26 de abr. de 2008

18) PRESERVAÇÃO RESPONSÁVEL DA ESPÉCIE (abril'08) - Um estranho conto de amor

Alexandre era o paradigma do homem derrota-do nas questões sentimentais. Não foram poucas as vezes que o seu ímpeto de conquistador resultara - pelo menos aos olhos de quem o conhecia - como verdadeiros fiascos.

Aproximava-se dos cinqüenta, a mesma elegância, vaidade e charme de sempre, bem apessoado, mas solteiro, não por opção, mas por “incompetência”, como afirmavam seus amigos mais próximos ao lhe infligir tão cáustica pecha que ele, humilde e resignadamente, aceitava sem nunca contestar.

Quatro das tórridas paixões que a sua propalada incapacidade no trato das coisas do amor deixou escapar, acabaram por se tornar as mulheres verdadeiras e definitivas de quatro de seus melhores amigos. Quatro amigos, quatro ex-namoradas que criaram quatro filhos, um de cada casal: Dois varões fortes como Apolo, probos e inteligentes, e duas lindas moçoilas, ambas de cabelos longos como Afrodite.

O que parecia contraditório era o fato de que Alexandre nunca apagara aquela sua chama de grande conquistador, em que pese, por uma razão nunca muito bem compreendida, não o suficiente para manter suas conquistas sob seu domínio definitivo como fazem normalmente aqueles que se esposam de suas paixões. Passava a impressão de que era um desses tipos que ganha, mas nunca leva. Perdia todas... Para os amigos dos anos dourados, era uma festa quando ele aparecia com uma nova presa. “Opa”, diziam com indisfarçável tom da mais pura cobiça, “Para quem Alexandre entregará esta, agora?”.

Filosofava e apregoava aos quatro cantos que considerava a reprodução a mais nobre das ações do homem tendo em vista a sagrada missão de garantir a continuidade da espécie. Trazia, portanto, vivo e intacto em sua alma de conquistador esse que é considerado como um dos mais primitivos de todos os instintos dos seres vivos. Ele mesmo, embora símbolo do fracasso nessa matéria de formação de família, se julgava um bom tipo a ser continuado. Reproduzir, como missão, refletia a pureza absoluta de sua alma. Conquistar, como meio e como ele mesmo fazia com enorme habilidade, nada mais era do que o ato supremo de sua conduta, seguindo fielmente ao inato impulso. Nada mais cristalino...

Cada encontro social com aquela turma era revestido da mais contraditória de todas as sensações que um ser humano pode experimentar: A alegria de conversar com seus amigos e seus respectivos filhos contrastava com o seu desconforto quando uma ou mais de suas quatro ex-paixões participavam das rodadas de conversas, mesmo que de forma bem descontraída. Não era difícil entender a razão para tal: Ele apregoava a multiplicação da espécie, mas, infelizmente como acreditavam quase todos, não tivera filhos. Os amigos propositalmente já desviavam a conversa quando o tema se colocava nas discussões. Por que não poupar Alexandre de envolver-se com aquilo que parecia ser sua maior frustração?

O grupo era muito unido. Coisa difícil de ver nos tempos modernos em que cada um desenvolve o seu próprio mundo, esquecendo-se das amizades antigas. Os filhos de seus amigos já começavam a dar sinais de que a inexorável roda da vida estava para dar mais uma volta. Pais, mães - e Alexandre no início só de observador - começavam a entabular algumas conversas que poderiam levar os filhos a se unirem amorosamente. Seria a consagração de uma amizade que perdurava há tantos anos. Fazia todo o sentido. As idades eram compatíveis. As graciosidades dos jovens formariam dois belos casais e o mais importante, a união do grupo estaria renovada e fortalecida para pelo menos mais uma geração. Era, portanto, necessário estimular os jovens a se aproximarem, por que não?

Indisfarçável desconforto tomava conta de Alexandre cada vez que o tema voltava à tona. Começou a desenvolver uma nova teoria sobre o relacionamento humano e sobre aspectos intrincadas de sociabilidade, segundo a qual seria mais saudável se cada um daqueles jovens procurasse se relacionar com gente de outras paragens. Isto ampliaria suas limitadas experiências interpessoais, trazendo idéias e maneiras novas de tratar o cotidiano, de ampliação do raio de amizades e outros “lero-leros” um tanto filosóficos. Embora nunca contestado, não havia como evitar que seus amigos vissem naquela tentativa de dificultar a união dos seus filhos como uma incoerência por parte de Alexandre, pois era exatamente ele que tanto pregava a famosa “continuidade da espécie”.

Das idéias vagas às ações concretas, os pais começaram a se movimentar cada qual ao seu modo para que a tal aproximação amorosa dos filhos de fato acontecesse. Uma recepção aqui, com todos convidados. Depois, outro encontro ali, sempre cuidando para que os filhos mutuamente se interessassem. Pais cruzando recados, elogios, planejando coincidências “fortuitas” para que os objetivos fossem alcançados.

Alexandre já não se dava mais ao comportamento do mero observador de até então, e, atrapalhava o quanto seu conhecido poder de persuasão lhe permitia. Nos encontros sociais ele cuidava de puxar um dos jovens para uma conversa sempre que a contraparte previamente arranjada se colocava receptiva para aquele planejado intento. Chegou até mesmo a impedir que um dos pares prolongasse por muito tempo a conversa a sós que haviam entabulado no jardim da casa de um deles quando de uma das recepções arranjadas para o nobre fim.

De chato, logo Alexandre começou a ser tomado como inconveniente. O que estaria acontecendo? Por que Alexandre estaria agindo daquela forma? Suas idéias sobre integração com gente de fora tinham certo sentido, porém nada provava que a união entre jovens de famílias tão próximas também não pudesse dar certo. E acima de tudo, por que Alexandre se intrometeria tanto em assunto do âmbito de cada família? Ele era apenas o tio por afinidade, mas quem tinha que zelar pelo futuro dos filhos eram os próprios pais. Estava na hora de dar um basta naquela ingerência de Alexandre. A antiga amizade dava ao grupo o direito e a liberdade para uma conversa franca e sincera.

Havia, contudo, na cabeça daquelas quatro mulheres, mães dos quatro jovens, um desejo, evidentemente nunca compartilhado entre elas, de que se fazia necessário uma conversa pessoal com o sempre presente ex-namorado. Já havia passado tanto tempo desde aqueles momentos das conquistas e - como as coisas se acomodaram tão bem - os segredos que cada uma, isoladamente, guardava, só não estavam irremediavelmente enterrados por que Alexandre permanecia na vida de cada uma como a sombra do próprio corpo da qual nunca se consegue fugir.

O problema era que Alexandre tinha um segredo com cada uma delas. E elas, individualmente, imaginavam que tinham um segredo exclusivo com ele. De seu ponto de vista seria quase impossível desaparecer da vida daqueles quatro casais amigos e deixar que o destino cuidasse da união de seus filhos. O seu sentimento fora reprimido por tantos anos com o único objetivo de manter as coisas como sempre estiveram, mas agora, algo de muito sério poderia pôr abaixo todo o edifício moral que ele havia construído a tão duras penas: a manutenção das caras e antigas amizades, o respeito às ex-paixões e mais do que isto, o sentimento de amor aos filhos que nunca pudera revelar...

Os quatro jovens eram, na verdade, frutos do breve relacionamento que Alexandre tivera com cada uma daquelas quatro mulheres e que por intrincada artimanha do destino nunca fora descoberto pelos amigos e nem houvera entre elas a quebra dos respectivos segredos. Ele levava tão a sério o seu entendimento de preservação de espécie que gerar filhos era mais importante do que formar família, por isso nunca quisera casamento com todas as conseqüências próprias da paternidade e por isso, após a consumação plena da conquista, entregava cada uma delas a um de seus amigos. As coincidências que a vida o impôs, porém, fugiram ao seu controle. O tempo passou e ele não viu outra solução senão acompanhar de forma o mais próxima possível, o crescimento dos filhos que gerou, mas não criou.

Se o cruzamento de interesses amorosos entre seus filhos não tivesse ocorrido, muito provavelmente Alexandre não teria interferido e morreria com aquele segredo deixando a situação igual a como sempre estivera. Além do mais, por que provocar tão abalado desgosto àqueles que foram companheiros por tantos anos em que pese ter ficado a impressão de que eles haviam lhe roubado as mulheres que vieram a desposar?

Valeria a pena contar tudo e assim livrar os filhos do iminente incesto mesmo que quatro famílias fossem destruídas? Pesava-lhe tudo ao mesmo tempo: O desgosto aos amigos, a desonra das esposas que nunca revelaram o segredo, a surpresa dos filhos e a falta de coragem de ter, já, há muito tempo, se libertado de tão pesado fardo a esmagar dolorosamente a sua consciência.

Coragem tomada, o segredo é desvendado aos doze ao mesmo tempo. O que aconteceu então? Deixo a cada um imaginar quais foram os desdobramentos de tal revelação provocou na vida daquele grupo de amigos.

A única coisa que se sabe desse polígono amoroso é que Alexandre continua solteiro, conquistador ainda atuante e convencido de que todo o sacrifico é justificado pela nobre missão de preservação da espécie, mas, como disse: com responsabilidade...


Edson Pinto
SP 26/04/08

20 de abr. de 2008

17) MALTHUS REDIVIVO


Vez por outra, o fantasma do economista inglês que viveu entre os séculos 18 e 19, Thomas Robert Malthus, reapresenta-se ao mundo para lembrar-nos de que as suas teses sobre a fome ainda permanecem insepultas.

Malthus, a respeito de quem fora cunhada uma outra denominação da Economia como sendo a “ciência lúgubre”, defendeu a tese de que a humanidade caminhava para o caos, pois, enquanto a população crescia numa proporção geométrica, a produção de alimentos crescia na proporção aritmética. Traduzindo para o chão dos mortais: haveria em algum momento na vida da humanidade uma escassez crônica e efetiva de alimentos.

