25 de set. de 2026

390) OS PROFISSIONAIS DOS BASTIDORES

 

Já faz algum tempo, enquanto tomava um café na padaria de sempre, percebi que a mesa ao lado conversava num volume sonoro incompatível com qualquer pretensão de discrição. Não tive escolha. Em poucos minutos, passei a saber que um casamento caminhava para o fim, que um gerente seria demitido, que um sobrinho desperdiçara a herança da família e que uma respeitável senhora do bairro escondia mais segredos do que aparentava. Levantei-me sem conhecer o nome de nenhuma daquelas pessoas. Ainda assim, saí dali carregando um curioso arquivo de vidas alheias. Tudo gratuitamente, sem precisar assinar jornal algum.

Foi então que me ocorreu uma velha constatação. Muito antes da internet, dos grupos de WhatsApp, das redes sociais e dos canais de notícias em tempo real, a humanidade já cultivava um talento extraordinário para observar, interpretar, completar lacunas e espalhar versões dos fatos. Mudaram apenas os meios. A natureza humana continua praticamente a mesma. Os grandes escritores compreenderam isso muito antes dos sociólogos e dos algoritmos. Basta percorrer a literatura para encontrar uma galeria quase inesgotável de especialistas em corredores, bastidores e segredos.

Machado de Assis parecia nutrir especial simpatia por esses personagens. José Dias, em Dom Casmurro, talvez seja um dos mais elegantes cultivadores da insinuação. Raramente afirmava. Preferia sugerir. Plantava uma dúvida aqui, uma observação ali, um comentário aparentemente inocente. O restante ficava por conta da imaginação dos ouvintes.

Não muito diferente fazia o Conselheiro Acácio, criado por Eça de Queiroz. Cobria os lugares-comuns com um verniz de respeitabilidade e transformava trivialidades em profundas sentenças morais. Em torno dele, as convenções sociais valiam tanto quanto os próprios acontecimentos.

Shakespeare levou essa arte ao extremo ao criar Iago. Talvez nenhum personagem da literatura tenha compreendido tão bem que uma dúvida cuidadosamente colocada pode ser muito mais destrutiva do que uma mentira escancarada. Bastava insinuar. A imaginação das vítimas concluía o trabalho.

Também entre nós não faltaram observadores atentos das vidas alheias. Em O Cortiço, Aluísio Azevedo povoou o ambiente de personagens que pareciam conhecer a rotina dos vizinhos melhor do que a própria. Nas pequenas comunidades, informação sempre foi uma moeda valiosa.

Enquanto pensava nisso, ocorreu-me que talvez sejamos injustos quando chamamos tudo isso simplesmente de fofoca. A fofoca quase nunca se apresenta com esse nome. Ela costuma vestir roupas muito mais respeitáveis. Às vezes chama-se preocupação. Outras vezes recebe o nome de dever de informar. Em certas ocasiões prefere apresentar-se como transparência, bastidor, fonte bem-informada, informação exclusiva, vazamento ou simples curiosidade. Troca de roupa para não ser reconhecida. Talvez por isso continue gozando de excelente saúde.

Há, contudo, um ambiente em que a fofoca parece adquirir uma gravidade ainda maior: a política. Sobretudo em períodos eleitorais, rumores, insinuações, meias verdades e suspeitas cuidadosamente semeadas tornam-se instrumentos de disputa pelo poder. Muitas vezes, não se busca demonstrar a culpa de um adversário, mas apenas lançar sobre ele a sombra da dúvida. E a dúvida, uma vez instalada, costuma sobreviver até aos fatos e até aos desmentidos. Uma acusação infundada pode ser desmentida; a desconfiança que ela produz, nem sempre. É uma estratégia antiga e profundamente desonesta, porque procura conquistar votos não pela força das próprias ideias, mas pelo enfraquecimento da reputação alheia. Quem transforma a maledicência em ferramenta política talvez vença uma eleição, mas contribui para uma derrota muito maior: a da confiança que sustenta a própria vida pública.

Os jornais anunciam informações de bastidores. Os comentaristas revelam fontes reservadas. Os influenciadores dizem possuir notícias exclusivas. Nas empresas circulam rumores. Na política surgem vazamentos. Nas famílias aparecem parentes que sabem exatamente o que aconteceu, mesmo quando ninguém sabe ao certo o que realmente aconteceu, inclusive quem contou.

Vivemos cercados por especialistas em montar quebra-cabeças cujas peças jamais estiveram completas. O curioso é que quase todos condenamos a fofoca quando ela nasce na boca dos outros. Quando nasce na nossa, costuma receber nomes bem mais elegantes. Chamamo-la de análise. Comentário. Contextualização. Interpretação. Ou simplesmente conversa.

Enquanto seguia para o meu destino, pensei que talvez as velhas paredes realmente continuem tendo ouvidos. A diferença é que hoje os ouvidos também aprenderam a falar. E falam depressa. Muito depressa. Desde então, sempre que ouço alguém iniciar uma frase com as conhecidas palavras "não gosto de falar da vida dos outros, mas...", acomodo-me discretamente na cadeira. Aprendi que as maiores tempestades da reputação quase sempre começam exatamente depois desse pequeno "mas". Descobri, enfim, que a verdade costuma caminhar a pé, enquanto a fofoca prefere viajar de automóvel. Quando a primeira chega ao destino, a segunda já encontrou novos passageiros.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

18 de set. de 2026

389) A PRESSA DO TEMPO

 

Da minha janela, observo o Rio Verde correndo tranquilo entre as montanhas de Minas. Não sei se os rios têm consciência do tempo. Provavelmente não. Correm sem relógio, sem calendário e sem a menor preocupação com aniversários. Nós é que, olhando para eles, acabamos pensando nessas coisas.

Foi assim que me ocorreu uma pergunta que ultimamente me visita com alguma frequência: por que o tempo está passando tão depressa?

Tenho a impressão de que janeiro mal acabou de passar e dezembro já começa a bater à porta. As semanas parecem ter encurtado, os meses adquiriram uma pressa suspeita e os anos, que antigamente caminhavam, agora parecem correr.

Quando criança, era exatamente o contrário. As férias demoravam uma eternidade para chegar. O aniversário seguinte parecia pertencer a um futuro remoto. E dezembro, quando esperado em março, ficava tão distante que talvez estivesse localizado em outro continente. Um ano era uma enormidade. Hoje, mal guardamos os enfeites de Natal e alguém já começa a perguntar onde passaremos o próximo.

Evidentemente, o tempo não mudou. Um minuto continua tendo sessenta segundos, uma hora continua reunindo sessenta minutos e a Terra, ao que consta, não resolveu acelerar sua viagem em torno do Sol apenas para nos assustar. Se alguma coisa mudou, portanto, não foi o relógio. Fomos nós.

Há uma explicação curiosa para isso. Quando uma criança de cinco anos completa mais um ano, aquele período corresponde a um quinto de toda a vida que ela conhece. Para alguém de cinquenta, representa apenas um quinquagésimo. Aos setenta e oito, um ano é uma fração ainda menor da existência já vivida. Talvez nossa percepção do tempo obedeça menos ao calendário do que à proporção.

Há também outro cúmplice nessa aparente aceleração: a memória. A infância é povoada de primeiras vezes. O primeiro dia de escola, a primeira viagem, o primeiro amigo, a primeira bicicleta, o primeiro medo, a primeira paixão. Tudo é novidade e, por isso mesmo, tudo parece deixar marcas mais profundas. A criança percorre um território desconhecido. Cada esquina merece atenção.

Depois crescemos e inventamos uma coisa extremamente eficiente chamada rotina. Acordamos aproximadamente à mesma hora, fazemos as mesmas coisas, percorremos caminhos conhecidos, encontramos pessoas conhecidas. Os dias deixam de ser estranhos uns aos outros e começam a adquirir certo parentesco. Segunda-feira se parece com a segunda-feira anterior. Março guarda alguma semelhança com o março passado. Quando percebemos, já estamos dizendo aquela frase que nossos pais diziam e que jurávamos jamais dizer:

— Como este ano passou depressa!

Talvez o tempo não tenha acelerado. Talvez simplesmente estejamos deixando menos marcos pelo caminho. Pensei nisso enquanto continuava olhando o Rio Verde. Suas águas também passam diante da minha janela e nunca são exatamente as mesmas. Heráclito percebeu isso muito antes de nós. Não entramos duas vezes no mesmo rio porque, na segunda vez, outras são as águas e, acrescentaria eu, outro também é o homem que as contempla. Talvez envelhecer seja perceber isso com maior nitidez.

