29 de ago. de 2014

274) CONTA DO ABREU

Há uma expressão popular que se encaixa à perfeição ao que eu gostaria de expor na crônica desta semana. Pode ser que os jovens, hoje informados maciçamente pela Internet e de vida tipicamente urbana com hábitos, cultura e ideias bem diversos dos nossos, não a conheça muito bem.  Mas posso garantir-lhes que sua contextualização é atemporal, pois é tão verdadeira hoje como o era em qualquer tempo pretérito. Desde que o mundo é mundo e desde que Cabral avistou terras nesta banda previamente definida em Tordesilhas, já era comum assumir responsabilidades confiando não em si mesmo, mas em outrem. Portanto, nem é necessário entender historicamente a origem da expressão para compreender o que ela quer dizer:

“Põe na conta do Abreu, se ele não pagar, nem eu”.

O pobre do “Abreu” (talvez assim escolhido apenas por rimar bem com o pronome eu) pode ser o futuro, o destino, o acaso, as circunstâncias ou mesmo os sonhos malandramente convertidos em promessas. Aquele que assume a façanha de comprar os votos dos bem-intencionados eleitores prometendo-lhes pagar mais adiante quando estiverem encastelados no poder, ou mesmo mantidos no trono que já lhes servem, certamente corresponde ao “eu”, esse esperto que já sabe de antemão que suas promessas são irreais. Entenda, então, e desta forma, a mesma expressão agora com a devida adaptação à realidade política brasileira:

“Dê-me o seu voto em troca da realização futura de tal ou qual promessa, mas ponha na conta do futuro incerto. Se ele, o futuro, não honrar com os compromissos que acabo de assumir, infelizmente, nem eu terei como honrar”.

Legal, não?

Pois é exatamente assim que as coisas acontecem no nosso ambiente político. Estamos em plena campanha eleitoral. Os compradores de votos estão mais excitados do que nunca. Infelizmente, grande parte da nossa população mais simples não dá conta da importância de seu voto e dos poderes que conferem a um presidente, por exemplo, e aos seus partidos coligados.

No nosso sistema político, a presidência da republica com a coligação partidária que precisa formar para ter apoio e sucesso no Congresso, pode – se bem sucedida nesse grande, penoso e execrável concerto - fazer tudo o que quiser: Tornar o País mais democrático, menos democrático, mais liberal, mais fechado; com imprensa livre ou controlada; economia centralizada, aberta ou mesmo levar à “bolivarização” de tudo o que entenderem compatível com os modelos cubano ou venezuelano, só para citar alguns.

Da morte trágica de um homem público com enorme potencial futuro emergiu a candidata Marina Silva, tal qual a baratinha da história infantil, com a sua caixinha cheia de votos amealhados nos momentos de irracionalidade e falta de alternativa da eleição anterior. O seu discurso é o da Terceira Via, este eufemismo para captar os dissidentes das forças que ela considera polarizadoras da Política Velha, como se as ideias que ela representa fossem nitidamente novas. Na verdade, o que ela procura ocultar é a sua incipiente experiência como administradora e a inconsistência ou mesmo ainda inexistência de um programa governamental minimamente esclarecedor de seus propósitos quando estiver à frente da Nação. Aqui, vejo, infelizmente, amadorismo e aventura. O País não pode mais se dar ao luxo de perder novos quatro anos.

O governo atual quer se manter a qualquer custo e para isso manipula de forma irresponsável os dados de que dispõe para tentar convencer a população de que fez e faz muito mais do que a realidade de um PIB que já sinaliza recessão, uma inflação ainda elevada e as contas públicas descontroladas estão a nos demonstrar. Os quarenta ministérios e a obesa máquina pública com a acomodação da militância obviamente não quer perder as benesses, ainda que isso continue sendo suportado por uma carga tributária cada vez mais elevada.  Neste quadro, vejo incapacidade de os mesmos gestores que erraram feio na condução de nossa economia agora mudem o comportamento e façam tudo diferente. Como justificar que estavam errados nos últimos anos?

O candidato da oposição direta ao governo atual pode até ter lá também suas restrições, mas é o que, pessoalmente, me parece o mais sério e o que mantém mais os pés no chão para o enfrentamento dos problemas que nos aguardam a partir de 1º de janeiro do ano que vem. Gosto da clareza de ideias e do dinamismo do candidato Aécio Neves. Também me deixa certo conforto saber dos nomes que fazem parte do seu provável futuro governo. Tem pontos fracos? Certamente que os tem, como todos os outros, mas inspira-me mais confiança quanto a pontos que considero fundamentais de um novo governo: novos rumos da economia; política externa mais responsável; projeto para enxugamento e racionalização da máquina pública e o seu desejo manifesto de conduzir uma reforma tributária que levem as empresas e os cidadãos a recuperarem o seu vital necessidade de respirar. Estamos sufocados com tanta burocracia e tanta voracidade tributária. Se ainda não estamos parados, já estamos quase...

Bem, penso que defini o meu voto e de coração aberto o expus. Respeito democraticamente as escolhas diferentes da minha, só esperando que sejam racionais e não emocionais, pois – embora não pareça – política é coisa séria que afeta muito as nossas vidas. Se eu não ficar com a maioria que elegerá o próximo presidente, paciência. Manterei, contudo, a consciência tranquila de que estou sendo coerente com a visão de mundo que tenho. O que devemos por fim considerar é que se o Abreu não honrar os compromissos do próximo eleito, quem irá com toda a certeza fazê-lo não será o candidato malandro, mas sim nós mesmos. Afinal, quem paga a conta é sempre o povo, o Abreu não existe. É como Papai-Noel...

