

Sempre esteve registrado nas nossas cartas constitucionais: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos, ou diretamente, nos termos desta constituição (artigo 1º, parágrafo único CFB de 1988). Isso nos leva ao entendimento de que a o desejo do povo, adicionalmente ao valor maior contido no importante preceito democrático, encontra-se até mesmo registrado no artigo de abertura da nossa carta magna, exatamente, penso, para servir de parâmetro para todos os 249 artigos que ao primeiro seguem.

No que me toca como cidadão, acompanho regularmente, entre outros, dois grandes órgãos da imprensa nacional: Sou assíduo leitor da coluna “Fórum dos Leitores” do Estado de São Paulo e da seção “Leitor” da Revista semanal Veja. Salvo eventual distração de minha parte, posso afirmar nunca ter encontrado uma só opinião de leitores defendendo a posição de qualquer dos mensaleiros. Todas as manifestações expressam sempre a indignação pelo descalabro na gestão da coisa pública e manifestam explicitamente o desejo de punição aos malfeitores. Há de se perguntar, aqui, a razão das praticamente inexistentes opiniões em contrário: Por que só uma das partes (a que condena e pede punição aos malfeitores) se manifesta? Por que os defensores dos acusados não se manifestam, mantendo-se silentes? Será que aqui prevalece a máxima popular de que “quem cala consente”?

Acuin de York, no século VIII, repudiou a expressão “a voz do povo é a voz de Deus”, título deste meu texto, pela mesma razão que Tito Lívio (59AC - 17AD) também o fizera no contexto da cultura Greco romano de sua época. Sugeriu Acuin a Carlos Magno não dar ouvidos a tal frase, uma vez que “a voz da turba era mais parecida com a voz da loucura do que com a sabedoria divina”. Por outro lado, Nicolau Machiavelli (1469 - 1527) em “O Príncipe” enaltece a importância da opinião pública cuja voz era mais sábia do que a dos príncipes e Jean Jacques Rousseau (1762) em “O Contrato Social” vai ao extremo de defender o direito do povo de se rebelar contra o monarca em consonância com a voz da natureza brotada da alma de cada súdito.

Com quem, então, está a razão?

Nos tempos modernos, os meios de comunicação elevaram a patamares nunca vistos a universalização do conhecimento. A todos é possível chegar informações que lhes permitem formar juízo e libertarem-se da escravidão da ignorância. O coroamento desta nova fase é a Internet que nos dá liberdades preciosas como as de pesquisar, informar, debater e até mesmo disseminar pontos de vista que deságuam na formação da opinião pública. É, contudo, aceitável e desejável que as instituições democráticas adotem mecanismos que evitem o julgamento precipitado que eclode da indignação generalizada do povo. Um indivíduo, isoladamente, tem um comportamento, mas fazendo parte da massa pode ter atitudes pavorosas. Vejam as torcidas dos times de futebol, ou os grupos ensandecidos de Sem-Terras, ou as turbas de grevistas irresponsáveis. Há de se ter, evidentemente, muito cuidado...

Por fim, tudo isso e muito mais levado na devida conta, há ainda algo que foge à ciência e ao bom senso. Trata-se da questão do falível ponto de vista inerente de cada pessoa. Não constitui surpresa termos tantas descrições diferentes de um mesmo fato quantas forem as pessoas que as narram. A visão do ministro Lewandowski, em que pese a cuidadosa leitura que deve ter feito dos fatos e das provas, pode ser diferente das dos demais julgadores, assim como pode ser diferente da leitura feita pela opinião pública.

Afortunadamente, a voz do colegiado há de ser tomada como uma amostra qualificada, moderada e fidedigna da voz do povo. Se a maioria, com o bom senso e ciência que domina entender que as provas não são boas ou que os indícios de crime não sejam convincentes, que absolvam os acusados. Ao contrário, se achar que são robustas, que sejam condenados. O importante é nunca perdermos de vista a esperança de que a razão, os fatos e o “pautar-se na opinião pública” nos conduzam ao destino certo. O caminhar do julgamento até a data de hoje não só nos enche de esperança quanto ao funcionamento de nossas instituições democráticas como parecem confirmar que, de fato, a voz do povo está em consonância com a voz de Deus...