Na infância, olhamos principalmente pelo para-brisa. Há uma estrada imensa diante de nós e quase nada no retrovisor. Com os anos, o retrovisor vai se enchendo. Nele aparecem pessoas, lugares, amores, despedidas, vitórias, fracassos, escolhas que fizemos e outras que deixamos de fazer. A estrada à frente continua, mas agora sabemos que não é infinita. E talvez seja justamente essa consciência que faça a paisagem parecer correr mais depressa.

A boa notícia é que talvez exista uma maneira de enganar um pouco essa pressa, não acrescentando horas aos dias, façanha que nem os mais criativos fabricantes de relógios conseguiram realizar, mas acrescentando experiências às horas. Aprender alguma coisa nova. Conhecer um lugar diferente. Ler um autor desconhecido. Conversar com alguém que pensa de outra maneira. Mudar ocasionalmente o caminho. Surpreender-se. Imagino a novidade como uma espécie de freio psicológico do tempo.

Continuei algum tempo diante da janela. As montanhas permaneciam onde sempre estiveram. O Rio Verde seguia tranquilamente seu caminho, aparentemente indiferente às minhas especulações. Então compreendi que talvez estivesse fazendo a pergunta errada. Não é o tempo que passa depressa. Nós é que passamos. E, enquanto passamos, talvez a melhor maneira de retardar um pouco essa viagem seja deixar pelo caminho coisas suficientes para que a memória, quando olhar para trás, tenha onde se demorar.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

11 de set. de 2026

388) O FIO DA EMBIRA

 

Como de costume, tomava café com minha mãe. Aos 97 anos, ela conserva uma relação com as palavras que talvez nós, mais novos, estejamos perdendo. Entre um gole e outro, costuma temperar a conversa com ditados. Alguns conheço desde menino. “Quem não tem cão caça com gato”, “De grão em grão a galinha enche o papo”, “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Nada que provocasse espanto. Até aquele café.

Falávamos de alguém que atravessava uma fase difícil quando minha mãe comentou, com a naturalidade de quem informa que vai chover:

— Fulano está a lamber embira.

Parei com a xícara a meio caminho.

-— Lamber o quê?

— Embira.

Confesso que já ouvi muita coisa nesta vida, inclusive algumas que teria preferido não ouvir, mas nunca soubera de alguém condenado a lamber embira. Minha primeira providência foi descobrir o que significava aquilo. Aprendi que embira é o nome dado à fibra retirada da casca de certas plantas e utilizada, entre outras coisas, para fazer cordas. E que “lamber embira” é expressão antiga para designar quem passa necessidade, está sem recursos, quase na miséria.

Minha mãe sabia disso sem consultar dicionário algum. Foi então que percebi que, sentado àquela mesa de café, eu não estava apenas conversando com ela. Estava diante de uma pequena biblioteca de tradição oral. Os ditados populares são livros que desistiram das páginas. Viajam de boca em boca, atravessam gerações, mudam de cidade, às vezes trocam uma palavra pelo caminho e continuam carregando aquilo que talvez seja uma das formas mais antigas de conhecimento humano, a experiência.

Não sabemos quem foi o primeiro homem a descobrir que “quem semeia ventos colhe tempestades”. Provavelmente aprendeu da pior maneira. Também desconhecemos quem concluiu que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Suspeito que tenha perdido os três. Alguém precisou descobrir que “as aparências enganam”, outro percebeu que “a pressa é inimiga da perfeição”, e certamente houve quem chegasse tarde demais para compreender que “cavalo encilhado não passa duas vezes”. Depois vieram os outros e transformaram essas pequenas tragédias particulares em patrimônio coletivo. Talvez seja essa a genialidade dos ditados. Eles nos permitem aprender com os tombos de pessoas que nunca conhecemos.

A filosofia costuma precisar de tratados. O povo, mais econômico, prefere uma frase. Séculos de reflexão sobre perseverança cabem em “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Uma aula inteira sobre prudência pode ser substituída por “é melhor prevenir do que remediar”. Para ensinar responsabilidade pelas próprias escolhas, basta lembrar que “quem semeia ventos colhe tempestades”. E, se quisermos advertir alguém contra julgamentos precipitados, “quem vê cara não vê coração” resolve o problema antes que o filósofo termine a introdução. Não significa, evidentemente, que os ditados estejam sempre certos. Aliás, o povo teve a prudência de criar um ditado para cada lado da questão.

“Quem espera sempre alcança”, recomenda um. “Deus ajuda quem cedo madruga”, responde outro.

“A união faz a força”, aconselha um.  “Antes só do que mal acompanhado”, adverte outro.

“Nunca é tarde para começar”, consola um. “Cavalo encilhado não passa duas vezes”, apressa outro.

Se alguém quiser organizar os ditados populares num sistema filosófico perfeitamente coerente, talvez acabe precisando de outro ditado, “cada cabeça, uma sentença”. Essa aparente contradição, porém, não diminui sua sabedoria. Ao contrário. Mostra que a vida raramente cabe numa regra única. Há momentos em que é preciso esperar e outros em que é preciso madrugar. Há ocasiões para insistir e ocasiões para desistir. Às vezes devemos guardar o pássaro que está na mão. Em outras, talvez seja justamente necessário soltá-lo.

O verdadeiro conhecimento não está apenas em decorar o ditado. Está em saber quando ele serve. Talvez por isso essas frases tenham sobrevivido durante tanto tempo. Elas não nasceram em gabinetes, universidades ou academias. Foram sendo polidas pela experiência cotidiana, na roça, nas cozinhas, nas vendas, nas oficinas, nas ruas, nas conversas de família. Cada geração recebeu algumas, acrescentou outras e entregou o conjunto à seguinte.

Hoje fazemos isso menos. Temos buscadores, redes sociais, vídeos, inteligência artificial e uma quantidade de informação que nossos antepassados jamais poderiam imaginar. Podemos descobrir em segundos a distância entre a Terra e Saturno e, ainda assim, talvez demoremos uma vida inteira para compreender que “nem tudo que reluz é ouro”. A tecnologia aumentou extraordinariamente nossa capacidade de encontrar respostas. Não necessariamente nossa capacidade de fazer boas perguntas.

Os ditados pertencem a outro ritmo. São filhos de um tempo em que a experiência precisava ser guardada na memória porque não havia onde pesquisá-la. Para sobreviver, o conselho tinha de ser curto, sonoro e fácil de repetir. Talvez por isso tantos tenham chegado até nós. Outros, entretanto, começam a desaparecer.

E foi novamente para minha mãe que olhei. Aos 97 anos, ela guarda expressões que ouviu de pessoas que, por sua vez, as ouviram de outras pessoas. Algumas talvez tenham atravessado um século antes de chegar àquela mesa de café. Não sei quem ensinou a minha mãe que alguém em dificuldades estava “a lamber embira”. Talvez ela própria já não se lembre. E isso pouco importa. A tradição oral não costuma fornecer recibo. Ela apenas entrega.

Foi impossível não me lembrar de Luís da Câmara Cascudo, que dedicou boa parte da vida a recolher justamente essas coisas aparentemente pequenas que o povo diz, repete e transmite. Cascudo compreendeu que a cultura de um povo não mora apenas nos livros, nos monumentos ou nos grandes acontecimentos históricos. Mora também nas histórias contadas à mesa, nas superstições, nas cantigas, nas expressões e nos ditados que passam de uma geração para outra sem que ninguém saiba ao certo quem os inventou. Talvez por isso tenha levado tão a sério aquilo que muitos consideravam apenas conversa de gente antiga. Sabia que, quando uma expressão popular desaparece, não perdemos somente algumas palavras. Perdemos também um jeito de compreender o mundo.

De repente compreendi que preservar esses ditados não é apenas conservar curiosidades linguísticas. É preservar uma determinada maneira de observar a vida. Dentro deles estão o medo da pobreza, a importância do trabalho, a prudência diante do risco, a esperança, a desconfiança, o amor, a amizade, a paciência e até uma certa resignação diante daquilo que não podemos mudar. Há neles ingenuidade, preconceitos de outras épocas e conselhos que o tempo tornou discutíveis. Convém não transformar a sabedoria popular em escritura sagrada. O povo também erra. Ainda assim, impressiona perceber quanta experiência humana cabe em tão poucas palavras. Talvez pudéssemos ser um pouco mais felizes se prestássemos atenção a algumas delas. Não porque nossos antepassados soubessem todas as respostas, mas porque já haviam cometido muitos dos erros que continuamos cometendo com extraordinária originalidade.

Terminei o café pensando nisso.

Minha mãe provavelmente nem percebeu a pequena revolução filosófica que provocara. Para ela, alguém estava simplesmente a lamber embira. Para mim, aquela embira tinha se transformado num fio. Um fio muito antigo, vindo de pessoas que não conheci, passando pela memória de minha mãe e chegando até mim. Talvez tradição seja exatamente isso. Segurar o fio antes que ele se rompa.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

4 de set. de 2026

387) AS MULHERES DEIXARAM ATENAS?