Dois séculos se passaram, algumas crises na produção de alimentos aconteceram, foram superadas e o caos malthusiano nunca se confirmou na extensão que ele vaticinou. Razões de ordem tecnológica contribuíram para que o apregoado cruzamento das curvas de população e da produção de alimentos não viesse a acontecer de forma estrutural e permanente. Hodiernamente, a população cresce menos devido aos modernos métodos anticoncepcionais, conscientização pela paternidade responsável e maior e melhor nível educacional que devolveu ao ser humano parte considerável do exercício de gestão da própria vida que havia lhe sido surrupiada pelos obscurantismos cultural e religioso do passado. Ao mesmo tempo, ocorre um aumento brutal da produtividade agropecuária, quer pela sua mecanização, pesquisas científicas em todos os seus segmentos e, mais recentemente, até pela manipulação genética dos alimentos.

Tudo, então, resolvido? Que nada! A imprensa mundial começa a repercutir as trombetas dos alarmistas que entoam o toque malthusiano da falta de alimentos. Aumentos fantásticos nos preços de commodities como o arroz, o trigo e o milho, apenas para ficar em alguns dos grãos mais conhecidos. A culpa é atribuída, com excessiva ênfase, ao fato de que a cultura de alimentos está dando lugar para culturas de matérias-primas para a produção dos biocombustíveis. Alimentar as máquinas parece ser mais importante do que alimentar os homens. E o que seria, ainda, mais grave: indícios de revoltas populares, da queda de governos e outras catástrofes decorrentes da escassez alimentar já são vislumbrados no horizonte negro que temos pela frente. Os preços disparam e a inflação matará, como sempre o fez, os pobres do mundo.

Que verdades há nisto? Quais equívocos estão sendo cometidos – se é que estão – na análise de tema tão escabroso? Não basta a ameaça do aquecimento global, a destruição da camada de ozônio, o declínio inexorável das reservas de petróleo e tantas outras mazelas a nos apoquentar diuturnamente e agora nos vêm com esse drama da falta de alimentos?

Novamente, puro alarmismo... Não faltarão alimentos e a humanidade não sucumbirá pela falta do "feijão-nosso-de-cada-dia". Malthus e suas teses podem voltar serenos para o túmulo da história e lá permanecerem ad-eternum, porque a mão invisível da economia que não se move a rogos e sim aos apelos capitalistas, colocará tudo nos seus devidos lugares.

O que vem ocorrendo é que uma massa enorme de humanos começa a emergir das profundezas da escala social para, também, comer melhor como bem o fazem aqueles que tiveram a fortuna de virem ao mundo sob as asas quentes das nações desenvolvidas. 400 milhões de chineses, 300 milhões de indianos, centenas de milhões de outros terráqueos começam a comer como não faziam há muito. Mau? Claro que não, ao contrário! Mudança de paradigmas? Isto sim!

Aqui está a reflexão que todos nós devemos fazer a todo instante: Uma parte considerável da humanidade mantém-se acapachada para que a outra desfile soberana com seus meios de produção, gozando das delícias de seus frutos.

Soberanamente, contudo, outros povos ao redor do mundo vêm optando pelo caminho do progresso, rejeitando os fracassados sistemas socialistas de produção controlada, criando riquezas, exportando seus excedentes, diversificando, privatizando e modernizando os meios de produção. Conclusão: mais gente comendo e por isso mais demanda por alimentos que num primeiro momento não encontra oferta em nível adequado. A mão invisível faz os preços aumentarem em busca do nível que equilibra oferta e procura. Tem sido assim, e assim será por todo o sempre...

Aqui entram os ajustes e a tal mudança de paradigma: Os países com potencial agrícola como é o caso do nosso Brasil, sempre tiveram que se render aos ditames das nações industrializadas que, aproveitando-se do gigantesco poder econômico que conquistaram ao longo dos tempos, ditam os preços das commodities no mercado internacional e ainda subsidiam generosamente seus agricultores sob o pretexto da pseudo-doutrina da segurança alimentar.

Quando temos bons excedentes de produtos agropecuários não conseguimos coloca-los nos países desenvolvidos por que os subsídios locais inviabilizam os negócios e assim nossas terras ficam ociosas, os preços internos baixam, os agricultores são mal remunerados e nossas metas de melhoria de vida são continuamente postergadas.

Mas a história não dá nó em si mesma. O que se mostrou bom para uns pode se repetir com os outros. A emergência de paises populosos e com potenciais adormecidos como Brasil, Rússia, China e Índia começa a desenhar um novo cenário neste começo de milênio. As regras do jogo estão sendo alteradas e os protagonistas do presente poderão ser coadjuvantes no futuro ou, no mínimo, terão que dividir o palco com outras estrelas.

Vejam que janela de oportunidades se abre para o Brasil: Temos um estoque enorme de terras disponíveis para a produção. Os países que renitentemente subsidiam suas agriculturas logo perceberão que as vantagens comparativas devem prevalecer em favor daqueles que produzem com maior competência e com custos menores, tal qual eles mesmos fazem em relação aos produtos industrializados. Daremos mais ocupação aos nossos recursos naturais e humanos e assim vamos viver melhor. Este raciocínio aplica-se não só ao Brasil, mas, também, aos países pobres da África e da América Latina que poderão se beneficiar de um novo modelo econômico mundial.

Esquecem os alarmistas de plantão que o mundo agrário malthusiano de permanente escassez de recursos, infligiu à humanidade todos os males próprios do autoritarismo e produziu os tiranos históricos que, juntamente com Malthus, insistem em atazanar a paz de nós os mortais.

Sem o jugo da necessidade premente, a tirania se dissolve como o gelo ao sol.

Edson Pinto
SP 20/4/08

16 de abr. de 2008

16) NOSSO DESPREZO PELA QUALIDADE (abril'08)

No dicionário Aurélio, para o termo “qualidade”, encontramos uma grande lista de definições e aplicações que vão das propriedades morais intrínsecas do ser humano como o dote, o dom e a virtude, todos de cunho filosófico, até como sinônimo de características geométricas e mecânicas do âmbito das ciências exatas. Há, contudo, uma definição mais genérica que é a que nos interessa nesta crítica:

Qualidade: “Propriedade, atributo ou condição das coisas ou das pessoas capaz de distingui-las das outras e de lhes determinar a natureza”.
Como pode ser deduzido, qualidade cabe em tudo o que fazemos, recebemos ou observamos. Na vida prática, a qualidade é quase como um modo de ser, isto é, uma postura marcante das coisas e das pessoas. Nitidamente, existem pessoas que primam pela qualidade de tudo o que fazem. Outras há, contudo, que, ou parecem desconhecer o significado deste termo, ou, o que é pior, deliberadamente agem sem a menor preocupação para com este atributo.

No mundo capitalista em que vivemos, a qualidade acaba por se incorporar em tudo e de uma forma muito importante. É considerada como diferencial que dá valor àquilo que queremos vender. Tanto faz se tratar dos produtos ou serviços que produzimos, como até mesmo da nossa própria imagem. Aqueles que querem conquistar a simpatia de uma outra pessoa primam pela ação com qualidade. Os produtos que comprarmos no comércio, além da qualidade intrínseca que precisam ter, procuram demonstrá-la nas embalagens e por outros recursos de convencimento. Tudo precisa ter, ou caminhar no sentido de se ter qualidade, caso contrário, perde-se a preferência para os concorrentes mais aprimorados.

Essa incontestável verdade parece-nos, infelizmente, não fazer muito sentido nos nossos serviços públicos. E, mais lamentável, ainda, é o fato de que nós os cidadãos, passivamente, fechamos os olhos para o conjunto de serviços totalmente desprovidos de qualidade que recebemos no dia-a-dia de nossos governos.

Por que será?

Se, naturalmente, somos exigentes com o açougueiro quanto à qualidade da carne que ele nos fornece. Igualmente exigentes e rigorosos com o atendimento do garçom que nos serve em um restaurante, com o motorista do táxi que nos leva para um compromisso ou com a empregada doméstica que não executa com qualidade uma determinada tarefa, por que não sê-lo, também, com os nossos governantes?

E, o que é mais incrível: pagamos relativamente mais impostos do que gastamos com todos os nossos fornecedores de produtos e serviços. Deveríamos, portanto, sermos relativamente mais rígidos com este grande tomador de nossa dura e suada renda, não acham?

Claro que estou falando em tese. Não podemos desconhecer que existem brasileiros que brigam e reclamam dos péssimos serviços que os governos lhes dão em troca dos mais de 40% de impostos que pagamos. No entanto – e esta é a grande verdade - a maioria aceita calada, tanto pelo que não recebe, como pelo que recebe com baixa qualidade.

Arrisco aqui uma explicação para isto: Temos a tendência a nos conformar enquanto cidadãos e contribuintes que o ente Estado é soberano e intocável. Ser cidadão significa pagar e não reclamar. E se reclamar, ser mal tratado ou sonoramente ignorado. As más experiências acumuladas nos levam a desistir de brigar por serviços governamentais melhores. O sistema político, embora democrático e com suas Instituições devidamente operantes, trás em si uma dificuldade muito grande para que o cidadão exerça, sozinho ou em grupo, o seu direito de retorno com qualidade. O Estado é monopolista em quase tudo. Não temos alternativa para buscar certos serviços e aí nos submetemos à sua arrogância. Quem nunca viu aquela famosa plaqueta que as Repartições Públicas afixam para intimidar o cidadão que queiram reclamar (eles, convenientemente, entenderão como ameaçar), alertando-nos para o crime de desacato. Tudo, tudo, respaldado por uma determinada lei lá mencionada.

Por outro lado, no mundo livre das relações capitalistas onde há concorrência e não somos obrigados a nos subjugar a arrogância de monopolistas, podemos brigar e de fato brigamos.