Edson Pinto

Agosto’ 2012

23 de ago. de 2012

213) SANTINHOS EM RESTAURANTE

Uma instituição tipicamente brasileira, salvo maior conhecimento sobre outras culturas eventualmente tão ou mais liberais do que a nossa, é a questionável algazarra que às crianças é permitido fazer dentro de restaurantes.

Nada contra a espontaneidade e alegria de nossos pimpolhos, mesmo quando em ambientes públicos, até porque, agregado a sua inocência e vitalidade lúdica, encontra-se o primordial exercício da socialização tão importante para uma vida adulta mais afável.

Em contraponto, o que há de se perguntar é até onde se encontra bem calibrado o desconfiômetro desses pais modernos que presentemente sucedem a nossa geração para, corretamente, indicar em seus painéis de controle que alguma coisa não anda bem?

Ato 1:

Noite de sexta-feira fechando mais uma semana agitada como é normal nas grandes cidades: Poucos discordariam de que um jantar a dois, no restaurante predileto e regado a um bom vinho repõe-nos as forças e nos redime das agruras da vida. Desde há muito, poucos atos humanos são tão prazerosos como uma boa companhia, um bom cardápio e um vinho redentor. São momentos relaxantes, impagáveis, que merecem ser sorvidos sob a luz mortiça de uma vela e com o silêncio na justa medida.

Ato 2:

Mal o gentil maître tivesse feito a abordagem de praxe e tomado o pedido, o lourinho endiabrado passa tangenciando a nossa mesa mais rápido do que o Usain Bolt nos seus melhores momentos olímpicos. Em seguida e em curtíssimo intervalo de tempo, também o moreninho, a encantadora garotinha de vestidinho xadrez, o gordinho mandão e a pequenina sardenta, esta, pelo que pude perceber, como a vitima frágil da patota ensandecida. Não se pode, de crianças, esperar silêncio, nem comportamento de adulto, apenas a moderação apropriada ao ambiente que os pais podem ensinar e devem exigir.

Ato 3:

O jantar agora perturbado pela algazarra permitida pelos pais ali reunidos em uma mesa que comportava vários casais, tem que ser abortado quando a paciência de qualquer Ser Humano medianamente equilibrado se esgota. Nem olhares aflitivos dirigidos aos omissos pais foram suficientes para obter algo além de um cândido “Fica quieto, filhinho!”, obviamente inócuo. Quando o lourinho, aos gritos, decide passar por debaixo da nossa mesa e quase derrubar o vinho ficou claro que o jantar, tal qual previamente imaginado, tinha definitivamente fracassado.

Ato Final:

Frustrada a noite, só restou voltar ao lar na esperança de que amenidades outras substituíssem o desconforto daquele jantar ruidoso. Na TV, a ensandecida Nina em sua vingança interminável não seria o refresco merecido pela mente ainda cansada. Ainda, o horário eleitoral com suas figuras patéticas e o julgamento do Mensalão, principalmente pela catadupa de defesas desavergonhadas, faz tanto ou mais barulho do que aqueles capetinhas do restaurante.

No limite, e para me penitenciar da rabugice com os ruidosos pimpolhos, só me restou pegar um livro de poesias. E o que encontro?

“Oh! que saudades que tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!” (Casimiro de Abreu)

Edson Pinto
Agosto’ 2012

9 de ago. de 2012

212) O SEGREDO DOS TRÊS ENVELOPES

Pertence ao folclore do mundo empresarial e até mesmo do político a alegoria das três cartas. Pode conter exageros quando tomada de forma genérica, porém, quando contextualizada a casos específicos, tem o poder de jogar muita luz sobre como as coisas funcionam na vida real. Resumo da metáfora:

Um líder ao substituir outro que deixava o mesmo cargo após uma fracassada gestão, recebe dele três cartas em três envelopes distintos bem como a prudente recomendação de só abri-los, e sempre na ordem crescente, quando e se os problemas da sua organização voltassem a ocorrer. Dito e feito! Face à primeira crise e constatado a sua incapacidade de saná-la, o novo líder se vê compelido a abrir o envelope de número 1. A carta ali encontrada continha a seguinte instrução: “Atribua e divulgue enfaticamente que a culpa dos problemas deve-se à má gestão do seu antecessor”.