Edson Pinto

Agosto’ 2014

21 de ago. de 2014

273) O CONTO DO VIGÁRIO

Contam que em século pretérito as paróquias do Pilar e da Conceição, ambas em Ouro Preto, MG, disputavam entre si o direito de terem definitivamente em seus respectivos altares certa imagem de Nossa Senhora muito adorada pelos fiéis da época.

Num gesto aparentemente conciliador, o vigário da paróquia do Pilar fez ao outro a proposta para que amarrassem a imagem da santa num burrico que naquele momento vagueava pelas vielas do povoado: Liberado em ponto equidistante às duas paróquias, deixariam que o angelical muar se dirigisse livremente para aquela que mais lhe apetecesse.  A paróquia, assim escolhida, tomaria a posse definitiva da santa. Dito, tratado e feito. O burrico quase que sem pestanejar marchou célere para a paróquia do Pilar.

Passado algum tempo soube-se que aquele burrico dócil pertencia já de há muito ao vigário da Paróquia do Pilar e era lá que tinha a sua morada e o capim de cada santo dia. Ao delegar a decisão ao “tertius burrico”, o esperto vigário omitiu tal fato. Já sabia, de antemão, que era para lá que ele se dirigiria, uma vez que, como muita gente que conhecemos hoje de sobeja, mesmo sem ter as orelhas longas do protagonista em questão, mas por mera parvoíce, visão bitolada, cabeça-dura e dependência alimentar, faria sempre a mesma coisa. Estava assim estabelecida a versão brasileira do conto do vigário. Há outra versão de origem portuguesa que se atribui a Fernando Pessoa pelo seu conto homônimo, mas que não vem ao caso citar aqui. Fiquemos com esta versão bem brasileira, bem mineirinha...

Como sabemos, já há tempos, toda vez que nos deparamos com uma “esperteza” lembramo-nos do vigário e mais especificamente do substantivo que ele, a contragosto, imagino, conseguiu incluir em nosso léxico: “vigarice”. Atenção, portanto, amigos: Quando alguém, de forma dissimulada, maneirosa e dócil lhes oferecer alguma operação vantajosa tenha sempre em mente que isso ou vem de sua adorável mãezinha ou vem do vigário da paróquia do Pilar...

O telefone toca:

__ Boa noite senhor, aqui é da Vivo. Gostaria de falar com o proprietário da linha.

__ Sim, é ele.

__ Senhor, esta ligação por motivo de segurança está sendo gravada (isto dá certa seriedade à conversa, não é?). A Vivo tem uma excelente oferta para o que o senhor “possa estar reduzindo” o valor da sua conta do telefone fixo (olha o gerúndio!).

__ Ótimo que esteja sendo gravada. Aprecio muito esta providência. Assim, quem sabe ela poderá me ser útil mais à frente. Farei o mesmo do lado de cá. Neste caso, se vocês a perderem eu poderei usar a minha...

__ Senhor, estamos vendo aqui no nosso cadastro que o senhor tem uma linha fixa e que o seu gasto tem sido ao redor de R$200,00 por mês. Gostaríamos de oferecer-lhe a possibilidade de migrar para um plano de 100 minutos que lhe custará apenas R$31,00/mês. É muita economia!

__ Ué (assim mesmo, bem mineiramente), vocês da Vivo não estão precisando de dinheiro? Por que abririam mão dos meus R$200,00 e se contentariam com apenas R$31,00? Será que entendi? Nem precisa explicar, já captei...

__ Senhor...

__ Espera aí! O que há por trás disso? Já sei. Provavelmente eu que uso muito mais do que 100 minutos (menos que duas horinhas por mês) deverei ser penalizado pesadamente com os minutos que excederem a isto, não é mesmo? Cada “papo” semanal com a minha mãezinha leva no mínimo duas horas. No mês já seriam oito horas. E os meus compadres e as comadres da minha mulher que ainda nem sabem da existência do WhatsApp? Nada feito!

__ Senhor, mas...

__ Além disso, "minha querida", eu não consigo entender a lógica capitalista dessa grande empresa. Enquanto todas as atividades econômicas buscam maximizar os seus lucros, esta, surpreendentemente, optaria por reduzi-lo? Façamos o seguinte: Como estou satisfeito com o que pago e com a utilização que dou ao meu telefone deixarei tudo como está. Agradeço a sua gentileza. Boa noite!

Telefone desligado vem a reflexão:

É incrível como as empresas que prestam serviços através dos chamados “Call Centers” são ineficientes para nos atenderem quando precisamos de alguma informação, reclamação ou quaisquer outros tipos de serviços pós-venda, mas se mostram tão rápidas e “generosas” na hora que querem nos envolver em manobras que nos levem a gastar mais com elas.

Alguém já imaginou a concessionária da rodovia, espontaneamente, reduzir o valor do pedágio? Algum hospital baixar, sem que se peça, o preço de uma internação? O supermercado onde você compra regularmente lhe mandar um cheque correspondente a um desconto que julgarem que você fez por merecer?
 
Será que estamos às vésperas de uma grande mudança conceitual do capitalismo? Errou de novo Marx ao prognosticar que o capitalismo clássico por não lograr superar suas contradições internas levaria inevitavelmente ao comunismo? Claro, ele não contava com a hipótese de que – pelo menos aqui no Brasil – já estarmos promovendo a transição do capitalismo clássico, selvagem, para um capitalismo generoso, este mesmo que leva empresas a procurarem insistentemente seus clientes para lhes oferecer faturas menores mesmo que com isso lucrem menos.

