17 de jul. de 2026

380) A COPA AO CONTRÁRIO

 

Em um desses dias, acompanhando  pela televisão jogos e a tabela da Copa do Mundo de Futebol, dei-me conta de uma curiosidade que sempre esteve diante dos meus olhos, mas que eu nunca havia realmente percebido.

A competição começa reunindo dezenas de países. Cada povo chega carregando sonhos, bandeiras, cantos e esperanças. Durante algumas semanas, o planeta inteiro parece respirar no mesmo ritmo. Crianças pintam o rosto, famílias se reúnem diante da televisão, desconhecidos conversam como velhos amigos. O futebol realiza um pequeno milagre. Por alguns instantes, milhões de pessoas esquecem diferenças políticas, econômicas e religiosas para compartilhar uma única paixão.

Mas a matemática da Copa é implacável. Primeiro são muitos. Na atual Copa, quarenta e oito. Depois restam menos. Em seguida, menos ainda. A cada fase, uma parte da alegria faz as malas e volta para casa. Ao final, sobra apenas um campeão.

Foi então que imaginei uma Copa diferente. Não uma nova modalidade de futebol, mas um campeonato da própria humanidade. Nessa Copa, ninguém seria eliminado. Ela começaria com apenas duas nações. Depois chegariam mais duas. Em seguida, oito. Dezesseis. Trinta e duas. Quarenta e oito. Cento e noventa e três. Cada participante teria como missão trazer outro para dentro da competição. O objetivo deixaria de ser excluir adversários e passaria a ser ampliar parceiros. 

As vitórias não seriam medidas pelo número de derrotas provocadas, mas pela quantidade de amizades construídas. O arbítrio seria a consciência. O placar seria medido pelo número de vidas melhoradas. Os gols seriam acordos de paz. As assistências seriam gestos de solidariedade. Os troféus seriam escolas abertas, hospitais funcionando, ciência compartilhada, comércio justo, tecnologia dividida com responsabilidade, alimentos chegando onde falta pão e esperança alcançando onde falta futuro. Em vez de levantar barreiras, as equipes aprenderiam a construir pontes. As grandes jogadas seriam aquelas em que um país descobrisse que prosperar junto é mais inteligente do que prosperar sozinho.

Enquanto imaginava essa Copa impossível, pensei que talvez nós, seres humanos, tenhamos aprendido cedo demais a admirar torneios eliminatórios. Gostamos de separar vencedores e vencidos. Os melhores e os piores. Os ricos e os pobres. Os fortes e os fracos. Como se a história fosse uma sucessão interminável de partidas nas quais alguém só pode sorrir depois que outro chora.

No entanto, a própria vida parece ensinar outra coisa. Quando uma vacina é descoberta, o verdadeiro vencedor não é apenas o laboratório que a criou. É a humanidade. Quando uma tecnologia reduz o sofrimento, quando uma guerra é evitada, quando uma criança aprende a ler, quando duas nações trocam conhecimento em vez de ameaças, todos atravessam juntos a linha de chegada. Há conquistas que não diminuem quando são repartidas. Ao contrário. Crescem. Talvez seja essa a mais curiosa diferença entre os bens materiais e as alegrias humanas. Um pedaço de pão dividido fica menor. A esperança dividida fica maior.

Foi então que compreendi que a Copa do Mundo, do jeito que ela existe, talvez seja apenas um belo retrato do esporte. Mas a Copa da vida precisa obedecer a outra lógica. Nela, o campeão não é quem permanece sozinho segurando a taça. É quem consegue fazer caber mais gente na comemoração.

Talvez Deus não sonhe com um mundo onde um povo vença todos os outros. Talvez sonhe com um mundo onde cada vitória seja capaz de produzir novas vitórias, até que a alegria deixe de pertencer a um único país e passe a ser patrimônio da humanidade. Nesse campeonato, finalmente, ninguém precisaria ser eliminado. E, pela primeira vez na história, todos levantariam a mesma taça. Afinal, uma alegria que pertence apenas a um povo continua sendo pequena para um planeta inteiro.