Para não ficar somente na seara dos conceitos, gostaria de mencionar três casos com os quais nos confrontamos no dia-a-dia na relação com o Estado. Se eu estiver errado em algum que me contestem, mas, posso afirmar que todos correspondem à minha experiência real e não imaginária. Garanto que você mesmo já deve ter pessoalmente vivenciado ou observado casos como estes:

CASO 1: O termômetro marca 38 graus quando, naquela tarde de verão, com uma bermuda bem decente e compatível com o meu estilo "cinquentão aposentado", tento entrar numa CIRETRAM para renovação de uma CNH. Impedido de entrar, pelo relaxado guarda, porque o delegado, autoridade daquela repartição pública, havia afixado uma plaqueta proibindo que as pessoas entrassem de bermuda. Volto nos dias posteriores até cumprimento de todo o ritual. Imagino: com tanto rigor, o serviço deve ser ótimo, com a maior qualidade. Não! Pessoas com dificuldade de locomoção não tinham rampa para acesso à escadaria daquele prédio de aparência medieval, tal era a pobreza do mobiliário e a falta de equipamentos, funcionários mal preparados não sabiam orientar os contribuintes, não tiravam cópias, mas exigiam que tal fosse obtido naquele prestador de serviços convenientemente instalados do lado do Órgão público e, o pior: Os 15 dias previstos para a reemissão do documento se transformaram em 40, porque um funcionário não conseguia digitar uma guia que fazia parte do processo e simplesmente arquivou toda a papelada sem a menor preocupação em entrar em contato com o contribuinte para outras providências. Reclamar com a energia que o caso exigia, nem pensar. Poderia ser preso por desacato à autoridade...

CASO 2: Ficamos todos felizes com o recapeamento daquela rua que usamos todos os dias e que há muito já estava implorando por um reparo. Aplicam o asfalto, mas criam uns buracos ao redor das tampas de bueiros porque nunca descobriram como resolver esse simples problema junto com a colocação do novo asfalto. Imaginamos que nos próximos dias farão o reparo. Que nada! Passam-se semanas, meses e dá-lhe rodas amassadas, pneus furados e suspensões desreguladas. E quanto à sinalização de solo? Quando fazem, primeiro, fazem com a mesma tinta que pintarão as faixas, aqueles borrões, pressupostamente para a melhor orientação da pintura das faixas. Aí entram as faixas, mal pintadas e sem o menor acabamento. E os borrões ficam lá até que a pista seja novamente recapeada. E quanto àquelas rebocadas de cal que fazem nas guias das ruas e espalham porcamente a tinta para todos os lados, mais na rua do que no lugar onde devia? O Órgão público que contratou a obra controla a qualidade do serviço feito pela empreiteira? Que nada, sabe-se lá por quê?

CASO 3: Você paga IPVA, licencia o carro, coloca pneus novos, segue todas as normas do código de trânsito e aí entra numa das estradas federais de grande movimento do país. Inesperadamente é engolido por uma cratera e lá se vão dois pneus e uma roda de alto valor. Feliz por não ter sofrido conseqüência maior você pergunta: A quem reclamar? Vale a pena brigar? Isto não me custará mais caro e me tomará mais tempo? Conclusão: Deixa pra lá e fica com o prejuízo...

Aí está uma análise quase desanimadora, pois ao contrário das atividades privadas que operam em regime de concorrência, os governos não se sentem ameaçados. Não se preocupam em perder o cliente. Não têm concorrência...

Penso que além da necessidade de maior participação política dos cidadãos para cobrar retorno com qualidade aos impostos que pagamos, honestidade daqueles que nos representam, está, também, na hora de reduzirmos o Estado, genericamente falando, ao mínimo necessário. Se em outros paises o Estado funciona melhor, por que, também, não conseguirmos o mesmo aqui?

O que puder ser privatizado e com regras de mercado que o seja. E para o que for da essência do Estado que lá fique, mas que não tenham o desprezo a este termo que o Estado insiste em desconhecer: Qualidade.

Clique aqui para assistir à crônica de Arnaldo Jabor de 25/03/08 que complementa, sob outro ângulo, porém compatível, com a minha crítica.


Edson Pinto


16/04/2008

7 de abr. de 2008

15) LIVRO DAS MEMÓRIAS PHILIPINAS (abril'08)

Em fevereiro último quando da implosão do prédio da Avenida Luiz Carlos Berrini, 1400, que, num passado não muito distante fora a sede da nossa empresa Philips, escrevi dois textos que estão no meu blog (vide em postagens anteriores os artigos: 8) 1400 Memórias I e 9) 1400 Memórias II) para manifestar a nostalgia que invadiu minha alma em função - não do lado material que o prédio representava - mas sim do simbolismo subjacente àquele fato.

A minha grande satisfação foi ter recebido de amigos ex-philipinos, como eu, inúmeros comentários em total consonância com a mensagem básica que procurei exprimir quanto a grande importância que a Philips teve em nossas vidas, especialmente a oportunidade que nos deu para criarmos e mantermos até hoje grandes e bons amigos.

Um desses amigos, Antonio Rego, fez-me a sugestão para que eu coordenasse a produção de um livro de memórias com fatos narrados por e pelo ponto de vista dos ex-philipinos, ou mesmo philipinos ainda na ativa, para deixarmos para a posteridade uma narrativa humana da trajetória brasileira dessa empresa que tanto amamos, a Philips.

Coincidentemente, nestes dias bem recentes, a Secretaria de Turismo da cidade de São Paulo, após coletar por alguns anos narrativas de moradores da capital em que revelaram detalhes da transformação que a metrópole experimentou entre as décadas de 50 e 70, publicou o livro São Paulo Minha Cidade. A idéia do nosso livro sobre a Philips tem, tal como o livro de São Paulo, um propósito igualmente nobre: Queremos mostrar o lado humano, pitoresco e as facetas do prisma que a rigidez do mundo dos negócios oculta pela conveniência de seus objetivos.

Tendo aceitado a sugestão do amigo Antonio Rego, estou - de forma independente - tomando a iniciativa de propor aos colegas suplementados que gostam de escrever que contribuam para produção de textos que formarão um livro escrito por muitas mãos e que estudaremos, mais adiante, como publicá-lo.

Veja as regras para participar desse projeto:

A) QUEM PODE ESCREVERTodos os ex-funcionários da Philips, quer sejam suplementados pela PSS ou não. Funcionários da ativa, mas que tenham uma boa história anterior ao ano 2000. Podem-se escrever quantos textos quiserem. Não há limite por pessoa.

B) TIPO DO TEXTOTotal liberdade para uma narrativa no estilo e oralidade de cada um. Não há nenhum pré-requisito para textos com muito aprimoramento literário. Escrevam da maneira que sabem. Haverá uma revisão gramatical sem alteração do conteúdo. Os textos poderão tratar de assuntos e situações engraçadas que o philipino presenciou ou deles diretamente participou enquanto funcionário da empresa. Poderão narrar episódios marcantes na vida das pessoas sempre em relação à atividade na Philips, ou outros temas que julgar interessante fazer parte de um livro de memórias.

C) COMPONENTES DO TEXTO
Para termos certa uniformização, pede-se que os textos tenham, no mínimo:
a) um título que antecipe a idéia do texto.
b) o posicionamento de uma época sem necessidade de precisão quanto à data em que o fato ocorreu
c) se possível, a identificação de nomes e funções das pessoas envolvidas na narrativa.
d) identificação da Unidade da Philips em que o fato ocorreu.

D) TAMANHO DO TEXTO
A idéia básica é que o texto não seja muito longo para permitir que mais pessoas possam ter suas narrativas, também, inseridas no livro. O texto mais curto, também, tem a vantagem de ser mais facilmente lido do que textos longos. Apenas sugerimos que não ultrapasse ao que corresponde a duas páginas. Pode, porém, vir com meia página, uma página ou mesmo uma quantidade superior a duas páginas, desde que - dependendo do interesse que o texto despertar – puder, ainda assim, ser considerado bom para publicação.

E) COMISSÃO JULGADORA
Em momento oportuno, organizaremos uma comissão com colegas suplementados que fará a leitura dos textos e selecionará aqueles que serão publicados. Se por uma questão de maior precisão, para se evitar uma injustiça ou quaisquer outras razões houver conveniência de ajuste do texto, a Comissão, por meu intermédio, interagirá com o autor.

F) COORDENAÇÃO DO LIVRO
Conforme dito acima, ficarei com a responsabilidade de coletar todos os textos enviados, submete-los a Comissão Julgadora e estudar as formas e condições para a publicação do livro. Não posso, ainda, estimar quando isto acontecerá, pois não conheço a receptividade e o grau de colaboração que receberei para o projeto. Todos os textos deverão ser enviados para mim, utilizando-se do e-mail: eppinto@terra.com.br

G) INDICAÇÃO DO PROGRESSO DO PROJETO
Este meu blog apresentará, de forma sistemática e permanente, informações sobre o andamento do projeto, tais como: quantidade de textos recebidos; origem dos textos por Unidade da Philips e outros. Habitue-se, portanto a entrar no blog para conferir o andamento do projeto.

H) EXEMPLO DE TEXTO PARA O LIVRO
Dentro das orientações que foram dadas acima, escrevi um texto em que narro um episódio real e no qual eu estive envolvido em minha Unidade no início dos anos 70. Vejam que identifico a época, as pessoas envolvidas e narro o acontecido. É tudo verdade e eventuais imprecisões quanto a números, por exemplo, são irrelevantes em vista do tema central que foi a revoada dos pedidos de vendas. Ao citar local, época e pessoas, certamente despertarei em muitos colegas que estavam naquela Unidade uma boa recordação. E assim marcamos um registro com um lado humano bem acentuado.