Edson Pinto

Agosto’2014

14 de ago. de 2014

272) CONHEÇA A SI MESMO


Organizando os meus livros antigos, encontrei um que me chamou a atenção não apenas pelo seu sugestivo título, “Deficiências e Propensões do Ser Humano”, mas pela imediata lembrança que me fez suscitar. O livro é de autoria do pensador argentino Carlos Bernardo González Pecotche (1901 – 1963), fundador da doutrina ético-filosófica mundialmente conhecida como “Logosofia”. Importante e atemporal como são todas as coisas que formam o alicerce de trajetória humana, revisitá-lo teve para mim o sabor agridoce das lições que nunca perecem. Comprei o livro na Fundação Logosófica que no meu tempo de Belo Horizonte ficava lá na Rua Piauí, no Bairro dos Funcionários. Sei que a Fundação ainda está lá e em mais um par de outros endereços demonstrando que a doutrina de Pecotche - com razão – mantém-se de forma sólida.

Curiosamente encontrei dentro de livro, já amarelado, o recibo de sua compra. Paguei exatos NCR$ 15,00 (quinze cruzeiros novos) em 26/3/1972, portanto há 42 anos. Movido pela sede de desvendar mistérios, busquei converter o valor original da compra, em Cruzeiros Novos, agora para Reais que é o nosso padrão monetário em vigor. A cifra correspondente apurada foi abaixo de zero. Isto demonstra o quanto a nossa moeda perdeu valor em quatro décadas. A moeda virou pó, todos nós já sabemos disto, mas, felizmente, o conteúdo do livro nunca perdeu um centavo de sua enorme importância. Arrisco-me até a dizer que nos dias que correm, com tantos desacertos individuais e políticos, deve até estar sobrevalorizado...

Andei frequentando a Fundação Logosófica por cerca de um ano até que me transferi para São Paulo e nunca mais tive oportunidade de retomar o estudo que ministravam. Com 20 e poucos anos de idade é de se admitir que, na época, a cabeça também não se mostrava muito interessada no entendimento de si mesma, principio básico e razão de ser da Logosofia. A doutrina estruturada por Pecotche deu corpo ao que pensadores gregos como Sócrates e Platão conjecturaram sobre a necessidade do autoconhecimento no papel de pré-requisito a evolução humana consciente. A ideia é a de que é necessário se autoconhecer para assim poder diagnosticar as deficiências e as propensões negativas que delineiam o nosso comportamento. Só a partir daí, metódica e insistentemente, iniciar e manter a prática de suas antideficiências.
   
Sempre achei muito difícil uma pessoa mudar a sua essência. A Psicologia, as religiões, a Filosofia e genericamente a Educação não cansam de buscar meios para que tal transformação ocorra. Atrevo-me, contudo, a dizer que se trata de uma empreitada muitíssimo árdua, embora não totalmente impossível. De qualquer modo, entendo que só há um meio de se operar uma mudança no comportamento e na maneira de ser das pessoas dominadas por características ruins e prejudiciais à suas respectivas vidas sociais. Este meio é o do autoconhecimento, sem dúvida...

O mérito da doutrina logosófica é - a principio - a identificação de 44 deficiências e de 22 propensões nefastas que, se dominadas adequadamente, levariam as pessoas a desfrutarem de um patamar qualitativo mais elevado em suas próprias existências. Enquanto as deficiências dominam efetivamente o psicológico da pessoa, as propensões são mais brandas, porém mesmo assim tendentes a interferir nas decisões e no modo de ser e de reagir das pessoas por elas afetadas. Para cada uma das 44 deficiências o método logosófico propõe a prática de uma atitude oposta benéfica e restauradora.

Alguns exemplos:

À deficiência da Aspereza contrapõe-se a Afabilidade; à Credulidade, o Saber; ao Egoísmo, o Desprendimento; à Impaciência, a Paciência Inteligente; à Indiferença, o Interesse; à Intolerância, a Tolerância; ao Rancor, a Bondade; à Soberba, a Humildade; à Vaidade, a Modéstia e à Veemência, a Serenidade. Citei apenas 10 deficiências para não me alongar, mas são 44 ao todo.

Das 22 propensões, para as quais não há a explícita nomeação de antipropensões, poderia também citar 10, tais como: a propensão a Adular, que significa bajular, lisonjear de forma servil; à Dissimulação ou fingimento; à Discussão, por quaisquer e tolos motivos; ao Desespero, também por quaisquer razões, mesmo as mais simples; à Desatenção; ao Pessimismo; à Licenciosidade; à Frivolidade, que é o interesse por coisas fúteis, comportamento leviano e volúvel; a Prometer, mesmo sabendo da impossibilidade de cumprimento; ao Abandono e ao Exagero, quando a pessoa dá asas a sua imaginação muito além do que recomendaria a sua própria inteligência e à dos outros.

Se o amigo acha que dessas deficiências e propensões nenhuma lhes cabe, tudo bem. Se sim, ou mesmo se pode ser de alguma utilidade para proveito de seus orientados, então sugiro a leitura do mencionado livro. O título e o autor são aqueles aos quais já fiz menção ao longo do texto. A publicação é da Editora Logosófica. Dentro do possível, voltarei ao tema para analisar pontualmente algumas dessas deficiências e propensões. Não me esquivarei, por certo, nem mesmo daquelas a que me considero também acometido.