Quando desliguei a televisão, a tabela da Copa continuava exatamente igual. Quarenta e oito. Trinta e duas. Dezesseis. Oito. Quatro. Dois. Uma. Mas, desde aquele instante, confesso que nunca mais consegui olhar para ela da mesma maneira.

 

Edson Pinto

Julho, 2026

10 de jul. de 2026

379) AMOR É TUDO DE QUE VOCÊ PRECISA

 

Recentemente, enquanto organizava alguns papéis antigos sobre a mesa, encontrei uma anotação esquecida. Não me lembro mais por que a escrevi, nem quando. Havia apenas uma frase em inglês rabiscada no alto da folha: “All You Need Is Love” (Amor é tudo de que você precisa).

Sorri...

Impossível para alguém da minha geração não ouvir mentalmente os acordes dos Beatles logo em seguida. Durante décadas, a frase atravessou rádios, festas, namoros, separações e reencontros, repetindo a ideia simples e poderosa de que o amor seria tudo de que precisamos.

Poucos dias depois, conversando com uma inteligência artificial (IA), deparei-me com outra frase, também em inglês, mas vinda de um lugar bem diferente. Era o título de um artigo científico que revolucionou a tecnologia moderna: “Attention Is All You Need (Atenção é tudo de que você precisa). Trata-se de um dos artigos científicos mais influentes da história recente da computação e da inteligência artificial. Foi publicado em 2017 por pesquisadores da Google Research. O artigo apresentou uma nova forma de ensinar máquinas a compreender a linguagem humana. Em vez de analisar as palavras uma a uma, os sistemas passaram a identificar relações entre elas e a concentrar sua atenção no que realmente importa.

Confesso que achei a coincidência curiosa. Os Beatles apostavam no amor. Os cientistas apostavam na atenção. Os primeiros falavam ao coração. Os segundos, aos algoritmos. Curiosamente, ambos pareciam procurar a mesma coisa: aquilo que dá sentido às relações. Entre um refrão e um algoritmo, existe uma distância enorme. Ou talvez não exista tanta assim. Pedi, então, à própria IA, que me explicasse a ideia central daquele estudo. Descobri que a grande inovação consistia em ensinar as máquinas a prestar atenção. Não a tudo ao mesmo tempo, mas ao que realmente importa. A identificar relações, conexões e significados escondidos entre palavras aparentemente dispersas.

Enquanto ouvia a explicação, tive a estranha sensação de que já conhecia aquela história. Não por causa dos computadores. Por causa, sim, da vida que vivi e dos textos que escrevi, aprendi, como consequência, que um texto costuma nascer de um detalhe quase invisível. Uma frase ouvida num café. Uma mancha num muro. Um carrapicho agarrado à roupa de um menino. Uma fotografia esquecida numa gaveta.

O escritor, principalmente o cronista raiz, recolhe esse pequeno fragmento da realidade e o deposita no início da narrativa, como quem planta uma semente. Depois segue seu caminho. Fala de memórias, de perdas, de alegrias, de política, de filosofia, de amores e despedidas. O leitor talvez nem perceba que aquela pequena semente continua ali, silenciosa, aguardando o momento de florescer. Então chega o final. E o detalhe reaparece. Já não é o mesmo. A mancha ganhou significado. A fotografia ganhou história. O carrapicho ganhou metáfora. O objeto permanece. Quem mudou foi o leitor.

Talvez seja por isso que as boas histórias nos acompanhem por tanto tempo. Elas nos ensinam que compreender não é apenas acumular informações. É descobrir relações. Os cientistas da inteligência artificial concluíram que uma máquina entende melhor uma linguagem quando aprende a prestar atenção às conexões entre as palavras. Os escritores, suspeito eu, vêm praticando algo semelhante há séculos. E talvez a vida inteira seja um exercício dessa mesma arte.

Nem sempre os acontecimentos mais importantes chegam anunciados por trombetas. Muitas vezes aparecem disfarçados de detalhe. Um encontro casual. Uma conversa breve. Uma lembrança antiga. Um gesto quase imperceptível. Só mais tarde percebemos que era ali que a história estava começando.