Malgrado a provisória atenuação do embaraço geral causado pelas dificuldades da organização voltar a ser bem sucedida, nova crise, aparentemente também sem solução, leva o novo líder a recorrer à abertura do segundo envelope. Na carta, novas instruções: “Demita e substitua todos os antigos colaboradores da sua organização, até mesmo os competentes e fieis”. No início das novas providências tudo parecia ir bem. Centros produtivos fechados, downsizing impiedoso, substituição da produção local por importados baratos e outras medidas heterodoxas eram espalhafatosamente divulgadas o que conferia aos da nova turma o status de gênios. Tinham encontrado a fórmula mágica para se fazer da moribunda organização um novo caso de sucesso.

E não é que veio a terceira e mais resistente de todas as crises. O novo “líder gênio” já acostumado com as orientações fantásticas das cartas não demora muito a abrir o terceiro e último envelope. Nele, certamente, esperava encontrar a solução definitiva para todos os males da sua gestão. Lá estava a derradeira instrução: “Redija três novas cartas como as que você recebeu, coloque-as em envelopes numerados de 1 a 3 e entregue o seu cargo”.

Agora pergunto:

Será que Dona Maria das Graças Foster que herdou do petista José Sérgio Gabrielli uma Petrobrás capenga e que vinha ocultando marotamente as suas deficiências precisará abrir o terceiro envelope? E as fantásticas descobertas de petróleo anunciadas com o ufanismo redentor de Lula? A multibilionária capitalização da empresa ocorrida há menos dois anos? A invejável situação de monopolista da empresa? A dádiva do pré-sal?

Ninguém tem dúvidas de que a Sra. Foster já teve de amenizar, mas sem fugir completamente das suas responsabilidades, a implantação rigorosa da instrução da carta do primeiro envelope. Atualmente, parece aplicar os seus conhecimentos de sambista da União da Ilha para evoluir com as instruções da segunda carta. A própria presidente Dilma também tem dado indícios de que - mesmo fazendo vistas grossas, por razões óbvias, da instrução contida na carta do primeiro envelope - tem dado mostras de que ao menos as orientações do segundo estão sendo seguidas. Passou a vassoura no ministério lulista e anda marcando de perto outros malfeitores.

Mas não é só no Estado que envelopes metafóricos vêm sendo abertos, até mesmo de forma obsessiva, pelos novos líderes. Basta ver na economia privada quantas empresas andam freneticamente trocando de gente, de produtos, de objetivos e de formato.

No frigir dos ovos, a lição que fica é a de que nada é sólido e permanente, exceto - ao que tudo indica - a infinda produção das três famosas cartas e de seus respectivos envelopes numerados de 1 a 3...

Edson Pinto
Agosto, 2012

2 de ago. de 2012

211) CUSTO BRASIL


A expressão “Custo Brasil” tem sido amplamente utilizada para designar o conjunto dos custos que a realidade brasileira impõe a tudo o que é aqui produzido e que destoa dos padrões mundiais das economias saudáveis. Infelizmente, ela nos demonstra que as chances do País voltar a ter, como já teve no passado, uma economia competitiva, ficam cada vez mais distantes. O mundo moderno não comporta mais isolamento com fronteiras fechadas. Globalização é a ordem que vigora. Portanto, ser competitivo é pré-requisito para continuar fazendo parte do jogo. Sem isso, só restará aos incompetentes a amargura do subdesenvolvimento.