Edson Pinto
Agosto’2014 

31 de jul. de 2014

271) MITO E VERDADE


Podemos inocentemente imaginar que todos os fatos que ocorrem nas nossas vidas e mesmo na sociedade em que nos inserimos são adequada e fidedignamente registrados e com isso passam a ser considerados como história. Correto? Não! Isso nem sempre acontece. A verdade absoluta dos fatos pode ser manipulada, distorcida ou até mesmo negada para vários propósitos:

O primeiro deles é o de servir como justificativa para uma ação política especifica. Segue-se outro propósito que pode ser o de servir para que a sua revelação integral se dê em um momento mais apropriado e com isso se evite problemas maiores no presente. Em nível pessoal é a mentirinha que no momento mais ajuda do que atrapalha. Não se descarta ainda a possibilidade de serem politicamente distorcidos para uso em momentos críticos, como numa eleição. O mais deplorável de seus usos é, contudo, o de deliberadamente se tentar reinterpretar a história com o escuso objetivo de beneficiar personalidades e/ou partidos políticos.

Já em 1882 o historiador de nacionalidade francesa, Ernest Renan, havia externado seu pensamento de que a identidade nacional é formada pela memória, seletivamente distorcida, de fatos pretéritos. Há uma verdade coletiva que tende a se sobrepor à verdade factual, já dizia Hans-Georg Gadamer, filósofo alemão, em sua obra de grande relevância, “Verdade e Método”, 1960. Mas foi - pelo menos para mim - a judia alemã, Hannah Arendt, em seu livro “Verdade e Política”, 1967, quem melhor abordou o tema ao escrever que todo fato de conhecimento geral, já devidamente consolidado, pode ainda assim ser negado ou distorcido.

Dois nomes luminares devem ser mencionados para sustentar a tese deste meu texto: O recém-falecido historiador inglês, Eric Hobsbawm (1917 – 2012), legou-nos, textualmente: “nenhum historiador sério pode ser nacionalista político comprometido”.  Nesta linha de pensamento, há ainda o seu conterrâneo, David Miller, filósofo, que nos mostrou que os mitos se prestam ao valioso objetivo de integração social mesmo que saibamos não serem a expressão da verdade.

Portanto, amigos, o que se ouve e o que se tem como verdade quando expressado por políticos, principalmente, pode – e na maioria das vezes, de fato, não é – a verdade que a história deveria ter registrado. Esquecem ou ignoram a verdade e abraçam o mito, pois este se mostra de maior utilidade. Mas, como sabemos, o mito se antagoniza ao pensamento científico e lógico. O mito é revestido de simbologia e tem o papel preponderante de fazer a cabeça dos puros e incautos. Estamos cheios de exemplos de líderes mitômanos. No fundo, aqueles que se aferram aos mitos carregam o mal da mentira e com ele convive como se fossem verdadeiros os argumentos e as versões dos fatos que defendem e sustentam.

As eleições majoritárias já se avizinham e os mitômanos de sempre já começam a distorcer a verdade dos fatos para incutir na cabeça do eleitor desavisado as suas próprias “verdades”. O famoso “nunca antes na história deste País” poderia ser tomado como símbolo da distorção da verdade para fins políticos. De aplicação genérica, ele já serviu e ainda serve para convencer gente pura de que tudo o que não funciona agora é fruto de uma chamada “herança maldita” e que tudo o que de bom acontece foi gerado por este governo e por este partido. Na verdade, item a item das conquistas históricas do País vêm sendo destruídas sistematicamente: Mas, o discurso continua sendo a expressão da mitomania que assola o governo. Vejam três exemplos e comparemos o mito com a realidade:

MITO 1: A Economia do País vai muito bem. Somos um país às vésperas de nos tornar potência mundial entre os estrelados de sempre. 

VERDADE: O PIB nestes quase 4 anos de governo Dilma tem sido decepcionante. Em 2014 crescerá a taxa inferior a 1%. Um rotundo fracasso, pois vem bem abaixo dos índices alcançados pelo conjunto dos países em desenvolvimento, incluindo latino-americanos. O tripé de sustentação da nova ordem econômica representado pela ancora cambial, abertura econômica e base monetária rígida já foi para o beleléu e, no entanto, perdoamos dividas de outras nações e construímos um porto em Cuba quando a nossa infraestrutura segue capenga e a inflação recrudesce.

MITO 2: Cerca de quarenta milhões de brasileiros ascenderam à classe média e o índice de desenvolvimento humano elevou-se. A miséria foi erradicada e atingimos nível de qualidade de vida próximo ao das nações desenvolvidas do chamado primeiro mundo.

VERDADE: Divulgado, nesta semana, pela ONU, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), mostrando que evoluímos apenas uma posição no último ano. Demos um pulinho dos 80% para o 79% lugar entre 173 nações e mesmo assim ficamos abaixo da média dos países latinos americanos, muitos deles beneficiados com ajuda generosa dos contribuintes brasileiros. Estamos abaixo, entre outros, de Cuba, Argentina, Uruguai, Chile, México e até da Venezuela.

MITO 3: Somos hoje, além de potência econômica, também potência política do mundo. Estamos a caminho de assumir lideranças até agora reservado aos países desenvolvidos. Somos fortes, respeitados e até mesmo invejados.

VERDADE: Caminhamos para perder a posição de 7ª posição econômica em valores absolutos, pois outros países já se recuperam e estão prestes a nos superar. Em termos de PIB per capita, nossa posição é por volta dos 65% lugar. Em matéria de relações internacionais, acabamos de ser taxados como “um anão diplomático” derrubando com isso o orgulho que sempre tivemos da nossa política externa que vem desde o Barão do Rio Branco passando por Rui Barbosa e outros próceres. É uma mancada após outra: Apoiamos países, governantes e teses erradas. Já viramos piada de salão mundo a fora. Nem mais futebol de qualidade nós temos mais para usar em contraposição. 

Como dizem Brasil afora: “Tá danado”...