Os Beatles talvez tivessem razão ao dizer que o amor é tudo de que precisamos. Os pesquisadores talvez tenham razão ao dizer que a atenção é tudo de que precisamos. Pensando melhor, talvez uma coisa dependa da outra. Porque amar alguém é, antes de tudo, prestar atenção. E compreender a vida talvez seja apenas isso: reconhecer, entre milhares de ruídos, aquilo que merece permanecer conosco até o último parágrafo

 

Edson Pinto

Julho, 2026

3 de jul. de 2026

378) A BOLA E A ALMA

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"O futebol é uma construção psicossocial."

A frase me ocorreu enquanto assistia ao Brasil enfrentando o Japão pela Copa do Mundo que ora mobiliza a atenção planeta afora. À primeira vista, parece exagero. Afinal, trata-se apenas de vinte e dois jogadores correndo atrás de uma bola. Mas basta olhar um pouco além das quatro linhas para perceber que, há muito tempo, o futebol deixou de ser apenas um esporte.

Durante algumas semanas, o planeta parece reorganizar seus próprios sentimentos. Países inteiros suspendem, ainda que por instantes, as preocupações cotidianas para compartilhar uma expectativa comum. Milhões de pessoas, que jamais se encontrarão pessoalmente, experimentam a mesma ansiedade antes do apito inicial, o mesmo grito de gol, a mesma frustração diante da derrota ou a mesma alegria quase infantil da vitória.

É curioso observar que isso acontece em culturas muito diferentes. Povos expansivos e povos reservados, nações latinas e asiáticas, democracias consolidadas e países marcados por conflitos. Durante a Copa, todos parecem falar uma linguagem comum. A bola torna-se um idioma universal.

No Brasil, talvez esse fenômeno seja ainda mais visível. O brasileiro, já conhecido por sua espontaneidade, parece reencontrar uma versão mais luminosa de si mesmo. Multiplicam-se as bandeiras nas janelas, as conversas nas esquinas, os abraços entre desconhecidos e a esperança de que, por noventa minutos, tudo possa terminar bem.

Mas esse sentimento não é exclusivamente brasileiro. Basta olhar para as ruas de Buenos Aires, Tóquio, Rabat, Londres, Oslo, Seul ou Cidade do México. Em cada canto do planeta, o futebol desperta algo que vai muito além da competição. Ele fortalece o sentimento de pertencimento. Recorda às pessoas que fazem parte de uma história, de uma cultura e de uma comunidade.

Talvez seja esse o verdadeiro espetáculo. Não apenas o drible genial ou o gol improvável, mas a capacidade que o esporte possui de produzir uma emoção coletiva. Por alguns dias, milhões de indivíduos deixam de ser apenas indivíduos. Tornam-se uma torcida, uma nação, um povo.

Os sociólogos talvez expliquem esse fenômeno pelas identidades coletivas. Os psicólogos falarão do contágio emocional. Os economistas medirão os bilhões movimentados. Todos terão alguma razão.

Mas quem já assistiu a uma Copa sabe que há algo difícil de medir. Existe uma alegria compartilhada que atravessa fronteiras, idiomas, religiões e diferenças políticas. Como se, durante alguns instantes, a humanidade aceitasse brincar junta.

Talvez por isso o futebol seja muito mais do que um jogo. Ele é um dos raros momentos em que o mundo inteiro parece lembrar que, antes de sermos adversários, somos companheiros da mesma aventura humana.  Deus criou muitos idiomas para que os povos aprendessem a conversar, e o homem, depois de minimamente civilizado, inventou o futebol, sem necessidade de palavras, para que aprendessem a comemorar juntos.

 

Edson Pinto

Julho, 2026 

26 de jun. de 2026

377) A ARTE DE RESISTIR

Outro dia, num café, um amigo indignado me perguntou por que tantos políticos acabam envolvidos em escândalos. A pergunta não era nova. Nova era apenas a lista dos acusados. Mudam-se os nomes, mudam-se os partidos, mudam-se os discursos, mas os noticiários continuam frequentando os mesmos pecados com uma fidelidade que faria inveja a muitos casamentos.