 

Outro dia, ouvi novamente a velha canção de Chico Buarque e Augusto Boal, Mulheres de Atenas. Bastaram os primeiros versos para que voltassem à memória aquelas mulheres  habitantes de uma cidade celebrada como berço da democracia, embora essa democracia tivesse o curioso hábito de deixar as mulheres do lado de fora.

Na Atenas antiga, a mulher livre podia ser respeitada dentro de casa e praticamente inexistir fora dela. Não votava, não participava das decisões políticas e vivia submetida a uma ordem construída essencialmente pelos homens. Atenas inventou a democracia. Apenas esqueceu de convidar as mulheres para a inauguração.

Em 1976, Chico e Boal recuperaram aquela imagem. A canção recomendava, ironicamente, que as mulheres se mirassem no exemplo das atenienses, que viviam para os maridos, esperavam, sofriam e se submetiam. Ao recomendar o exemplo, os autores revelavam o absurdo dele. Cinquenta anos se passaram. Onde estão hoje as mulheres de Atenas?

Procurei-as nas universidades e encontrei professoras e pesquisadoras. Nos hospitais, médicas e cirurgiãs. Nos tribunais, advogadas, juízas e ministras. Nas empresas, executivas, engenheiras e empresárias. Até na política as encontrei, embora ainda em número menor do que seria razoável. Talvez, pensei, finalmente tenham deixado Atenas.

Mas bastou olhar um pouco melhor. Encontrei uma mulher saindo do trabalho e telefonando para saber quem buscaria o filho na escola. Outra encerrava uma reunião pensando no jantar. Uma terceira, depois de uma jornada inteira fora de casa, começava outra dentro dela. O marido ajudava. A palavra me incomodou.

Ajudava?

Quem ajuda participa de uma responsabilidade que, aparentemente, pertence a outra pessoa. Talvez Atenas estivesse escondida justamente ali, dentro do verbo. É evidente que o caminho percorrido foi enorme. As mulheres conquistaram autonomia, direitos e espaços que durante séculos lhes foram negados. Seria absurdo ignorar essa transformação. O problema é que mudamos as leis mais depressa do que mudamos os costumes. E os costumes mais depressa do que certas expectativas que carregamos quase sem perceber.

Uma menina hoje pode sonhar em ser presidente, cientista, astronauta ou empresária. Isso é extraordinário. Restam perguntas bem menos extraordinárias: Quando ela voltar para casa, quem lavará a louça? As mulheres deixaram Atenas? Em grande medida, sim. Só não tenho certeza de que Atenas tenha deixado completamente as mulheres. Ou, pensando melhor, talvez Atenas ainda não tenha deixado completamente nenhum humano, porque certas cidades desaparecem dos mapas muito antes de desaparecerem dos costumes.

 

Edson Pinto

Setembro, 2026

28 de ago. de 2026

386) O BARÃO E SEUS DISCÍPULOS

 

Hieronymus Karl Friedrich von Münchhausen nasceu na Alemanha no século XVIII e teve uma vida que, ao que tudo indica, foi bem menos extraordinária do que aquela que resolveu contar. Militar e extraordinário contador de histórias, tornou-se célebre pelos relatos que fazia em rodas de amigos, nos quais a realidade entrava pela porta e, poucos minutos depois, saía pela janela.

Em suas aventuras, viajou montado numa bala de canhão, foi à Lua, encontrou um cervo com uma cerejeira crescendo entre os chifres e chegou a salvar a si próprio e ao cavalo de um pântano puxando-se pelos cabelos. Arquimedes precisou de um ponto de apoio para mover o mundo. Ao Barão bastou-lhe a própria cabeleira. Suas histórias foram transformadas em literatura, principalmente por Rudolf Erich Raspe, e Münchhausen acabou emprestando seu nome à posteridade como sinônimo de exagero e mentira deslavada.

Talvez tenhamos sido injustos com ele. O Barão mentia, é verdade. Entretanto, havia em suas mentiras um contrato silencioso. Ele sabia que estava mentindo, o ouvinte também sabia e, provavelmente, o Barão sabia que o ouvinte sabia. Estavam todos de acordo. A mentira era uma brincadeira. O problema é que os séculos passaram e a mentira descobriu novas profissões. Uma delas foi a política.

Não que a política tenha inventado a mentira. Seria atribuir-lhe uma originalidade que certamente não merece. A mentira provavelmente nasceu poucos minutos depois da linguagem, quando o primeiro homem descobriu que poderia usar as palavras não apenas para contar o que acontecera, mas aquilo que lhe convinha que os outros acreditassem ter acontecido.

Foi então que o velho Barão ganhou discípulos. A diferença é que Münchhausen queria arrancar uma gargalhada. Seus sucessores pretendem arrancar um voto. E ganharam ferramentas que o mestre jamais possuiu. O Barão tinha uma mesa, alguns amigos e sua imaginação. Seus discípulos têm microfones, televisão e redes sociais. Uma falsidade pode ser repetida milhares de vezes antes que alguém tenha tempo de perguntar se é verdadeira. Ainda assim, talvez estejamos sendo injustos também com as máquinas. Máquinas não acreditam. Nós acreditamos.

E aí começa a parte menos confortável da história. Nem sempre somos enganados porque alguém mente muito bem. Às vezes somos enganados porque alguém mente exatamente aquilo que gostaríamos que fosse verdade. A mentira política conhece nossos medos, nossas raivas e nossos ressentimentos. Se fala mal de quem já não apreciamos, melhor ainda. Nossa exigência de provas diminui na mesma proporção em que aumenta nossa vontade de compartilhar. Uma pessoa repete. Dez compartilham. Mil comentam. Um milhão acredita. E a mentira ganha aquilo que nenhuma mentira deveria possuir: uma multidão.

Imagino então o velho Münchhausen diante de alguns discursos contemporâneos. A princípio sorriria. Depois ficaria admirado. Por fim, talvez sentisse inveja. Passara a vida aperfeiçoando a arte do exagero e descobriria, mais de dois séculos depois, que havia se tornado um amador.

Há, porém, uma diferença fundamental. Münchhausen precisava tornar suas mentiras inacreditáveis para que fossem engraçadas. Seus discípulos precisam torná-las acreditáveis para que sejam úteis. Talvez por isso, depois de conhecer nossos palanques e redes sociais, o Barão resolvesse regressar ao século XVIII. Montaria em seu cavalo, ajeitaria o casaco e lançaria um último olhar para nós. Não sei se estaria decepcionado com os políticos. Suspeito que estaria mais preocupado conosco. Afinal, durante toda a vida ele contou mentiras monumentais e teve a delicadeza de não exigir que ninguém acreditasse nelas.  Antes de partir, balançaria a cabeça e diria:

— Meus senhores, também não precisava exagerar tanto.

 

Edson Pinto

Agosto, 2026

21 de ago. de 2026

385) A VIDA EM ADVÉRBIOS

 O advérbio é a luz que não muda a paisagem, mas muda inteiramente a maneira de vê-la. Edson Pinto

Aprendi o que era um advérbio numa idade em que tinha coisas muito mais importantes com que me preocupar. Havia recreios, bolas, colegas, provas, férias e uma quantidade considerável de meninas que começavam a tornar a gramática portuguesa um assunto de importância bastante relativa.

A professora explicava que advérbio era a palavra que modificava o verbo, o adjetivo ou outro advérbio, acrescentando-lhe uma circunstância de tempo, modo, lugar, intensidade, afirmação, negação ou dúvida. Anotei tudo disciplinadamente. Talvez tenha até acertado a questão na prova. Depois disso, guardei o advérbio numa dessas gavetas mentais onde depositamos os conhecimentos escolares que julgamos não voltar a encontrar.

Enganei-me.

Hoje, depois de muitos anos de convivência com as palavras nos meus livros e no meu blog, e de uma convivência ainda mais longa com a vida, começo a suspeitar que aquela professora tentava me ensinar muito mais do que gramática. Eu é que era jovem demais para perceber. A juventude tem esse pequeno defeito. Aprende depressa aquilo que ainda não tem idade para compreender.

Sabemos o significado de “sempre” antes de termos vivido tempo suficiente para desconfiar dele. Dizemos “nunca” com uma segurança que somente os jovens possuem. Pronunciamos “amanhã” como se tivéssemos assinado contrato de propriedade sobre o futuro. E usamos “talvez” apenas quando estamos em dúvida, sem imaginar que, muitos anos depois, descobriremos que boa parte da existência cabe exatamente dentro dele.