Edson Pinto
Agosto’ 2014




25 de jul. de 2014

270) FUTEBOL, EMOÇÕES E SENTIMENTOS

Talvez não devesse insistir em continuar falando da Copa do Mundo recentemente encerrada. Pode parecer algo como a deselegante inconveniência de se ficar cutucando a ferida quando o melhor seria deixar que ela se cicatrizasse com o tempo. Sim! O Brasil deu o que podia dar nessa Copa. O atestado definitivo da sua capacidade (ou seria incapacidade) foi emitido simbólica e formalmente no grande evento do último dia 8 de julho lá no Mineirão com o histórico 7 a 1. Ganhou até epíteto: Mineirazo.

Felizmente, joga a nosso favor a grande contribuição que só o passar do tempo é capaz de dar aos derrotados, ou seja, o esquecimento, mesmo que não total e absoluto, mas pelo menos amenizador. No entanto - por ora - não dá para apagar da memória um questionamento que se faz ainda presente e de forma azucrinante a todos nós brasileiros: Por que nossos meninos demonstraram, especialmente naquela partida contra o Chile, nas oitavas de finais, em 28 de junho e também no Mineirão, tamanho descontrole emocional? Teria sido aquilo uma vantagem ou uma desvantagem perante os desafios daquele momento em particular? Em que extensão aquele show de emoções nos ajudou ou prejudicou tanto naquela partida como nas que a ela se sucederam?

Transcorridos alguns poucos dias dos fatos e vendo agora o desfecho do famigerado oito de julho, com direito a repeteco em 12 de julho com o 3 x 0 da Holanda, isso até pode nos sugerir que aquelas manifestações de emoções exacerbadas registradas no jogo contra o Chile já seriam o prenúncio de que algo bem pior estava por acontecer. As emoções dos nossos jogadores estavam em seu ponto extremo. Enquanto nossos meninos choravam convulsivamente e tremiam, os jogadores de outros países em jogos diversos - com raras exceções, é claro - pareciam administrar seu emocional com a devida parcimônia. Os alemães, por exemplo, vinham se comportando como seres robóticos desprovidos de alma e com pleno domínio da razão. Mas, afinal, o esporte, futebol em especifico, é emoção ou razão?

Fui checar isto com mais cuidado e descobri que existe um campo da Psicologia que se dedica ao estudo, e por consequência ao entendimento, dos propósitos pelos quais as emoções existem e como elas nos ajudam a sobreviver ou até mesmo a nos desenvolver. Este mesmo campo de estudo da psicologia dedica igual atenção a outro processo a que conhecemos como “sentimentos”. Emoções e sentimentos são processos inconscientes, isto é, surgem fora do controle da nossa razão, porém cada qual tem suas peculiaridades.

No seu livro seminal “As leis da emoção” o psicólogo holandês, Henri Frijda, demonstra as regras que regem as emoções: Para ele - e é fácil aceitar esse argumento - as emoções se situam na encruzilhada de nossa carga biológica com a nossa capacidade cognitiva, ou seja, a consciência. Várias emoções que são fundamentais à preservação da vida nós as herdamos pela via biológica, como, por exemplo, o medo. São forças produzidas espontânea e inconscientemente para nos preparar para enfrentar determinados perigos imediatos. Induz-nos a agir com eficiência e de forma concentrada para defender, atacar e a fugir do perigo. As emoções, portanto, fogem completamente de nosso controle consciente. Curiosamente, elas podem ser facilmente lidas pelas outras pessoas pelo simples observar das expressões físicas que produzimos: um semblante de pavor, uma risada, um arrepio, um grito e até mesmo um choro ameno ou convulsivo, por exemplo.

Quando, contudo, o nosso consciente consegue interpretar essas emoções, passamos a produzir o que se chama de “sentimentos”. Estes já deixam de ser meramente biológicos e passamos a controlá-los de forma consciente. Assim, com base nos sentimentos, podemos tomar decisões importantes. Uma vez que os sentimentos são submetidos ao controle da consciência, isto é, da razão, podemos deliberadamente camuflá-los e - ao contrário do que ocorre com as emoções - impedir que os outros os leiam com base no nosso comportamento ou mesmo expressões físicas como ocorre com as emoções e disso tirem proveito tático e estratégico. Não devemos esquecer que um jogo de futebol é como uma guerra. O inimigo está sempre à espreita para captar os nossos pontos fracos...

Podemos aceitar que o que realmente vale não é tanto a carga de emoções biologicamente produzida, mas sim a forma como nós, racionalmente, as transformamos em sentimentos. Estes, bem administrados, podem nos ser mais úteis do que as emoções em seu estado puro. Quem disse que os alemães, aparentemente frios e autocontrolados, não se encontravam também submetidos às mesmas intensas emoções como aquelas dos nossos meninos? Claro que estavam. Isto foi demonstrado nitidamente depois de se sagrarem tetracampeões mundiais, quando extravasaram toda a alegria e abriram os corações ao declarar amor ao futebol, à família, à sua pátria e até mesmo ao Brasil. Faltou-nos, portanto saber como canalizar nossas “emoções brutas” em “sentimentos úteis” e assim não ter deixado que os adversários tivessem lido nas faces de muitos de nossos ainda impúberes garotos o temor que os dominava naquelas batalhas.

Como se muda isto?

Só há uma resposta: amadurecimento. Só o tempo e as experiências, principalmente as negativas, podem propiciar esse aprendizado ao ser humano. Culpa parcial dos dirigentes que preferiram abrir mão de alguns craques com mais experiência de vida, talvez não em tão boa forma física como os meninos quase adolescentes, mas com a alma calejada e já tendo desenvolvido suficientemente a capacidade de transformar emoções em sentimentos produtivos.