Meu amigo, imagino,  queria uma explicação econômica, sociológica ou psicológica. Eu poderia ter recorrido aos clássicos. Poderia citar as estruturas de poder, os incentivos perversos, as fragilidades institucionais ou a insuficiência dos mecanismos de controle. Preferi, contudo, recorrer a uma metáfora.

— Imagine um homem entrando num lupanário.

Ele arregalou os olhos.

— Que comparação é essa?

— Tenha paciência! Imagine que o sujeito entre naquele ambiente por livre e espontânea vontade. Ninguém o obrigou. Ninguém o empurrou porta adentro. Foi porque quis.

— E daí?

— Daí que seria estranho vê-lo sair de lá, algumas horas depois, alegando ter sido surpreendido pelas tentações que encontrou.

Meu amigo riu.

A verdade é que certas atividades humanas possuem uma concentração extraordinária de tentações. Não obrigam ninguém a pecar. Apenas colocam o indivíduo diante de oportunidades constantes para fazê-lo. A política é uma delas. Não digo isso para condenar a política. Pelo contrário. Ela é necessária. Sem ela, restariam apenas a força, o caos ou a tirania. O problema não é a política. O problema é o ser humano.

Desde os tempos mais antigos, o homem demonstra uma habilidade impressionante para desejar justamente aquilo que não deveria desejar. Eva possuía todo o jardim, mas fixou os olhos no único fruto proibido. Esaú trocou uma herança por um prato de lentilhas. Judas vendeu sua lealdade por algumas moedas de prata. Até Cristo, segundo os Evangelhos, precisou enfrentar tentações no deserto. Se nem o paraíso escapou delas, por que escapariam os poderes da República?

Os gregos também conheciam o problema. Conta Platão a história do pastor Giges, que encontrou um anel capaz de torná-lo invisível. Convencido de que jamais seria descoberto, usou o poder para conquistar riqueza, influência e o trono. A pergunta de Platão atravessou os séculos. O que faria um homem se tivesse certeza da impunidade? A resposta, infelizmente, continua sendo escrita diariamente nos jornais. Mudam as manchetes. O enredo permanece surpreendentemente fiel ao original.

A política possui algo do anel de Giges. Nem sempre torna invisível quem exerce o poder, mas frequentemente cria a ilusão de invisibilidade. O sujeito começa honesto. Depois aceita um pequeno favor. Mais tarde faz uma concessão insignificante. Em seguida fecha os olhos para um detalhe administrativo. Quando percebe, já está negociando princípios como quem troca figurinhas.

A corrupção raramente chega montada num cavalo negro, com chifres e enxofre. Normalmente ela chega sorrindo. Traz justificativas. Apresenta planilhas, projetos de leis sob encomenda. Promete vantagens. Oferece exceções. Veste gravata. Em muitos casos, fala em nome do interesse público.

Há quem imagine que o poder corrompe. Não tenho tanta certeza. Talvez o poder revele. Talvez funcione como aquelas soluções químicas usadas pelos fotógrafos antigos. A imagem já estava ali. O líquido apenas a tornava visível.

O homem vaidoso torna-se mais vaidoso. O ambicioso torna-se mais ambicioso. O honesto, quando consegue resistir, torna-se exemplo. E é justamente por isso que os homens públicos verdadeiramente íntegros despertam tanta admiração. Não porque sejam perfeitos, mas porque caminham diariamente por um terreno minado sem perder a direção. Virtude em ambiente fácil tem pouco mérito. O verdadeiro teste acontece quando a tentação está ao alcance da mão.

Meu amigo permaneceu alguns instantes em silêncio. Depois perguntou:

— Então você acha que todo político é corrupto?

— Não. Da mesma forma que nem todo homem que entra num lupanário necessariamente se entrega aos seus encantos. A diferença é que, em ambos os casos, ninguém pode alegar desconhecimento dos riscos.

Encerramos o café e passamos a outro assunto, mas aquela pergunta continuou comigo. Talvez a questão central não seja por que tantos cedem à tentação, e sim outra, ainda mais importante.

Como alguns conseguem resistir?