PEDIDOS AO VENTO (Exemplo de um texto)

Os anos 70 foram maravilhosos para o crescimento da Philips. Cheguei a São Paulo, vindo da Filial Belo Horizonte, em 1973 e fui trabalhar no Grupo Nacional de Vendas, GNV, dirigido pelo grande chefe, ainda bom amigo e um dos esteios morais da empresa, Garibaldo Muoio. Mas havia também o Luiz Carlos Melhado, o Flávio Angelini, O Everaldo Medeiros, Rames Talib, Carlos Cunha, Rebouças, Paulo Rubens, Zilma e muitos outros que por falta de espaço não conseguirei registrar os nomes. O escritório central da empresa ficava na Avenida Paulista, esquina com Rua Augusta. Belo prédio, todo dourado e com seus 20 e poucos amplos andares todos ocupados pela Philips.
Naquela época, a estrutura de vendas da empresa contava com quase 15 filiais nas principais capitais do país e uma dezena de escritórios localizados em cidades que prosperavam no ritmo do Brasil potência. Brasil: Ame-o ou deixe-o! Lembram-se?

A área comercial já tinha dado um grande passo no sentido da modernidade com a chegada dos grandes computadores com total centralização do processamento de dados. O Comercial já contava com o sistema RETOPS que dava a nossa empresa uma vanguarda que os concorrentes apenas invejavam e copiavam, mas não conseguiam superar. Estávamos puxando o trem da história, certamente.

O problema era que naquela época o computador já facilitava a coleta de dados, processava-os com razoável velocidade e dava muitas informações, notadamente naquelas listagens enormes de papel zebrado. Mas, a possibilidade de entrada remota de dados, ou seja, o tele-processamento, inexistia. Todos os pedidos tinham que ser enviados por malote para o GNV e lá conferidos, classificados e finalmente – o estado da arte – digitados naqueles antigos terminais burros da IBM por uma briosa equipe do PCP (processamento Central de Pedidos), chefiada pelo Eurípedes Torres, para que, então, as vendas fossem registradas, as Notas Fiscais emitidas e os milhares de revendedores espalhados por todo o país recebessem os famosos produtos da Philips.

O final de cada mês era uma verdadeira epopéia que envolvia todas as estruturas do GNV. O último dia do mês, não raro, tinha 48 e não as canônicas 24 horas. Eram tantos pedidos e tão importantes decisões a serem tomadas sobre a distribuição das escassas quotas que pouco nos importava ter de trabalhar no sábado ou mesmo no domingo para dar conta da imensa tarefa.

Num daqueles frenéticos final de mês, num final de semana, o PCP estava em polvorosa com a necessidade de se processar uma pilha de pedidos, cerca de 1000, ou mais, todos já conferidos, classificados e prontos para serem digitados pela Solange, pela Maria Alice, pela Vanda e por bem uma dezena de outras batalhadoras daquela fantástica equipe.

Alguém pega a montanha de pedidos e a coloca em uma mesa que estava muito próxima de uma das janelas que dava para a Rua Augusta. Estávamos no 15º andar, fazia calor e não tínhamos o conforto do ar-condicionado tão comum nos dias de hoje. Um prestativo membro da equipe, distraído, abre a janela com o intuito de prover a todos nós uma aragem, por mínima que fosse, para amenizar-nos o sofrimento daquele dia de verão.

Não se passaram muitos minutos até que uma rajada de vento, entrando pela janela do lado oposto, cinematograficamente, atirou pela janela cerca de metade daqueles preciosos pedidos.

Incrédulos, assistíamos pela janela os nossos preciosos pedidos de vendas flutuarem como folhas outonais para todos os lados que nossas vistas aterrorizadas alcançavam. Dezenas foram parar sobre as marquises do Conjunto Nacional, outros tantos preferiram descer a Rua Augusta de tão prestigiado passado. Parte foi para a Avenida Paulista ainda em obras para implantação da via rebaixada que o prefeito Coluassuono, mais tarde, veio a interromper, e, parte decidiu aterrissar na contra esquina onde a obra do Banco Safra iniciava as suas fundações.

Corre-corre geral. Parecia até uma gincana de estudantes. Sobe e desce elevador sob espanto do velho Stijn que, com peculiar galhardia, controlava a todos que entrassem no prédio.

Parte daqueles preciosos pedidos foi heroicamente recuperada e, obviamente, processado no mesmo dia. O resto – conta a lenda - virou concreto nas vigas que apóiam o belo edifício do Safra, serviu de ninho para os pombos do Conjunto Nacional, foi soterrada com as obras da Paulista ou – acreditem se quiser – ao cair na rua que já foi considerada um dos pontos mais chiques da cidade, teria sido sugada pela grade do radiador do carro de Roberto Carlos que naquele instante entravam na Rua Augusta a 120 por hora como diz a famosa, bela e saudosa canção daqueles bons tempos...

Edson P. Pinto
(Na época do fato era Gerente do ISA Philbras)

3 de abr. de 2008

14) COMO TRATAMOS NOSSOS HERÓIS (abril'08)

(pintura de Eduardo J. Victorello - P-47 da FAB ataca alemães em retirada)

O Jornal O Estado de São Paulo do dia 02/04/08, terça-feira, trouxe no seu caderno Cidades/Metrópole, página 4, na Seção de Falecimentos, na dimensão de 9,5 x 5 cm. (portanto, um formato pequeno) o seguinte anúncio pago:
 (O anúncio aqui está ampliado apenas para permitir melhor leitura)

Eu não poderia deixar passar em brancas nuvens este tema sem que a ele dedicasse algumas considerações:

Gostaria, em primeiro lugar, de me abstrair do fato de que sou filho de um ex-combatente que esteve, também, na Segunda Guerra Mundial, servindo no 1° ELO - Esquadrilha de Ligação e Observação Brasileira. Meu pai, na época, o jovem Sgt. Roxael Pinto, mecânico da aviação, um herói já falecido, certamente teve muito em comum com o Tenente Aviador Fernando Corrêa Rocha. Nem um nem outro, está mais neste mundo para nos contar sobre a campanha militar que tanto orgulho dá a nós brasileiros, embora – infelizmente – as novas gerações pouco recebem de informações a respeito.

O meu comentário quer apenas focar no disparate – diria eu, até mesmo na insensatez, que vem se apoderando com estonteante velocidade da total ausência de moralidade no trato das coisas públicas no nosso país.

Nessa mesma edição do “Estadão” vimos como manchete, na primeira página, o seguinte: “Lula livra centrais de fiscalização”, repercutindo o veto que o presidente aplicou ao artigo da lei que obrigava as centrais sindicais, recém reconhecidas, a se submeterem à fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU). Isto – pasmem amigos - significa que as centrais sindicais poderão gastar a bolada dos R$100 milhões por ano sem terem a menor obrigação quanto a prestação de suas contas ao órgão que tem, constitucionalmente, a tarefa de zelar pelo correto emprego do dinheiro do povo. Ou, quem sabe, o trabalhador que tem um dia de seu salário confiscado pela contribuição sindical, deixou de ser povo?

No anúncio da morte daquele herói que pôs a própria vida em perigo para que o mundo se livrasse do absurdo do nazismo e que em conseqüência propiciou-nos um mundo melhor no pós-guerra, tem lá - quase que como pedindo desculpas pelo gasto de publicação do anúncio fúnebre - a identificação do Cel. Int. Renato Yoshio Mori que se identifica como o “Ordenador de Despesas”, este termo que veio à tona no bojo desse mais recente escândalo dos cartões corporativos. Neste caso, uma demonstração cabal de total lisura e moralidade. No caso do veto do presidente, só vimos indícios de desprezo para com os princípios da moralidade que deveriam ser a viga mestra do exercício do cargo público.

Oh tempore! oh mores! Tal qual o grande Cícero ao discursar no Senado romano há mais de 2000 anos, espantamos todos nós pelos tempos em que vivemos e pelos costumes que adotamos.

Onde está a moralidade pública? Onde ficaram nossos valores morais? Nosso civismo? Nossa vergonha na cara? Onde se encontram sepultados – se é que a isto se dignaram – os nossos valores éticos? Até quando teremos que passivamente aceitar a prepotência do comandante de plantão a nos impingir valores furados, moralidade frouxa e escassez total e plena de ética?

“Passei 30 anos lutando por autonomia sindical” argumentou o presidente para justificar a sua insensatez. E completa com o mais irresponsável e deslavado de todos os sofismas, não poupando nem o envolvimento do Poderoso e Onipotente em assunto tão mundano: “Deus queira que tanto empresários quanto trabalhadores fiscalizem seus sindicatos” Um belo pontapé na instituição legal do órgão de controle em favor da pseudo-autonomia sindical, sabe-se lá com que interesse. Talvez apoio para o 3º mandato?

É curiosa a lógica do nosso presidente, se é que podemos considerar que ele siga alguma. Ele aplica a coisas semelhantes, lógicas inversas, dependendo, é claro, do objetivo a ser alcançado. Assim, neste caso ele disse que passou 30 anos lutando pela autonomia sindical e que por isso não iria aprovar a fiscalização das centrais. Mas, lembremo-nos, ele, também, passou 30 anos lutando pelo calote na dívida externa, pela quebra de contratos que julgava lesivo ao país, pela política de irresponsável crescimento acelerado a qualquer custo e, no entanto, para isso, mudou sua posição e – felizmente para todos nós – deu prosseguimento aos princípios de boa gestão que governos antecedentes deixaram plantados.

"Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?".

Aí está, claramente, um problema que temos de desvendar. É algo como o famoso enigma da esfinge: Ou me decifras ou te devoro! Sinto, estarmos todos sendo devorados pela caricata esfinge que reina a partir do Planalto central e que se sustenta no temporário, porém fugaz prestígio que o atual status da economia brasileira está propiciando ao seu governo.

Queremos todos, um Brasil economicamente forte. Tanto faz quem esteja por trás dessa estabilidade. País forte é quase que uma obrigação dos nossos líderes. É meta permanente a ser perseguida porque o país é potencialmente rico e cabe aos dirigentes torná-la realidade.