Vivendo e aprendendo!

Edson Pinto

Julho’2014 

16 de jul. de 2014

269) MENINOS, SEM QUERER, EU VI...

Os meus poucos, mas fiéis leitores notaram que fiquei mais de 30 dias sem publicar novos textos no blog. Alguns quiseram saber se eu estava bem de saúde, se tinha viajado ou que diabos teriam me desestimulado a dar prosseguimento ao hábito que tanto prezo e que me faz bem que é o de colocar sistematicamente no papel aquilo que gira solto na minha cabeça. Sei e reconheço que a maioria, contudo, deve ter ficado feliz pela trégua que lhes dei. Afinal, temos mais tarefas e agitação do que tempo para satisfazê-las.

Gosto muito de futebol, sem, contudo, ser um especialista e fanático. Conforme já havia dito em meu texto de nº 264, “A Pátria de Chuteiras”, eu estava não só entusiasmado como até mesmo me preparando para viver intensamente esta maravilhosa Copa do Mundo que acaba de ser realizada aqui no nosso País. Pensando bem, o futebol é apenas uma parte do espetáculo. Todo o conjunto de manifestações sociais, políticas, relacionamentos pessoais, oportunidades de turismo e lazer é que, tudo somado, fazem da Copa do Mundo um evento ímpar.

Todavia, por mais que eu me deleite com este esporte, sinceramente, não me disporia a pagar milhares de dólares por um único ingresso aos estádios como vimos abundantemente serem vendidos por cambistas ligados à própria FIFA. Esporte e esperteza não combinam. Aos que praticam o esporte com o uso ilícito do doping aplica-se a punição do banimento. Aos que dele se aproveitam financeiramente e trapaceiam reserva-se o xilindró. Além do mais, a tecnologia moderna nos oferece condições excelentes de imagem, áudio e de informações que, estar assistindo aos jogos de casa ou de algum ambiente de maior aglomeração social, como um bar ou um clube supre-nos em abundância com as emoções que emanam das partidas. E eu queria – como de fato consegui – assistir, pela TV e com amigos, todas as partidas realizadas, exceto uma... E é sobre esta em especifico que quero falar.

E por que a esta “uma” eu não a assisti pela TV? Quis o destino que, pelo site da FIFA, através do sistema de sorteio, ter conseguido, meses antes de iniciada a Copa, comprar ingressos para a partida de nº 61, semifinal no Estádio Mineirão em Belo Horizonte no dia 8 de julho. Podia ser qualquer time a estar lá naquele glorioso dia, mas botei fé de que assistiria a uma partida do Brasil. E pela análise que fazia com a família, com grande certeza daria o Brasil contra a Alemanha. De fato, tudo ocorreu como sonhado: O Brasil iria enfrentar a poderosa Alemanha exatamente naquele jogo.

E lá estávamos, família em peso, cheios de alegria e confiança. Nem o fato de termos perdido o Neymar e o zagueiro Thiago Silva para aquela partida foi suficiente para tirar a nossa esperança por uma vitória redentora. Estávamos em casa; as condições climáticas, ambientais e até a atmosfera estavam a nosso favor. Tudo funcionou bem e organizadamente. Há anos não entrava em um banheiro de estádio tão limpo; não sentava em cadeiras tão confortáveis; o estádio dispunha de telões com imagens reluzentes que nos davam informações úteis. “Tudo bacana”, para usar um termo comum na época em que ainda adolescente, no final dos anos 60, frequentava aquele mesmo Mineirão de arquibancadas rusticamente cimentadas.

Já havia jurado nunca mais voltar a estádios enquanto não fosse respeitado como consumidor consciente. Os nossos estádios, até que o padrão FIFA se fez presente, eram infames, verdadeiras pocilgas. Aquele oito de julho se me apresentava como a redenção de todos os nossos pecados terceiro-mundistas. As pessoas se confraternizavam até mesmo com os adversários do dia, os alemães, como se estivéssemos ali não para tentar superar um já tricampeão mundial, mas sim para comemorar uma vitória que de antemão já se dava como certa.

Mas eu vi... E digo como dizia o velho chefe timbira ao narrar as proezas do índio tupi no romance “I-Juca Pirama” de Gonçalves Dias: Meninos eu vi! Eu vi um time desfigurado, impotente, atônito, humilhado ser massacrado por magricelas de pernas longas e cabelos louros que passavam bola de pé em pé assemelhadamente ao que os Globetrotters faziam como as mãos. E foram sete gols que nos fizeram pequeninos como nunca antes na “história deste País”. E se o futebol não funcionou, todo o resto tomou aspectos nebulosos, perderam a graça como quando se desperta de um sonho tão fabuloso quanto irreal.

Meninos, eu vi o semblante das pessoas que estavam ao meu redor transmudarem de expressivos para apáticos; de sorridentes para carrancudos; de fraternais para agressivos e perplexos. Lembrei-me - ato contínuo - de outro texto que escrevi em 02 de julho de 2010 quando o Brasil havia perdido naquelas quartas de finais para a Holanda, na copa da África do Sul. Vide meu texto de nº 127, “Cinco Minutos de Tristeza”. Mas senti que, ao contrário daquela derrota de quatro anos antes, esta do Mineirão e nas condições em que ocorreram, apenas cinco minutos não seriam suficientes para apagar o desalento que se abateu sobre nós.