O substantivo, reconheço, é importante. Dá nome ao mundo. Casa, rio, árvore, homem, mulher, saudade. Sem ele, andaríamos por aí apontando para as coisas.

O verbo é ainda mais atrevido. Faz o mundo funcionar. Nascer, correr, trabalhar, amar, partir, voltar. Sem verbos, a humanidade seria uma fotografia.

O adjetivo chega depois e começa a distribuir opiniões. A casa é bonita, o rio é tranquilo, a árvore é antiga, o homem é sábio, a mulher é encantadora. O adjetivo tem algo de crítico literário. Nada lhe basta existir. É preciso qualificá-lo.

Então aparece o advérbio. Discreto, quase modesto, aproxima-se do verbo e cochicha uma circunstância. Não basta amar. Pode-se amar profundamente. Não basta esperar. Pode-se esperar pacientemente. Não basta partir. Pode-se partir cedo. Não basta chegar. Pode-se chegar tarde.

E descobri, com certo atraso, que a vida talvez esteja menos nos verbos do que nos advérbios que os acompanham. Todos vivemos. A questão é como. Todos partiremos. A questão é quando. Todos estamos em algum lugar. A questão é onde. E todos desejamos alguma coisa. A questão, frequentemente, é quanto. A gramática chama isso de circunstância. A filosofia talvez chamasse de existência. Há advérbios que, vistos da maturidade, adquiriram para mim uma grandeza que os livros escolares jamais conseguiram revelar.

Quase, por exemplo. Que palavra perigosa. Quase fui. Quase disse. Quase consegui. Quase voltei. Quase amei. Há vidas inteiras escondidas dentro de um quase. Ele é uma espécie de varanda da realização. Chegamos até ali, vemos a paisagem, mas não entramos na casa.

Nunca é diferente. Nunca é um sujeito autoritário. Apaga a luz, fecha a porta e ainda leva a chave. Talvez por isso devêssemos pronunciá-lo com mais cautela. A vida possui certa predileção por desmentir quem diz nunca.

Sempre não é muito melhor. É romântico, exagerado e irresponsável. Faz promessas eternas com a facilidade de quem não será chamado a prestar contas depois de cinquenta anos.

Já o talvez me parece mais sábio. Quando jovem, eu o considerava hesitante. Hoje o considero prudente. Talvez conhece a fragilidade das certezas humanas. Sabe que o futuro não costuma consultar nossos planos antes de acontecer. Há alguma coisa de filósofo cético nesse pequeno advérbio.

Mas há um de que gosto especialmente.

Ainda. Ainda é uma palavra que a juventude desperdiça porque possui futuro demais para precisar dela. É somente depois que o calendário acumula páginas que começamos a compreender sua delicadeza. Ainda caminho. Ainda penso. Ainda me surpreendo. Ainda tenho curiosidade. Ainda espero. Ainda escrevo. O “ainda” não nega o tempo. Ao contrário, reconhece-o. Sabe que muita coisa passou, mas recusa-se educadamente a admitir que tudo tenha passado.

Talvez seja por isso que hoje compreendo melhor aquela velha definição da professora. O advérbio modifica o verbo, o adjetivo e até outro advérbio. Passou a vida inteira modificando também a mim, sem que eu percebesse. Aos poucos, fui aprendendo que não basta viver. É preciso perceber como vivemos. Não basta saber onde chegamos. Convém lembrar de onde viemos. Não basta perguntar quanto tempo nos resta. Talvez seja mais importante perguntar com que intensidade habitaremos o tempo que temos.

Curioso. Precisei envelhecer para compreender uma aula de português da infância. Se encontrasse hoje aquela professora, talvez lhe dissesse que finalmente aprendi o advérbio. Ela provavelmente perguntaria se demorei tanto assim. Eu responderia:

— Demorei.

E, depois de pensar um pouco, acrescentaria o advérbio que explica quase toda a minha relação com a vida:

— Muito.

 

Edson Pinto

Agosto, 2026

14 de ago. de 2026

384) O MEU PRÓPRIO B-612

Quando li pela primeira vez O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry, eu era um menino sério, daqueles que tentam, ao contrário do personagem filosófico do livro, desenhar jiboias por dentro, mas acabam se contentando com elefantes por fora.

Publicado em 1943, em meio a um mundo em guerra, o livro atravessa o tempo como um sussurro cheio de ternura. Sob a aparência de um conto infantil, abriga em suas páginas uma das mais delicadas e profundas meditações sobre a vida, o amor, a amizade e o sentido da existência. Arrisco-me até mesmo a dizer que é só na maturidade que nos encontramos em plenitude para compreendê-lo.

Fiquei intrigado com aquele tal Planeta B-612, pequeno, solitário e cheio de significado. O que me espantou não foi o planeta em si, mas a revelação de que cada um de nós carrega o próprio B-612 dentro do peito. Só que, ao contrário do Pequeno Príncipe, que vivia com sua rosa e três vulcões, o meu planeta tinha outras coordenadas, e outras rosas também...

O meu B-612 fica entre a fictícia Vila dos Ventos e o bairro do Caiçara, em Belo Horizonte, onde passei minha infância e juventude. Esses dois lugares remetem a dois de meus livros, O Resgate do Tempo Perdido e Memórias do Caiçara. Estão, portanto, fora do alcance de telescópios modernos, embora qualquer menino com um pouco de saudade seja capaz de enxergá-lo. Não se encontra em mapas celestes, mas mora nos desvios da memória, onde a infância resolveu se esconder.

Na Terra, tenho nome, CPF, compromissos, sentimentos, dores, memórias, mas, no meu planeta fictício, sou apenas o menino que se lembra demais, como se a lembrança fosse um tipo de combustível cósmico. Lá, também, a fictícia Vila dos Ventos continua intocada. O sino da igreja ainda toca como se anunciasse o retorno dos que nunca voltam. E a praça? Ah, a praça ainda abriga encontros no banco perto do coreto e histórias que a memória conserva melhor que  o cheiro de pão de queijo saído do forno.

No Caiçara de minhas memórias, meu pai ainda caminha com as mãos nos bolsos e chapéu de feltro. Os ex-combatentes, que até recentemente ainda estavam por aqui, mas já partiram todos, contavam histórias que misturavam a Segunda Guerra com o nascimento do bairro, como se Monte Castelo e o Caiçara fossem vizinhos de muro. No planeta, Laurinha ainda penteia os cabelos na varanda. E juro que ela me olha. Não com os olhos da infância, mas com aqueles que dizem: “Era você o tempo todo, seu distraído!”

Tenho também três vulcões, embora o terceiro só entre em erupção quando ouço certas músicas ou sinto o cheiro de cadernos antigos. Tenho a minha própria rosa. Companheira fiel, sensível, com seus espinhos e exigências, como toda rosa que se preze. Dedico a ela rega constante de boas lembranças, adubo de palavras carinhosas e ausência de vento. Mesmo quando esqueço de cuidar, ela insiste em florir. Talvez seja amor, talvez seja teimosia vegetal,  ou talvez porque, antes de partir, tenha plantado sementes no nosso jardim.

A vida no B-612 não exige documentos. Apenas silêncio, tempo e um pouco de coragem para se comover. Lá, os pores de sol obedecem à emoção do dia: se a saudade é grande, eles se repetem até que eu me acalme. Já assisti a doze deles de uma só vez. E, em todos, ouvi o mesmo sussurro: “O essencial é invisível aos olhos.”

Volto ao meu planeta quando posso. Às vezes, uma palavra me leva. Outras, um cheiro. Às vezes, basta uma tarde em que o mundo parece não fazer sentido. E então lá estou, sentado numa cadeira imaginária, contemplando o que só existe porque um dia existiu. Os adultos diriam que esse planeta é invenção. Que não existe. Que é escapismo, romantismo, delírio literário. Talvez…

Aprendi com a raposa, não com aquela que habita os arredores da Pampulha, pois sou atleticano de fé, que só conhecemos bem aquilo que nos cativa. Fui cativado. Pela Vila dos Ventos, pela rosa que me desafiava com seus espinhos, pelas ruas numeradas e calçadas de pedras irregulares do Caiçara, pelas mulheres que passaram pela minha vida, pelos silêncios do meu pai e pelas palavras que nunca disse, mas que ecoam em mim como se fossem um idioma secreto.

O meu B-612 é isso: um planetinha só meu, onde as dores são pequenas, os afetos têm nome e os pores de sol sabem esperar. É desse pequeno planeta que nascem muitas das crônicas que eu publico em meu blog. Cada texto é uma pedra, uma flor, uma estrela ou um pôr do sol do meu planetinha. Quem quiser pousar está convidado. Não precisa traje espacial.

Basta trazer o coração desarmado.