Mas, queremos, como povo, como gente civilizada e com seres humanos dignos que nossos governantes além de cuidar da economia, dêem exemplos que dignifiquem o povo brasileiro. Mostras de decência e de pureza vestal no trato da coisa pública. Pois, se isto não acontecer ao longo do tempo, talvez até nossos heróis, como o Tenente Aviador, Corrêa Rocha, que lutou bravamente nos céus da Itália, não venham nem mais a merecer uma Nota de Falecimento, pequena que seja, como a que menciono acima.

A propósito, Édipo apresentou a solução para o enigma, dizendo tratar-se do homem que, engatinha quando bebê, anda sobre dois pés na idade adulta, e usa um bengala quando idoso. Inconformada com a resposta de Édipo, a esfinge teria cometido o suicídio atirando-se de um precipício...

Edson Pinto
SP 02/04/08

29 de mar. de 2008

13) DEMOCRACIA FAZ BEM... (março'08)

O verdadeiro espírito democrático implica em respeito profundo a valores fundamentais, como a cooperação entre as pessoas, a tolerância para com as diferenças e o compromisso para com os nossos objetivos comuns.

Se há algo que a nossa sociedade aprecia – mesmo que as pessoas não a expressem de forma aberta e consciente – é a liberdade que vimos gradativamente adquirindo para externar livre e responsavelmente nossas idéias, sejam elas boas ou não. Felizmente - com raras e pontuais recaídas - agora nos encontramos livres do julgo da mão maldita da censura.

Quem viveu criticamente sob um regime de poucas liberdades, sabe o quanto é importante termos uma imprensa livre, um governo transparente e um povo politizado e com liberdade para a plena de expressão de suas idéias. Desde que a mente coletiva não sofra um “apagão” histórico mental, tenho certeza de que não haverá razões para que alguém, de bom senso, venha a alimentar o desejo de uma volta ao passado duro dos regimes ditatoriais e de poucas liberdades como alguns que caracterizaram o Brasil do século XX.

“A intolerância é em si uma forma de violência e um obstáculo ao desenvolvimento do verdadeiro espírito democrático” Assim nos legou o grande Mahatma Gandhi.

Com este pano de fundo, me permito - livre e democraticamente - analisar e fazer minhas criticas à retrógrada visão de mundo com que o quase centenário Partido Comunista Brasileiro, PCB, na quinta-feira, 20/03/08, interrompendo a programação normal da TV, veio nos apresentar.

Democracia é isto mesmo: a mesma liberdade que têm para expor seus pontos de vista, aplica-se, também, a quem quer criticá-los, como o faço aqui e agora:

Não bastaram o fim da União Soviética, a queda do muro de Berlim, nem os patéticos e retumbantes fracassos das economias de Cuba e da Coréia do Norte para demonstrar aos militantes do PCB a inviabilidade do modelo socialista para o desenvolvimento dos povos e de suas Economias.

Será que alguém minimamente ligado às coisas do mundo ainda engoliria o discurso do Secretário Geral do PCB, Sr. Ivan Pinheiro, quando diz:

“A América Latina vive um momento histórico. Nossos povos já não aceitam as políticas neoliberais. O PCB dá sua solidariedade militante ao processo revolucionário e às lutas antiimperialistas na Venezuela, na Bolívia, no Equador e em outros países. Apoiamos os esforços do presidente Chaves no sentido de considerar as FARC como força beligerante e evitar uma guerra entre paises irmãos”.

Quanto atraso, quanto falta de sintonia com este mundo que já demonstrou, até mesmo na atual capitalista e próspera Rússia (remanescente da União Soviética), de que o crescimento das economias e a melhor distribuição de renda passam necessariamente pelo modelo capitalista?

Parecem, ou fingem, desconhecer que as economias que socializaram os seus meios de produção, e aboliram, entre outras, a propriedade privada e a livre iniciativa, como é o caso das nações comunistas do século XX, se estagnaram e não deram respostas adequadas às necessidades dos menos favorecidos.

E quanto ao seu ponto de vista concernente à ultrapassada idéia fixa de um imperialismo pernicioso na figura da nação mais avançada do mundo, os Estados Unidos?

“Repudiamos o governo fascista da Colômbia, lacaio dos Estados Unidos que querem invadir a Venezuela na tentativa de frear o processo de mudança na América Latina e forçar uma guerra regional para se apropriar do petróleo da Amazônia”.

Os comunistas mantém esse ranço histórico de que os poderosos querem usurpar os “pobres coitados” e que somente o embate entre trabalho e capital, explorados e exploradores, socialismo e capitalismo poderá resolver esse conflito eterno. Leram Marx, mas não leram Adam Smith...

E ainda acreditam, e sonham e deliram que a revolução cubana segue em frente com a consolidação do socialismo: “Prestamos nossa homenagem ao comandante Fidel Castro e à revolução cubana que segue firme na construção do socialismo”. O Fidel já está fora de cena e a própria Cuba, nesta semana, começa a fazer – ainda que timidamente – sua abertura para uma economia com matizes capitalista.

A utopia do PCB, se verdadeira, chega a parecer uma miragem de deserto: “O PCB se empenha para que a luta dos povos contra o imperialismo leve à superação do capitalismo, na conquista de uma sociedade sem explorados, nem exploradores, com uma sociedade socialista”.

O que me deixa feliz é que hoje podemos livremente receber mensagens como as que reproduzi neste meu pequeno ensaio critico e contestá-las como estou fazendo. Antes, sem liberdade de expressão, não haveria como entender o quão equivocadas e ultrapassadas tais idéias se nos apresentam.

Sem ter a pretensão de um infame trocadilho, ouso em dizer que, mais valia aos comunistas revisarem suas posições históricas para agregarem idéias social-democratas ao capitalismo do que insistirem em teses derrotadas.

A democracia não é perfeita. O capitalismo, também, não. Mas, como na há alternativas melhores, o que nos resta a fazer é contribuir para que sejam permanentemente aprimorados.

23 de mar. de 2008

12) CONSELHO AOS PEQUENOS EMPRESÁRIOS (março'08)

Se me perguntarem qual o maior risco que um pequeno empresário enfrenta na economia brasileira dos dias de hoje, eu respondo sem a menor hesitação:

O risco de conflitos trabalhistas.

Há riscos de diversas naturezas: risco de avaliação inadequada do mercado; risco de enfraquecimento temporário ou permanente das condições macro-econômicas do país; risco de maior agressividade da concorrência; risco de dificuldades com fontes regulares de fornecimento, quer de matérias-primas, quer de produtos para revenda. Poderia citar muitos outros riscos, mas vamos ficar nesses que se demonstram como os mais evidentes.

Os conflitos trabalhistas, estes, principalmente para os pequenos negócios e para as empresas novas de pequeno porte, vêm tomando uma proporção antes inimaginável e – infelizmente – de difícil solução, pois envolve gente, sentimentos, esperteza, tudo isto suportado por uma rede enorme de facilitadores de contendas onde o vil metal alimenta os maus empregados, os oportunistas e até mesmo os intermediários pleiteantes. Embora, não objeto da análise deste artigo, vale a pena alertar que tal problema já se torna comum até mesmo nas relações com o trabalhador doméstico.

Tomemos como ponto de partida a situação de um jovem empreendedor, cheio de planos para abrir seu próprio negócio e crescer com ele. Nada mais democraticamente capitalista do que essa possibilidade de que alguém gere riqueza para ele próprio e, por extensão, para outras pessoas e para a sociedade. Afinal, desde que Adam Smith produziu sua célebre investigação sobre a natureza e causa da riqueza das nações, é sabido que o sucesso econômico do país é a resultante do somatório dos sucessos individuais de seus agentes.

Adam Smith reforçou seu pensamento ao afirmar "não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover o seu próprio auto-interesse".

Pronto! Vencidas as agruras da concepção do plano de negócios, do desenvolvimento das fontes de fornecedores, da abertura formal da empresa, contas bancárias, fontes de financiamento e tudo o mais que se faz necessário para o negócio começar a existir, aí ele, o jovem empresário, se encontra diante da necessidade de arregimentar pessoas para auxiliá-lo na tarefa de levar a sua empresa avante.

A tendência é de que ele fique flexível para admitir as pessoas e assim começar logo a trabalhar. Não há tempo a perder, a concorrência está na espreita e o taxímetro dos compromissos fixos e impostos não para de girar e, cada vez mais velozmente.

Aqui começam os problemas: A legislação brasileira – como sabido – é extremamente rigorosa com as relações entre capital e trabalho. O jovem empreendedor, na maioria das vezes transmite aos seus empregados o seu entusiasmo para a superação das dificuldades inerentes ao novo negócio. Muitas vezes, ou por desconhecimento, ou por ilusão de que os seus empregados estejam - tal como ele - empenhados verdadeiramente no sucesso do empreendimento, ou mesmo por decisão de redução de custos, deixa de cumprir, na maioria das vezes em comum acordo, verbal ou mesmo formal, com o empregado, o rigor da lei no que diz respeito à:
1) Registro da Carteira de Trabalho como pré-requisito ao início do trabalho
2) Exigência de assinatura pelo empregado de um livro ou ficha de presença com horários para entrada, intervalos para descanso, refeições e saída.
3) Horas-extras devidamente anotadas e remuneradas.
4) Concessão dos horários de intervalos para descanso ou almoço conforme estabelece a CLT e/ou a Convenção do trabalho do respectivo sindicato.
5) Concessão do vale transporte, se for o caso.
6) Observação dos critérios para trabalho aos domingos e feriados no caso do comércio e de outras atividades profissionais.
7) Concessão das férias no tempo e pelo prazo legais.
8) Remunerações obrigatórias e/ou benefícios espontâneas fora a Folha de Pagamentos para que, tanto e empregador como o empregado, reduzam sua carga tributária, e outros.