 

Edson Pinto

Junho, 2026

19 de jun. de 2026

376) OS CARRAPICHOS DE PLATÃO

 

Ando com um problema. Não é grave. Não exige remédio. Não aparece nos exames laboratoriais nem preocupa os médicos. Pelo contrário. É um daqueles problemas que costumam atacar justamente quando a gente já deveria estar mais tranquilo. Uma ideia grudou em mim. Ou melhor, três: O Bem, o Belo e o Justo.

A famosa tríade de Platão resolveu instalar-se em minha cabeça sem pedir licença e, desde então, me acompanha para todo lado. Acordo pensando nela. Tomo café pensando nela. Vou ao computador pensando nela. Vejo televisão pensando nela. Às vezes chego a suspeitar que Platão alugou um quarto em algum canto da minha consciência.

Curiosamente, isso me fez recordar a infância: Quando eu era menino, morávamos em um bairro ainda cercado por terrenos baldios, capoeiras e pequenos matos que para nós pareciam florestas amazônicas. Eu e meus amigos passávamos bons momentos explorando aqueles territórios selvagens, travando batalhas imaginárias, caçando tesouros inexistentes e fugindo de perigos inventados. Era através do mato que encurtávamos a ida ao Mineirão ainda em construção na Pampulha dos anos 1960.

Voltávamos para casa em estado lastimável. As mães examinavam os filhos como fiscais de alfândega. Havia joelhos ralados, cotovelos esfolados, manchas de barro e, sobretudo, carrapichos. Carrapichos por toda parte. Para quem não conhece, o carrapicho é uma pequena invenção botânica destinada a testar a paciência humana. Ele se agarra à roupa, às meias, aos cadarços e, se tiver oportunidade, talvez até às ideias. Minha mãe passava longos minutos retirando aqueles invasores de minhas calças. Eu os arrancava. Ela os arrancava. A roupa voltava ao normal. Fim do problema. Pelo menos era o que eu pensava.

Décadas depois descobri que existem carrapichos mais persistentes. São os que se prendem ao pensamento. Algumas ideias têm exatamente esse comportamento. Agarram-se à consciência e se recusam a ir embora. Ultimamente, os carrapichos que me acompanham atendem pelos nomes de Bem, Belo e Justo. E eu me pergunto: O que é, afinal, o Bem? O que é o Belo? O que é o Justo?

Perguntas simples de formular e impossíveis de encerrar:  Será justo que um homem passe a vida produzindo riqueza e, ao final do dia, receba apenas uma fração do que ajudou a criar, enquanto o restante segue outros caminhos? Será belo um edifício moderno que substitui uma velha praça cheia de árvores? Será bom dizer sempre a verdade, mesmo quando ela produz sofrimento? Quanto mais penso, menos certezas encontro. Talvez seja por isso que essas perguntas sobrevivam há mais de dois mil anos. Elas não foram feitas para serem respondidas de uma vez por todas. Foram feitas para nos acompanhar.

Na juventude, eu acreditava mais nos absolutos. Imaginava que a maturidade traria respostas claras para quase tudo. A experiência, contudo, tratou de corrigir esse excesso de confiança. A vida mostrou que o mundo raramente entrega o Bem em estado puro, o Belo sem imperfeições ou o Justo sem alguma sombra de injustiça. O que encontramos, quase sempre, são aproximações. Pequenas aproximações. Um pouco de bondade aqui. Um pouco de beleza ali. Um pouco de justiça acolá. Nada perfeito. Nada definitivo. Talvez seja justamente por isso que continuemos procurando. Porque, se o ideal fosse plenamente alcançável, a busca terminaria. E o ser humano parece ter sido construído para caminhar. Não para chegar.

Penso que Platão talvez compreendesse isso melhor do que imaginamos. Talvez o Bem, o Belo e o Justo não sejam destinos. Talvez sejam bússolas. Ninguém alcança o horizonte, mas ele ajuda o viajante a escolher a direção. Ninguém toca as estrelas, mas elas orientaram navegadores durante séculos. Da mesma forma, talvez ninguém alcance plenamente o Bem, o Belo ou o Justo, mas a simples tentativa de aproximar-se deles já melhora a viagem.