São exorbitantes as taxas dos nossos pedágios rodoviários; a qualidade do manuseio de mercadorias em nossos portos marítimos e aeroportos está muito aquém dos padrões mundiais. Tudo aqui é lento e absurdamente caro. A nossa descomunal burocracia, além de criar dificuldades para tudo, ainda abusa com taxas elevadas, tarifas de mil naturezas e a vergonhosa e crônica corrupção que induz cidadãos e empresas a pagar propinas como se isso fosse algo natural. Tudo isso, sem falar da indústria de multas sobre os veículos dos pobres cidadãos que por falta de transporte coletivo decente são obrigados a se locomover com o próprio carro.

E os impostos? Os efeitos nefastos de custos elevados, subinvestimento na modernização e aumento de eficiência podem, em grande parte, ser atribuídos à elevada carga tributária do País. Pagamos cerca de 40% de tudo o que é aqui produzido na forma de impostos. Uma das mais altas taxas do mundo. Alguns impostos são diretos e podemos percebê-los destacados em documentos de compras e nossa declaração anual do Imposto de Renda. Há ainda o ICMS, o ISS, o IPI, o IPTU, o IPVA, o PIS, o COFINS, e tantas outras siglas tributárias que nos esfolam impiedosamente. O pior é que grande parte dos tributos é invisível, mas existe. Eles estão embutidos nos preços de cada objeto que compramos ou cada serviço que contratamos para cobrir o pagamento do tributo que o agente econômico arcou na operação anterior. No frigir dos ovos, essa montanha de impostos nos exige 150 dias de trabalho dos 365 do ano.

A situação, ao que parece, está ficando tão critica que já não dá mais para suportar. Vivemos aquele momento histórico em que o estresse atinge o seu auge e disso decorre uma ruptura brusca, uma explosão, talvez até mesmo um big-bang. Não basta colocarmos a culpa no câmbio ou nas ações de outros países para a defesa de suas moedas. O problema está aqui dentro de nossa própria casa. Sob o manto protetor do ideário petista, o corporativismo tomou conta da máquina estatal. Na contramão da tendência mundial por Estados mais enxutos e mais eficientes, o que se fez foi o contrário. Crescemos de 486 mil funcionários públicos federais ativos no início do primeiro governo Lula para 543 mil atuais e a folha de pagamentos cresceu mais do que o dobro da inflação do mesmo período.

Olhando os primeiros dados que começam a ser publicados sobre as folhas de pagamento de vários órgãos públicos por força da recente “Lei de Acesso à Informação” fica demonstrada de forma inequívoca, a razão da necessidade de tanta arrecadação tributária que, como conseqüência, determina o Custo Brasil. Além de salários reais que podem superar em muito os limites legais há ainda o que se denominou chamar de “penduricalhos” como os relativos às férias que são, conforme indicam as informações já liberadas, sistematicamente vendidas. (clique aqui para acesso aos dados oficiais)

Não há nada no sistema de controle dos poderes da Republica que obriguem seus servidores a gozar efetivamente as férias que a lei lhes concede. Há de se especular: Ou o Estado é cruel e, portanto, mau patrão ao exigir de seus servidores tanta dedicação ao trabalho, ou as férias são, na realidade, gozadas por subterfúgios de mil naturezas e a venda das férias oficiais acabou por se tornar o 14º ou mesmo 15º salário. Como, diferentemente de uma empresa privada onde o dono zela pelo seu resultado, o Estado, por ser um ente sem face, é omisso, perdulário e irresponsável, pois sabe que basta aumentar os impostos para cobrir o furo de seu caixa. Mas isso tem limites...

É preciso muita responsabilidade até mesmo daqueles que se alimentam das tetas transbordantes do governo, pois a continuar neste ritmo não demorará muito até que nem o razoável será mais viável. Afinal, na gestão da coisa pública, tanto quanto no dia a dia de nossas vidas, deveria prevalecer a máxima de que “quem tudo quer, tudo perde...”