 Edson Pinto

Agosto, 2026



7 de ago. de 2026

383) A INTELIGÊNCIA E SUAS FERRAMENTAS

Há uma curiosa ilusão que parece acompanhar todas as grandes invenções da humanidade. Sempre que surge uma nova ferramenta, alguém anuncia o fim do mérito humano. Foi assim com a escrita, com a imprensa, com a máquina de calcular, com o computador e, agora, com a inteligência artificial. Como se o valor de uma obra estivesse na dificuldade do instrumento utilizado, e não na grandeza da ideia que lhe deu origem.

A história, entretanto, conta uma versão bem diferente: Nenhum grande criador trabalhou sozinho. Cada geração recebeu como herança o conhecimento acumulado pelas anteriores e, sobre esse alicerce, construiu novos horizontes. Newton reconheceu que enxergava mais longe porque estava sobre os ombros de gigantes. Einstein desenvolveu sua teoria apoiando-se na matemática, na física e nas descobertas de muitos outros pesquisadores. Cervantes escreveu utilizando uma língua que levou séculos para se formar. Beethoven compôs ao piano. Nenhum deles começou do zero. Nenhum precisou renunciar às ferramentas disponíveis para provar o próprio talento.

Talvez resida aí um dos maiores equívocos de nosso tempo. Confundimos, por vezes, o valor da inteligência com a simplicidade dos instrumentos de que ela dispõe. Esquecemos que a criatividade nunca nasceu do isolamento, mas do diálogo permanente entre a mente humana e os recursos que ela própria inventa.

A inteligência artificial é apenas o capítulo mais recente dessa longa história. Ela não cria sensibilidade onde ela não existe. Não produz discernimento em quem nunca o cultivou. Não substitui experiência, imaginação, caráter ou sabedoria. Essas continuam sendo conquistas exclusivamente humanas. O que ela faz é ampliar possibilidades.

Nas mãos de um pesquisador, pode acelerar descobertas. Nas de um professor, enriquecer o aprendizado. Nas de um escritor, ajudar a organizar ideias que já estavam em gestação. Nas de um artista, abrir novos caminhos para a criação. Mas nenhuma dessas realizações pertence à máquina. Continuam pertencendo ao ser humano que pergunta, escolhe, interpreta, aceita ou rejeita cada sugestão. Toda ferramenta amplia capacidades, mas nenhuma substitui a inteligência que lhe dá direção.

É verdade que a inteligência artificial também traz riscos. Como toda inovação poderosa, pode ser usada para manipular, desinformar, copiar, vigiar ou produzir dependência intelectual. Ignorar esses perigos seria ingenuidade. Mas condenar uma tecnologia apenas porque ela pode ser mal utilizada seria esquecer que quase todas as grandes invenções da história carregaram a mesma ambivalência. A imprensa difundiu conhecimento e propaganda. A química produziu medicamentos e venenos. A energia nuclear iluminou cidades e destruiu outras. O problema nunca esteve apenas nas ferramentas. Sempre esteve, sobretudo, nas mãos que as conduzem.

A verdadeira questão não é saber se devemos utilizar a inteligência artificial. A pergunta mais importante é outra. Estamos preparando pessoas capazes de utilizá-la com responsabilidade, espírito crítico e criatividade? As ferramentas mudam. O desafio humano permanece.

Cada época exige competências diferentes. Houve um tempo em que o mérito estava em memorizar informações. Depois, em encontrá-las rapidamente. Hoje, começa a estar na capacidade de formular boas perguntas, distinguir o verdadeiro do falso, estabelecer relações inesperadas e produzir ideias que nenhuma máquina é capaz de viver antes de escrever. A inteligência artificial pode organizar palavras, mas não vive nossas experiências. Não sofre nossas perdas. Não conhece nossos afetos. Não constrói nossa consciência. Ela amplia a voz. Não cria a alma.

Faz, então, sentido que não veja a inteligência artificial como uma ameaça à inteligência humana, mas como um espelho. Ela torna mais evidente aquilo que sempre esteve diante de nós. Ferramentas nunca produziram gênios. Apenas revelaram, com mais clareza, o que cada pessoa era capaz de fazer com elas.

A história raramente sorriu para aqueles que recusaram olhar pelo telescópio, abrir um livro recém-impresso ou ligar um computador. Em geral, ela avançou graças aos que tiveram coragem de experimentar, aprender e seguir adiante. Talvez esteja acontecendo exatamente a mesma coisa diante de nossos olhos.

 Edson Pinto

Agosto, 2026

31 de jul. de 2026

382) OLHOS LONGES

 

Eu, da minha janela, fito o Rio Verde que corre ali adiante. Não me perguntem por que sempre acabo diante dele, como se a água tivesse mais respostas que os homens. Talvez seja porque o rio, com sua pressa disfarçada de calma, me empresta a metáfora de meus próprios pensamentos: sempre a correr, mas fingindo que repousam. Foi assim que percebi os meus, e, ouso acreditar, também os seus: "olhos longes".

Não são olhos míopes, tampouco cegos. São olhos que enxergam, mas não se contentam em ver o que está posto. Enquanto a cabeça geme de memórias e o café esfria na xícara, eles se projetam para o ontem e para o amanhã, como se o presente fosse apenas uma escada entre dois andares mais interessantes.

De minha parte, confesso: tenho-os.  Os “olhos longes” são meus companheiros. Não raro, em vez de água, vejo os meninos que fomos, correndo descalços à beira do tempo. Outras vezes, olho o mesmo rio e, não sei como, já avisto meus netos correndo adiante de mim, navegando em barcos de papel, que serão absorvidos pela primeira chuva.

E assim vou, com os “olhos longes”: ora ancorados na infância, ora vagueando pelo futuro, e quase nunca assentados no agora, como seria mais prudente. A prudência, aliás, é coisa que se perde justamente nos “olhos longes”. Eles não obedecem a convenções, preferem vagar.

Machado de Assis, se aqui estivesse, riria de minha fraqueza. Diria que, se me faltam respostas no presente, invento-as no passado ou no futuro. E não estaria errado. Eu, sem lhe pedir licença, retruco: se é verdade que os “olhos longes” nos afastam da realidade, também é verdade que nos salvam dela.

Se o amigo me perguntar de onde tirei esses tais “olhos longes”, direi que não os inventei: apenas os encontrei em mim mesmo e, quem sabe, também nos outros. São herança da literatura e da vida. Drummond os usou para enxergar Itabira quando já estava longe de Itabira; Cecília, para ver a claridade que não era do dia, mas da eternidade; e Machado, sempre desconfiado, talvez preferisse chamá-los de olhos vagos, talvez temendo que neles se escondesse um segredo de amor ou de filosofia.

Penso afinal concluir, caros amigos, que “olhos longes” sejam como rios: às vezes, não se  sabe exatamente onde começam nem onde acabam. Apenas seguem, carregando consigo o passado, o futuro e esse presente que, de tão breve, já se despede no instante em que piscamos.

Edson Pinto

Julho, 2026

 

Nota do autor:

Olhos Longes, Olhos Lointains: Há palavras que viajam mais do que a gente. O longe, por exemplo, começou discreto, um simples advérbio latino, longe, significando “à distância”.  Servia para dizer que a coisa não estava aqui, mas acolá. Nada demais, até que os poetas resolveram dar-lhe uma segunda vida. De advérbio obediente, virou substantivo rebelde: “os longes”. Pronto, em vez de uma única distância, surgiram horizontes múltiplos, miragens infinitas. Não fomos só nós, lusófonos, que tivemos esse capricho. Do outro lado do Atlântico, os franceses já falavam em “les lointains”. Victor Hugo suspirava nos lointains bleus du rêve, Verlaine deixava que os lointains se desfizessem em música, e Baudelaire via perfumes e sons confundirem-se “de loin”. Tudo muito parisiense, nebuloso e elegante. E cá deste lado, Olavo Bilac correu “países longes”, Cecília Meireles pediu aos cavalos do vento que a levassem a “longes verdes”. Pessoa escutou também “os longes” chamando por ele. Não era plágio, mas ressonância. O simbolismo francês sussurrava em francês, e nós respondíamos em português. E eis que surge a expressão “olhos longes”. Não é mero deslize gramatical, mas um atestado poético: olhos que não estão aqui, mas espalhados em mil horizontes. Olhos que contemplam lembranças, saudades, esperanças, tudo ao mesmo tempo. Singular seria pouco; a alma precisa de plural.  Dirá o gramático: “Mas por que não ‘olhos longe’?”. Ao que responde o poeta: “Porque só os ‘olhos longes’ conseguem olhar o que não existe ainda, e ainda assim enxergar.” E talvez seja isso: quando dizemos “olhos longes”, estamos falando em português com um sotaque francês, ou em francês com a melancolia mineira. No fundo, estamos nomeando um estado de espírito: aquele em que o olhar atravessa fronteiras e se perde em horizontes que ninguém mais vê.