Outro dia percebi que minha relação com essa velha tríade é parecida com a relação que eu tinha com os carrapichos da infância. A diferença é que aqueles eu podia arrancar. Estes, não. E talvez nem queira. Há perguntas que incomodam. Há perguntas que perturbam. Há perguntas que envelhecem conosco, mas existem algumas que fazem mais do que isso: Elas nos mantêm vivos.

Por isso, quando acordo e encontro novamente aqueles três velhos companheiros agarrados ao pensamento, já não reclamo. Apenas sorrio. Afinal, os carrapichos da infância ficaram perdidos em alguma calça antiga. Os de Platão continuam firmemente presos à alma.

Edson Pinto

Junho, 2026

12 de jun. de 2026

375) A LIÇÃO QUE NÃO ESTAVA NO CADERNO

 

Outro dia deparei-me com uma dessas notícias que costumam atravessar as redes sociais em velocidade recorde. Em geral, elas passam diante dos nossos olhos como nuvens de verão. Vemos, curtimos, comentamos e seguimos adiante. Esta, porém, resolveu ficar.

Contava a história de um brasileirinho de dez anos que entrou numa loja de informática e pediu licença para usar um tablet que tinha em exposição. O atendente consentiu. Sentado diante do aparelho, o garoto não abriu jogos, não procurou vídeos engraçados, não navegou por curiosidades passageiras. Tirou do bolso uma caneta, pegou o caderno escolar e começou a estudar, anotando detalhes.

A professora havia passado um trabalho de geografia. Em sua casa não havia computador, nem tablet, nem internet disponível. Havia apenas uma tarefa a cumprir e uma vontade obstinada de aprender. Confesso que a cena me fez pensar:

Vivemos num tempo muito curioso. Nunca houve tanta informação ao alcance das mãos. Carregamos bibliotecas inteiras no bolso. Conversamos com máquinas inteligentes. Assistimos a aulas produzidas pelos melhores professores do mundo. Em que pese isso, sabemos que, milhões de pessoas que  possuem acesso às ferramentas, demostram pouca disposição para utilizá-las. Aquele menino vivia a situação inversa. Faltavam-lhe os recursos, mas sobrava-lhe o desejo.

Talvez seja essa a diferença que nem sempre aparece nas estatísticas. A pobreza costuma ser medida pela ausência de bens materiais. Conta-se a renda, contam-se os metros quadrados da casa, contam-se os objetos disponíveis. Mais difícil, contudo, é medir a riqueza dos sonhos. O garoto não pediu brinquedos. Não pediu dinheiro. Não pediu favores. Pediu alguns minutos diante de uma tela para fazer a lição de casa. Enquanto muitos enxergam nos estudos uma obrigação, ele enxergava uma oportunidade.

A vida é, de fato, injusta. Alguns nascem cercados de conforto. Outros começam a corrida muitos quilômetros atrás da linha de partida. Não escolheram a família, o bairro, a escola ou as circunstâncias em que chegaram ao mundo.

Mas há algo que torna certas histórias inesquecíveis. De vez em quando surge alguém que, mesmo carregando o peso das dificuldades, recusa-se a abandonar os próprios sonhos. E então acontece o milagre mais simples de todos: Alguém observa. Foi o que ocorreu naquela loja. Os funcionários perceberam o esforço do menino. O proprietário soube da história e decidiu ajudá-lo. Um gesto pequeno para quem oferece. Gigante para quem recebe.

Muita gente acredita que o mundo muda apenas por grandes revoluções. Eu desconfio que ele também muda por pequenas gentilezas. Uma porta aberta. Um livro emprestado. Um professor que incentiva. Um desconhecido que estende a mão. Aquele garoto entrou na loja só para fazer um trabalho de geografia. Sem perceber, acabou ensinando uma lição muito mais importante, ou seja, aquela lição que não estava no caderno.

 

Edson Pinto

Junho, 2026

5 de jun. de 2026

374) O ROSTO QUE ESTÁ LÁ


Há dias em que o mundo parece tímido. Não se oferece inteiro. Vem em manchas, em sombras, em sinais incompletos, como uma parede antiga, dessas que já viram mais histórias do que nós. E então, como quem não suporta o vazio, o espírito humano começa a completar o quadro. Um risco vira um sorriso. Duas manchas, olhos. E eis que nasce um rosto onde antes havia apenas cal.