A relação entre empregado e empregador pode ter sido uma maravilha durante o período em que tiverem vínculos trabalhistas formais, ou não. Se não, pior ainda...

A realidade é que, passado não muito tempo desde que o vínculo se desfaz – sou capaz de arriscar um palpite – que, nove em cada dez ex-empregados “tendem” a recorrer à Justiça para reclamar algo em que julgam terem sido prejudicados e - como ninguém é de ferro e vivemos num mundo regido pelo "l’argent”-: levantar uma graninha...

E isto é muito fácil. Há o Sindicato que oferece por “custo baixo” um advogado para entrar com a Ação. Advogados independentes que também por “custo baixo” podem ser contratados. Na maioria das vezes a remuneração desses profissionais é feita na base “ad exitum”, isto é, ganham uma parte pré-estabelecida do valor sentenciado.

Em praticamente 100%. Eu disse 100%, das ações, o rol de pleitos do reclamante é exatamente o mesmo, pois já está lá no computador do intermediário pleiteante e ele só troca os dados básicos. Como ao reclamado - no caso a empresa - fica o ônus da prova, é mamata. Basta reclamar tudo que no final das contas sempre sobra algum a ser recebido no Acordo ou na decisão final.

Criou-se a cultura da esperteza por parte de boa parte de empregados que ficam de empresa em empresa pelo tempo suficiente para gerar uma condição para a reclamatória.

O empregador – principalmente se for um neófito – logo começa a perceber que o seu objetivo é conflitante com o dos empregados que tão entusiasticamente arranjou. Toda aquela liberdade que deu ao seu empregado, os dias que ele faltou e nem compensou, as saídas urgentes para resolver problemas particulares e familiares, os presentes que deu, o dinheiro que adiantou de maneira informal, a confiança que lhes depositou não valeram para nada.

Agora, ele tem um inimigo, um crítico que acha que o patrão está ganhando muito e que ele “pobre coitado” só o ajudou a enriquecer sem ter sido magnanimamente bem recompensado. Mal sabe ele que, às vezes, o patrão encontra-se ainda comprometidos com dividas, tendo dependurado sobre sua cabeça a terrível espada de Dâmocles que representa o risco do negócio e suas conseqüências financeiras.

É de se lembrar que as estatísticas indicam que de dez pequenas novas empresas, sete, sucumbem antes de completar dois anos de vida. O risco é inerente ao espírito do empreendedor e disto o empregado não participa.

Infelizmente, isto nos remete à crítica ao comunismo que fracassou em escala global por que a utopia marxista de uma repartição equânime do lucro não encontrou correspondência em uma dedicação equânime de esforços.

Por mais liberais que queiramos ser até mesmo para que o ambiente de trabalho seja harmonioso e haja cooperação, fica aqui a orientação de quem - por experiência profissional - tem aprendido muito sobre o tema.

Quer montar seu próprio negócio e precisará de empregados?

Registrem-nos antes de mesmo de adentrarem ao seu ambiente de trabalho já no primeiro dia de vínculo empregatício, mesmo que sejam parentes ou amigos próximos.

Sigam, rigorosamente, todas as instruções de controles e obrigações que o seu escritório de contabilidade vier a lhe passar sobre o controle dos empregados. Se o escritório não passar essas instruções, mude de escritório, pois certamente os problemas futuros terão que ser pagos por você e não por ele.

E, finalmente – como se diz popularmente – tente fazer desse limão uma limonada. Passe a entender que se a lei for rigorosamente cumprida, pouco espaço sobrará para que os espertos tirem proveito de alguma de suas falhas. O mesmo rigor da lei que protege o empregado pode também proteger o empregador. Quando tudo está em ordem, fica mais fácil se defender, embora - lamento muito dizer - ainda não será suficiente para evitar uma ação trabalhista quando o ex-empregado pertence a esse grupo de espertos que vicejam na banda podre do mercado de trabalho.

Há, felizmente, no Direito uma figura pouco utilizada em nosso país. Trata-se da chamada Litigância de Má-fé que é caracterizada pelo uso abusivo do direito de se recorrer à Justiça. Para ter êxito é preciso, contudo, a existência de provas robustas. Habituem-se, portanto a guardar registros, pedir recibos, fazer declarações e manter o máximo possível de provas de que você agiu corretamente na relação de trabalho, senão, vai pagar, e não raro vai pagar em dobro, em triplo, em...

Tão aborrecido quanto o fato de se ter um ex-funcionário como um inimigo atual é a real possibilidade de que esses gastos não previstos possam, até mesmo, comprometer a continuidade do tão sonhado negócio-próprio.

Edson Pinto
23/03/08

19 de mar. de 2008

11) O TESOURO DE TIÃO (Um conto de amor) - (março'08)

Tião não era propriamente o que se chama de um matuto no sentido de quem fora criado dentro do mato, mas sim um homem simples, daquele tipo que vive da terra e por isso apresenta-se com um jeitão rústico, tosco. Mas – é importante que se diga - por detrás daquela cor acobreada pela faina diária do campo havia uma determinação quase que doentia por ganhar dinheiro...

Difícil entender aquele amor de Tião pelo vil metal. Ele nascera num ambiente típico de vida do campo. Plantava, como fizeram todas as gerações familiares que lhe antecedera, colhia o que era necessário para a sobrevivência e o que lhe excedia na horta e no roçado nunca se transformava em coisas supérfluas que pudessem passar para os seus parentes, amigos e mesmo aos poucos inimigos, a mínima idéia de que ele estava ficando próspero.

Tião era a expressão máxima da naturalidade, sugeria ingenuidade, desafetação. Puro, trabalhador, respeitoso com todas as donzelas do povoado, um bom filho, mas calado, monossilábico, cara de poucos amigos. A vida de Tião era só dele e de mais ninguém...

Já passava folgadamente dos trinta e nada de casamento, nada de mulheres em sua vida senão as cinco irmãs e D. Cidinha, a eterna mantenedora da capela local, que usava e abusava do seu voluntarismo para, semanalmente, abastecer o altar com flores que ele colhia nos campos da região.

Começou até a circular um boato de que, ou Tião não era chegado em mulher por uma “questão de nascença” como diziam por lá, ou, como especulavam os mais maliciosos, talvez ele mantivesse um relacionamento com D. Cidinha. Na verdade, isto era uma heresia, uma maledicência das mais perversas e insustentáveis, pois D. Cidinha com seus mais de 80 anos era a mais respeitada das senhoras de todas aquelas paragens.

Além da rotina diária de trabalho no roçado e na horta que ia das 4 da manhã, tão logo o galo começava a cantar, até o cair da noite, Tião só tinha duas outras atividades regulares na semana: Todos os sábados, à noite, ele ia ao vilarejo dos garimpeiros e no domingo, com o sol nascendo, ia ao campo colher as flores e de lá já se mandava diretamente para a capela de São Judas onde as colocava no altar, e, na sacristia - sempre sozinho – ritualmente abraçava na altura do pescoço a grande imagem daquele que é considerado o patrono das causas perdidas, São Judas Tadeu.

O povo mal começava a chegar para a missa das 7 e Tião já estava de volta para o seu Rancho. Afinal, a horta e o roçado mereciam, também, seus cuidados dominicais.

Somente duas de suas irmãs mais velhas e uns poucos amigos mais próximos ainda tinham vaga lembrança de que Tião, adolescente, fora preterido por Neuzinha, a mais encantadora moçoila daquele fim de mundo. Ela, mesmo namorando todos os endinheirados e bons partidos das redondezas, ainda encontrava-se solteirinha da silva...

Tião era tímido, orgulhoso, e apesar de doce d’alma, guardava um desafio em seu coração e um plano em sua cabeça.

Mais de duas décadas se passaram desde o dia em que ele, humilhado, cabisbaixo afastou-se de Neuzinha no pátio da escola em que ambos estudavam e onde - bem naquele dia – comemoravam os seus respectivos 15 anos. Com palavras entrecortadas de soluços, Tião apenas conseguira proferir um auto-desafio que só ele, e talvez a própria Neuzinha, tenham registrado.

Eram almas gêmeas, nasceram exatamente no mesmo dia, foram batizados na mesma missa e aprenderam a tabuada com a mesma professora naquela mesma escola, mas ela tinha planos e ele apenas sonhos...

Neuzinha, linda, romântica, mas racional, acabara de recusar o seu amor por não vislumbrar-lhe condições de levá-la para a cidade e realizar os seus sonhos de vida. Mas havia – quer queiram quer não – um segredo entre os dois. E, pelo o que os fatos tudo indicam ela não se comprometera de forma irremediável com outro homem, como se fosse para esperá-lo a cumprir a sua promessa.

Toda a vida de Tião fora pautada por aquele desafio que em seguida virara promessa a São Judas Tadeu e acabara em uma grande obsessão. Ele tinha que reconquistar Neuzinha, tal qual prometera naquele longínquo dia de aniversário comum.

No próximo domingo, Tião iria completar seus 40 anos. Neuzinha também. Vinte e cinco anos se passaram e estava na hora de resgatar o seu plano, pagar sua promessa e colocar sua vida em dia para seguir em frente.

Tomado de grande coragem, consegue marcar com Neuzinha um encontro antes da missa das 7, daquele domingo de aniversário comum, lá na capela de São Judas. Em lá se encontrando, dirigem-se até a sacristia e com a ajuda de uma ferramenta, Tião quebra a base da imagem do santo e de lá despencam, como da cornucópia mitológica, o ouro, os diamantes e outras pedras preciosas que ele, domingo após domingo, ao longo de 25 anos depositava pelo oco do pescoço do Santo.

Era tudo e muito mais do que ele mesmo imaginava para reconquistar a sua Neuzinha. Ele tinha, naquele dia fatídico, prometido a si mesmo e a ela que seria um homem rico...