24 de jul. de 2026

381) O TEMPO QUE MORA EM NÓS

 

Tomando um café com um velho amigo, a conversa enveredou por um assunto que eu jamais imaginei encontrar fora de uma sala de aula de física. Ele me perguntou:

— Você sabe explicar esse tal de espaço-tempo de Einstein?

Sorri e respondi que não. Ou melhor, respondi que entendia apenas o suficiente para saber o quanto ainda não entendia. Ele riu. Eu também.

Voltando para casa, a pergunta continuou me acompanhando. Talvez porque alguns assuntos não terminem quando a conversa acaba. Pelo contrário. É justamente aí que começam. Resolvi procurar uma explicação. Descobri que, segundo Einstein, espaço e tempo não são duas coisas independentes. Formam uma única estrutura. Nada existe apenas em um lugar. Tudo existe também em determinado instante. O Universo não separa aquilo que nossa linguagem insiste em dividir. Confesso que a explicação científica ainda me escapa em muitos detalhes, mas, curiosamente, a metáfora me pareceu cristalina. Afinal, ninguém vive apenas no espaço. Vivemos, sobretudo, no tempo.

Duas pessoas podem estar sentadas no mesmo banco de uma praça. Aos olhos de quem passa, ocupam o mesmo espaço. No entanto, cada um traz consigo um universo invisível. Uma carrega a infância no bairro em que cresceu, o primeiro emprego, os sonhos de rapaz, os filhos que cresceram, a companheira que a vida levou cedo demais.  A outra guarda cidades, fracassos, vitórias discretas, amizades antigas e esperanças que nunca aceitaram a aposentadoria.

O banco é o mesmo. O espaço também. O tempo, jamais. Talvez seja por isso que compreender alguém seja tão difícil. Enxergamos apenas o lugar onde a pessoa está. Quase nunca percebemos o caminho que a trouxe até ali. Vemos o rosto. Não vemos as cicatrizes. Escutamos a resposta. Ignoramos as perguntas que a vida lhe fez. Julgamos um gesto. Desconhecemos a longa sequência de acontecimentos que lentamente desenhou aquele modo de ser.

Comecei então a suspeitar de que cada ser humano possui o seu próprio espaço-tempo. Somos arquivos ambulantes. Levamos conosco lugares onde já não moramos, pessoas que já partiram, alegrias que continuam iluminando a memória e tristezas que o calendário jamais conseguiu apagar. Nada disso ocupa espaço visível, mas ocupa todo o nosso tempo. Talvez seja esse o segredo da saudade. Ela não mede quilômetros. Mede anos. Uma fotografia antiga cabe na palma da mão, mas pode conter cinquenta anos de vida. Uma música dura poucos minutos, mas atravessa décadas em alguns acordes. Um perfume pode abrir uma porta que imaginávamos definitivamente fechada.

Foi então que me ocorreu que talvez o espaço e o tempo também expliquem certos encontros que a vida insiste em adiar. Há pessoas que desaparecem do nosso horizonte durante cinquenta anos. Mudam de cidade, de profissão, de sobrenome. O espelho lhes acrescenta rugas. Os cabelos embranquecem. A voz ganha outro ritmo. Tudo mudou no espaço. Nem tudo mudou no tempo. Porque existem presenças que, uma vez acolhidas pela alma, deixam de obedecer ao calendário. Permanecem silenciosas, como a luz de uma estrela que continua viajando pelo universo muito depois de a estrela já não estar onde a vemos.

Às vezes, por um desses caprichos que a vida guarda sem explicar, essas órbitas voltam a se aproximar. Não para repetir o passado. O passado é um país que não concede vistos de retorno. Mas para revelar que alguns afetos não envelhecem da mesma maneira que os corpos. Apenas encontram uma forma diferente de existir. Talvez seja essa a mais discreta vitória do tempo sobre o esquecimento.

Nesse instante compreendi que Einstein talvez tivesse descoberto muito mais do que uma lei da física. Sem o saber, ofereceu também uma bela metáfora para a existência humana. Os escritores vêm tentando dizer isso há séculos. Ninguém é apenas o corpo que ocupa um lugar. Somos também as lembranças que ocupam a alma. As escolhas que ainda ecoam. As perdas que nos ensinaram delicadeza. Os encontros que continuam produzindo sentido muito depois de terem acontecido. Envelhecer é exatamente isso. Não apenas acrescentar anos ao calendário, mas permitir que o tempo vá desenhando, silenciosamente, a geometria invisível da nossa existência.

Desde então, quando encontro alguém, procuro lembrar que diante de mim nunca está apenas uma pessoa. Está uma infância inteira. Uma juventude. Algumas derrotas. Muitos sonhos. Vários recomeços. E, quem sabe, alguns afetos que jamais deixaram de ocupar o seu lugar no espaço-tempo. É esse o mistério do espaço-tempo. O Universo aproxima os corpos. A vida decide o momento e a memória transforma algumas despedidas em permanências. Talvez seja esse o verdadeiro espaço-tempo da alma. Há pessoas que se despedem da nossa vida, mas jamais conseguem partir da nossa existência.

 

Edson Pinto

Julho, 2026

17 de jul. de 2026

380) A COPA AO CONTRÁRIO

 

Em um desses dias, acompanhando  pela televisão jogos e a tabela da Copa do Mundo de Futebol, dei-me conta de uma curiosidade que sempre esteve diante dos meus olhos, mas que eu nunca havia realmente percebido.

A competição começa reunindo dezenas de países. Cada povo chega carregando sonhos, bandeiras, cantos e esperanças. Durante algumas semanas, o planeta inteiro parece respirar no mesmo ritmo. Crianças pintam o rosto, famílias se reúnem diante da televisão, desconhecidos conversam como velhos amigos. O futebol realiza um pequeno milagre. Por alguns instantes, milhões de pessoas esquecem diferenças políticas, econômicas e religiosas para compartilhar uma única paixão.

Mas a matemática da Copa é implacável. Primeiro são muitos. Na atual Copa, quarenta e oito. Depois restam menos. Em seguida, menos ainda. A cada fase, uma parte da alegria faz as malas e volta para casa. Ao final, sobra apenas um campeão.

Foi então que imaginei uma Copa diferente. Não uma nova modalidade de futebol, mas um campeonato da própria humanidade. Nessa Copa, ninguém seria eliminado. Ela começaria com apenas duas nações. Depois chegariam mais duas. Em seguida, oito. Dezesseis. Trinta e duas. Quarenta e oito. Cento e noventa e três. Cada participante teria como missão trazer outro para dentro da competição. O objetivo deixaria de ser excluir adversários e passaria a ser ampliar parceiros. 

As vitórias não seriam medidas pelo número de derrotas provocadas, mas pela quantidade de amizades construídas. O arbítrio seria a consciência. O placar seria medido pelo número de vidas melhoradas. Os gols seriam acordos de paz. As assistências seriam gestos de solidariedade. Os troféus seriam escolas abertas, hospitais funcionando, ciência compartilhada, comércio justo, tecnologia dividida com responsabilidade, alimentos chegando onde falta pão e esperança alcançando onde falta futuro. Em vez de levantar barreiras, as equipes aprenderiam a construir pontes. As grandes jogadas seriam aquelas em que um país descobrisse que prosperar junto é mais inteligente do que prosperar sozinho.

Enquanto imaginava essa Copa impossível, pensei que talvez nós, seres humanos, tenhamos aprendido cedo demais a admirar torneios eliminatórios. Gostamos de separar vencedores e vencidos. Os melhores e os piores. Os ricos e os pobres. Os fortes e os fracos. Como se a história fosse uma sucessão interminável de partidas nas quais alguém só pode sorrir depois que outro chora.

No entanto, a própria vida parece ensinar outra coisa. Quando uma vacina é descoberta, o verdadeiro vencedor não é apenas o laboratório que a criou. É a humanidade. Quando uma tecnologia reduz o sofrimento, quando uma guerra é evitada, quando uma criança aprende a ler, quando duas nações trocam conhecimento em vez de ameaças, todos atravessam juntos a linha de chegada. Há conquistas que não diminuem quando são repartidas. Ao contrário. Crescem. Talvez seja essa a mais curiosa diferença entre os bens materiais e as alegrias humanas. Um pedaço de pão dividido fica menor. A esperança dividida fica maior.

Foi então que compreendi que a Copa do Mundo, do jeito que ela existe, talvez seja apenas um belo retrato do esporte. Mas a Copa da vida precisa obedecer a outra lógica. Nela, o campeão não é quem permanece sozinho segurando a taça. É quem consegue fazer caber mais gente na comemoração.