Minha irmã Celma jura que a mancha que tem no muro de seu quintal é a face de Jesus, generoso e piedoso iluminando com sorriso suave o seu lar e sua vida. Tanto acredita, que o pintor que repintava o muro teve que deixar aquela mancha intocada. Jesus continua lá. Isso faz bem à ela...

Descobri, não sem certo constrangimento, que isso tem nome elegante: “pareidolia”. Nome grego, desses que chegam com sandálias filosóficas e ar de quem sabe mais do que diz, mas, no fundo, trata-se de uma velha inclinação nossa, aquela de enxergar sentido onde há apenas sugestão, de ver rostos onde antes havia apenas manchas.

 Confesso que sempre simpatizei com esse defeito. Há nele uma espécie de ternura cognitiva. O cérebro, apressado e solícito, prefere errar por generosidade. Em vez de dizer “não sei”, ele arrisca um “talvez seja isto”. E, muitas vezes, acerta. Reconhecer um rosto no meio da multidão, distinguir um amigo à distância, perceber um perigo antes que ele se anuncie, tudo isso deve algo a esse pequeno exagero da percepção.

O engano, nesse caso, é produtivo. É um erro com vocação para acerto. Porém, e aqui entra a vírgula da vida, o mesmo mecanismo que nos salva no cotidiano pode nos trair no coletivo. Porque a pareidolia não se contenta com paredes e nuvens. Ela também se aventura pelos campos mais perigosos como a política, a fé, a vida social. Onde há incerteza, ela trabalha. Onde há ansiedade, ela prospera.

E assim, em tempos de confusão, surgem rostos onde há apenas contornos. Líderes são vistos como salvadores antes de serem compreendidos como homens. Discursos incompletos são preenchidos com esperanças inteiras. Um gesto vira caráter. Uma frase vira destino. E o que era apenas um traço ganha a densidade de uma face confiável. Criamos, com a mesma facilidade com que vemos figuras nas nuvens, os nossos pequenos, e às vezes grandes, messias...

Não se trata aqui de acusar a ingenuidade alheia. Seria injusto. Trata-se de reconhecer em nós mesmos essa pressa de significado. Esse desejo quase infantil de que alguém, enfim, dê forma ao caos. A pareidolia, quando sobe ao palanque, troca a inocência pela convicção, e aí já não é apenas percepção, é crença. E crenças, como sabemos, têm pernas longas.

Há, no entanto, uma defesa possível, discreta, quase silenciosa. Não consiste em abandonar a pareidolia, o que seria tão impossível quanto deixar de sonhar. Consiste, isto sim, em educá-la. Em saber que o rosto visto pode não estar lá. Em suspeitar, com elegância, das imagens que nos parecem perfeitas demais, porque o mesmo cérebro que inventa também pode revisar.

Talvez o verdadeiro aprendizado humano esteja nesse equilíbrio delicado, ou seja,  permitir-se ver antes de saber, mas aprender a duvidar depois de ver. Um passo à frente da intuição, outro ao lado da razão. Nem cego à imaginação, nem refém dela.

No fim das contas, a pareidolia nos ensina algo que raramente admitimos, o fato de  não vemos o mundo como ele é. Vemo-lo como conseguimos e, às vezes, como desejamos. Entre o que está e o que pensamos ver, constrói-se silenciosamente a nossa história.

 

Edson Pinto

Junho, 2026

29 de mai. de 2026

373) FARINHA DO MESMO SACO

 

Na rua de cima, onde o sol batia mais cedo e o tempo andava mais devagar, morava Pedro, velho amigo de Liberato. Bom de conversa, alma de filósofo, mas de histórico amoroso confuso. Estava, de novo, solteiro e só.

Era um bairro relativamente novo, mas já com poeira de velho. Aliás, eles envelheceram juntos. Ali, tudo o que era simples ganhava um ar de mistério, como se as galinhas soubessem segredos e os postes cochichassem à noite.