Edson Pinto
Agosto’2012

26 de jul. de 2012

210) LULA E SUA TEORIA DA ATMOSFERA IMÓVEL

Todo mundo deve ter tomado conhecimento da teoria de Lula sobre os efeitos nefastos da poluição atmosférica sobre o nosso sofrido planeta. Caso não, então, recordemos:

Durante uma de suas corriqueiras falas em público, mas precisamente em Brasília, no dia 19/06/2009, revelou ao mundo a sua tese de que a Terra gira independentemente da atmosfera que a rodeia. Simplíssimo e objetivo como sempre, deu a todos entender que o dióxido de carbono (CO2) expelido pelas fábricas e automóveis mundo afora sobe à atmosfera e lá fica parado, estagnado, imóvel. À medida que a Terra gira (e gira mesmo, pois disso já sabemos há muito tempo), as várias partes da sua superfície vão passando por aquela atmosfera poluída, paradinha lá em cima. Na teoria sustentada por Lula, incluindo uma complexa reflexão freudiana, a atmosfera permanece imóvel enquanto o globo terrestre gira no seu interior. Assistam ao filmete disponibilizado no final desta crônica para melhor entendimento do tema.

Justiça seja feita! Lula tem noção da esfericidade da Terra. Demonstra, também, saber que há um movimento de rotação e mais do que isso, que a Terra tem a sua própria atmosfera. Só que agora, parece contribuir com um elemento nunca antes considerado em todo o sistema cosmológico já amplamente difundido: A atmosfera da Terra não acompanha o seu movimento.

Eureca!

Ninguém havia pensado nisto antes... Como pode? Galileu Galilei, Isaac Newton e até mesmo Santos Dumont não tinham dado conta disso. Ora, se a atmosfera fica estática enquanto a Terra gira, Lula acaba de detonar uma revolução tecnológica sem precedentes. Arrisco-me a dizer que nenhuma outra descoberta do homem ao longo de toda a sua existência teria tamanho impacto sobre as nossas vidas. Sendo verdadeira essa “Teoria da Atmosfera Imóvel” solenemente enunciada por Lula, e o povão acredita que sim, temos que repensar tudo da Física à Astronomia, passando pelas Comunicações até mesmo aos meios de transporte. Fiquemos, porém apenas com este último:

O avião, tal qual o conhecemos, deixará de existir. Desenterrem Alberto Santos Dumont e dê-lhe infinitas chibatadas como castigo por ter inventado o veículo espacial errado. Usando agora os princípios científicos de Lula bastaria aprimorar os balões que já existiam. Requintados hotéis, em formatos e acomodações que a mente humana viesse a criar, seriam levados à atmosfera, verticalmente, e a baixíssimo custo, pois o gás hélio é abundante. Lá ficariam estáticos esperando a Terra fazer a rotação que lhe é inata.

Das janelas do hotel flutuante passageiros confortavelmente instalados apreciariam o passar dos pontos geográficos: Vejam! Lá vem o Mato Grosso do Sul; agora vem a Bolívia; Vixe, já está passando lá embaixo o Peru; Daqui a pouco vem o Pacífico. O Japão já está visível no horizonte. É onde queremos chegar. Vamos baixar o balão!

Adeus turbinas de jato, aeroportos sofisticados, acidentes aéreos e conseqüências outras da tecnologia arcaica atual.

E os bêbados? Mesmo os que fazem discursos? Sim! Ah! Esses se ergueriam também em balões a espera que suas casas chegassem...

Glupt!!!


Edson Pinto
Julho’ 2012

19 de jul. de 2012

209) UM E NOVENTA E NOVE


Juro que eu fui um dos milhões de brasileiros que esperou com grande ansiedade as revelações bombásticas que Rosane Brandão Malta faria sobre o seu ex-marido, o ex-presidente Fernando Collor de Mello. O Fantástico prometera durante toda a semana passada a abertura do baú de segredos da ex-primeira dama. Frustrante! Para mim, pelo menos, tudo não passou de uma lavagem de roupa suja sem nenhuma contribuição de valia. Penso até que muita gente que odiava visceralmente o ”impichado” caçador de marajás deve agora vê-lo com olhos menos críticos. Ou seria outro o objetivo?