O céu que naquele dia apresentava-se aberto, lindo, ensolarado, de repente começou a mudar para um tom cinzento que causava medo. E não era chuva, meninos, eu vi! Era certamente de tristeza pela frustração de não apenas não vermos realizada um sonho legítimo, pois afinal somos o país do futebol, mas uma decepção de tamanha monta que procurar culpados ou encontrar justificativas de qualquer ordem torna-se desnecessário e contraproducente.

Mas, a vida continua e os fatos mudam as percepções que temos dela. Em tudo o que ocorre há sempre uma lição a ser extraída, a menos que não queiramos. O futebol para mim tem muito a ver com o curso da nossa própria existência: ganhamos ou perdemos. Nada de novo! O importante é termos consciência de que as maiores lições vêm-nos dos momentos em que fracassamos e não dos momentos de vitórias. É preciso crer, portanto, na real possibilidade de sermos derrotados. Só assim, as vitórias que esperamos para o futuro serão comemoradas com glória.

Até à Rússia em 2018...

Edson Pinto

Julho’2014 

5 de jun. de 2014

268) GOVERNO TRABALHANDO...


"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia, não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência mais do que pelo trabalho e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de nós; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto-sacrifício, então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada" (Ayn Rand).

_____ o O o _____

Não passa pela cabeça de nenhuma pessoa de bom senso a ideia de que o governo Lula e o de sua sucessora, Dilma Rousseff, atuaram, de propósito, como patrocinadores deste show de incompetência na execução do projeto da Copa do Mundo que já começa na semana que vem. Justiça seja feita: Se não demonstraram competência para fazer acontecer, na extensão, nos custos e no tempo corretos, todas as obrigações assumidas quando da aceitação dos encargos impostos pela FIFA, por que iríamos, agora, imaginar que o atual descalabro tenha sido premeditado e, portanto, tratar-se de algo maquiavelicamente bem concebido?

Quem não consegue planejar para o bem, com grande certeza também não o consegue para o mal... É, infelizmente, puro despreparo. Coisa típica de quem nunca havia gerido, antes e com sucesso, sequer uma simples lojinha de artigos baratos. Mas, apesar de todas essas demonstrações de incompetência, tenho sido levado a pensar – cada vez com mais convicção - nestes dias pré-Copa que o governo, mesmo perdendo a batalha, já deve ter vislumbrado uma forma de tirar proveito da própria lambança. E isto, sim, tem uma esperteza planejada de última hora. Discorrerei sobre esta minha suspeita mais adiante...

O “O Estado de São Paulo” do domingo passado demonstrou em um criativo infográfico a situação de dois grupos de obras que são importantes para o sucesso da Copa em cada uma das doze cidades que acolherão os jogos. Clique neste link para acesso à matéria:  http://digital.estadao.com.br/download/pdf/2014/06/01/E5.pdf. O que se depreende da sua leitura é aquilo que todos nós brasileiros, bem como os estrangeiros que vêm nos acompanhando, já sabemos desde há 3, 4 anos: Vamos entregar uma Copa meia-boca. Mas o governo continuará com a manjada cantilena de que faremos a melhor Copa de todos os tempos. O discurso agora é o de que as obras são mais importantes para o pós-Copa do que durante a Copa. E aí vem a surpresa que os espertos de plantão têm em mente. Aguardem!

Antes, algumas questões de fundo:

Por que temos demonstrado, nos últimos tempos, tanta incompetência se este País já foi capaz de construir uma cidade inteira como Brasília em apenas quatro anos, construiu Itaipu, Furnas, estradas, pontes, como a Rio/Niterói e tantas outras obras de grande porte no passado sem que tivéssemos, nas respectivas épocas, este sentimento de incompetência que nos assola no presente? Será que desaprendemos? Será que nos falta recursos financeiros suficientes para as obras? Será que não sabemos exatamente do que precisamos?

Nada disso! Nem se forem tomados cada item isoladamente, nem se forem considerados todos ao mesmo tempo. O mal que nos acomete de forma brutal é o mal da política suja associada ao fato de que criamos o nosso próprio Leviatã, este estado balofo de 40 ministérios, de dezenas de milhares de cargos por nomeação política e o que tudo disso decorre, como a burocracia, o compadrio e a corrupção entre outros tantos fatores negativos. Os pactos políticos que geram coalizões esdrúxulas só para acomodar acólitos tem um preço muito alto a ser pago. Põe-se gente em posições de mando que não seriam admitidas para cargos inferiores na atividade privada devido ao despreparo e inabilidade para a tarefa. E o pior é que essa gente, sabidamente, não está lá para produzir, senão para cumprir ordens do partido político e – “en passant” – também tirar uma casquinha para o seu próprio deleite, pois ninguém é de ferro...

Minha tese: O governo Dilma vem há tempos caindo de maduro. Já deu o que tinha de dar. A Copa parecia ser a tábua de salvação, mas deu tudo errado. A economia desacelerou-se, a saúde foi pro beleléu, a segurança pública escafedeu-se, a corrupção exacerbou-se, os lideres partidários proeminentes foram para a Papuda e o pior: não conseguiram realizar as obras da Copa pela incompetência e outros problemas sobre os quais já falei. Por fim, e para o desespero maior do governo, as eleições virão logo depois da Copa. O barco está afundando...

Imaginem agora, se por uma sem precedente intervenção divina - ainda nesta semana - todas as obras de mobilidade urbana, aeroportos e outros itens de infraestrutura fossem concluídos! Ainda assim, permaneceria indelével a impressão de que o estado foi um péssimo gestor. Gastou muito, fez mal feito e de afogadilho e ainda pode perder as eleições de outubro. O que fazer então? Bingo! Ordenou o 40º ministério, o do Marketing político: Segurem a conclusão de todas as obras que porventura pudesse ainda ser inauguradas antes da Copa. Vamos usar o discurso de que o que vale é o que virá depois. Assim, passada a Copa e até que as eleições cheguem, o governo inaugurará tudo o que não inaugurou até agora. Será um festival de inaugurações, foguetório, discursos, exposição na mídia e a volta do velho chavão: Nunca antes na história deste País se inaugurou tanto quanto agora...