Ela, ainda linda, jamais tinha levado a sério aquela promessa juvenil de Tião. Aquilo não fazia mais sentido, era, para ela, uma vaidade da sua adolescência que havia se perdido com o passar do tempo.

Para ele, que nunca mais havia falado com ela, aquilo era tudo. Era mais do que simplesmente um tesouro real, uma grande fortuna. Era a forma de demonstrar para Neuzinha que ele a amava de verdade. Que não haveria motivos suficientes para impedir que a vida lhes colocasse juntos mais cedo ou mais tarde.

Aquele era o momento... A força do querer tinha superado pacientemente todas as agruras da vida, todas as tempestades do caminho e, assim, tudo haveria de se realizar...

E tudo se realizou...

Edson Pinto
19/3/08

16 de mar. de 2008

10) BARRADOS EM BARAJAS (março'08)

Os jornais repercutiram durante as últimas semanas os tristes episódios dos brasileiros que são impedidos de entrar, ora na Espanha, ora nos Estados Unidos, ora nos demais países da Comunidade Européia e não sei lá mais onde...

Parece que ninguém gosta mais da gente. Seria isso mesmo ou não passa de mais um desses efeitos morais purificadores de conotação catártica que nos assolam vez por outra? Seria como - ou seria o contrário - do que Augusto Meyer em “A Chave e a Máscara” nos lega ao se referir a Hamlet, de Sha-kespeare? "Tragédia sem catarse que, ao lento cair do pano, só nos deixa, como objeto de meditação e fruto amargo, uma interminável fila de interrogações..."

E o pior: Justamente agora que a economia do país parecer ter inflado a sua grande vela e com isso passa a turbinar orgulhosamente a nossa auto-estima. Enchemos a nossa própria bola e aí vem uma “autoridadezinha” da Imigração de um país qualquer e nos diz ao estilo da Hebe Camargo: “Nan-nan-nin-nan-não”, agitando-nos o indicador como se fosse um limpador de pára-brisas. E, “pluft”, nos botam cabisbaixos no primeiro avião de volta ao patropi.

E dá-lhe falação...

O que observo, infelizmente, é que, poucos analistas têm considerado, até agora, em suas abordagens a este polêmico tema que essa problemática se manifesta tendo como pano de fundo o traço psicológico mais marcante do povo brasileiro que – ou o mundo não quer compreender ou nós não conseguimos, ainda, fazê-los nos entender e nos apreciar. Aos diabos com a modéstia...

Somos diferentes, sim, senhor! Fazer o que?

Sem que entendamos bem isto, é quase impossível tentar acomodar-nos ao mundo. Assim dito - humildemente - para não sugerir o contrário...

Nizan Guanaes escreveu sobre o seu orgulho de ser baiano, enaltecendo a alegria e a luz de seu povo, a beleza de seu céu sem igual. Até este simples escriba, aqui - vira e mexe - gasta tinta também para expressar o seu orgulho de ser mineiro.

Todos nós brasileiros, tal qual fazemos com a paixão pelo futebol que nem inventamos (isto se atribui aos ingleses), mas amamos e expressamos nossa paixão sem limites para com o clube de coração, fazemos também o mesmo para com o nosso rincão de origem, com o nosso Estado, com a Região de nossa procedência, com o Brasil, enfim.

É incrível, como somos diretos e não poupamos falta de modéstia quando falamos das nossas coisas. Bem ao estilo futebolístico, mesmo: O meu time pode estar na zona de rebaixamento, ou já rebaixado como um grande de fato está, mas, mesmo assim e, apaixonadamente, argumentamos que ele é e será para todo o sempre, o melhor. É assim também com o Brasil.

Quer país de estradas mais esburacadas do que o nosso? E que venha um gringo criticar nossas estradas. Ficamos tão ofendidos que até somos capazes de encontrar alguma vantagem, antes impensável e insustentável, para defendermos aquela cratera, como a que me custou dois pneus quase novos em recente viagem pela Fernão Dias.

Esse amor ao que é nosso é que nos confunde a todos quando nos confrontamos com o mundo. O brasileiro vai para Boston, Michigan, Montreal, Lisboa ou Madri, mas não consegue se libertar de sua origem, de sua essência. “Se eu me chamasse Raimundo seria apenas rima, não seria solução”, e não muda... É o Drummond que habita cada um de nós.

Regras para entrar no país dos outros? Que nada! Sempre conseguimos dar um tapinha nas costas, soltar um sorriso, batucarmos um sambinha em uma caixa de fósforos, tomarmos uma cerveja bem gelada e entabular uma conversa fiada para que tudo se resolva a nosso favor. Sempre funcionou no Brasil, por que não funcionaria na Imigração de Atlanta, de Heathrow em Londres, de Schipool em Amsterdã ou na de Barajas em Madri?

Está na hora de entendermos que temos sim de agir e parecermos “Raimundos”, esforçando-nos para - além do simples propósito de rima - ser também uma solução, pelo menos quando sairmos de casa.

Embora prevaleçam os temores do pós 11 de setembro que contagiaram o mundo tornando-o menos interessante, há por trás de toda essa neurose de controle sobre o livre fluxo de pessoas, razões de ordem econômica, o protecionismo ao mercado de trabalho, a negação dos benefícios do “welfare state” que, egoisticamente, se lhe reservam.

É curioso o fato de que centenas de milhares de brasileiros que já migraram têm a força extraordinária de se submeterem às vicissitudes inerentes aos alienígenas, sem saberem que, com muito menos força, poderiam agir dentro do nosso próprio país para – politicamente - contribuírem para a melhoria de nossas condições de vida. Não nos falta solo, não nos falta sol, nem água, nem rios nem florestas. O país tem tudo e muito mais. Só nos falta um pouco mais de racionalidade face ao muito de paixão que nos caracterizam.

Mas se um dia – qualquer que seja a sua razão – tenha trocado o Brasil por outro país e sendo confrontado por um Agente de Imigração sobre o fato de que - sendo o Brasil um país tão bom - o porquê de não fica lá, você possa responder, como Nizan respondeu pela mesma questão sobre a sua Bahia: Saí do Brasil porque lá não consigo me destacar, pois todos são brasileiros.

Edson Pinto
16/03/08


(domingo carrancudo com o São Paulo levando de 4 x 1 do Palmeiras)

24 de fev. de 2008

9) 1400 MEMÓRIAS-II (fevereiro'08)

Amigos Philipinos:

Agora são 18 horas deste domingo chuvoso, 24/2/08.

Já li o Estadão do dia e me inteirei tanto da nova safra de boas notícias da economia brasileira como de mais um capítulo do espetáculo infindo dos desmandos de nossos péssimos políticos, dos seus cartões corporativos e de seus conchavos em trocas de favores por nomeações. Mas, vi, também, a alegria dos kosovares pelo nascimento de sua nação...

Folheei, como de costume a Revista Veja, conferindo o Diogo Mainardi que - com a sagaz inteligência de sempre – tenta, inutilmente, fazer a aproximação de Lula com o pensador Isaiah Berlin para que este explique ao primeiro o conceito de “liberdade negativa”. Deixa pra lá...

Mas, ainda, deu para fechar as páginas da conceituada revista rejubilando-me com o povo cubano que já deve começar a ver uma luz ao fim do túnel com a tardia, mas ainda em tempo - saída de cena do velho Fidel.

Tudo - assim visto - mais à minha mente me trás a lição simples, porém profunda, que Cervantes nos legou através da fala de seu famoso Don Quixote ao seu, não menos famoso, ajudante de ordens:

“A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus; a ela não se podem igualar os tesouros que a terra encerra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e se deve arriscar a vida, e, ao contrário, o cativeiro, é o maior dos males que pode ocorrer aos homens”.
Almocei com a família e agora me instalo diante desta máquina poderosa que tem transformado o mundo, muito mais do que os mais otimistas poderiam conceber há não muitos anos: este computador que acessa a Internet e nos põe em contato com os amigos, com o mundo de uma forma assustadoramente rápida e rica.

E quem disse que o homem estaria condenado a perder a sua capacidade de se emocionar quando fizesse uso desta máquina dos demônios com todos os seus gigabytes da frieza tecnológica?

Não, isto não está acontecendo, pelo contrário: É essa tecnologia que nos propicia partilhar da emoção que a troca de mensagens recheadas de tanto saudosismo, carinho, amizade e grandeza entre os queridos Ilário e Araújo, antigos colegas da Philips, conforme pode ser visto na seqüência de e-mails abaixo.

Quem nas últimas 4 décadas, que tendo passado pela Philips, não há de se lembrar dos colegas Ilário e Araújo?

Há tantos outros personagens e tão boas recordações que um livro será pouco. O projeto do livro sugerido pelo Antônio Rego não será esquecido. Por todo o tempo em que nossas almas ainda estiverem respirando o pó dos escombros do 1400, ainda teremos como contar uma história bonita e que, como esta do Ilário e do Araújo, tanto nos emociona:

Uma boa semana a todos

Edson Pinto
(24/2/08)


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From: Araujo
To: ILÁRIO
Cc: Edson TERRA
Sent: Sunday, February 24, 2008 2:29 PM
Subject: RES: informação

Você só pode estar brincando, que não me lembro de Você... Eu nunca esqueci meu, mais que prezado, Amigo Ilário que, quando cheguei, no longínquo 1951, à nossa Philips na Rua dos Amores, como “Office-Boy”, lá estava ele “soberano”; um dos funcionários mais importantes (mais importante que Van der Zwaan, De Roode, Gielings, José Vieira Lima, etc) pois, através dele, vinha toda quinzena (em dinheiro vivo...lembra-se??) o “sagrado tutuzinho”, que para aquele menino de 13 anos era uma riqueza. Vou confessar uma coisa a Você Amigo Ilário: o exemplo que tive da tua postura como Gente e como Profissional, naquele período da minha vida, ajudou muito na formação do homem que me tornei. Viu aí, porque eu nunca poderia esquecer Você, Ilário.