Bem, seja como for, o homem tinha lá suas esquisitices, notadamente as ligadas ao seu apego a ritos religiosos extravagantes. Mas, como no Brasil temos constitucionalmente assegurada a liberdade religiosa, pouco me importa se o deprimido presidente da época tenha ficado três ou mais dias no porão da casa da Dinda meditando e pedindo às forças ocultas que os males que lhe açoitavam se revertessem aos seus causadores. Há gente que fica em retiros espirituais de outras religiões por tempo até mais longo e – ao que parece – isso nunca foi e nem será condenável. Portanto, essa revelação trazida pela ex-primeira dama é irrelevante, isto é, não contribui em nada para a melhoria da vida nacional.

Tinha Collor lá seus segredos e conchavos com o Paulo César Farias, o famoso PC? Ora, isso tinha mesmo... Usou sobras de campanha para reformar a casa da Dinda e ainda comprou uma peruinha chinfrim do modelo Elba da Fiat? Também não temos dúvidas de que sim... Essa promiscuidade entre interesses pessoais e políticos é, como sabemos, o câncer que acomete a vida nacional desde sempre. O desrespeito às leis, às regras, à ética, à moral e a hipocrisia é marca registrada da sociedade brasileira:

O individuo joga lixo pela janela de seu carro e depois reclama que a cidade está suja. Atravessa a rua com o semáforo fechado e depois reclama que os motoristas não respeitam os pedestres. Abre o saco de biscoito do supermercado, para consumo, sem pagar, e depois reclama que os preços estão elevados. Compra o gabarito de um concurso público para ser aprovado, entra ilicitamente no serviço público e depois reclama que o salário é baixo. Na política, extorque empresários, compensa-lhes com contratos lesivos ao erário e depois se posta como guardião da ética e da moralidade.

O que chama a nossa atenção é o fato de o sistema político brasileiro insistir em não aprender com as experiências pretéritas. O que aprendemos com o impeachment de Collor? Nada! Nada mesmo. Se houve, na época, falta de ética e perpetração de vários crimes, o que não dizer dos fatos mais recentes?

Collor reformou a casa da Dinda com os achaques do seu tesoureiro de campanha, mas depois o PT montou o esquema mais sórdido de todos os tempos que foi o Mensalão, utilizando-se das empresas públicas para desvio de dinheiro. Mais recentemente, o escândalo Cachoeira que já começa a nos revelar que bilhões de reais em contratos foram dados para a empresa Delta e que boa parte disso voltou para os corruptos em cargo de mando no País.

As dezenas de escândalos posteriores a Collor, só em desvio do dinheiro público, comprariam todas as Elbas produzidas pela Fiat no mundo. Enquanto isso, quanto das tantas vidas perdidas nas estradas mal conservadas do País, das horas desperdiçadas no trânsito caótico das nossas cidades, do desconforto dos nossos entulhados aeroportos, das escolas mal equipadas e dos professores mal remunerados não poderíamos ter sido reduzidos com o uso correto dos recursos desviados?

Qual a grande lição que poderíamos tirar das revelações de Rosane, ex-Collor, e que nos seria útil como exemplos de que algo mudou para melhor desde que o impeachment acontecera? Na aviação, considera-se que a investigação de cada acidente, por mais inexpressivo que possa parecer, é fundamental para que se aprenda como evitar a sua repetição. Na política, especialmente na nossa, parece que nunca se aprende com o passado. A regra é avançar cada vez mais no erário. É, como conseqüência, taxar cada vez mais o cidadão para ter os recursos que sustentam a malfeitoria.

Rosana, como diz, acredita em Jesuscidência. Seja lá o que isso significa, fica-nos, primeiro, a dúvida se ela só quer rever a pensão de R$18 mil mensais, pois tem uma amiga cujo “ex”, que nem presidente foi, recebe pensão de R$40 mil, ou se quer dar uma mãozinha para recuperar parte do prestígio perdido por quem ela considera ser seu “Ex My Love”? Certeza, contudo, é a constatação de que se o amor de Rosane e Collor for colocado na vitrine dificilmente valerá um e noventa e nove...

Edson Pinto
Julho’2012