Talvez Deus não sonhe com um mundo onde um povo vença todos os outros. Talvez sonhe com um mundo onde cada vitória seja capaz de produzir novas vitórias, até que a alegria deixe de pertencer a um único país e passe a ser patrimônio da humanidade. Nesse campeonato, finalmente, ninguém precisaria ser eliminado. E, pela primeira vez na história, todos levantariam a mesma taça. Afinal, uma alegria que pertence apenas a um povo continua sendo pequena para um planeta inteiro.

Quando desliguei a televisão, a tabela da Copa continuava exatamente igual. Quarenta e oito. Trinta e duas. Dezesseis. Oito. Quatro. Dois. Uma. Mas, desde aquele instante, confesso que nunca mais consegui olhar para ela da mesma maneira.

 

Edson Pinto

Julho, 2026

10 de jul. de 2026

379) AMOR É TUDO DE QUE VOCÊ PRECISA

 

Recentemente, enquanto organizava alguns papéis antigos sobre a mesa, encontrei uma anotação esquecida. Não me lembro mais por que a escrevi, nem quando. Havia apenas uma frase em inglês rabiscada no alto da folha: “All You Need Is Love” (Amor é tudo de que você precisa).

Sorri...

Impossível para alguém da minha geração não ouvir mentalmente os acordes dos Beatles logo em seguida. Durante décadas, a frase atravessou rádios, festas, namoros, separações e reencontros, repetindo a ideia simples e poderosa de que o amor seria tudo de que precisamos.

Poucos dias depois, conversando com uma inteligência artificial (IA), deparei-me com outra frase, também em inglês, mas vinda de um lugar bem diferente. Era o título de um artigo científico que revolucionou a tecnologia moderna: “Attention Is All You Need (Atenção é tudo de que você precisa). Trata-se de um dos artigos científicos mais influentes da história recente da computação e da inteligência artificial. Foi publicado em 2017 por pesquisadores da Google Research. O artigo apresentou uma nova forma de ensinar máquinas a compreender a linguagem humana. Em vez de analisar as palavras uma a uma, os sistemas passaram a identificar relações entre elas e a concentrar sua atenção no que realmente importa.

Confesso que achei a coincidência curiosa. Os Beatles apostavam no amor. Os cientistas apostavam na atenção. Os primeiros falavam ao coração. Os segundos, aos algoritmos. Curiosamente, ambos pareciam procurar a mesma coisa: aquilo que dá sentido às relações. Entre um refrão e um algoritmo, existe uma distância enorme. Ou talvez não exista tanta assim. Pedi, então, à própria IA, que me explicasse a ideia central daquele estudo. Descobri que a grande inovação consistia em ensinar as máquinas a prestar atenção. Não a tudo ao mesmo tempo, mas ao que realmente importa. A identificar relações, conexões e significados escondidos entre palavras aparentemente dispersas.

Enquanto ouvia a explicação, tive a estranha sensação de que já conhecia aquela história. Não por causa dos computadores. Por causa, sim, da vida que vivi e dos textos que escrevi, aprendi, como consequência, que um texto costuma nascer de um detalhe quase invisível. Uma frase ouvida num café. Uma mancha num muro. Um carrapicho agarrado à roupa de um menino. Uma fotografia esquecida numa gaveta.

O escritor, principalmente o cronista raiz, recolhe esse pequeno fragmento da realidade e o deposita no início da narrativa, como quem planta uma semente. Depois segue seu caminho. Fala de memórias, de perdas, de alegrias, de política, de filosofia, de amores e despedidas. O leitor talvez nem perceba que aquela pequena semente continua ali, silenciosa, aguardando o momento de florescer. Então chega o final. E o detalhe reaparece. Já não é o mesmo. A mancha ganhou significado. A fotografia ganhou história. O carrapicho ganhou metáfora. O objeto permanece. Quem mudou foi o leitor.

Talvez seja por isso que as boas histórias nos acompanhem por tanto tempo. Elas nos ensinam que compreender não é apenas acumular informações. É descobrir relações. Os cientistas da inteligência artificial concluíram que uma máquina entende melhor uma linguagem quando aprende a prestar atenção às conexões entre as palavras. Os escritores, suspeito eu, vêm praticando algo semelhante há séculos. E talvez a vida inteira seja um exercício dessa mesma arte.

Nem sempre os acontecimentos mais importantes chegam anunciados por trombetas. Muitas vezes aparecem disfarçados de detalhe. Um encontro casual. Uma conversa breve. Uma lembrança antiga. Um gesto quase imperceptível. Só mais tarde percebemos que era ali que a história estava começando.

Os Beatles talvez tivessem razão ao dizer que o amor é tudo de que precisamos. Os pesquisadores talvez tenham razão ao dizer que a atenção é tudo de que precisamos. Pensando melhor, talvez uma coisa dependa da outra. Porque amar alguém é, antes de tudo, prestar atenção. E compreender a vida talvez seja apenas isso: reconhecer, entre milhares de ruídos, aquilo que merece permanecer conosco até o último parágrafo

 

Edson Pinto

Julho, 2026

3 de jul. de 2026

378) A BOLA E A ALMA

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"O futebol é uma construção psicossocial."

A frase me ocorreu enquanto assistia ao Brasil enfrentando o Japão pela Copa do Mundo que ora mobiliza a atenção planeta afora. À primeira vista, parece exagero. Afinal, trata-se apenas de vinte e dois jogadores correndo atrás de uma bola. Mas basta olhar um pouco além das quatro linhas para perceber que, há muito tempo, o futebol deixou de ser apenas um esporte.

Durante algumas semanas, o planeta parece reorganizar seus próprios sentimentos. Países inteiros suspendem, ainda que por instantes, as preocupações cotidianas para compartilhar uma expectativa comum. Milhões de pessoas, que jamais se encontrarão pessoalmente, experimentam a mesma ansiedade antes do apito inicial, o mesmo grito de gol, a mesma frustração diante da derrota ou a mesma alegria quase infantil da vitória.

É curioso observar que isso acontece em culturas muito diferentes. Povos expansivos e povos reservados, nações latinas e asiáticas, democracias consolidadas e países marcados por conflitos. Durante a Copa, todos parecem falar uma linguagem comum. A bola torna-se um idioma universal.

No Brasil, talvez esse fenômeno seja ainda mais visível. O brasileiro, já conhecido por sua espontaneidade, parece reencontrar uma versão mais luminosa de si mesmo. Multiplicam-se as bandeiras nas janelas, as conversas nas esquinas, os abraços entre desconhecidos e a esperança de que, por noventa minutos, tudo possa terminar bem.

Mas esse sentimento não é exclusivamente brasileiro. Basta olhar para as ruas de Buenos Aires, Tóquio, Rabat, Londres, Oslo, Seul ou Cidade do México. Em cada canto do planeta, o futebol desperta algo que vai muito além da competição. Ele fortalece o sentimento de pertencimento. Recorda às pessoas que fazem parte de uma história, de uma cultura e de uma comunidade.

Talvez seja esse o verdadeiro espetáculo. Não apenas o drible genial ou o gol improvável, mas a capacidade que o esporte possui de produzir uma emoção coletiva. Por alguns dias, milhões de indivíduos deixam de ser apenas indivíduos. Tornam-se uma torcida, uma nação, um povo.

Os sociólogos talvez expliquem esse fenômeno pelas identidades coletivas. Os psicólogos falarão do contágio emocional. Os economistas medirão os bilhões movimentados. Todos terão alguma razão.

Mas quem já assistiu a uma Copa sabe que há algo difícil de medir. Existe uma alegria compartilhada que atravessa fronteiras, idiomas, religiões e diferenças políticas. Como se, durante alguns instantes, a humanidade aceitasse brincar junta.

Talvez por isso o futebol seja muito mais do que um jogo. Ele é um dos raros momentos em que o mundo inteiro parece lembrar que, antes de sermos adversários, somos companheiros da mesma aventura humana.  Deus criou muitos idiomas para que os povos aprendessem a conversar, e o homem, depois de minimamente civilizado, inventou o futebol, sem necessidade de palavras, para que aprendessem a comemorar juntos.

 

Edson Pinto

Julho, 2026 

26 de jun. de 2026

377) A ARTE DE RESISTIR

Outro dia, num café, um amigo indignado me perguntou por que tantos políticos acabam envolvidos em escândalos. A pergunta não era nova. Nova era apenas a lista dos acusados. Mudam-se os nomes, mudam-se os partidos, mudam-se os discursos, mas os noticiários continuam frequentando os mesmos pecados com uma fidelidade que faria inveja a muitos casamentos.