Só vou corrigir uma coisinha na tua mensagem: “posso ter dado a impressão, más nunca fiquei, absolutamente, bravo por ir comprar tuas passagens para Botucatu, para Você ir encontrar a Namorada que, depois, veio a se tornar tua Esposa”.

Espero que Você esteja gozando de muito boa saúde e te mando um grande abração, Amigo Ilário. Se Você me mandar teu telefone, de vez em quando, vou dar uma ligadinha, para “trocarmos figurinhas”.

Viu aí, meu Amigo Edson Pinto, quanta coisa maravilhosa Você, literalmente (quase podia dizer “literariamente”), “detonou” com a linda mensagem da implosão do edifício da nossa Philips... Daqui a pouco vou escrever ao Amigo Rocha de Carvalho, de Portugal, de quem, também, tenho muito boas recordações. Li tanta coisa bonita, graças a Você, nestes últimos dias, que quase me atrevo a dizer que a demolição foi uma “benção”.

Um grande abraço a Você também, Amigo Edson.

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De: ILÁRIO
Enviada em: sábado, 23 de fevereiro de 2008 12:01
Para: Araujo
Assunto: informação

Prezado Araujo: Recebi um email e fiquei contente e satisfeito sabendo que você está bem e ainda trabalhando. Talvez não se lembre de mim mas sou o Ilário responsável pelos pagamentos dos horistas e mendalista e aquele que te perturbava para comprar passagerm para Botucatu e você ficava bravo mas ia. Um grande abraço e muitas felicidades

17 de fev. de 2008

8) 1400 MEMÓRIAS-I (fevereiro'08)

Com o tempo vamos mudando nossa maneira de ver e de interpretar os fatos que envolvem a nossa vida. Hoje, certamente devido às retinas cansadas e aos joelhos esfolados pela jornada, dou valor às coisas não pelo que valem, mas, mais pelo que me significam. Isto é, mais me valem as mensagens que emanam por detrás dos fatos do que a objetividade do real, do palpável.

Em março de 2001, por ordem do governo fundamentalista taliban, foram destruídas as gigantescas e milenares estátuas do Buda do vale Bamiyan a 240 km de Cabul no Afeganistão. Uma delas era a maior estátua de um Buda no mundo. Implodiram-nas como ao 1.400 da Av. Engº Luiz Carlos Berrini, porque queriam apagar a memória do passado que lhes parecia cruel.

Em 64 AD, o paranóico imperador Nero, depois de já ter determinado a morte de sua mãe Agripina e também a de sua esposa, incendiou Roma na esperança de reconstruí-la com ainda mais esplendor. De seus escombros surgiria uma Roma mais moderna, como certamente será o novo espigão na confluência da Geraldo Flauzino Gomes com a Av. que tem o nome do famoso engenheiro.

Thor, o deus nórdico de cabelos vermelhos e que representava as forças da natureza, fazia surgir de seu martelo mágico os raios que destruíam seus inimigos de forma impiedosa, como as dinamites que transformaram em pó o antigo Head-Quarters da grande multinacional das Ondas e Estrelas e que para lá se mandou quando seus líderes vislubraram um futuro ainda mais portentoso para a grande Organização.

Não será a última implosão de nossas vidas, nem a última minúscula partícula de pó a entrar nos nossos olhos, menos para arranhá-los, mas, mais para provocar-nos lágrimas de nostalgia. Como são tolas e inúteis nossas memórias românticas... Por que se nos formaram tão fortes sinapses daquilo que materialmente pouco faz sentido, mas que nos vale para a alma mais do que todo o ouro do universo?

É isto o que nos significam os sonhos que tivemos... Responde-me o coração, porém a lógica não me fala nada... Um sonho coletivo daqueles que marcam a vida de várias gerações, daqueles que se tornam uma obra grandiosa na vida de cada um, como as gigantescas estátuas do líder espiritual, como a cidade berço da civilização e cultura mundiais ou como o imaginário mitólogico de nossa ânsia ancestral para compreensão melhor do mundo em que vivemos.

Ao ser pulverizado aquele prédio - que nem nosso mais era – pulverizam-se também nossas gratas memórias. Aquela potência que jogava limpamente no tabuleiro das grandes partidas de um ambiente econômico tão rude, mas que soube galgar celeremente a liderança em quase todos os segmentos em que atuava. Quase 25 mil almas lá trabalhando ao mesmo tempo, 4 vezes mais almas dependentes que viviam na órbita e gerações seguidas que, se tudo somado, ocupariam plenamente a grandiosa Roma dos tempos de Nero.

Mas, nas voltas que a vida dá, tudo mudou. Claro que pode e deve ter sido para melhor, pelo menos para o melhor do momento. A grande organização como que vivendo na Liliput das famosas viagens de Gulliver ajustou seu tamanho para continuar viva no palco das grandes batalhas. Obrigou-se a ser pequena e leve em acordo com o oxigênio que as vigentes regras do mercado lhe disponibiliza.

E aqui ficamos nós, a velha guarda philipina, interpretando de forma nostálgica a mensagem que o pó deste prédio nos quer passar. Será o fim de uma era dourada? O despertar de um longo e doce sonho? Quem suportaria amargar por tanto tempo a mais doída de todas as dores que é esse infindo aperto d’alma? Vão-se, junto com toda a poeira revolta que emerge dos escombros do 1.400, também nossas doces lembranças?

Tenho certeza de que não...

Não por coincidência tinha eu, até então, listado 1.399 lembranças de nossa empresa querida, indo das boas e duradouras amizades que lá fizemos, do aprendizado, sem igual, que os grandes mestres philipinos no propiciaram, até ao prazer maior que nos enchia de orgulho por darmos empregos, gerarmos riquezas, fazer e distribuir produtos inovadores que divertiam, iluminavam e salvavam vidas.

Agora, com mais a lembrança desta foto que reproduzo abaixo, totalizam-se 1.400 razões para renovarmos o nosso orgulho philipino.


 Jornal A Folha de São Paulo – foto de Raimundo Pacco/Folha - Em quatro segundos, prédio na Luiz Carlos Berrini, nr 1.400, desaparece em São Paulo

Edson P. Pinto – SP 17/02/2008

17 de jul. de 2007

7) TAM JJ-3054: O VÔO DA MORTE (julho'07)

 Estamos todos chocados com mais esse acidente que ceifa vidas e enluta famílias por gerações. Acho que sofremos uma crise de liderança. Explico melhor a minha tese:

  • O progresso nos impõe mais tecnologia, mais velocidade e como conseqüência mais riscos...
  • O Poder Econômico, para tirar proveito dos avanços tecnológicos, busca de forma quase irresponsável a redução de custos, a ampliação ilimitada dos mercados e como conseqüência reduz as margens de segurança...
  • O Poder Público faz o jogo dos interesses, acomodando demandas contraditórias e com isso deixa de fiscalizar e agir como lhe são de competência.
  • O cidadão, atordoado pelo sistema que igualmente lhe impõe a mesma postura de rapidez, economia e atendimento às suas vaidades, se irrita e briga - às vezes até de forma histérica - quando há um atraso num vôo mesmo que a origem de tal atraso seja por medida de segurança...
Por que falei em crise de liderança?

Simplesmente porque cabe ao lideres o bom senso de diagnosticar a situação e conduzi-la da forma mais adequada que a moralidade determina. Neste caso, entre tantas outras considerações que a crise aérea brasileira vem nos apresentando, deveriam, no mínimo, observar, com rigor, algumas das seguintes premissas:
Mais vôos e mais aviões só quando tivermos mais aeroportos, pistas mais longas e tecnologia de ponta para se evitar acidentes. Se o aeroporto deixou de ser seguro como é o caso de Congonhas, pois fora engolido pela cidade, que o desative... Este assunto é muito antigo e até hoje o que se fez foi aquilo que todos nós sabemos: enfeitaram o terminal com luxuosas alas e shoppings, mas a pista continua do mesmo tamanho que tinha quando nos anos 40 lá pousavam os modorrentos Electras movidos à hélice e não pelas poderosas turbinas de hoje em dia.
Seria mais seguro e talvez menos custoso ligar com trens de alta velocidade tanto Viracopos como Cumbica. Não, o que fizeram foi tornar Congonhas o aeroporto de maior tráfego da América do Sul. Interesse financeiro de quem? Quem nunca teve medo dentro de um avião que se aproxima da pista de Congonhas passando raspando em tantos prédios e com uma pista de menos de 2.000 metros? A área de segurança pré e pós ponto de contato é de cerca de 90 metros. E o que são 90 metros para uma máquina de dezenas de toneladas como é o caso de um Airbus ou de outras aeronaves gigantes?
Do lado do consumidor, falta também um pouco de cuidado, mais humildade e menos arrogância. Não quero me colocar como exemplo, mas acho que racionalizei um pouco esse assunto: Tenho negócios em Belo Horizonte e nos últimos 12 meses já fui até lá umas 15 vezes. 8 de carro; 6 de ônibus e somente uma de avião, da qual me arrependi pelos incômodos que todos nós sabemos. De carro e de ônibus curto a paisagem e ainda me permito ao hábito da leitura, com isso mitigando um pouco a minha inata ignorância. Claro que para destinos mais distantes o avião ainda é insubstituível, porém se as pessoas que tem destinos próximos trocassem suas viagens por meios alternativos, os aeroportos ficariam menos lotados e menos inseguros.
Fica aqui a minha superficial análise sobre o tema.

Enquanto não tivermos bom senso e responsabilidade sobre esse assunto da crise aérea, de minha parte pelo menos, evitarei, ao máximo, viajar de avião. Fico, contudo e ainda, apreensivo quanto à possibilidade de que uma dessas poderosas máquinas de voar - pela incompetência de nossas lideranças - venha a cair sobre minha cabeça... Que Deus nos proteja!!!

Edson P. Pinto
SP 17/7/07