Será que isso será suficiente para ganhar as eleições?

Edson Pinto
Junho’ 2014 

29 de mai. de 2014

267) O ESTADO MÍNIMO


Na minha crônica da semana passada, “PAÍS DE PIDÕES MIMADOS”, em que apontei as consequencias negativas do excesso de programas sociais, eu recorri às ideias de um pensador político americano da maior expressão, Robert Nozick (1938 - 2002). 

Nozick foi um daqueles pensadores que tiveram, em tempo, a lucidez de migrar de um ideário inicialmente de esquerda para uma visão liberal e de apoio ao livre mercado. Influenciou-o bastante a leitura atenta que fez de Friedrich Hayek (1899 - 1992) e Ayn Rand (1905 - 1982). Hayek foi severo crítico do planejamento como instrumento de controle governamental e Rand sustentava a ideia de que a interferência excessiva do Estado opera sempre como obstáculo ao desenvolvimento humano. Só com base nisso já dá para se ver que o pensamento de Nozick condena o formato gigantesco que alguns governos tende a assumir e a nefasta consequência que disso decorre, ou seja, a elevado carga tributária necessária para saciar o gigante.

Qualquer pessoa que já tenha minimamente observado como os governos funcionam deve concordar com Nozick (eu concordo plenamente) de que ao Estado, entendido como governo, deveria se limitar a cuidar tão somente dos direitos básicos de seus membros como, por exemplo, a segurança interna e externa, a proteção dos contratos e outras poucas atividades que por suas naturezas não fossem interessantes para a atividade privada. Quando o Estado se vê envolvido em atividades que extrapolam a sua área de competência ele passa a desrespeitar os direitos da cidadania e com isso cria obstáculos ao desenvolvimento do país. A conclusão que se tira de imediato é exatamente o que sugere o título desta minha crônica: O estado mínimo, como solução. Mas, o que podemos entender por estado mínimo?

Primeiramente, algumas características da administração privada e da pública: Na iniciativa privada, o patrão, na figura direta de seu dono da empresa ou na forma de representantes dos acionistas, com o fito de estimular seus colaboradores a serem eficientes e eficazes, tem o poder de punir ou gratificá-los com base em seus desempenhos pessoais. Na atividade pública, exceto quando cometidas faltas graves e desde que previstas em lei, o funcionalismo conta com a estabilidade vitalícia do emprego. Sem medo de ser punido com a demissão, o funcionário público tende, dependendo por óbvio do caráter de cada um, a se acomodar fazendo tão somente o básico e raramente ultrapassando as expectativas de quem lhes controla ou supervisiona, mesmo porque - em geral – não há incentivos para desempenhos de alto nível. Segue-se a isso o fato de que o “patrão” do funcionalismo público não é um ente visível, pois o Estado não existe em matéria viva, senão se faz representar por cidadãos eleitos ou escolhidos por critérios políticos. São, portanto, transitórios. E o que é transitório não precisa ser temido.

Em segundo lugar, o poder de compra de um estado grande é muito forte. Isso desperta a ambição de fornecedores de bens e serviços de toda ordem a abocanharem fatias desse grande e generoso cliente. As regras legais necessárias para controle da lisura e eficiência das compras são tão detalhadas que contraditoriamente provocam efeitos contrários: Geram custos elevados, demandam tempo excessivo para as decisões e abrem frestas para falcatruas, corrupção, suborno e o desmando. O conluio entre os que querem lucrar com o cliente governo e os operadores da máquina estatal em seus diversos níveis propicia o que todos nós sabemos: Desperdício de recursos, custos elevados, obras e serviços mal feitos e demorados.

Em terceiro lugar, a ideia de que o estado é capaz de gerar o dinheiro que for preciso, quer via aumento dos impostos, ou até mesmo gerando endividamento torna a administração pública quase que imune ao principio que prevalece na iniciativa privada de que os dispêndios precisam ter contrapartida em recursos. O Estado nunca vai à falência, por isso o sistema orçamentário é uma ficção. Agrava-se o fato de que existe uma explicita promiscuidade política entre os poderes Legislativo e Executivo. Aquele, quando mancomunado e beneficiário de benesses especiais propiciadas pelo poder que tem a chave do erário acaba por produzir leis que suportam o aumento dos gastos públicos sem zelar pela qualidade dos retornos esperados. Embora tenhamos a ilusão de que os três poderes da República sejam independentes não é isso o que acontece na prática.

A consequência nefasta de um estado gigante pode ser resumida em dois pontos muito simples de se entender: O Estado é ineficiente, pois tenta fazer algo que não lhe é da natureza e é levado a cobrar cada vez mais impostos para fazer face aos seus crescentes gastos. Na iniciativa privada quando uma empresa produz mal e gasta muito, o destino lhe reserva a falência. O governo quando também produz mal e gasta muito há também uma falência em jogo. Não a do próprio Estado que sempre pode se virar, mas a do cidadão que de tão oprimido se converte em escravo gerador de impostos sendo forçado a trabalhar cada vez mais e ficar com cada vez menos. Portanto, até mesmo por uma questão de sobrevivência só nos resta lutar por um estado pequeno, que custe menos e que dê mais liberdade à iniciativa privada.

Edson Pinto
Maio’ 2014