Margarida morava, também sozinha, na casa contígua à de Pedro. Balzaquiana em boa forma, era viúva de dois casamentos anteriores. Suspeitava-se, além disso, de ter dado cabo de um terceiro, que ninguém sabia se existiu, de fato, ou foi só invenção para dar tema às conversas da tarde. Tinha larga experiência de vida, e filosofava, como quem já viu demais...

Liberato foi prosar com Pedro na frente da casa deste. Estavam recostados no portão, como se recosta no tempo, só vendo o mundo passar. Diga-se, a propósito, que esse é o melhor jeito de aprender sem professor. Foi ali que Pedro, um tanto amargo com a vida e tocado pela desafortunada lembrança da mais recente paixão desfeita, soltou sobre ela:

— Já foi farinha de primeira. Agora virou farelo. Não dava mais para suportar.

Liberato, que já colecionava frases como quem coleciona figurinhas, ficou calado, anotando mentalmente o veneno. Mas, Margarida, vindo da casa do lado e que fingia escutar sem ouvir, como quem já ouvira aquilo antes, ergueu os olhos por cima do muro baixo e intercedeu, lançando uma sentença complementar, como quem crava prego em cruz:

— Farinha fina também vira farelo, quando esquece do saco de onde veio. No fim das contas, meus caros, é tudo farinha do mesmo saco.

Liberato percebeu que Margarida chamava Pedro pelo olhar, como quem continua uma conversa antiga. Pedro não teve como evitar de encarar Margarida ao ouvir a sentença, atitude típica dos homens que já foram íntimos demais. Havia entre Margarida e Pedro certa familiaridade silenciosa que os vizinhos atribuíam à amizade antiga. Os vizinhos, porém, erram muito... 

Liberato, espantado, sorriu de canto, com aquele constrangimento discreto dos homens que percebem ter sido incluídos numa conversa sem terem sido mencionados. Houve até um instante em que Margarida e Liberato evitaram os olhos um do outro. Foi rápido. Coisa pequena. Mas há pecados que passam inteiros dentro de um segundo.

Ficaram, Pedro e Liberato, parados. Até o silêncio pareceu encostar no muro. Foi como se Deus soprasse a poeira das suas vidas  e mostrasse que até o que brilha pode empanar. Pedro, com sua cara de quem entendeu pela metade, fez que sim com a cabeça. Liberato olhou para o chão, talvez procurando as migalhas, não sabia do quê.

Margarida voltou para dentro de sua casa, sem glória nem pressa, como se não tivesse acabado de jogar filosofia nas suas cabeças confusas. Pedro remoía seus envolvimentos, sua condição, seu destino. Liberato, o mesmo...

Convém ao leitor apressado não se apressar...

Se o leitor enxergou naquela conversa mais intimidade do que convinha à simples vizinhança, não discutirei com ele. Tampouco o confirmarei. A vida, como se sabe, raramente se deixa reduzir a atas e testemunhos, e menos ainda quando se trata de sentimentos. Esses, sim, são especialistas em esconder o essencial sob o trivial.

Dirá alguém que Margarida apenas filosofou. Pode ser. Há quem filosofe por hábito, como quem varre a calçada ao fim da tarde, mas há também os que, ao filosofar, deixam escapar, entre uma ideia e outra, restos de memória, pequenas confissões disfarçadas de sabedoria.

Quanto a Pedro, não lhe atribuo mais do que lhe cabe: um certo cansaço do mundo e uma disposição, talvez involuntária, para repetir os próprios enredos. Se isso o liga   a Margarida, não sei. Ou melhor: sei tanto quanto o leitor. E o leitor, diga-se, já sabe o suficiente.

Se houve entre ela e os dois amigos alguma afinidade além da vizinhança, deixo à imaginação de cada um, que é, no fundo, a única testemunha verdadeiramente interessada no caso. Eu, de minha parte, limitei-me a ouvir, ver e, com alguma suspeita, registrar. Porque, afinal, em matéria de gente, e de farinha, quase nunca se sabe ao certo o saco de onde veio, nem o destino que lhe aguarda. E talvez seja melhor assim...

 

Edson Pinto

Maio, 2026