Meu amigo, imagino,  queria uma explicação econômica, sociológica ou psicológica. Eu poderia ter recorrido aos clássicos. Poderia citar as estruturas de poder, os incentivos perversos, as fragilidades institucionais ou a insuficiência dos mecanismos de controle. Preferi, contudo, recorrer a uma metáfora.

— Imagine um homem entrando num lupanário.

Ele arregalou os olhos.

— Que comparação é essa?

— Tenha paciência! Imagine que o sujeito entre naquele ambiente por livre e espontânea vontade. Ninguém o obrigou. Ninguém o empurrou porta adentro. Foi porque quis.

— E daí?

— Daí que seria estranho vê-lo sair de lá, algumas horas depois, alegando ter sido surpreendido pelas tentações que encontrou.

Meu amigo riu.

A verdade é que certas atividades humanas possuem uma concentração extraordinária de tentações. Não obrigam ninguém a pecar. Apenas colocam o indivíduo diante de oportunidades constantes para fazê-lo. A política é uma delas. Não digo isso para condenar a política. Pelo contrário. Ela é necessária. Sem ela, restariam apenas a força, o caos ou a tirania. O problema não é a política. O problema é o ser humano.

Desde os tempos mais antigos, o homem demonstra uma habilidade impressionante para desejar justamente aquilo que não deveria desejar. Eva possuía todo o jardim, mas fixou os olhos no único fruto proibido. Esaú trocou uma herança por um prato de lentilhas. Judas vendeu sua lealdade por algumas moedas de prata. Até Cristo, segundo os Evangelhos, precisou enfrentar tentações no deserto. Se nem o paraíso escapou delas, por que escapariam os poderes da República?

Os gregos também conheciam o problema. Conta Platão a história do pastor Giges, que encontrou um anel capaz de torná-lo invisível. Convencido de que jamais seria descoberto, usou o poder para conquistar riqueza, influência e o trono. A pergunta de Platão atravessou os séculos. O que faria um homem se tivesse certeza da impunidade? A resposta, infelizmente, continua sendo escrita diariamente nos jornais. Mudam as manchetes. O enredo permanece surpreendentemente fiel ao original.

A política possui algo do anel de Giges. Nem sempre torna invisível quem exerce o poder, mas frequentemente cria a ilusão de invisibilidade. O sujeito começa honesto. Depois aceita um pequeno favor. Mais tarde faz uma concessão insignificante. Em seguida fecha os olhos para um detalhe administrativo. Quando percebe, já está negociando princípios como quem troca figurinhas.

A corrupção raramente chega montada num cavalo negro, com chifres e enxofre. Normalmente ela chega sorrindo. Traz justificativas. Apresenta planilhas, projetos de leis sob encomenda. Promete vantagens. Oferece exceções. Veste gravata. Em muitos casos, fala em nome do interesse público.

Há quem imagine que o poder corrompe. Não tenho tanta certeza. Talvez o poder revele. Talvez funcione como aquelas soluções químicas usadas pelos fotógrafos antigos. A imagem já estava ali. O líquido apenas a tornava visível.

O homem vaidoso torna-se mais vaidoso. O ambicioso torna-se mais ambicioso. O honesto, quando consegue resistir, torna-se exemplo. E é justamente por isso que os homens públicos verdadeiramente íntegros despertam tanta admiração. Não porque sejam perfeitos, mas porque caminham diariamente por um terreno minado sem perder a direção. Virtude em ambiente fácil tem pouco mérito. O verdadeiro teste acontece quando a tentação está ao alcance da mão.

Meu amigo permaneceu alguns instantes em silêncio. Depois perguntou:

— Então você acha que todo político é corrupto?

— Não. Da mesma forma que nem todo homem que entra num lupanário necessariamente se entrega aos seus encantos. A diferença é que, em ambos os casos, ninguém pode alegar desconhecimento dos riscos.

Encerramos o café e passamos a outro assunto, mas aquela pergunta continuou comigo. Talvez a questão central não seja por que tantos cedem à tentação, e sim outra, ainda mais importante.

Como alguns conseguem resistir?

 

Edson Pinto

Junho, 2026

19 de jun. de 2026

376) OS CARRAPICHOS DE PLATÃO

 

Ando com um problema. Não é grave. Não exige remédio. Não aparece nos exames laboratoriais nem preocupa os médicos. Pelo contrário. É um daqueles problemas que costumam atacar justamente quando a gente já deveria estar mais tranquilo. Uma ideia grudou em mim. Ou melhor, três: O Bem, o Belo e o Justo.

A famosa tríade de Platão resolveu instalar-se em minha cabeça sem pedir licença e, desde então, me acompanha para todo lado. Acordo pensando nela. Tomo café pensando nela. Vou ao computador pensando nela. Vejo televisão pensando nela. Às vezes chego a suspeitar que Platão alugou um quarto em algum canto da minha consciência.

Curiosamente, isso me fez recordar a infância: Quando eu era menino, morávamos em um bairro ainda cercado por terrenos baldios, capoeiras e pequenos matos que para nós pareciam florestas amazônicas. Eu e meus amigos passávamos bons momentos explorando aqueles territórios selvagens, travando batalhas imaginárias, caçando tesouros inexistentes e fugindo de perigos inventados. Era através do mato que encurtávamos a ida ao Mineirão ainda em construção na Pampulha dos anos 1960.

Voltávamos para casa em estado lastimável. As mães examinavam os filhos como fiscais de alfândega. Havia joelhos ralados, cotovelos esfolados, manchas de barro e, sobretudo, carrapichos. Carrapichos por toda parte. Para quem não conhece, o carrapicho é uma pequena invenção botânica destinada a testar a paciência humana. Ele se agarra à roupa, às meias, aos cadarços e, se tiver oportunidade, talvez até às ideias. Minha mãe passava longos minutos retirando aqueles invasores de minhas calças. Eu os arrancava. Ela os arrancava. A roupa voltava ao normal. Fim do problema. Pelo menos era o que eu pensava.

Décadas depois descobri que existem carrapichos mais persistentes. São os que se prendem ao pensamento. Algumas ideias têm exatamente esse comportamento. Agarram-se à consciência e se recusam a ir embora. Ultimamente, os carrapichos que me acompanham atendem pelos nomes de Bem, Belo e Justo. E eu me pergunto: O que é, afinal, o Bem? O que é o Belo? O que é o Justo?

Perguntas simples de formular e impossíveis de encerrar:  Será justo que um homem passe a vida produzindo riqueza e, ao final do dia, receba apenas uma fração do que ajudou a criar, enquanto o restante segue outros caminhos? Será belo um edifício moderno que substitui uma velha praça cheia de árvores? Será bom dizer sempre a verdade, mesmo quando ela produz sofrimento? Quanto mais penso, menos certezas encontro. Talvez seja por isso que essas perguntas sobrevivam há mais de dois mil anos. Elas não foram feitas para serem respondidas de uma vez por todas. Foram feitas para nos acompanhar.

Na juventude, eu acreditava mais nos absolutos. Imaginava que a maturidade traria respostas claras para quase tudo. A experiência, contudo, tratou de corrigir esse excesso de confiança. A vida mostrou que o mundo raramente entrega o Bem em estado puro, o Belo sem imperfeições ou o Justo sem alguma sombra de injustiça. O que encontramos, quase sempre, são aproximações. Pequenas aproximações. Um pouco de bondade aqui. Um pouco de beleza ali. Um pouco de justiça acolá. Nada perfeito. Nada definitivo. Talvez seja justamente por isso que continuemos procurando. Porque, se o ideal fosse plenamente alcançável, a busca terminaria. E o ser humano parece ter sido construído para caminhar. Não para chegar.

Penso que Platão talvez compreendesse isso melhor do que imaginamos. Talvez o Bem, o Belo e o Justo não sejam destinos. Talvez sejam bússolas. Ninguém alcança o horizonte, mas ele ajuda o viajante a escolher a direção. Ninguém toca as estrelas, mas elas orientaram navegadores durante séculos. Da mesma forma, talvez ninguém alcance plenamente o Bem, o Belo ou o Justo, mas a simples tentativa de aproximar-se deles já melhora a viagem.

Outro dia percebi que minha relação com essa velha tríade é parecida com a relação que eu tinha com os carrapichos da infância. A diferença é que aqueles eu podia arrancar. Estes, não. E talvez nem queira. Há perguntas que incomodam. Há perguntas que perturbam. Há perguntas que envelhecem conosco, mas existem algumas que fazem mais do que isso: Elas nos mantêm vivos.

Por isso, quando acordo e encontro novamente aqueles três velhos companheiros agarrados ao pensamento, já não reclamo. Apenas sorrio. Afinal, os carrapichos da infância ficaram perdidos em alguma calça antiga. Os de Platão continuam firmemente presos à alma.

Edson Pinto

Junho, 2026